Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Machistas não passarão! Comentários sobre a prova do ENEM 2015.

Thaiz Senna

Deveria ser apenas mais um tema na redação do ENEM. Mas não. Um tema que problematiza uma questão tão cotidiana na sociedade brasileira é comemorado por feministas de todo o país como uma vitória. É a primeira vez na história da prova que a questão feminina é colocada. A primeira vez que o gênero feminino é citado na frase-tema. Como mulher, estou me sentindo uma estrangeira que passou a ser citada nos problemas do cotidiano brasileiro. Como feminista, estou eufórica.

Eufórica, sim. Mas consciente de que essa euforia é por algo que deveria ser banal. Afinal, as mulheres, indivíduos que são parte da sociedade, terem seus problemas colocados em um tema de redação deveria ser algo corrente – como são colocados os outros problemas, como a embriaguez no trânsito, o desmatamento, a ética nacional. Mas não é. A alegria das feministas em ganharam uma[1] (apenas uma!) questão que representasse as mulheres mostra bem o quanto falta de nós no mundo da política, da educação, da sociedade – no mundo fora de casa.

Assim, uma questão que se referia à filosofia e a um movimento social (como tantas outras) e um tema de redação, que falava sobre um problema social (como tantos outros) levou aos sorriso aqueles que se importam com a visibilidade dos problemas da sociedade – e não apenas dos homens. Uma das provas que essa alegria não foi infundada foram as reações à redação. Dos comentários revoltados dos candidatos até às postagens dos deputados Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, símbolos do atraso político brasileiro, deu para perceber que o tema da redação e também a questão que citava a feminista Simone Beauvoir incomodaram – e muito.

Uma de suas reações foi contra a citação da filósofa: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Tirado de sua obra “O segundo sexo”, de 1949, quando nem a Segunda Onda Feminista tinha estourado, nem, muito menos, a luta dos movimentos trans, a frase ressalta o caráter histórico e social do ser-mulher, ao invés do apenas biológico. No entanto, os dois deputados, tal como diversos outros indivíduos, resolveram por relacionar tal frase à transexualidade e ao movimento do século XXI de deixar a criança autodeterminar seu próprio gênero.

O que podemos dizer de críticas tão contundentes a uma visibilidade de um problema que atinge as mulheres diariamente? Se a direita brasileira está reclamando sobre Beauvoir e o combate à violência de gênero, é porque, com certeza, está sendo incomodada. E não apenas isso: está incomodada, pois o seu lugar histórico de de poder está sendo balançado – ainda que tão pouco, diante do que poderia ser. Como foi comentado na rede, as pessoas que se atrasaram para o ENEM e tiveram seu sofrimento filmado e divulgado em rede nacional, como merecedores daquela situação (ainda que possíveis vítimas de condições não relacionadas a eles, como problemas no transporte público, mal-estar, etc.), atrasaram-se por minutos. Já os críticos da frase-tema do ENEM, por outro lado, estão atrasados por séculos.

Estou eufórica, sim. Mas consciente de que não há nada de revolucionário na proposta temática: ela propõe a discussão de um problema que sequer deveria existir, muito menos com a proporção gigantesca que ocorre no Brasil. Mas, dado o tamanho do ENEM, a proposta de redação, tão esperada pelos vestibulandos, é muito mais que uma frase-tema. É a oportunidade do governo mostrar algo para os sete milhões de candidatos, os pais, a mídia, e todo o resto da população: é uma propaganda política.

Como propaganda política, o governo tenta, por um lado, conscientizar a população do problema, na medida em que o declara como tal. Por outro lado, nas entrelinhas e considerando o contexto atual do Brasil, podemos perceber também um foco positivo na presidente – uma mulher – contra, inclusive, um ataque ao adversário Aécio Neves que, conforme veio a público, ainda que não de forma massificada, violentou sua mulher.

Como propaganda política, o tema também, claramente, não é revolucionário. Não engloba diretamente as questões de classe, tão relacionadas às questões de gênero; as criminalizações abusivas, como a do aborto, que está ganhando terreno nos dias atuais; a falta de assistências de todo o tipo à mulher brasileira – desde creches, refeitórios públicos, até anticoncepcionais; a cultura do estupro e da posse do homem sobre a mulher; as muitas jornadas de trabalho realizadas pela mulher pobre brasileira, que trabalha, estuda, cuida dos filhos… e, sim, ainda é agredida pelo marido.

Mesmo não sendo revolucionário, o ENEM criou reações curiosas entre a direita brasileira. Uma das mais generalizadas, e também sintomáticas, relacionava de forma direta o suposto feminismo da prova com a esquerda. Sabemos que há inúmeras correntes feministas, incluindo as que mesclam o movimento com ideias reacionárias. Sabemos também que a prova, com o governo que a produz, não tem caráter de esquerda (nem em seu conteúdo, nem na estrutura educacional que propõe). No entanto, a palavra “doutrinação” foi recorrente nas reações. Essa doutrinação significaria o quê? Ensinar os homens a não baterem nas mulheres? Se for isso, esperemso que a doutrinação continue, pois muitas mulheres serão salvas por causa dela. Mas no submundo dos comentários nas redes sociais, nada conseguia ficar claro, além dos xingamentos ao governo e às feministas. Contudo, uma coisa é clara: se a direita brasileira está relacionando o combate à violência contra a mulher a movimentos de esquerda, isso diz muito sobre qual direita nós temos.

Como propaganda política, o tema é também uma resposta à sociedade. Nos últimos anos, os ecos da década de 1960 advém com novos formatos, reivindicando a posse sobre o próprio corpo – esse corpo, tão ultrajado pelos agressores. As vozes dos movimentos anti-opressão crescem com a internet. É uma resposta a tudo isso. Mas também é uma máscara: não devemos acreditar a benevolência do governo e nos esquecermos dos ataques cruciais que estão fazendo, desde as leis que dificultam o aborto, que ocorreu em um dia desses, até o corte de verbas da pasta de mulheres, que ocorreu assim que a Dilma assumiu o primeiro governo.

Mas foi, de fato, importante. Foram milhões sendo obrigados a refletir sobre um tema silenciado. Talvez o tema desse ano funcione como um pequeno degrau para aquela mulher que, além de trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, tendo pouquíssimo ou nenhum tempo para estudar, sofre agressões contínuas – um pequeno degrau para a desnaturalização dessa e para quem sabe até sua própria nota no ENEM.

Foi importante também, pois explicita a existência inegável da violência contra mulher, como também a sua permanência, impossibilita, ao contrário de parte dos temas, qualquer negação dos fatos. Caso alguém o tente, usufruindo talvez de citações como a de Nelson Rodrigues (“Toda mulher gosta de apanhar”), facilmente isso será caracterizado como ataque aos direitos humanos, levando à anulação do texto e à nota zero. Falta de argumento de homens que simplesmente não conseguem enxergar o problema fora dos termos “vitimização” e da “agressão merecida” e tangência do tema, ao responder que a violência, na verdade, não existe, também serão problemas correntes.

A frase-tema, de fato, não põe em debate a violência: ela a afirma. Ainda que estudantes bem preparados, em escolas que têm essa redação como principal objetivo de existência (e não a discussão saudável, desenvolvimento do senso crítico, etc.) consigam burlar em algum grau o próprio machismo e criar tese e argumentos contrários às suas convicções, superando também seus próprios atos falhos, isso será bem mais difícil do que em temas como “Lei Seca” e “Olimpíadas” – e forçará os candidatos a escreverem aquilo que eles sempre ridicularizam.

Entendemos que, então, dessa vez não será apenas a classe trabalhadora mais pobre, que não tem acesso a cursos pré-vestibulares e escolas de qualidade, que vai ficar de fora do ENEM. Parece que os machistas também não passarão. Assim, ainda que com todos os poréns, o tema do ENEM 2016 é uma vitória das mulheres: em última instância, ao menos, nas próximas calouradas, haverá menos machistas participando.

Nota

[1] Refiro-me à questão sobre a Simone de Beauvoir, a nº1 da prova do ENEM: http://bit.ly/1PQokiu