Bordado de Pedro João Cury
Bordado de Pedro João Cury

Machiavelli fala sobre o impeachment: uma entrevista exclusiva com o secretário florentino

Alvaro Bianchi

Encontrei Niccolò Machiavelli ao final de uma tarde nos arredores de Firenze. Ele havia há pouco retornado da taverna na qual passara a tarde jogando tric-trac com seus amigos. Já trajava suas vestes curiais e sentia-se, enfim, próximo a seus queridos antepassados da Roma antiga: Cicero, em primeiro lugar, mas também os historiadores como Tito Livio e Salustio. Quando solicitado a conceder uma entrevista comentando a política brasileira afirmou que só poderia falar a partir do “conhecimento das ações dos grandes homens”, o qual teria aprendido “através de uma longa experiência das coisas modernas e um contínuo estudo das antigas”. Era mais do que suficiente, respondi. Seu ponto de vista, afirmou, era o do povo: “para conhecer a natureza dos governantes é preciso pertencer ao povo”. Exatamente o que queremos, continuei.

Embora não se cansasse de reclamar da “grande e contínua maldade da fortuna” e de pedir por meios indiretos um emprego, o secretário florentino mostrou continuar a ser um arguto analista da realidade política. Mas apenas “da verdade efetiva da coisa”, como destacou, “e não uma imaginação sobre ela”. Vamos à entrevista exclusiva que concedeu para o Blog JUNHO.

Blog Junho – Apesar o amplo esforço em sustentar sua “coalizão”, o governo Dilma Roussef tem enfrentado grande dificuldade para encontrar apoio no Congresso. Quais as razões dessa dificuldade?

Machiavelli – Quem tem o seu governo baseado nas bancadas parlamentares dos partidos aliados jamais estará seguro e tranquilo, porque elas são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis, valentes entre amigos e covardes entre inimigos, sem temor a Deus nem probidade para com os homens. A razão disto é que elas não têm outra paixão nem razão que as mantenha em campo senão um pequeno soldo, que todavia não é suficiente para motivá-las a perderem o mandato em nome do governante. Querem muito ser aliadas enquanto não há crise; mas, durante a crise, querem fugir ou ir embora.[1]

Blog Junho – Mas a reforma ministerial não deveria ter coesionado a base aliada?

Machiavelli – As lideranças parlamentares tem interesses próprios, que nem sempre coincidem com os do governo. Os líderes partidários ou são homens excelentes na política ou não o são. Se o forem, não poderás confiar neles porque sempre aspirarão a uma grandeza própria, quer arruinando o governo – seu patrão – quer oprimindo a outros contra a vontade desse. Se, por outro lado, não forem líderes valorosos, por este mesmo motivo arruinarão o governo.[2]

Blog Junho – A presidenta escolheu mal seus ministros ?

Machiavelli – Certamente. Não é de pouca importância, para a presidenta, a escolha de seus ministros, que serão bons ou maus de acordo com sua prudência. A primeira conjectura que se faz a respeito da inteligência da governante baseia-se na observação das pessoas que tem em torno de si. Se estas forem competentes e fiéis, a presidenta pode ser reputada sábia, porque soube reconhecê-las como competentes e mantê-las fiéis. Mas é evidente, neste caso, que não são nem competentes nem fieis. E quando não são nem uma coisa nem outra, sempre se pode fazer mau juízo da governante, pois esta cometeu um grande erro em suas escolhas.[3]

Blog Junho – Mas como ela deveria proceder?

Machiavelli – Há um modo infalível pelo qual a presidenta poderia conhecer e escolher seus ministros, e o mesmo poderia servir para a escolha de seu vice-presidente. Quando vês que um ministro ou o vice-presidente pensa mais em si mesmo do que em ti e, em todas as ações, busca primeiro o seu próprio benefício, jamais serão bons conselheiros. Por outro lado, a presidenta, para conservar sua lealdade, deve pensar no ministro ou no vice-presidente concedendo-lhe honrarias e riquezas, obsequiando-o e compartilhando com ele as honras e responsabilidades. Desse modo, seus escolhidos perceberão que não podem passar sem essas; as inúmeras honrarias dispensá-los-ão de desejar mais outras honrarias; as muitas riquezas de desejar mais riquezas e as múltiplas atribuições os farão recear as mudanças. Portanto, enquanto os ministros e o vice-presidente agirem assim em relação à presidenta e esta em relação a eles, poderão todos confiar uns nos outros; caso contrário, sempre haverá um fim mau para alguns deles.[4]

Blog Junho – O senhor acha que a presidenta Dilma Rousseff errou ao fortalecer o PMDB em sua última reforma ministerial?

Machiavelli – Este partido pode ser útil e bom para si mesmo mas, para quem o convoca, é quase sempre nocivo. Quando perde, quem está no governo é derrotado junto com ele e, quando vence, aprisiona seu mandante.[5] Sem ter a força necessária para governar o Brasil, o PMDB não tem deixado que outro partido governe sozinho o país. E foi por estar submetido a vários partidos e lideranças, dos quais nasceram tanta desunião e tanta fraqueza, que o Brasil se tornou presa não só dos banqueiros quanto de qualquer um que o ataque.[6]

Blog Junho – O ministro Joaquim Levy é um fator de estabilidade ou instabilidade para o governo?

Machiavelli – No governo, Joaquim Levy obedece  aos banqueiros, assim como Henrique Meirelles obedecera. Quem governa com a ajuda dos grandes banqueiros, empresários e apoiado nos partidos tradicionais mantém-se com mais dificuldade do que se governasse com o povo, porque nesse caso se vê cercado de muitos que sentem-se como seus iguais, não podendo, por isso, comandá-los nem manejá-los a seu modo. Mas quem chega ao governo com o apoio popular e contra os poderosos, encontra-se sozinho e não tem em torno de si ninguém ou pouquíssimos que não estejam prontos a obedecê-lo. Além disso, é importante lembrar que não se pode aplacar a ambição dos poderosos sem atacar direitos sociais e injuriar os mais pobres e necessitados. Por outro lado, se o governo é verdadeiramente popular, o povo pode ser satisfeito porque seus fins são mais honestos que os dos poderosos, visto que estes querem oprimir enquanto aqueles querem não ser oprimidos.[7]

Blog Junho – Interessante. Em 2014, Dilma Roussef se reelegeu com o apoio de muitos sindicatos e movimentos sociais, com significativo apoio popular. Nesse contexto, afirmou que não diminuiria direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa”. Mas a primeira coisa que fez foi cortar direitos. Ela deveria ter mantido sua promessa?

Machiavelli – Quem se elege graças ao apoio dos sindicatos e dos movimentos sociais deveria manter sua amizade, o que seria fácil, pois tudo que lhe pedem é não serem oprimidos. Também quem se torna presidente pelo favor dos grandes e contra o povo deve, assim que eleito, procurar conquistar o apoio popular, o que também é fácil se expandir os direitos sociais. Como o povo se liga mais ao seu benfeitor se recebe o bem quando espera o mal, neste último caso, os sindicatos e movimentos sociais se tornam mais rapidamente favoráveis ao governante do que se ele tivesse sido conduzido à presidência graças ao seu apoio. O que quero dizer é que o governante pode conquistar o apoio popular de vários modos, dos quais não se pode dar uma regra certa, pois variam segundo a situação. Concluirei somente que parece necessário à presidenta ter o povo como amigo, o que não tem conseguido devido a sua política econômica; caso contrário, não terá remédio na adversidade e poderá ser vítima da oposição.[8]

Blog Junho – A impopularidade do governo Dilma Rousseff é o combustível do impeachment?

Machiavelli – Certamente. Um governante deve ter em pouca conta as conspirações enquanto o povo lhe for favorável mas, quando este se tornar seu inimigo ou lhe tiver ódio, deverá temer todas as coisas e todo mundo. Os estados organizados e políticos sábios têm aplicado toda diligência em satisfazer o povo e fazê-lo contente, porque esta é uma das principais funções que cabem a um governante. Como já disse, a presidenta deve escolher de que lado vai ficar, se do lado dos banqueiros ou do lado do povo. Não podendo a presidenta deixar de ser odiada por alguém, deveria, em princípio, esforçar-se para não ser odiada pelos trabalhadores e pelos movimentos sociais.[9]

Blog Junho – O Partido dos Trabalhadores corre o risco de sofrer o impeachment? Ainda pode virar o jogo?

Machiavelli – O Partido dos Trabalhadores manteve o governo por muitos anos e, se o perder, não poderá culpar a fortuna. Deverá responsabilizar-se por sua própria indolência por não ter jamais, em épocas de crescimento econômico, pensado que os tempos poderiam mudar. É um defeito comum entre as pessoas não levar em conta a tempestade durante a bonança, mas na política esse descuido tem um preço alto. Mas, ao que tudo indica, nestes tempos progressivamente adversos, o PT pensa apenas em terminar o mandato e não em defender-se, esperando que o povo, cansado da insolência da oposição, os chame de volta elegendo mais uma vez Lula da Silva. Este caminho, à falta de outros, pode até revelar-se ser eficaz em curto prazo para o partido; porém, as consequências do abandono de outras soluções para adotar esta são irreversíveis. Um partido governante não deve jamais entregar-se aos desmandos da fortuna, evitar a edificação de recursos políticos próprios e supor imaginativamente que encontrará alguém para reergue-lo. Isto é coisa que pode acontecer ou não e, quando acontece, não contribui para sua segurança, pois esta defesa é vil e não dependeu dele. Certamente, as defesas só são boas, seguras e duráveis quando depender do próprio partido e de sua virtù.[10] Estes atributos não parecem mais combinar com a política do PT.

Notas: 

[1] Il principe, cap. xiii

[2] idem.

[3] Il principe, cap. xxii.

[4] Idem.

[5] Idem.

[6] Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio, l. 1, cap. 12.

[7] Il principe, cap. ix.

[8] Idem.

[9] Il principe, cap. xix.

[10] Il principe, cap. xxiv.