Ilustração de Oadilos
Ilustração de Oadilos

Mãe só uma (nenhuma, cem mil)

 

Daniela Mussi

Os ingressos são caros, os bons filmes não raro duram poucos dias em cartaz e seus horários são ruins. As salas mofadas alternativas, com suas pequenas poltronas de veludo vermelho, quase não existem mais. As salas de cinema sobrantes se renderam aos shopping centers e à pirotecnia tridimensional. Justamente por isso elas não serão capazes de projetar o charme e o perfume da renovação pela qual o cinema brasileiro passa.

É do italiano Francesco De Sanctis a ideia de que a crítica emerge quando o Estado desmorona e, da mesma forma, o cinema brasileiro volta a brilhar, sozinho e invisível, nos festivais internacionais. O grande público o ignora. Na verdade, o “grande público” está em crise. Sua última catarse – cujo eco ainda podemos sentir vibrar em 2013 – fez as margens das avenidas parecerem justas, assim como as curvas de Niemeyer. Em sua fúria, o gozo deste espetáculo voltou-se contra o grande público e o cindiu.

Sem poder dizer de si, sem saber de si, o grande público balbuciou palavras incompreensíveis em tempos discordantes. Sua língua foi cindida de maneira irrecuperável e desta boca oscilaram vozes descontínuas, ventríloquas de um corpo confuso, pesado e dissolvente. Em suas fibras dissonantes se agarraram todas as músicas, todas as literaturas, todas as orações e todos os programas partidários. Tudo aquilo que antes reconhecíamos por cultura.

O recém lançado Mãe só há uma, da diretora Anna Muylaert, é um filme sobre este processo de decomposição subjetiva e toma sequestro como metáfora da existência. O filme é baseado em uma história real do Brasil dos anos 1990, quando um adolescente descobriu ter sido sequestrado na maternidade por uma mulher e foi devolvido aos pais biológicos. A cobertura midiática na época foi extensa nos telejornais e, alguns anos mais tarde, o caso foi o tema de uma telenovela bastante popular. No filme de Muylaert, por sua vez, o sequestro reaparece como marcação rítmica, a violência do acontecimento é proposta como princípio, meio e fim da construção das personagens. O sujeito que daí emerge – a vítima do sequestro – é estranho, clandestino, alheio, desinteressado. Suas raízes são como o emaranhado de fios castanhos que lhe cobre os olhos e não permite o contato direto, o encontro vital, com alguma tradição ou modelo. A marca deste sujeito é a ambiguidade, nascida no silêncio impaciente e na aceitação inquieta.

Há no filme uma reconstrução crítica da vida suburbana – uma modalidade bastante conhecida de nossas periferias urbanas – e de seus contos de fada grotescos. O filme nega este sujeito suburbano mitológico e sua ambição por ser descoberto em meio a multidão, por ascender socialmente. As telenovelas não se cansam de representa-lo porque a audiência não se cansa de admira-lo. Mas no filme de Muylaert, este sujeito é alheio ao mito e parece carregar o segredo do estrangeiro. Ele não nasceu ali e não pode viver ali. Mas tampouco poderá viver em outro lugar.

Paulo Gajanigo notou, em sua crítica a Que horas ela volta? publicada no Blog Junho, certo anacronismo na representação da vida periférica brasileira no contexto de crise do lulismo com modelo de governo. Esta crise se aprofundou desde então e Mãe só há uma é lançado em pleno desenrolar de um golpe parlamentar e do avanço do conservadorismo e de ataques aos direitos sociais no Brasil. Ambos filmes representam a figura materna, mas neste novo filme a construção subjetiva possível a partir da diferença cultural e geracional (entre mãe empregada doméstica e filha que pretende cursar a universidade) cede espaço para a desconstrução subjetiva acelerada pela semelhança biológica (entre mãe e filho sequestrado).

Nos dois filmes, contudo, há em comum a negação da figura materna que se impõe sem legitimidade. Mãe só há uma evoca o problema da legitimidade na construção subjetiva e, metaforicamente, propõe a reflexão sobre a edificação das instituições, da lei, da nação. Este problema já estava em Que horas ela volta?, mas agora ele assume toda força e centralidade. O empuxo corrosivo do filme nos leva a negar a unidade que o título anuncia. Mãe não há só uma e onde tudo impõe a escolha de um, o nenhum triunfa. É interessante que deste triunfo do desinteresse pela unidade, emerge de maneira aguda o interesse pelo singular, e a exploração da intimidade e da sexualidade ganha espaço. Deste mergulho, então, parecem emergir novas formas de confronto subjetivo e cultural.

Nos últimos anos, a sexualidade e o gênero se tornaram fins e meios de enfrentamento e autoafirmação importantes e ainda pouco compreendidos no Brasil. O percurso até este lugar é trágico, não linear e compromete a separação rígida entre o público e o privado. Esta trajetória de lutas não pode ser entendida sem pensar em uma crise da unidade subjetiva, cultural, nacional. Tampouco pode ser interpretada sem que se pense seu alcance: em que medida a vivência radical nascida da crise da unidade subjetiva pode dar lugar a uma construção subjetiva nova? O filme de Muylaert se propõe a representar este momento sutilmente ao final, na cena em que o filho sequestrado planeja encontrar a irmã de quem fora afastado.

A reflexão sobre o problema da nova subjetividade poderia tomar como ponto de partida um problema incômodo: como passar do político à política? Ao contrário do que pode parecer, esta não se trata de uma questão qualitativa, ou seja, de negar algum aspecto da experiência individual ou da vivência específica dos sujeitos. A passagem do político à política é um problema de escala. E, neste sentido, as melhores imagens para representa-la são justamente a da procura e do encontro, escolhidas para fechar Mãe, só há uma. “Quem procura, acha” é uma expressão usada comumente como estigma, para identificar alguém que está fazendo ou em vias de fazer o que não deveria. É quase uma ameaça. Sob outro significado, porém, trata-se de uma expressão útil para a passagem do político – que é a descoberta conflitiva do sujeito, íntima e intransferível – à política – o lugar do reconhecimento, da ação coletiva e de novos conflitos.

O encontro nunca é pré-definido, mas a procura o evoca. Também não é o lugar do reconhecimento homogênero, mas do estranhamento e do possível. Na passagem do político à política apresentam-se aliados e adversários. Aqui, Mãe não há uma, ou nenhuma, mas cem mil. Tal como o filme evoca, o encontro das subjetividades sequestradas não é certo e tampouco é a certa a reconstrução da unidade perdida.

Mas não pode haver o novo senão em outras escala, que apenas a multiplicação do encontro possibilita. Visto por esta perspectiva, podemos aproveitar certo o charme irônico de Mãe só há uma. Talvez isso seja um pouco demais para as intenções do filme. Mas não é demais para o público. Ele é grande.