Bordado de Pedro João Cury
Bordado de Pedro João Cury

Lições da Finlândia: Resposta a Eric Blanc

 

Duncan Hart

(Traduzido por Marcio Lauria Monteiro)

[Nota do revisor: O artigo de Eric Blanc, “A Revolução na Finlândia”, suscitou um interessante debate entre o militante socialista australiano, Duncan Hart, com o autor. Trata-se de uma discussão acerca dos sentidos da social-democracia e o Blog Junho, em parceria com o tradutor Marcio Lauria Monteiro, decidiu publicar o artigo de Hart e a réplica de Blanc, procurando assim mapear essa discussão.]

O artigo de Eric Blanc, “A Revolução na Finlândia”, levantou uma série de argumentos políticos sobre a experiência finlandesa que seriam extremamente danosos para a esquerda contemporânea adotar – principalmente o de que a revolução confirmou a estratégia política da social-democracia kautskysta.

A revolução na Finlândia, de 1917-1918, merece mais atenção do que recebeu da esquerda. Ela fornece um exemplo de uma sociedade relativamente desenvolvida, tanto política como economicamente, onde uma revolução social da classe trabalhadora provavelmente avançou mais do que em qualquer outra sociedade, à exceção da Rússia.

Por estas razões, espero que o artigo recente de Blanc possa ser o início de uma tentativa mais aprofundada de lidar com as questões políticas que emergiram a partir da experiência dessa revolução.

Dito isso, gostaria de levantar algumas discordâncias com as conclusões políticas delineadas por Blanc a partir da revolução finlandesa.

O maior erro de Blanc é sugerir que a revolução “confirma a ideia tradicional da revolução defendida por Karl Kautsky: por meio de uma conscientização de classe pacientemente erigida sobre educação e organização, os socialistas conquistaram maioria no parlamento. Por sua vez, isso levou a direita a dissolver tal instituição, fato que acabou gerando a revolução conduzida pelos socialistas”.

Blanc, de fato, conclui seu artigo com um pequeno parágrafo que destaca algumas das “limitações” da “social-democracia revolucionária”, representada pelo Partido Social-Democrata Finlandês (SDP), mas, em geral, argumenta que a revolução na Finlândia prova que “os bolcheviques não foram o único partido no império capaz de levar os trabalhadores ao poder”.

Longe de ser uma confirmação da estratégia do SDP, o horrível massacre e a repressão política que se seguiu à revolução é uma contundente condenação da social-democracia na melhor forma que ela poderia tomar. A tragédia finlandesa é precisamente um argumento a favor do marxismo revolucionário intervencionista dos bolcheviques, ainda que pela negativa.

Ao longo deste artigo, me basearei fortemente no panfleto de Otto Wille Kuusinen, The Finish Revolution: a Self-Criticism, escrito em agosto de 1918. Kuusinen era um dos principais teóricos do SDP, presidente do partido de 1911 a 1917, e Delegado do Povo para a Educação no governo revolucionário. Junto a muitos outros líderes social-democratas, ele posteriormente formou o Partido Comunista da Finlândia, quando estava exilado na República Soviética da Rússia. [1]

“Esquerda” e direita no interior do SDP

Ao longo de sua descrição da revolução, Blanc dá a impressão de que os social-democratas estavam divididos entre uma ala revolucionária e outra moderada. Na realidade, o partido estava dividido entre o “centro”, que era a maioria na liderança, e uma direita abertamente revisionista, que predominava na fração parlamentar do partido. O centro, como descrito por Kuusinen, “não acreditava na Revolução; não confiávamos nela, nem pedimos por ela”. A característica definidora desta tendência política era:

1) Guerra de classes pacífica, contínua, mas não revolucionária, e, ao mesmo tempo

2) Uma guerra de classes independente, sem aliança com a burguesia.

Esta não era uma atitude intransigente de mudança “através de meios pacíficos, se possível, mas de meios violentos, se necessário”, parafraseando James Cannon, mas a adoção de uma atitude passiva e fatalista para fazer avançar a luta de classes. Para citar Kuusinen novamente:

“As relações de uma social-democracia consistente com a revolução são tão passivas quanto aquelas de um historiador tolerante em relação aos revolucionários dos tempos passados. ‘A Revolução não é feita, ela nasce’, é a expressão favorita da social-democracia.”

O centro e a direita do Partido Social Democrata se encontravam ambos presos a ilusões nas possibilidades de mudança gradual e democrática através do parlamento.

Isso não quer dizer que uma esquerda revolucionária não se formou durante a própria revolução, mas ela era organizacionalmente fraca, com pouca liderança coordenada. Ficou claro, durante a greve geral e revolução abortada de novembro, que os sentimentos revolucionários prevaleceram entre a liderança das Guardas Vermelhas e do Conselho dos Trabalhadores de Helsinque. Ambas eram instituições revolucionárias recém-criadas, sensíveis aos trabalhadores radicalizados. Quando a liderança do SDP cancelou a greve, o Conselho dos Trabalhadores de Helsinque convocou Oskari Tokoi (o Primeiro-ministro socialista durante o governo da coalizão) e disse-lhe para

“Golpear fortemente a burguesia. Instituir a censura. Transferir para a propriedade pública a indústria, a terra e as suas benesses (…) agora, mais do que nunca, energia e poder são exigidos de nós (…) nós não podemos recuar, devemos lutar para seguir adiante”.

Da mesma forma, os trabalhadores ferroviários invadiram os escritórios do presidente do SDP (e outro líder do centro), Kullervo Manner, e o condenaram por ter cancelado a greve. Tamanho era o apoio popular para com a revolução entre as seções avançadas da classe trabalhadora que o Conselho dos Trabalhadores de Helsinque conseguiu até mesmo manter a greve geral, pelo menos na capital, por mais dois dias além do seu fim oficial determinado pelo SDP. A tragédia desses eventos foi que a liderança política da classe trabalhadora foi hegemonizada pelo SDP. Sem uma liderança revolucionária independente, o impulso não poderia ser mantido.

O grupo que conseguiu desempenhar o papel mais importante como uma facção revolucionária de fora do SDP foi na verdade um pequeno número de finlandeses que haviam se juntado aos bolcheviques, como Adolf Taimi e os irmãos Rahja. Esses bolcheviques foram eleitos como líderes da Guarda Vermelha de Helsinque, que se tornou uma pressão radical de esquerda sobre o SDP. Após o fim da greve geral de novembro e antes da insurreição de janeiro, a Guarda Vermelha chamou vigorosamente pela revolução e até ameaçou liderá-la, se os líderes do SDP se mostrassem covardes demais.

A recusa do SDP em assumir o poder condenou a Revolução

Na antessala da insurreição em Petrogrado, em outubro de 1917, Lenin alertou seus camaradas líderes bolcheviques que, em certos momentos, a questão da liderança política e a disposição para tomar iniciativa torna-se urgente para o triunfo da revolução: “Abster-se de tomar o poder agora, ‘esperar’, entrar em conversações no Comitê Executivo Central (…) é condenar a revolução ao fracasso.” [2]

O fracasso dos social-democratas em impulsionar o potencial revolucionário da greve geral de novembro de 1917 foi o que selou o destino da revolução de 1918. Blanc faz a observação correta, de que “os historiadores estão divididos” quanto à questão de saber se a Revolução poderia ter triunfado em novembro, dada a invasão do militarmente avassalador exercito alemão, em março de 1918. No entanto, o que pode ser dito com segurança é que, em novembro, a situação era muito mais favorável para a classe trabalhadora. Kuusinen, em retrospectiva, viu que a recusa em estabelecer o poder dos trabalhadores em novembro de 1917 apenas adiou a guerra civil: “Podemos evitar um conflito armado? Não! Ele apenas foi adiado para um momento em que a burguesia estaria melhor preparada para isso (…)”.

Como Blanc aponta, em janeiro a maioria dos soldados russos, que simpatizavam com os trabalhadores finlandeses, aos quais os bolcheviques haviam prometido apoio à insurreição [3], deixaram a Finlândia. Muitos soldados russos e oficiais revolucionários, como Georgy Bulatsel e Mikhail Svechnikov [4], lutaram ao lado da Revolução, mas, em novembro, os soldados revolucionários teriam sido um poderoso baluarte contra os Brancos finlandeses. Mais importante ainda, a burguesia estava inteiramente na defensiva, enquanto que, em janeiro de 1918, tinham estabelecido um campo de treinamento da Guarda Branca no norte da Finlândia, sob o comando do Barão Mannerheim, e estavam mais preparados para a guerra civil do que os Vermelhos.

Em março de 1918, o imperialismo alemão estava livre para expandir sua influência na Finlândia, na esteira do tratado predatório de Brest-Litovsk, assinado em 3 de março com a Rússia. Em novembro, a Alemanha ainda estava presa às negociações para a paz com os russos e teria tido dificuldade em intervir.

Apesar da intervenção alemã de março de 1918 ter sido um golpe mortal para a revolução, todos os sinais apontavam para a possibilidade de sucesso revolucionário em novembro de 1917. Esta possibilidade foi interrompida pela inação dos líderes SDP.

As atitudes bolcheviques e social-democratas diante da insurreição

Se o SDP era hostil à revolução, conforme recorda Kuusinen (e conforme todos os líderes do SDP diziam abertamente à época), isso deixa em aberto a questão de por que eles lideraram um levante em 26 de janeiro.

A liderança do SDP só pegou em armas como um último recurso e sob a pressão de uma seção revolucionária dos trabalhadores, em grande parte politicamente desorganizada e incipiente. O que tornou o SDP “revolucionário” foi a sua falta de penetração nas instituições do Estado e o ardente desejo da burguesia de “estabilizar” o país após a greve geral. A agenda da burguesia teria exigido o desarmamento das Guardas Vermelhas e o esmagamento violento das aspirações dos trabalhadores, ao mesmo tempo que ameaçava as instituições estabelecidas do SDP. Em 9 de janeiro de 1918, o governo burguês votou para formar uma nova “força de segurança” para substituir as milícias dominadas pelo SDP, que se recusaram a esmagar as ações dos trabalhadores. Na realidade, isso era a legitimação pelo Estado das já existentes “Guardas Civis” (ou Guardas de Açougueiros, como as chamavam os trabalhadores), que os latifundiários e a burguesia criaram a partir das suas próprias fileiras, para destruir as greves. As Guardas de Açougueiros foram nomeadas como a milícia oficial do Estado em 26 de janeiro, o que equivaleu a uma declaração de guerra contra a Guarda Vermelha e os trabalhadores em geral. Nesse caso, mesmo as figuras de direita no SDP, como Tokoi ou Wiik, se juntaram à insurreição, que consideravam necessária tão somente para “defender a democracia”. Para citar Kuusinen: “Assim, o estandarte da revolução foi de fato levantado – para que essa revolução pudesse ser evitada.”

Isto fica claro a partir da proposta de constituição da “República Finlandesa dos Trabalhadores Socialistas” [5], apresentada pelo novo governo do SDP. Ela não falava sobre a necessidade da ditadura proletária sobre a sociedade, mas, ao invés, falava sobre aperfeiçoar a democracia como forma de criar as melhores condições possíveis para o avanço da luta de classes. Mesmo em uma guerra civil, o SDP só falou em termos de retorno às “condições normais”.

A necessidade de revolução para autopreservação contrastou fortemente com a abordagem dos bolcheviques. A urgência que Lenin deu aos seus argumentos sobre a insurreição, a partir do final de setembro de 1917 em diante, era baseada no reconhecimento de que a maioria dos trabalhadores tinha sido conquistada para a necessidade de um governo soviético. Crucialmente, ele entendeu a importância de proporcionar uma liderança aos trabalhadores, ao invés de ser atacado por eventos externos, e a importância da ação em conjunturas cruciais. Esta foi uma concepção ativista de liderança.

Mesmo durante a greve geral na Finlândia, foram os bolcheviques que pressionaram o SDP a romper com sua passividade e a aproveitar o momento. Lenin enviou um telegrama aos líderes do SDP e exortou-os para que “levantem-se, levantem-se imediatamente e tomem o poder nas mãos dos trabalhadores organizados”. Dybenko, presidente dos marinheiros da Frota do Báltico estacionados em Helsinque, insistiu de forma semelhante e os bolcheviques publicaram uma carta nos jornais dos trabalhadores finlandeses pedindo-lhes que seguissem o seu exemplo.

Até mesmo após o término da greve geral, os bolcheviques continuaram pressionando o SDP. Stalin, como Comissário das Nacionalidades, discursou na conferência nacional do SDP, em 27 de novembro [6], aconselhando-os a deixar de lado as dúvidas sobre a revolução e implorando-os a adotar “as táticas de Danton – audácia, audácia e audácia novamente!” É emblemático que até mesmo a data da insurreição em si, sobre a qual os líderes do SDP não conseguiram concordar, foi estabelecida pelo cronograma necessário para realizar um embarque de 15.000 rifles e dois milhões de cartuchos que os bolcheviques concordaram em enviar de trem a partir de Petrogrado.

Lições da tragédia revolucionária da Finlândia

Blanc está certo em ressaltar que a Finlândia, em 1917-1918, representava uma sociedade capitalista mais avançada do que a Rússia. Politicamente, a Finlândia tinha muito mais em comum com as sociedades ocidentais da época do que com o Império Russo do qual fazia parte. Por este motivo, ela vale a pena ser examinada. Mas seria completamente errado argumentar que a “social-democracia revolucionária” de Kautsky, da qual Blanc caracteriza o SDP como um exemplo, deveria ser imitada.

O SDP, ao contrário de seus primos social-democratas ocidentais, foi colocado em uma situação única que o impulsionou para a ação revolucionária. O fato de o parlamento finlandês não ter poder sob o czar deu ao SDP a oportunidade de crescer e se tonar uma maioria no parlamento sem exercer a responsabilidade pelo Estado capitalista. No contexto do colapso dos braços repressivos do Estado czarista, da crescente combatividade trabalhadora na Finlândia e da revolução dos trabalhadores na Rússia, a burguesia viu no SDP uma ameaça mortal para seus próprios interesses. O SDP provou que não estava à altura da tarefa da revolução quando a burguesia ergueu a luva de desafio.

Para os socialistas de hoje, que também estão operando nas democracias ocidentais, faremos bem em prestar atenção às lições que Kuusinen extraiu da terrível derrota sofrida pelos trabalhadores finlandeses há quase cem anos. Ela decorreu da necessidade de liderança e de organização revolucionária, tanto para tirar proveito de uma crise revolucionária (como se apresentou em novembro de 1917), mas também para liderar a guerra civil e tomar as medidas energéticas necessárias para a vitória. Havia claramente um desejo entre os trabalhadores finlandeses de empurrar a greve geral para uma insurreição. Mas, sem uma liderança revolucionária que pudesse desafiar o SDP, seus esforços heroicos foram bloqueados. Após a derrota, Kuusinen concluiu que uma perspectiva revolucionária deve rejeitar ilusões na democracia burguesa:

“Na sociedade de classes, existem apenas dois tipos de relações entre as classes. Um é um estado de opressão, mantido pela violência (armas, leis, tribunais, etc.), no qual a luta pela libertação das classes oprimidas se limita a meios relativamente pacíficos (…); enquanto o outro é o estado de luta aberta entre as classes, a Revolução, em que um conflito violento decide qual das duas classes será no futuro a opressora e qual será a oprimida.”

A clareza política sobre essa questão foi atingida à custa das vidas de dezenas de milhares de pessoas da classe trabalhadora e da criminalização dos revolucionários da Finlândia por décadas. A ironia de sugerir que os social-democratas finlandeses representavam uma política capaz de levar os trabalhadores ao poder, como fizeram os bolcheviques na Rússia, é que Kuusinen e seus camaradas acabaram concordando com os bolcheviques, em oposição à sua própria prática.

Notas

[1] O. W. Kuusinen. The Finish revolution: a self-criticism. London: The Workers’ Socialist Federation, 1919. Disponível em: http://bit.ly/2uoVt25

[2] Ver Vladimir Lenin. A crise amadureceu, 29 set. 1917. Disponível em: http://bit.ly/2vm4Ay5

[3] Ver I. Smilga. The revolution in Finland and Russian soldiers. Feb. 2918. Disponível em: http://bit.ly/2uFcxwf

[4] O tenente-coronel Bulatsel, como milhares de russos na Finlândia, foi baleado após a captura pelas Guardas Brancas finlandesas. Seus dois filhos foram igualmente assassinados em Viipuri, em abril de 1918. Ele serviu como conselheiro militar do Comandante-em-Chefe da Frente Norte, Hugo Salmela, que liderou a defesa de Tampere.

[5] Este título, “República Socialista dos Trabalhadores”, não foi escolha dos socialistas finlandeses. Lenin insistiu para que fosse a descrição do Estado finlandês quando a República Soviética assinou um tratado de amizade com os finlandeses em 1 de março. Os bolcheviques desejavam que os trabalhadores de ambos os Estados tivessem direitos políticos e civis totais no outro, mas, quando os socialistas finlandeses recusaram isso, os russos providenciaram para que os trabalhadores finlandeses tivessem direitos políticos na Rússia, mesmo que sem reciprocidade.

[6] Ver J. Stalin. Speech delivered at the Congress of the Finnish Social-Democratic Labour Party, Helsinki, Nov. 14 [27], 1917. Disponível em: http://bit.ly/2vNlBmJ