Ilustração de Pierre Lapalu
Ilustração de Pierre Lapalu

Inflação: quem pagou o pato?

Eric Gil

Não é novidade que a política econômica dos governos estejam jogando o peso da crise econômica nas costas dos mais pobres. Isto já ficou evidente com os cortes no seguro-desemprego, negociações com servidores públicos de reajustes salariais abaixo da inflação, cortes em programas sociais e em áreas essenciais como Educação e Saúde, no aumento do ICMS, nos aumentos das tarifas de transporte coletivo e um longo etc. Em contraposição, para o grande capital foram bilionárias desonerações de impostos quase que intocadas mesmo com a crise fiscal em andamento.

Mas gostaria de enfocar em um fenômeno que expressa, em certa medida, este envio de contas para as classes mais pobres, o aumento da inflação.

São diversos índices de inflação existentes no país que tentam mensurar o aumento de preços no território nacional ou em regiões específicas. O principal índice do país é calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Mas diversos outros institutos e organizações também fazem cálculos e têm seus próprios índices, como os índices da Fundação Getulio Vargas, Dieese, Fecomercio-SP, etc.

Mas como isto pode nos mostrar que os pobres pagaram mais pela crise do que os ricos? Estes índices calculam a inflação de diferentes formas, inclusive para diferentes níveis de renda. Este também é o caso do Ipca e do INPC, ambos do Ibge. O IPCA calcula a inflação para famílias com rendimentos que vão de um a 40 salários mínimos, enquanto que o INPC de famílias de um a cinco salários mínimos. O INPC (que mensura a inflação dos mais pobres) de 2015 fechou em 11,28%, enquanto que o IPCA fechou em 10,67%, 0,61 pontos percentuais de diferença.

Comparação entre os índices de inflação do IBGE (IPCA e INPC)

Índice IPCA INPC
Abrangência Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, São Paulo, Goiânia, Rio de Janeiro, Recife, Campo Grande, Belém, Salvador, Brasília, Vitória, Belo Horizonte Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, São Paulo, Goiânia, Rio de Janeiro, Recife, Campo Grande, Belém, Salvador, Brasília, Vitória, Belo Horizonte
Faixa de renda Famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos Famílias com renda de 1 a 5 salários mínimos
Taxa de inflação em 2015 10,67% 11,28%

Isto se deu por conta dos aumentos em produtos e serviços essenciais para a população mais pobre, principalmente em preços como alimentação, energia elétrica e transportes coletivos. Nestes três casos, a responsabilidade direta foi dos governos (federal, estaduais e municipais), pois os dois últimos são preços administrados (que são geridos pelos governos) e o primeiro subiu, em grande parte, por conta do aumento do ICMS (em Curitiba, por exemplo, o aumento foi de 50% do imposto, fazendo juntamente ao aumento da energia elétrica ser a capital com a maior inflação de 2015) com que, o principal imposto estadual que afeta diretamente os preços dos supermercados. Só a energia elétrica, nas regiões pesquisas pelo IBGE, subiu 51% neste ano de 2015. Devemos frisar que apesar da decisão do preço ser dos órgãos públicos, o aumento dessas tarifas beneficiam empresários privados, excetuando o ICMS, tendo em vista que praticamente a totalidade de empresas do setor de distribuição de energia elétrica e de transportes coletivos são privadas.

Um índice que demonstra ainda mais a diferença da inflação no bolso dos mais pobres é feito pela Fecomercio-SP, chamado Custo de Vida por Classe Social (CVSC). Utilizando os dados pesquisados pelo próprio IBGE para a cidade de São Paulo, a Fecomercio-SP recalcula mudando o peso que cada tipo de gasto tem por classe social, que vai da Classe A até a Classe E. Por exemplo, o gasto de Alimentação e Bebidas passa a pesar mais para a Classe E do que para a A, pois grande parte do salário das pessoas com menor renda vai para isto, enquanto que não podemos falar o mesmo para a Classe A, que divide sua renda para gastos mais supérfluos. Vejamos as diferenças para a última pesquisa publicada, a de novembro de 2015:

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Fonte: Fecomercio-SP

Vejam que quanto mais baixa é a classe, maior foi a taxa de inflação calculada. Apesar dos dados serem apenas para a cidade de São Paulo, esta seria a tendência para qualquer outra cidade. Ou seja, o aumento do salário mínimo só teve algum efeito real (aumento acima da inflação) para a chamada Classe B, mas nenhuma pessoa que ganha um salário mínimo estaria nesta classe, certo?

Em 2015, o pior ano da crise econômica atualmente vigente no Brasil, quem pagou o pato foram os mais pobres, não o coitadinho do Paulo Skaf e os industriais paulistas, que diga-se de passagem estão sendo tratados muito bem, obrigado, pelo Governo Federal que ainda mantêm as já referidas bilionárias isenções de impostos para a indústria.

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