Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Jenotdel: a seção de mulheres do Partido Comunista soviético

Thaiz Senna

A necessidade de organizar as mulheres de forma à parte nunca se deu como óbvia no movimento socialista russo. Em 1907, no ainda Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), quando a revolucionária Alexandra Kollontai sugeriu que houvesse uma reunião “para mulheres apenas”, prontamente alguém anunciou outra reunião, “para homens apenas”[1]. Tal ironia nos revela a polêmica que a reivindicação de uma questão feminina representava à época – seja por motivos metodológicos, como acreditar que separar significava dividir e enfraquecer a luta socialista; seja por motivos sexistas, como um movimento de autodefesa dos militantes homens, diante de uma demarcação feminina a qual eles não estavam acostumados.

No entanto, a imprescindibilidade da emancipação feminina e da igualdade entre homens e mulheres colocava-se não apenas na sociedade civil, mas também, constituía-se como uma tarefa necessária à construção do socialismo, como coloca, em abril de 1917, o líder bolchevique Vladimir Lenin: “Enquanto as mulheres não forem chamadas a participar livremente da vida pública em geral, cumprindo também as obrigações de um serviço cívico permanente e universal, não pode haver socialismo, nem sequer democracia integral e durável”[2]. Dado o ambiente historicamente machista em que estavam inseridos, porém, as militantes que defendiam uma organização intrapartidária própria das mulheres acreditavam que esse cenário só ia ser conquistado se os próprios sujeitos oprimidos fossem também a vanguarda do processo de emancipação.

Após muita insistência por parte dessas militantes[3], e após muitos debates de se haveria ou não uma seção à parte, de como ela funcionaria e de qual seria seu caráter, foi criado em 1919 o Jenotdel, o Departamento de Mulheres Trabalhadoras e Mulheres Camponesas do então Partido Comunista de Toda a Rússia.

O Jenotdel significou não apenas a compreensão do Partido de que deveriam ser adotados métodos especiais de trabalhos entre as mulheres, mas também, representou um momento em que foi possível à direção partidária conceder uma determinada liberdade às mulheres, para que elas decidissem sobre suas próprias questões e funcionassem como uma força pressionadora em prol da liberdade feminina no partido e na sociedade. Desde as organizadoras e dirigentes da seção, militantes do partido comunista, até camponesas e operárias que estavam tendo contato com a política pela primeira vez em suas vidas, todas tinham direito a votar e escolher as mulheres que representariam suas opiniões, bem como ocuparem elas próprias esses cargos.

As representantes, que variaram entre 1.147, no Primeiro Congresso Nacional das Mulheres Trabalhadoras e Camponesas, até 620 mil representantes no último[4], participavam como observadoras-aprendizes em fábricas, sindicatos, sovietes, escolas, hospitais e demais espaços públicos, para depois informar às suas colegas suas experiências como seres políticos, críticos e propagandistas das causas femininas[5]. As delegadas também defendiam as posições aprovadas durante os congressos e reuniões nos debates na sociedade, nos quais outros representantes políticos e demais cidadãos participavam. Muitas vezes, essas posições confrontavam-se integralmente com as posições majoritárias dentro do Partido. Elas buscavam, por um lado, emancipar a mulher e igualar os direitos de ambos os gêneros. Por outro lado, porém, não deixavam por isso de desconsiderar as experiências e vivências reais dos indivíduos de seu gênero. Por isso, muitas dessas opiniões sequer representavam o que havia de mais progressista no movimento feminista libertário mundial, mas espelhavam as experiências vivenciadas por aquelas mulheres trabalhadoras, pobres, inseridas em um universo ainda opressor e machista. Exemplo disso é a discussão em torno da pensão alimentícia. Havia defensores, como a delegada ucraniana Roslavets, durante o esboço para o primeiro Código do Casamento, Família e Tutela[6], de que pagar pensão era “nada mais do que pagamento por amor”[7], devendo essa não existir no novo governo. Por mais progressista que fosse tal opinião, na prática ela teria como consequência mulheres miseráveis cuidando sozinhas de seus filhos, ao invés de seres emancipados e livres. Diante de condições ainda muito opressivas às mulheres, o desprendimento total dos casais acabava por colaborar com as condições de pobreza e desespero das mulheres. Como colocou uma delegada, enviada pelo Jenotdel: “A pensão alimentícia é necessária enquanto o Estado não puder tomar todas as crianças sob a sua proteção”[8].

Esse resultado multifacetado, que reunia o que havia de mais avançado na sociedade, mas respeitava as condições materiais em que as mulheres da classe trabalhadora estavam inseridas, apenas foi possível porque eram essas mesmas mulheres que formulavam e colocavam em pauta suas próprias questões e percepções – para além de políticas impostas por entusiastas do feminismo e da liberdade sexual, que poderiam desconsiderar as condições individuais, retrocedendo mais do que avançando na emancipação das mulheres; e para além de políticas impostas por homens atrasados, que apenas queriam preservar seu próprio lugar de poder, criado e recriado durante séculos. Ao mesmo tempo, nesse processo era possibilitada a experiência política e prática a mulheres que muitas vezes não tinham voz ou poder de decisão sequer dentro da própria casa, que nunca haviam falado em público e que conseguiam, então, ampliar seu campo de visão rumo a percepções mais progressistas do que as que tiveram contato durante toda a sua vida.

Agit-prop feminista

O debate e as deliberações políticas, tal como as conferências regionais e nacionais, porém, eram apenas uma das funções do Jenotdel. Nele também estavam contempladas as funções de instrução, agitação e propaganda política[9]. Elas se davam por meio de diversos formatos: publicação de páginas, panfletos e periódicos (como o Kommunistka), organização de passeatas, estabelecimento de creches e orfanatos para crianças desabrigadas, criação de comitês de doentes e feridos do Exército Vermelho e também de clubes de costura e clubes de mulheres[10]. Havia diversos mecanismos os quais o Jenotdel produzia ou participava que convergiam várias das funções, como as Tendas Vermelhas, focadas em instruir mulheres dos seus novos direitos e papeis sociais, além de orientá-las em relação à higiene, ensiná-las artesanato e até mesmo alfabetizá-las; os Barcos Vermelhos, que serviam de espaço para cursos e eventos políticos do Partido; e Espaços Vermelhos, que eram geralmente um espaço público em uma fábrica ou aldeia, que servia para prover facilidade recreativas e educativas para as mulheres[11].

Os objetivos, porém, continuavam os mesmos: aprofundar a consciência política das mulheres e legitimá-las como ser político que pudesse cooperar para a construção do Estado operário socialista, instruindo-a de seus novos papeis sociais. Como observamos em algumas das tarefas, apesar da luta pela inserção da mulher em lugares ainda não ocupados, é possível entender que o Jenotdel não objetivava a mudança radical de papel das mulheres, principalmente em relações às tarefas historicamente dadas a elas. É o que vemos por exemplo nas atividades de alfabetização, cuidado dos doentes e da higiene, aulas de costura e criação de creches e orfanatos. Com essas atividades coordenadas pela Seção de Mulheres podemos interpretar que cuidar dos filhos, dos doentes, da saúde e da educação eram tarefas próprias das mulheres e não de toda a sociedade. No entanto, com um olhar mais aprofundado, podemos compreender como dialéticas as táticas que as militantes do Jenotdel praticavam, ao partir de relações próximas à realidade das mulheres da época (a grande maioria sem nenhum contato anterior com a política ou a ideia de emancipação) para chegar a elementos menos comuns a elas, mas também, mais transformadores de suas realidades. É o que vemos, por exemplo, em um dos trabalhos realizados fora da Rússia, no Azerbaijão. Lá, uma das primeiras medidas foi a criação de uma tenda que explicava princípios de higiene, artesanato e educação. Essa primeira medida, que dialogava com conteúdos pelos quais aquelas mulheres se interessavam (conteúdos esses que, de fato, faziam parte do universo feminino socialmente construído), aproximou muitas delas e, com a continuidade desse trabalho, teve-se como consequência o sucesso de uma manifestação pública, que reuniu milhares de mulheres árabes, que gritavam “abaixo a Paranja!”, relacionando o tradicional véu árabe à opressão, retirando-o e queimando-o. Esse ato de mulheres politicamente oprimidas e anuladas, no ambiente social ou familiar, foi bastante transgressor e levou as mulheres a reivindicarem espaços impensáveis anteriormente, tal como confrontar a ordem em que se encontravam, levando-as a refletirem sobre elementos que não faziam parte do horizonte daquelas mulheres. Tudo isso somente foi possível, porém, por causa da primeira aproximação, por via dos elementos já conhecidos, e designados como parte de tarefas femininas pela sociedade.

O caso narrado, contudo, não teve um final feliz: após a manifestação, centenas das manifestantes que participaram do coro foram dizimadas por seus parentes, que não as aceitavam como participantes do movimento político, tampouco aceitavam as transgressões requeridas.

A extinção do Jenodtel pelo stalinismo

Também foi por meio da intervenção masculina que o Jenotdel foi deslegitimado e, posteriormente, desmantelado: em uma decisão provinda de cima para baixo, em 1930, Stálin, Plekhanov e a direção partidária à época (formada praticamente toda por homens) decretaram o fim da seção, com a justificativa de que “a questão histórica feminina havia sido resolvida”[12], dessa forma, não era mais necessário haver uma seção específica para tratar dela. Contraditoriamente, após tal ato, foi criado o Jensktorii, uma espécie de setor das mulheres, que usava somente da agitação e propaganda, sem abertura para os métodos democráticos e cujas decisões eram tomadas via seções do Comitê Central. Depois, até mesmo esse diretório foi extinto. Porém, como se sabe, não é verdade que a questão da mulher havia sido resolvida: mulheres ainda sofriam diversos tipos de discriminação, tanto econômica e social, quanto familiar, ainda ocupavam majoritariamente cargos menores, recebiam salários menores, eram prejudicadas pela falta de estruturas que realizavam o trabalho doméstico (e mesmo das que existiam, eram elas e não os homens que precisavam exercer). Não é verdade, também, que o Partido percebeu que devia marginalizar a questão feminina, focando em outras questões: as massivas propagandas, que colocavam as mulheres no lugar de “mães da nação”, responsáveis pelo futuro da economia e da política da União Soviética, etc., demonstram que o que ocorreu foi o contrário: em um contexto de profunda burocratização e autoritarismo, como foi o stalinista, a questão feminina tornou-se importante demais para que fosse permitido o controle dessa questão pelas próprias mulheres.

Dessa forma, ainda que algumas conquistas tenham permanecido, a partir de 1930, uma série delas são retiradas das mulheres soviéticas, tal como a criminalização do aborto, a retirada de milhares de crianças das creches, a dificultação do divórcio, a valorização da família frente à liberdade individual da mulher e a própria autonomia e poder sobre suas próprias demandas, que dão lugar à submissão às ordens dos poderosos homens da direção[13].

Progressivamente, isso se estende, primeiramente, às mulheres, que perdem poder de debates e decisões no campo político geral; segundamente, para toda a sociedade, que cada vez mais precisa obedecer a burocracia controladora e ditatorial que se propaga, inibindo os direitos e liberdades não apenas das mulheres, mas de todos os cidadãos. O Jenotdel metonimiza, assim, o processo socialista com um todo, desde o seu ponto mais libertário à humanidade até o início da ditadura stalinista: sua criação foi realizada em um tempo em que era possível conceder esse tipo de liberdade à população; já sua progressiva dissolução, demonstra que quanto mais longe da emancipação feminina ficava, também mais longe o gênero humano se colocava – em parte por que as mulheres constituem metade desse grupo, logo, não seria possível em qualquer contexto emancipar a humanidade sem emancipar as mulheres; em parte porque a contínua queda de autonomia concedida às mulheres indicava que um Estado mais autoritário estava se construindo.

Notas

[1]KOLLONTAI, A. Avtobiograficheskii ocherk, p.273-4 apud WOOD, E. The Baba and the Comrade. Bloomington: Indiana University Press, 1997, p.32.

[2] LENIN, Vladimir. As tarefas do proletariado em nossa Revolução, escrito de 10 a 23 de abril de 1917, publicado em brochura em setembro do mesmo ano. Obras escolhidas, T; II, p. 30, Edições em línguas estrangeiras, Moscou, 1947.

[3]O debate sobre os principais responsáveis pela criação do Jenotdel é diverso. Farnsworth (FARNSWORTH, Beatrice Brodsky. Bolshevism, the Woman Question, and Aleksandra Kollontai. The American Historical Review, vol.81, n°2, p.292-316. Oxford: Oxford University Press, 1976.), Clements (CLEMENTS, Barbara. The Utopianism of the Zhenotdel. Slavic Review Vol. 51, No. 3 (Outono, 1992) e Goldman (GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e revolução. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.) dão ênfase ao papel das líderes feministas, como Inessa Armand e Alexandra Kollontai, que por meio da pressão e luta teórica conseguiram estabelecer o debate da questão feminina no partido. Bobroff (BOBROFF, Anne. The Bolsheviks and Working Women – 1905-1920. [s.l.]: [s.n], 1974) e Hayden (HAYDEN, Carol. Feminism and Bolshevism: The Zhenotdel and the Politics of Women’s Emancipation in Russia, 1917-1930. Berkeley: University of California, 1979.) dão menos importância às lideranças, colocando que desde 1913 as próprias mulheres já estariam mais ativas, tendo o Partido Bolchevique atentado precocemente à organização feminina. Wood (op.cit) aponta que a própria direção partidária teve papel na maior atenção dada às causas feministas, mas principalmente porque precisava se situar diante dos outros movimentos, como os sociais-democratas alemães, que já faziam isso. Bonnell (BONNELL, Victoria E. Iconography of power: Soviet political posters under Lenin and Stalin. Vol. 27. Univ of California Press, 1998.) aponta também que havia outras seções feministas que se organizavam fora do Partido Bolchevique, que tiveram suas demandas cada vez mais marginalizadas, conforme a criação do Jenotdel ia se delineando.

[4] YUKINA, I. Gênero como uma ferramenta para a aprendizagem e transformação da sociedade e Feminismo na URSS. Original em russo: Гендеркакинструментпознания и преобразования общества.[s.l.]: 2006. Disponível em http://bit.ly/1NAHN39.

[5] THE RUSSIAN Revolution and the Emancipation of Women in Women and Revolution Pages, Spartacist, English Edition, nº 59. Primavera de 2006, Online. Disponível em: http://bit.ly/1Phjec0

[6] O Código do Casamento, família e tutela foi um importante passo nos direitos femininos, dado logo após a revolução, em 1918. Nele instituíam-se conquistas como o casamento civil, o divórcio facilitado, retirava a necessidade de a esposa seguir seu marido, equiparava filhos bastardos ou naturais, entre outras. Para uma análise do Código, ver Goldman, Wendy. Mulher, Estado e revolução. Boitempo Editorial : São Paulo, 2014, capítulo 3. O documento está disponível na integra, em russo, em http://bit.ly/1PvaQqe

[7] GOLDMAN : op.cit, p.77

[8] Ibidem: op.cit, p.293; A conclusão final sobre a pensão alimentícia no Código do Casamento, Família e Tutela de 1918 foi que essa seria paga, por um período determinado, apenas para os necessitados financeiramente, sendo possível para ambos os conjugues e paga por um deles e não pelo Estado.

[9] Tal divisão, inclusive, se formalizou em 1920, tendo sido criadas duas subdivisões ao Jenotdel: ´

instrução e organização, agitação e propaganda. Para a historiadora Elizabeth Wood, esse fato caracteriza o começo do fim da sessão, principalmente porque o primeiro par fica nas mãos de um homem do partido (Maksimovskii), que cada vez mais tenta acoplar nele as tarefas mais essenciais. Não nos sendo possível aqui aproximar nesse primeiro aspecto que retira poder das mulheres, recomendamos a leitura da autora: WOOD: op.cit, p.81.

[10] PATTERSON, Michelle Jane. Red ‘Teaspoons of Charity’: Zhenotdel, Russian Women and the Communist Party, 1919-1930. Tese de Doutorado. Universidade de Toronto, 2011. Disponível em: http://bit.ly/1MxfEwW

[11] HEYATH, Farideh. Azeri women in transition: women in Soviet and post-Soviet Azerbaijan. Psychology Press, 2002, p.196.

[12] STITES, Richard. The Women’s Liberation Movement in Russia: Feminism, Nihilism, and Bolshevism, 1860-1930. Vol. 59. Princeton University Press, 1978, p.352.

[13] Até 1917, apenas três mulheres fizeram parte dos órgãos principais do PC (Comitê central, Orgburo, Politburo, Secretariat) e de 1918 a 1924, apenas uma mulher o fez (STITES: op.cit. 1978) Vemos também que de 1927-1952, nenhuma mulher participou do Politburo (como membro candidato ou efetivo) (PRICETON UNIVERSITY. Politburo of the Central Committee of the Communist Party of the Soviet Union, Online. Disponível em: http://bit.ly/1Jmm2Xi)