Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

John Lennon e a política de esquerda: a “entrevista perdida” ao jornal trotskista Red Mole

Romulo Mattos

I

No ano de 1970, as entrevistas concedidas por Lennon à grande imprensa, assim como as suas composições, passaram a entusiasmar os partidários da Nova Esquerda britânica. As ideias do artista estavam mais radicais e engajadas, e as discordâncias entre as duas partes desapareciam.[1] Ao mesmo tempo, o ativista político Tariq Ali começou a ser procurado por Lennon, interessado em saber a opinião daquele sobre temas contemporâneos. Certo dia, entusiasmado com a visita do astro ao seu apartamento, o intelectual lhe pediu uma entrevista exclusiva para o jornal Red Mole, no que foi atendido.

Essa publicação tinha nascido de um racha entre os membros do conselho editorial do The Black Dwarf, fundado em 1967 por jovens ligados ao Vietnam Solidarity Campaign (Campanha de Solidariedade ao Vietnã), que queriam a paz duradoura e acreditavam em que isso só pudesse acontecer com a vitória vietnamita. Assim, diferentemente da British Campaign for Peace in Vietnam (Campanha Britânica pela Paz no Vietnã), clássica organização de fachada do Partido Comunista – que confiava na política de “pressão discreta” [2] –, os ativistas responsáveis pelo The Black Dwarf insistiam na solidariedade à luta vietnamita e organizavam manifestações para enraizar a sua maneira de agir.

Com o tempo, alguns membros do conselho editorial daquele jornal entraram para o International Marxist Group (Grupo Marxista Internacional), filiado à Quarta Internacional, constituída por seguidores de Leon Trotski. Haviam se tornado trotskistas pela influência de Ernest Mandel e porque entendiam que teoria e realidade tinham se aproximado. Pertencente ao Grupo Marxista, Ali achava que o The Black Dwarf precisava de uma organização para sustentá-lo. Esse pensamento encontrou resistência entre os intelectuais que não queriam comprometer a independência da publicação em relação aos demais grupos de esquerda. Finalmente houve um racha e os que eram membros do Grupo Marxista criaram o Red Mole, em 1970.[3]

Lennon recusou o pedido de 15.000 libras para a fundação que tinha por fim custear o jornal, porque esse veículo não teria “nada mais que um apelo intelectual restrito a poucos estudantes, [o] que seria um desperdício completo de dinheiro”.[4] Mas depois liberou 3.000 libras do “Fundo da Liberdade de John & Yoko” para o Red Mole, do qual era leitor. Além da ajuda financeira, o artista foi entrevistado por dois de seus editores – Ali e Robin Blackburn – no dia 21 de janeiro de 1971. A hoje chamada “entrevista perdida” foi originalmente publicada com o título “Poder ao Povo!”, e contou ainda com a participação de Yoko Ono. Questionado por Ali sobre a recente radicalização de suas ideias, o cantor afirmou que sempre pensou

“politicamente e contra o status quo. É o básico para quem foi criado como eu, odiando e temendo a polícia como um inimigo natural, e desprezando o Exército por levar todo mundo embora e largar morto em algum lugar (…). Diziam, meio zangados comigo, que eu tinha muita consciência de classe, porque sabia o que acontecia comigo e sabia da repressão de classe em cima da gente – que merda, era um fato, mas no furacão dos Beatles isso acabou ficando de fora. Durante um tempo eu me afastei ainda mais da realidade”.[5]

Enfatizado no trecho acima, o tema da consciência de classe aparece em “Working Class Hero” (“Herói da classe trabalhadora”), de 1970.[6] Vale ressalvar que Geoff Emerick, o principal engenheiro de som dos Beatles, afirmou que Paul McCartney se incomodava quando Lennon se apresentava como filho da classe trabalhadora, “pois sabia que aquilo não era verdade. Ele sabia que John havia sido criado por sua tia Mimi, em uma situação mais confortável que a de Paul ou a dos outros Beatles”.[7]

Tariq Ali quis saber mais sobre o envolvimento (incipiente) de Lennon com a política nos tempos dos Beatles, tendo lhe perguntado: “De certa forma, você já pensava em política quando parecia combater a revolução?”.[8] O cantor logo entendeu qual era o assunto que o entrevistador queria abordar: “Claro, ‘Revolution’”.[9] Indiretamente, o ativista político se referia ao verso de “Revolution” (1968) que traduz a recusa do artista à participação de uma possível revolução: “Você já sabe que não pode contar comigo” (“Don’t you know you can count me out”).[10] Na entrevista publicada no Red Mole, Lennon procurou explicar a postura adotada em 1968: “Eu não queria ser morto”.[11] E aproveitou para citar novamente a sua suposta origem de classe, dando a entender que o tema da revolução não era estranho a ele, quando compôs aquela canção: “Por ter vindo da classe trabalhadora, sempre me interessei pela Rússia e pela China, e por tudo que tivesse a ver com a classe operária, ainda que eu fizesse o jogo capitalista”.[12]

Embora não tenha ficado claro no parágrafo anterior, a visão de Lennon sobre o tema da revolução em 1971 era o inverso do que ele explanara em 1968. E isso está expresso em uma de suas canções, cujo título batizou a entrevista editada pelo Red Mole: “Power to the people” (“Poder ao povo”), de 1971.[13] Para além da revolução em si, o artista discutiu bastante qual seria a melhor forma de efetivá-la, tendo apontado para dois caminhos tidos como complementares: a conscientização dos trabalhadores e a luta armada. Nesse último caso, Lennon desprezou o pensamento de Yoko segundo o qual seria possível uma “revolução sem violência” [14] – que ainda seguia a cartilha hippie dos anos 1960 –, e foi ao encontro da Nova Esquerda britânica: “Não se pode tomar o poder sem luta…”. Ao que Ali completou: “Isso é o mais importante”. Vale lembrar que Lennon manteve relações com organizações que, com diferentes causas políticas, eram adeptas da luta armada, como o Weather Underground[15], o Partido dos Panteras Negras[16] e o Exército Republicano Irlandês (IRA, do inglês Irish Republican Army).[17]Aliás, o artista apoiou a causa desse grupo em “Sunday Blody Sunday” (“Domingo Sangrento”) e “The Luck of The Irish” (“A Sorte do Irlandês”) – cuja renda foi destinada a uma entidade de direitos civis da Irlanda –, ambas de 1972.

O cantor insistiu no tema do enfrentamento violento, tendo se referido ao poder bélico do Estado: “Temos que nos infiltrar no Exército, porque eles estão bem treinados para matar todos nós”.[18] Aqui vemos não só o juízo de que o controle das armas pela esquerda era importante para a revolução, mas também a dimensão do convencimento. Na entrevista analisada, Lennon indicou a importância da conscientização dos trabalhadores para o processo de tomada do poder: “Acho que agora os estudantes estão meio acordados, o bastante para tentar acordar os irmãos operários. Se a gente não passa adiante a nossa consciência, ela se fecha de novo”.[19] Percebe-se nesse trecho, em primeiro lugar, uma visão parecida com o antigo preceito leninista de que a classe trabalhadora, por si só, apenas chegaria ao estágio sindicalista (econômico-corporativo e reformista); por conta disso, a consciência seria levada “de fora” aos operários, por meio de estratos sociais e intelectuais que tiveram acesso (e aderiram) ao socialismo revolucionário (marxismo).[20] Em segundo, uma concepção – possivelmente mais próxima da consciência do artista naquele momento – que apontava para um protagonismo estudantil, cujas referências teóricas afirmavam justamente a possibilidade de novos grupos sociais, com destaque para os estudantes, substituírem os trabalhadores (ou, pelo menos, iniciarem a tarefa por eles) na derrubada do capitalismo. De acordo com intelectuais bastante lidos nesse contexto, como Marcuse, o operariado estaria adormecido, ou adestrado pelo capitalismo do welfarestate.[21]

O interessante é que o cantor continuava a se preocupar com o tipo de sociedade que resultaria da revolução, porém, sem o ceticismo conservador manifestado em 1969, no debate público com John Hoyland[22], crítico musical do jornal The Black Dwarf, e também filiado à Nova Esquerda: “teremos a tarefa de acabar com a burguesia e manter o povo num estado de espírito revolucionário”.[23] Em resumo, a argumentação do artista sobre o tema da revolução, publicada no Red Mole, traz à tona o que ele tinha mente ao compor “Power to the people”, um clássico do cancioneiro político internacional.

Nessa canção pró-revolução, Lennon também critica a dominação masculina. Embora não tenha sido interrogado quanto ao assunto, na entrevista publicada pelo Red Mole, o artista afirmou que, para destruir o Estado burguês, “as mulheres são importantíssimas também, não dá para fazer revolução sem se envolver e liberar as mulheres”.[24] Mas o tema da igualdade de gênero entrara na vida do cantor por razões referentes ao seu relacionamento com Yoko: “aprendi bem depressa que ou tínhamos uma relação meio a meio, ou não tinha relação”.[25] A adesão de Lennon ao ideal feminista renderia músicas como “Woman is the nigger of the wold” (“A mulher é o negro do mundo”) e “Angela”, em homenagem a Angela Davis, militante pelos direitos das mulheres e dos negros – ambas de 1972.

II

Iniciando a conclusão sobre o envolvimento de Lennon com a política de esquerda, havia um jogo de interesses ideológicos e comerciais, a um só tempo, que define o lugar social de sua obra no início dos anos 1970. A ambiguidade do seu projeto residia na disseminação de uma ideologia revolucionária que pudesse, por um lado, ser assimilada pelos trabalhadores e apropriada pelos movimentos sociais; por outro, realizar-se como produto de mercado, utilizando-se dos meios técnicos e organizacionais do mercado à sua disposição.[26] No entanto, não é uma fatalidade que os valores de troca subjuguem, para os fins de manutenção do capitalismo, os valores de uso dos objetos culturais que veiculam propostas críticas à ordem vigente. Apesar do poder de se utilizar das ideias mais críticas para se reforçar, a indústria cultural é portadora de contradições que não lhe permitem mascarar totalmente a realidade social em que se insere.[27]Assim, a atuação de Lennon foi ao encontro da recomendação de Walter Benjamin quanto à exigência fundamental de “não abastecer o aparelho de produção, sem o modificar, na medida do possível, num sentido socialista”.[28] Ainda que sem subverter os pilares da indústria cultural – a propriedade privada dos meios e a relação produtor-consumidor –, o artista atuou criticamente nela, produzindo um conteúdo engajado.

No entender do artista, “rock não é igual a Coca-Cola. (…) Quero atingir as pessoas certas e quero dizer as coisas de um jeito bem simples e direto”.[29] Além disso, Lennon não idealizava a indústria cultural e conhecia bem o terreno onde lutava:

“Pois é, eles têm todos os jornais e controlam toda a distribuição e toda a divulgação. (…) Tentamos [os Beatles] mudar isso com a Apple, mas no final fomos derrotados. Elas [as gravadoras] ainda controlam tudo. A EMI matou nosso disco Two Virgins [de Lennon e Yoko] porque não gostou dele. No último disco [John Lennon/ Plastic Ono Band], censurou as letras das músicas impressas no envelope do disco. Uma merda de tão ridículo e hipócrita; ela tem de me deixar cantar, mas não ousa deixar você ler [a letra]. Uma loucura”.[30]

Em um determinado contexto histórico, as ideias de Lennon se tornaram mais políticas e radicais, tendo a sua militância excedido a dimensão do pacifismo hippie – o que a “entrevista perdida” publicada pelo Red Mole deixa evidente. O cantor rejeitou a religião, reviu o seu comportamento de beatle alienado, descobriu uma suposta origem de classe, pregou a revolução e, pensando em como concretizá-la, legitimou a luta armada e apontou para a necessidade de conscientização dos operários. O internacionalismo desses chegou a ser reivindicado e, mesmo, exaltado pelo cantor: “Operários de países diferentes têm de se unir (…). É fantástico pensar no poder que os operários teriam com italianos e alemães juntos e todos aqueles equipamentos”.[31] Para que não fiquem dúvidas quanto as suas principais matrizes teóricas, Lennon chegou a citá-las: “Quando começarem a perceber isso tudo, aí então [os] operários poderão começar a tomar o poder. Como disse Marx: ‘A cada um segundo a sua necessidade’ – acho que isso funcionaria bem aqui [na Inglaterra]”.[32]

Em seu livro de memórias, O poder das barricadas, o então trotskista Ali afirmou que a época politizou o artista. Esse foi morar nos Estados Unidos às vésperas da greve dos mineiros de 1972, que iniciou uma mudança de pensamento no operariado britânico e preocupou bastante as classes dominantes. Em território americano, as suas atividades radicais foram espionadas pelo Departamento Federal de Investigação (FBI), que viu no vencimento do seu visto naquele ano uma contramedida estratégica. Mas a ameaça de expulsão (afastada somente em 1976) não impediu que ele convivesse com “os ativistas de esquerda de Nova York, nem que deixasse de participar de protestos e campanhas pelo país” [33] nos primeiros tempos de seu conflito com o governo Nixon – interessado em sua deportação.

Já em 1980, ano de sua morte, Lennon reviu de forma conservadora o seu passado de embates em entrevista à revista Newsweek. Considerou o seu radicalismo falso porque esse estaria ligado a um “sentimento de culpa […] por ganhar dinheiro”.[34] No entanto, os documentos aqui trabalhados são contundentes por mostrar um artista que assumiu a responsabilidade de ter uma tarefa política que ultrapassava a função de produzir música. Entre 1968 e 1972, observa-se um ciclo de canções políticas na obra de Lennon, iniciado com o single “Revolution” e encerrado com o disco Some Time in New York City. Dentro desse quadro, a sua palavra cantada começou a se radicalizar em 1970, quando colocou em prática o juízo de que a “preocupação principal deve ser revolucionar por meio da arte”.[35]

Notas

[1] A análise das canções de Lennon no seu período de radicalização política foi realizada no segundo texto (ou parte 2) da série “John Lennon: a trajetória política de um beatle de esquerda”. As diferenças entre o cantor e os agentes da Nova Esquerda foram abordadas no primeiro texto (ou parte 1). Ambos foram publicados no Blog Junho.

[2] Segundo Ali, “Os que mexiam os pauzinhos dentro da entidade apoiavam os vietnamitas, mas em segredo e aos cochichos. Em público, eram simplesmente pela paz”. ALI, Tariq. O poder das barricadas. Uma autobiografia dos anos 60. São Paulo: Boitempo, 2008. p. 206.

[3] ibid. p. 345.

[4] DAVIES, Hunter. As cartas de John Lennon. São Paulo: Planeta, 2012. p. 200.

[5] ALI, Tariq. op. cit. p. 375.

[6] A análise da letra dessa canção é encontrada no segundo texto (ou parte 2) da série “John Lennon: a trajetória política de um beatle de esquerda”.

[7] EMERICK, Geoff. Here, There and Everywhere: minha vida gravando os Beatles. Barueri, SP: Novo Século Editora, 2013.

[8] ALI, Tariq. op. cit. p. 375.

[9] idem.

[10] A polêmica travada entre Lennon e os partidários da Nova Esquerda em torno de “Revolution” está primeiro texto (ou parte 1) da série “John Lennon: a trajetória política de um beatle de esquerda”.

[11] ALI, Tariq. op. cit. p. 377-8.

[12 ]ibid. p. 387.

[13] A reflexão sobre essa composição foi realizada no segundo texto (ou parte 2) da série “John Lennon: a trajetória política de um beatle de esquerda”.

[14] ALI, Tariq. op. cit. p. 387. idem para as duas próximas citações.

[15] LEARY, Timothy. Flashbacks “surfando no caos”: uma autobiografia. São Paulo: Beca Produções Culturais, 1999. pp. 372-3.

[16] DAVIES, Hunter. op. cit. pp. 251, 255.

[17] ROGAN, Johnny. Lennon: The Albums. London: Rogan House, 2010.

[18] ALI, Tariq. op. cit. p. 392.

[19] ibid. p. 386.

[20] Ver: LENIN, V.I. Quer Fazer? Problemas Candentes do Nosso Movimento. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

[21] Ver: MARCUSE, Herbert. O Homem Unidimensional. Sobre a Ideologia da Sociedade Industrial Avançada. Mato Grosso do Sul: Letra Livre, 2012.

[22] Ver o texto (ou parte 1) da série “John Lennon: a trajetória política de um beatle de esquerda”.

[23] ALI, Tariq. op. cit. p. 388.

[24]  ALI, Tariq. op. cit. p. 389.

[25] ibid. p. 390.

[26] Adaptamos aqui as reflexões de Marcos Napolitano sobre o paradoxo vivido pela moderna MPB, nos anos 1960. NAPOLITANO, Marcos. Seguindo a canção. Engajamento político e indústria cultural na MPB (1959-1969). Versão digital revista pelo autor. 2010. p. 71.

[27] RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Editora UNESP, 2010. p. 93; Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV. São Paulo: Editora Record, 2000. p. 328.

[28] BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas, I. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 127.

[29] ALI, Tariq. op. cit. p. 385.

[30]  idem.

[31] ibid. p. 391.

[32] ibid. p. 392.

[33] DAVIES, Hunter. op. cit. p. 250.

[34] FARIAS, Sergio. op. cit. p. 229-30.

[35] Carta a Ali e Blackburn, entre 1970 e 1971. DAVIES, Hunter. op. cit. p. 255.