Colagem de Singh Bean
Colagem de Singh Bean

Junho como enigma, ainda

Paulo Gajanigo

Quando perguntados por jornalistas ou alunos, muitos, eu estava entre eles, diziam que precisaríamos de tempo para entender o significado de junho, que seria muito cedo para defini-lo, que teríamos que aguardar os desenvolvimentos subsequentes. Hoje já não penso mais assim, sinto que está ocorrendo o inverso. Quanto mais o tempo passa, mais difícil é entender o significado de Junho. Ainda que faltem mais pesquisas sobre as manifestações, não acredito que isso esteja ocorrendo somente por escassez de informações. Fundamentalmente, é como se Junho tivesse ocupado um ponto cego ideológico. Um evento que não encontrou uma narrativa que o considere em sua riqueza exatamente pelos desenvolvimentos subsequentes na política brasileira. Eu diria que Junho é ainda um enigma pois está sendo cifrado por nós mesmos.

Havia um fascínio ímpar em ir à rua num movimento que vai criando seus significados. A cada ato, a cada data marcada, não se realizava apenas uma jogada de xadrez contra governos e seu braço armado. Era também um jogo em que buscávamos saber que tipo de força éramos nós, e até que ponto existia um nós. De certa forma, achávamos que, com o desenvolvimento das manifestações, teríamos mais clareza sobre o que fizemos e sobre o que somos.

Aquela manifestação de 20 de junho, a maior de todas no Rio de Janeiro, significou o ponto máximo da explosão energética, foi como se tivéssemos conquistado todas as ruas por um segundo. Não havia mais cerco policial, não havia mais lado de fora. E, no segundo seguinte, as ruas começaram a implodir: confrontos entre manifestantes e encurralamentos policiais. A forma de destruição das manifestações veio por táticas de multidão, sem fora, sem externalidade, mas pela divisão e pelo isolamento. Os conflitos entraram em todos os poros das manifestações. Quando todos vão às ruas, cada metro quadrado tem a sociedade inteira.

Depois daquele dia, ficou mais difícil saber quem éramos nós. Muitos saíram com um gosto amargo, não só com gargantas e olhos irritados, mas com uma sensação de estranhamento sobre que tipo de forças foram evocadas. Vimos os verde-amarelos em gestação. Parece que ali nossa experiência começou a ser cifrada. Num primeiro momento, houve estranhamento entre o chamado e as forças evocadas – como um típico exemplo da astúcia da razão, pela qual aquilo que é desejado tem retornos imprevistos. Não eram só por “20 centavos”, era por mais, mas não parecia ser também aquilo que vivemos, não era pela PEC 300 nem era pelo ódio às bandeiras vermelhas. Mas foi num segundo momento que o enigma de fato foi se desenhando: começaram a surgir acusações de que os manifestantes de esquerda estavam alimentando os conservadores, teríamos sido irresponsáveis, brincado com fogo. Foi dos capítulos mais cruéis de Junho, militantes detidos, agredidos e parte da própria esquerda apontando o dedo, acusando-os de enfraquecer as forças progressistas no governo. O enigma foi ficando cada vez mais complexo com esse estranho sentimento impulsionado pela acusação: um medo do nosso próprio desejo, o medo de desejar democracia.

Curiosamente, esse processo de acusação foi complementado por uma longa ação da grande mídia. Durante as manifestações, ela custou para achar palavras que, ao mesmo tempo, suavizasse essa experiência e não a fizesse perder a credibilidade. Mas o tempo a recompensou em parte. Agora, com o surgimento de um forte movimento de direita, ela pôde apresentar, com confiança, uma narrativa: “Dia 13 de março de 2016 tivemos a maior manifestação da história do país”. Dessa forma, Junho foi rebatizado como preâmbulo, deixou de ser um fenômeno singular e passou a ser o nascimento confuso de um grande movimento contra o governo e a corrupção. Os números podem sugerir continuidade (se forem bem torturados), mas só um setor que não viveu Junho intensamente, lá no chão, pode construir uma narrativa linear entre esses eventos. Boa parte da juventude de Junho tem passado o domingo em casa.

A ausência de uma continuidade entre a experiência de Junho e os acontecimentos políticos posteriores tem intensificado o aspecto traumático. Às violências sofridas somou-se a incapacidade de falarmos dessas violências, a impossibilidade de colocá-las em público, por medo ou por falta de ouvinte. A violência vivida não encontrou espaço nem na mídia, nem no governo, e o que foi pior, nem em setores da esquerda. No entanto, foi com a redefinição do conflito, a partir do segundo turno das eleições de 2014, que se erigiu um muro sobre nossa experiência.

O surgimento dessa nova forma do conflito significou um hiato entre a experiência iniciadora das manifestações e o cenário posterior. A energia para lutas democráticas se canalizou na luta bem delimitada das cores. Vermelho ou verde-amarelo. Muitas energias mantiveram-se à tona, muitas reivindicações e sentimentos de opressão continuaram a galgar espaço. Muitos oprimidos continuavam a falar mais alto, mas, inevitavelmente, às custas de suspenderem certa experiência. Não é uma simples questão de cálculo político transitar entre estar nas ruas em junho de 2013 e lutar para eleger Dilma contra Aécio. Os que não o fizeram, amargaram o silêncio, suas dores foram menos ouvidas. Os que o fizeram tiveram que se reajustar e reduzir a voz, pois, ainda que as manifestações de Junho não fossem anti-Dilma, elas também eram contra ações e projetos encabeçados por seu governo. Ou seja, o que foi vivido em 2013 não achou espaço nem no engajamento na polarização recente, nem na abstenção a essa polarização.

Os protagonistas de Junho ou se engajaram numa luta em que são coadjuvantes, ou tiveram suas vozes sobrepostas pelo drama atual. Isso aponta que o enigma de Junho se alimenta também de uma questão geracional. O protagonismo nos movimentos pró e contra o impeachment não é da juventude. Se o caráter reacionário dos passeios de domingo é evidente, com suas palavras de ordem que apontam para o passado – seja nas saudosas lembranças dos tempos militares seja na expressiva frase “quero meu país de volta” –, no movimento contra o impeachment, tem sido fundamental um resgate de um movimento que tem mais de 30 anos – o dia 18 de março, na praça XV, tinha a energia dos comícios das “Diretas Já”: música, fala de artistas e militantes históricos se reencontrando. O dia 31 de março, na Praça da Sé (palco de atos das “Diretas Já”), bem como a presença de Chico Buarque no Largo da Carioca, evocavam imagens do passado.

O movimento de Junho deu visibilidade a novas formas de sentir, organizar, falar e apresentar reivindicações que aparecem somente de maneira subordinada aos movimentos em curso. De um lado, os grupos “Vem pra rua” e “Movimento Brasil Livre” canalizam os elementos que apareceram no ápice das manifestações em 2013 caracterizados pelo sentimento anti-institucional com a ojeriza a partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais. De outro, a afirmação do popular na rica pluralidade afirmada em 2013 – visível em inúmeros episódios que tomaram aqueles dias de enfrentamento da lógica exclusivista e do elitismo cotidiano, como a praticamente espontânea manifestação em frente ao Copacabana Palace quando do casamento da neta de Jacob Barata – se vinculou ao combate das manifestações de direita que tomaram forma em 2014 – foi fundamental para essa vinculação a ativação dessa energia pelas imagens de membros da elite indo às ruas e expondo suas visões de classe e seu habitus.

Parece já evidente que a atual conjuntura ajudou a revelar com mais clareza a impossível unidade dos últimos dias de Junho. O custo dessa clareza foi o de deixar em segundo plano os elementos mais explosivos e interessantes de Junho. O anti-intitucionalismo, que fundamenta hoje uma profunda descrença nas instituições políticas, serve para elevar figuras salvadoras que estariam acima das instituições, como o juiz Sérgio Moro, ou teve que ser desativado já que a gramática política atual exige a defesa institucional, o mandato de uma presidente. A rebeldia popular e democrática sobrevive na crítica ácida ao movimento reacionário dos domingos, mas não é rebeldia sem freios já que a polarização contra ou a favor do impeachment não é exatamente a polarização entre povo e elite (a Frente contra o impeachment inclui setores do empresariado, políticos sem referência de esquerda, etc.), ainda que essa polarização, sem dúvida, seja a forma simbólica do conflito (basta avaliarmos quantos dos manifestantes que foram as ruas questionando onde estava Amarildo vão às manifestações nos domingos e quantos vão às contra o impeachment).

Vivemos, assim, dois tempos. Um passado que agoniza e que ainda não se resolveu totalmente: os sujeitos políticos, com suas éticas e estéticas, formados na redemocratização. E um futuro que não amadureceu: mudanças profundas nas formas de sentir, de fazer política, na maneira de organizar as lutas e nas reivindicações que não formaram ainda seus instrumentos necessários para o protagonismo político.

Por isso, Junho continuará um enigma por um bom tempo. Toda sua riqueza, que não encontrou terreno fértil nesse momento para amadurecer, vive e se desenvolve em outros espaços e de variadas formas. Muitos lamentaram a impossibilidade de Junho ter gerado um resultado eleitoral em 2014. Junho ainda não pode ser medido por esses números, ele é um fenômeno que, mais do que contabilizado, deve ser sentido em vários espaços. Suspeito que, em especial, seja necessário olhar para os espaços não anunciadamente políticos, ou seja, em espaços onde a política está muito próxima do cotidiano: nas universidades, as mudanças na relação professor-aluno, provocada pela forma como os alunos têm se colocado, questionando o espaço consolidado de autoridade dos professores dentro da sala; nas artes, com a expressão dessas novas formas de sensibilidades; e, principalmente, na proliferação de coletivos culturais e ligados a questões identitárias. São esses espaços que, ao mesmo tempo, mostram de onde veio Junho e onde suas conquistas habitam. Junho surgiu desses espaços e voltou a eles por contingência.

Enquanto o enigma só parece crescer, sugiro que não o escondemos em qualquer lugar, seja por culpa, seja por medo. Não aceitemos sua diminuição histórica. Temos que continuar a nomeá-lo e falar sobre a impossibilidade atual de continuar Junho. Dessa forma, tratamos de diminuir o poder do enigma. Nomear Junho é mantê-lo em sua singularidade, nem um epifenômeno, nem a pré-história dos domingos-classe-média. Devemos colocá-lo como um quadro, estudá-lo, olhar todos os seus detalhes, mas também desmontá-lo, remontá-lo, deixar vir suas memórias à tona, as memórias que estão em nossos corpos e no corpo da cidade. E se a política tem sido um espaço hostil a essa experiência, tratemos de carregar a experiência de Junho para todos os lados: para o cotidiano, a arte, as relações íntimas, a pesquisa e nosso próprio corpo. Todos são espaços importantes para Junho viver e amadurecer até que vá se decifrando, se tornando visível em nossos gestos e em nosso mundo.