Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Internet: um campo inexplorado de possibilidades

 Ian Caetano

Na dimensão objetiva das lutas sociais a questão tática tem, ainda que os movimentos e atores em geral muitas vezes não se deem conta disso, uma dupla função: por um lado ela deve ser o veículo que comporte – com base na premissa estratégica – os melhores meios aos resultados almejados; doutro lado, todavia, há também o fato de que a tática deve ser sensível igualmente ao embate eventual (e nos dias de hoje cada vez mais certo) com os aparatos da repressão.

É óbvio que, do ponto de vista estritamente lógico, o segundo ponto apresentado está embutido já no primeiro, uma vez que é imprescindível a uma tática afinada estrategicamente que contemple os eventuais e calculados percalços que esta mesma pode ter no processo de sua efetivação; mas é argumentativamente elegante explicitar esta especificidade, muitas vezes entregue ao léu dos discursos mais abstratos.

Na Comuna de Paris, a título de exemplo, alguns problemas adaptativos da tática, apontam alguns historiadores, tiveram profundo impacto em certas derrotas ali sofridas. Depois da revolução, a francesa, Paris passou pela maior reforma urbana já sofrida (em termos de mudanças em espaço/tempo) em algum espaço citadino na modernidade, a reforma levada a cabo por Georges-Eugène Haussmann. O caráter desta reforma, que teve uma conotação fortemente pluriclassista em suas readequações estruturais dos espaços públicos e de alguns bairros (vide as praças e “passeios” públicos), reajustou, dentre diversas outras coisas, a largura e as “formas” das ruas e ruelas de Paris.

Isso necessitava implicar, coisa que não ocorreu (ou, ao menos, não plenamente), uma adaptação, ou, em último caso, a substituição desta por outra tática, da fabricação das barricadas, típica da revolução francesa. O problema é que a Paris da revolução francesa não era a Paris da Comuna. Na sua circular, a “comissão das barricadas”[1] formada durante a comuna até afirma: “Ainda que improvável o sucesso de uma investida sobre nossos taludes, é necessário que evitemos qualquer surpresa e tomemos todas as precauções necessárias antecipadamente”. O problema é que não era improvável que um aparelho repressivo significativamente evoluído e com novos acúmulos de experiência em repressão e controle de massa desse conta de barricadas. A evolução da repressão e a readequação urbana cumpriram seu papel.

A rua, historicamente, parece ser ainda a preferida nas manifestações do tempo presente, conquanto existam também as ocupações de praças (como nos protestos occupy), intervenções estéticas na cidade, as greves trabalhistas etc. Para além, evidentemente, das ocupações de propriedade e de prédios públicos.

Entre os movimentos sociais mais tipicamente associados à juventude algumas práticas surgem e, também, repaginam-se de outras mais antigas. Nos movimentos identitários, por exemplo, a velha prática do “escracho” toma novos significados e funciona por outros meios (agora tendo na internet um grande veículo). Assim como vertentes mais lúdicas desta, como os “vomitaços”. Ainda que, ao menos do ponto de vista aparente, os movimentos identitários pareçam – na seara dos movimentos que se reivindicam “esquerda” – ter assimilado melhor a internet, seu uso parece – do ponto de vista da localidade – muito ancorado a redes sociais (que, vale lembrar, são propriedade de empresas privadas, a quem os dados constituem um importante valor à geração de lucro) e páginas de nicho e – do ponto de vista da utilidade – restritos a um papel de divulgação e ações reativas (no caso de escrachos, etc.).

Ocupações, barricadas, protestos de rua, greves. É claro, todo este repertório passou por significativas mudanças ao longo do tempo, algumas destas mudanças configuraram-se respostas satisfatórias às investidas da repressão e aos interesses objetivos dos movimentos, outras sucumbiram.

Todavia, há um meio, típico de nosso tempo, – que, como espero convencer com este texto – não é ainda suficientemente explorado pelos setores mobilizados da esquerda, em especial aqueles setores que dizem-se compromissados com a revolução social.

Pensei em proceder a uma genealogia da internet, mas isso só serviria para jactanciar-me de suposta erudição. É razoável dizer, então, que por diversos motivos a internet é um meio massivamente utilizando em nossa sociedade. Serve-nos para comunicação nas diversas esferas da vida (trabalho, família, amizades). Por meio dela fazemos circular valor no sentido mais estrito do termo (compra e venda de mercadorias); também no sentido mais geral (por meio dela estamos conectados ao trabalho, conexão imprescindível aos nossos atuais modelos e regimes de produção, e tendencialmente crescente; e também toda a produção vinculada direta ou indiretamente à otimização e reprodução da aparelhagem necessária e das tecnologias da própria rede e da informática; descontado ainda todo o capital informacional criado e circulado tanto direta quanto indiretamente por nós, na forma de dados que cedemos a este sistema e que são produtivamente aproveitados).

Vis-à-vis REPRESSÃO

A cada acesso que fazemos hoje na surface web deixamos diversas informações sobre nós. De pronto nossos dados localizadores (IP, pelo qual é possível saber de onde acessamos; MAC-Adress, pelo qual é possível saber a partir de qual dispositivo conteúdos foram acessados e, também, provedor de acesso). Isso a nível mais imediato. E, salvo bom conhecimento em informática, são traços dificilmente ocultáveis. Além destes dados, cada busca realizada em servidores de busca como google ficam registrados, possibilitando o delineamento de um perfil acerca do tipo de conteúdo e temas pelos quais nos interessamos.

Há também os dados que, de maneira mais patente, entregamos na Internet. São estes os textos, as fotos, os vídeos, os comentários, as opiniões, as “curtidas”, etc. Tudo que voluntariamente subimos na rede em portais como o Facebook (este sendo, de longe, o mais emblemático), mas também em locais como blogs, redes sociais menores, etc.

Todos estes dados possuem valor-de-troca. Empresas especializadas em coletá-los (google, facebook, dentre outras) utilizam-nos mercantilmente, um exemplo típico são as propagandas direcionadas que recebemos em nossos navegadores, oferecidas seletivamente a partir das preferências que manifestamos online. Opera-se uma triangulação a partir de todos estes dados (localização, idade, gostos, etc.) para cirurgicamente ser-te enviado o conteúdo com maior probabilidade de consumo, a propaganda com maior apelo.

Nesse sentido, é preciso mais e mais que tenhamos na esquerda um interesse maior pelo entendimento dos mecanismos de funcionamento destas capturas de dados e, igualmente, devemos também mais e mais buscar alternativas de interação na rede a estes softwares e páginas com código fechado. Não só para nos defendermos, uma vez que estes dados todos podem também servir à repressão, mas também para compreendermos as novas dimensões pelas quais se gera valor na sociedade contemporânea.

É evidente que as empresas têm atenção a isso e vão se “adaptando” às resistências passivas, o Facebook mesmo criou uma versão sua para funcionar na DeepWeb[2]. Espaço que, em tese, é buscado por usuários que buscam navegar de maneira anônima.

Há considerável resistência por parte da esquerda – em sentido amplo – à busca de traquejo nestes meandros, e em grande parte isso explica diversos erros crassos por nós cometidos em termos de segurança, comprometendo-nos individualmente e também o movimento no qual estamos inseridos. Não temos nota ainda, no brasil, de uma investida muito impactante dos setores de segurança sobre ativistas nestes meandros, mas certamente não é por falta de possibilidade, ou, ao menos, não será mais. Em 2013, segundo o portal da transparência, o gasto assinalado como “investimento” em “equipamentos e material permanente” na ABIN foi de R$ 4.072.929,31; já em 2014 o investimento no mesmo elemento de despesa “equipamentos e material permanente” subiu para R$ 9.525.805,31, um acréscimo de mais de 100%. Sendo que o total destinado pelo Governo Federal em âmbito nacional, no mesmo período, para aplicações diretas teve um aumento de apenas pouco mais de 20%.

Não é difícil de imaginar, vistas as épocas, as razões de tais investimentos.

É importante frisar também que, embora não tenhamos “nota” de nenhuma investida mais contumaz, isso em nada garante o seu não acontecimento. A repressão não precisa se fazer notar necessariamente para ser eficiente e, em certos casos, às escuras e operando cirurgicamente ela é bem mais otimizada.

Torna-se cada vez mais necessário à esquerda colocar na ordem do dia capacitação de seus quadros em conhecimento tecnológico, para que possamos compreender melhor o que estamos colocando direta e indiretamente nas mãos da repressão quando fazemos desde as coisas mais corriqueiras do dia-a-dia online (upload de uma foto), até as atividades militantes mais diretas.

Vis-à-vis AÇÃO

Como falava ao princípio do texto, nosso repertório de atuação, ainda que substantivamente ressignificado e repaginado, ainda é oriundo de práticas do passado. Greves, marchas de rua, palavras-de-ordem, são repertórios que já existem no mundo há bastante tempo. Maquiavel já falava de revoltas e “tumultos” em seus Discorsi como algo muito importante às mudanças sociais positivas ocorridas em Roma.

Não vejo tais práticas como esgotadas, todavia acho que, no fetichismo da esquerda pelas “homéricas lutas do passado”, associado a uma reiteração mecânica, esquecemo-nos de atentar às outras possibilidades. A Internet, típica do nosso tempo, ainda permanece no imaginário dos movimentos como, no máximo, meio de propaganda e comunicação (e no caso desta última, na maior parcela das vezes realizada de maneira desastrosa).

Do outro lado, existem alguns coletivos que atuam online e veem repertório na derrubada de páginas governamentais ou de empresas, no vazamento de informações e até em ações de maior potencial obstrutor da circulação/geração de valor online (arruinamento de códigos inteiros de softwares e páginas, etc). Todavia, tais ações ainda dialogam pouco com a população em geral, que muitas vezes mais teme que compreende tais práticas e atores. Outro problema é que, mesmo articulados em coletivos – em certos casos – tais ataques têm caráter profundamente particularizado, o que os faz perder, de certa forma, potencial mobilizador, além de, por vezes, serem levados a público em linguagem que não dialoga com as pessoas em geral, sem explicação muito clara e objetiva sobre seus intentos e razões.

Não se trata, aqui, de dizer como devem ou não agir tais coletivos, mas apenas de entender como suas práticas, aos movimentos sociais em sentido mais amplo, podem ser apropriadas e, caso sejam, como deve ser também reelaboradas.

Há ainda um problema, que é o de que a Internet, ainda que tenha um caráter público mais ou menos analogizável com o da “rua”, ainda ser, no campo das lutas sociais, um ambiente muito mais difícil. Por diversas razões, dentre as quais a de ser este um ambiente muito mais controlável. Acho que o primeiro ponto para pensar a questão é abolir essa fabricada dicotomia rua versus web. Temos um purismo quanto a protestos. Uma das razões, penso eu, que inclusive desmobiliza muitos a engajar-se no fundamental trabalho-de-base. É muito mais “emocionante” estar no “embate direto”; e pior, é muito mais “atestador” da sua “qualidade de militante” estar ali de peito aberto a cassetetes e balas-de-borracha, do que estar laborando em um manual ou mini-curso, do que estar tentando compreender as mudanças do capitalismo, etc.

E, por analogia, é muito depreciativo ser o que nos países anglófonos nomearam typing left e, aqui, nomeamos “esquerda do sofá”. São conceitos ligeiramente diferentes (o primeiro tem uma conotação mais intelectualista), mas que são, em geral, atribuídos a militantes da “internet”. O problema, a meu juízo, é precisamente o de que colocamos no mesmo balaio, ainda que sem percebê-lo, tanto os esquerdinhas que ficam apenas a matraquear no Facebook, quanto outras possibilidades de ação que podem, se corretamente instrumentalizadas, ser bem produtivas.

Assim como existem maus usos da “rua”, do ponto de vista de ganhos aos movimentos, há possibilidade de potentes usos da internet com vistas a este mesmo fim. Pela internet podemos, assim como travamos o fluxo do trânsito em uma obstrução de via, travar o fluxo de dados (vitais à circulação de valor).

Hoje quaisquer empresas assentam boa parte de suas atividades na Internet. E-mails circulam intensamente, com prestações de conta, ordens, contratações e demissões, etc. Diversos dados ficam armazenados em servidores com conexão à Internet. Diversas funções de produção e circulação de valor – em diversas esferas – hoje necessitam vitalmente da Internet. Diversas máquinas operam por sinais eletrônicos em algum momento em contato com a rede… deixo à imaginação dos leitores as possibilidades. Infinitas.

***

Em um mundo onde as ruas são sistematicamente mais vigiadas e nossa vida cada vez mais devassada, é-nos importante entender as tecnologias pelas quais tais fatos se realizam. A internet é uma delas, e está vinculada a diversas outras. É-nos importante, igualmente, saber como positivamente instrumentalizar este que é um meio típico do nosso tempo. As ruas são um lugar histórico, de onde não devemos sair, mas também temos de aproveitar as novas oportunidades que a história nos apresenta. O processo de qualificação, debate e adaptação será profundamente difícil, mas creio que a dificuldade é, assim como a luta de classes, a voga da história. A criminalização também, por certo, será intensa. É um espaço em que as ações podem muito mais facilmente ser individualmente identificadas, o que acresce o potencial repressor; precisamente por isso faz-se importante que pensemos estratégias para conseguir dar às ações online um caráter mais coletivo e, ato contínuo, devemos disputar o significado coletivo das lutas ali travadas. Se a exitosa luta, frequentemente, é aquela que busca sua poesia no futuro, devemos buscar nossa poesia lá também.

Notas

[1] Henri Rochefort et al. The Barricades Commission. 1871. Disponível em: http://bit.ly/1THoNFJ

[2] Facebook vai atrás de usuários da deep web. Olhar Digital, 31 out. 2014. Disponível em: http://bit.ly/1sNnifH