Ilustração de Antônio Máximo
Ilustração de Antônio Máximo

Mariátegui e a Revolução Russa

Sydnei Melo

José Carlos Mariátegui (1894-1930) é certamente um dos intelectuais marxistas mais importantes que viveram na América Latina. Militante dedicado, e com uma espantosa produção periodística, o autor dos 7 ensayos de interpretación de la realidad peruana foi o principal responsável pela organização do movimento socialista no Peru: Mariátegui dedicou-se à criação de um projeto editorial voltado à formação política e cultural da classe trabalhadora local, materializada na fundação da Editora Minerva e na publicação da revista Amauta (1926-1930) e do periódico Labor (1928-1929). O socialista também foi responsável pela fundação do Partido Socialista Peruano (outubro de 1928) e da Confederación General de Trabajadores del Perú, a CGTP (maio de 1929), fatos que representaram um importante avanço na organização da esquerda peruana, com marca profunda no desenvolvimento das lutas políticas e sociais ocorridas ao longo do século XX naquele país (cf. ARICÓ, 1987, p. 444-445; BRUCKMANN, 2009, p. 76-77, 81).

Em sua obra, entre os diversos temas a que dedicou sua pena, a Revolução Russa também surge como um importante objeto de reflexão. Tais análises seriam divulgadas por meio de diferentes veículos de comunicação (como o jornal peruano El Tiempo e as revistas Variedades e Mundial), conferências ministradas pelo jornalista nos anos de 1923-1924 junto às Universidades Populares González Prada, e textos publicados originalmente no primeiro livro lançado por Mariátegui, La escena contemporánea, de 1925. Apesar de não ter visitado a Rússia em sua passagem pela Europa, o conhecimento que Mariátegui dispunha sobre a experiência soviética proveio da leitura de veículos de imprensa internacionais e de livros publicados por autores como Edouard Herriot, Anatole de Monzie, Luc Durtain, Alvarez de Vayo, entre outros (cf. PERICÁS, 2012, p. 25). Entre as conferências sobre a Historia de la crisis mundial, Mariátegui ministrou três exposições aos estudantes e trabalhadores de Lima sobre o episódio da revolução, as instituições do novo regime russo e a biografia política de sua principal liderança, V. I. Lenin. Indagado sobre qual seria o movimento revolucionário idealista de maior transcendência em sua época, consideraria ser este, incontestavelmente, o movimento da Revolução Russa (MARIÁTEGUI, 1987, p. 158). As revistas Amauta (1926-1930) e Labor (1928-1929), ambas editadas pelo jornalista peruano, publicaram diversos textos produzidos por intelectuais soviéticos e por colaboradores peruanos e estrangeiros, que escreveram sobre arte, cultura, economia e política relacionados à Rússia (cf. PERICÁS, 2012, p. 27-29). Mariátegui também demonstrou ter grande conhecimento sobre a produção literária russa, à qual dedicou diversos artigos, e apontou alguns escritores russos entre seus favoritos, como o poeta Alexander Blok e os romancistas Leonid Andreiev e Máximo Gorki (MARIÁTEGUI, 1987, p. 139).

Em seus artigos e ensaios, Mariátegui buscou discorrer sobre uma revolução que permeou diferentes esferas da vida de homens e mulheres, entre a política e a cultura. Nas sessões a seguir, buscaremos demonstrar mais detidamente os posicionamentos do Amauta sobre certos aspectos que abordou em relação à Revolução Russa.

A defesa da Revolução

Os textos do Amauta demonstram posições claramente favoráveis ao processo histórico e político desencadeado pelos bolcheviques em outubro de 1917. Nosso autor considerava que, apesar de possíveis divergências existirem entre diferentes grupos socialistas, a Revolução Russa sempre seria, para o proletariado, o “princípio da revolução social”[1] (MARIÁTEGUI, 2012, p. 47). Mariátegui não apenas elevava a Revolução Russa a um alto patamar político, como também conectava o progresso das lutas socialistas ao momento histórico de declínio da “civilização europeia” – que seria, por sua vez, representação da destruição da “civilização capitalista”: “esta civilização [capitalista] contém o embrião de uma nova civilização. E, como todas as civilizações, está destinada a extinguir-se”[2] (MARIÁTEGUI, 2012, p. 53).

Em um contexto de fortes disputas ideológicas, que contrapunham críticos e defensores do regime soviético na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, Mariátegui assumiu a postura de divulgação e defesa da URSS, realizando tal tarefa por meio de leituras da conjuntura política internacional e redigindo biografias das principais lideranças políticas russas como George Tchitcherin, Anatóli Lunatcharski, Grigori Zinoviev, Félix Dzerzhinsky, Leonid Krassin, além de Lenin e Leon Trótsky. Procurando retratar para o público peruano o que ocorria no interior da URSS, Mariátegui teceu comentários sobre a organização política dos sovietes, a representatividade popular dos bolcheviques, a política diplomática soviética, a preocupação do novo governo com os temas da educação e da cultura. Nos textos usados em suas conferências de 1923-1924 há também alguns comentários – não desenvolvidos, apenas como notas – sobre o problema religioso na URSS, a política econômica do país, as polêmicas com social-democratas e anarquistas, e o papel político das mulheres. Este último tema será objeto de um artigo escrito em 1924 pelo Amauta[3].

Por outro lado, podemos reconhecer criticamente o fato de Mariátegui não considerar, de forma mais consistente, a ocorrência de problemas internos ao modelo soviético, especialmente no que tange às dissensões políticas no interior do governo russo[4]. A questão é abordada por Luiz Bernardo Pericás, que sugere que as descrições e análises dos personagens da revolução, unidimensionais e laudatórias em certos momentos, deixariam de mostrar as particularidades e os problemas intrínsecos a cada um deles, seja em relação ao caráter ou personalidade dos mesmos, seja por meio de aspectos teóricos ou políticos (PERICÁS, 2012, p. 33).

Os textos de Mariátegui, de fato, refletem várias posições otimistas sobre o governo soviético. Se sabemos que Mariátegui dependeu fundamentalmente de comentários de terceiros para estudar a realidade sociopolítica russa, e que a Revolução Russa, sistematicamente atacada pela imprensa burguesa de vários países, representava um importante ideal de transformação para diversos movimentos operários e socialistas em outras partes do mundo, torna-se necessário ler de forma cautelosa os escritos do Amauta, reconhecendo certos limites de sua leitura que possivelmente se conectam às disputas ideológicas de seu tempo.

Uma “nova literatura russa”

Mariátegui também dedicou muitas páginas à literatura russa, especialmente ao que definiu como a “nova literatura russa”, aquela que seria verdadeiramente realista em razão de suas origens no contexto da revolução. Esta literatura se contraporia a uma “literatura dos emigrados”, voltada somente ao insulto do bolchevismo, e que seria de qualidade inferior. Tomando Trotsky como referência, Mariátegui dirá que não há literatura que viva e cresça sem raízes em uma sociedade e um povo viventes:

“a velha Rússia morreu. A literatura que se alimentava de sua seiva e de sua realidade não pode subsistir. Suas raízes secaram. A única literatura russa possível é a que, contrastando-a ou servindo-a, se nutra da nova vida russa”[5] (MARIÁTEGUI, 2012, p. 140-141).

Mariátegui versará sobre romances de autores como Lidia Seifulina, Leonid Leonov, Mikhail Artsibachev, Fedor Gladkov, Konstantin Fedin, Nikolai Ognev, Larissa Reissner e Alexander Fadeiev, e também comentará escritores russos já muito prestigiados à época, como Leon Tolstoi, Fiódor Dostoiévski e Máximo Gorki – este último, inclusive, seria pessoalmente entrevistado por Mariátegui em dezembro de 1922, na Alemanha. Poetas, como Blok, Vladimir Maiakovski e Sergei Essenin também são analisados pelo Amauta. Aliás, o socialista argumentará, a respeito do impulso poético do contexto revolucionário[6], que

“a revolução que recebeu a adesão dos poetas (…) encontrou, por outro lado, hostis os romancistas. E de romancistas, críticos, historiógrafos, etc., está composto o conjunto maior dos ’emigrados’. A Poesia votou pela revolução”[7] (MARIÁTEGUI, 2012, p. 177).

Mariátegui buscou apresentar, portanto, um “realismo proletário” que seria a melhor manifestação da literatura produzida nos anos da revolução, afastada do viés romântico e burguês, e baseada nas dores, angústias e tragédias que marcam a luta de uma classe para criar uma nova ordem[8] (MARIÁTEGUI, 2012, p. 272-273). Os limites desta leitura também devem ser considerados, afinal, daquilo que Mariátegui definia como “literatura dos emigrados”, nomes importantes como Ivan Bunin e Vladimir Nabokov foram negligenciados. O Amauta era bastante otimista a respeito de autores “realistas” que, estando ainda muito longe de se compararem a nomes como Dostoievski e Tolstoi, seriam posteriormente secundados ou esquecidos no conjunto da literatura universal – especialmente se considerarmos que alguns destes escritores, confrontados com o “realismo socialista” das décadas seguintes, seriam perseguidos, senão executados, ou obrigados a elaborar seus trabalhos em conformidade com os padrões estéticos e conteudísticos propostos pelo PCUS. Pericás comenta que, se a literatura ocidental permaneceu pujante e produzindo grandes autores e romances durante todo o século XX, na URSS a produção artística, em geral, se caracterizaria por obras de qualidade questionável (PERICÁS, 2012, p. 32-33).

Trotsky

O Amauta demonstra admiração por Leon Trotsky, definindo-o como um dos personagens mais interessantes da história contemporânea – “condottiere da Revolução Russa, organizador e animador do Exército Vermelho, pensador e crítico brilhante do comunismo”[9] (MARIÁTEGUI, 2012, p. 89) – e exaltando, em um texto exclusivamente dedicado ao líder bolchevique, suas preocupações filosóficas, artísticas e literárias[10]. Em fevereiro de 1929, Mariátegui afirmaria que a Revolução Russa devia seu valor internacional, ecumênico, bem como seu caráter de fenômeno percursor do surgimento de uma nova civilização, ao pensamento de Trotsky:

“sem uma crítica vigilante (que é a melhor prova de vitalidade do partido bolchevique), o governo soviético correria provavelmente o risco de cair num burocratismo formalista e mecânico” (MARIÁTEGUI, 2012, p. 201).

Contudo, Mariátegui apontaria em seus textos um balanço crítico das ideias trotskistas no que diz respeito ao potencial de tais ideias para a consolidação do programa marxista na URSS. Se o Amauta considera a crítica radical como parte essencial da oposição trotskista à direção do partido bolchevique, as propostas para temas como a política agrária e industrial, a luta contra o burocratismo e o espírito da NEP, não seriam capazes de se condensar em fórmulas concretas e precisas, carecendo de solidez. E o caráter internacionalista de seu pensamento, capaz de posicionar Trostky entre os mais alertas e sagazes críticos de sua época a respeito da “transitória estabilização do capitalismo”, no entanto não lhe daria a força necessária para intervir na prática política russa. Mariátegui acreditou que Stalin e outros quadros da direção soviética demonstravam maior capacidade para a execução de um programa político marxista, por possuírem um sentido mais realista das possibilidades políticas de sua época. Inclusive, o jornalista peruano defenderá que a Revolução Russa encontrava-se em um período de organização nacional: “não se trata, no momento, de estabelecer o socialismo no mundo, mas realizá-lo em uma nação que (…) não deixa de constituir, geográfica e historicamente, uma unidade” (MARIÁTEGUI, 2012, p. 204). Stalin, um “eslavo puro”, seria um dos homens aptos a lidar com os problemas nacionais e o caráter da revolução – ao contrário de Trotsky e outros que viveram sua experiência de formação política no exílio, e por razão da qual reivindicariam perspectivas socialistas para além de suas fronteiras.

Esta análise de Mariátegui certamente suscita questões e investigações. É no início de 1929 que Mariátegui se vincula organicamente à III Internacional, em decorrência de sua designação como membro do Conselho Geral da Liga contra o Imperialismo. Em junho do mesmo ano, representantes do Partido Socialista Peruano apresentam as teses Punto de vista antimperialista e El problema de las razas en América Latina, escritas por Mariátegui com a colaboração de Hugo Pesce, na Primeira Conferência Comunista Latino-americana de Buenos Aires. Tais teses, bem como as ideias de Mariátegui presentes nos 7 ensayos (publicados no ano anterior), foram alvos de várias críticas e polêmicas por parte da representação latino-americana do Comintern, que não aceitavam as reflexões mariateguianas direcionadas à compreensão das especificidades sociais e históricas peruanas e defensora de uma revolução socialista como passo seguinte e fundamental das transformações políticas a serem realizadas no Peru[11].

Reflexões poderiam ser construídas a respeito do peso dos vínculos políticos entre o Amauta e a III Internacional na construção de suas análises, e como as consequentes polêmicas entre ambos impactam os artigos posteriormente publicados até antes de sua morte, em 1930. Em geral, os artigos dedicados à experiência soviética que foram publicados após a divulgação de “O exílio de Trotsky” (23 de fevereiro de 1929) não se detêm de maneira detalhada sobre figuras do governo russo. Mesmo personagens como Stalin, ou Bukharin, dois dos principais dirigentes soviéticos, não recebem grande atenção nos escritos do Amauta. Outra investigação certamente poderia ser feita a respeito da crítica de Mariátegui ao pensamento trotskista e seu “radicalismo teórico”, porém pouco frutífero, na conjuntura revolucionária russa. Onde residiriam as justificativas políticas e teóricas que permitiriam ao Amauta defender, ao menos naquele momento, a condução stalinista da URSS? De que forma tal reflexão se conecta com o modo como enxergava os caminhos da revolução socialista no Peru e na América Latina? Respostas poderiam nos ajudar a identificar os limites de sua leitura. Em razão do contexto histórico em que vivia, sendo a Revolução Russa um exemplo fundamental para os trabalhadores e militantes socialistas de tantas partes do mundo, o fato é que Mariátegui não pôde enxergar o processo que conduziria o Estado soviético ao elevado grau de burocratização e autoritarismo que, aparentemente, as ideias e o discurso de Trotsky teriam ajudado a evitar.

Referências bibliográficas

ARICÓ, José. “O marxismo latino-americano nos anos da Terceira Internacional”. In: HOBSBAWN, Eric (org). História do Marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, v. 8.

BRUCKMANN, Mônica. Mi sangre en mis ideas: Dialéctica y prensa revolucionaria en José Carlos Mariátegui. Caracas, Fundación Editorial el perro y la rana, 2009.

FLORES GALINDO, Alberto. La agonia de Mariátegui: la polémica con la Komintern. Lima, Desco, 1982.

MARIÁTEGUI, José Carlos. La novela y la vida. Lima, Empresa Editora Amauta, 1987.

__________. Revolução Russa: história, política e literatura. São Paulo, Expressão Popular, 2012.

PERICÁS, Luiz Bernardo. “José Carlos Mariátegui e a Rússia”, in: MARIÁTEGUI, José Carlos. Revolução Russa: história, política e literatura. São Paulo, Expressão Popular, 2012.

[1]“A fome na Rússia”, publicado em novembro de 1921.

[2]“O crepúsculo da civilização”, publicado em dezembro de 1922.

[3]“A mulher e a política”, publicado em março de 1924.

[4]Há um curioso comentário de Mariátegui em que afirma, a respeito do exílio de Trotsky, que “sensatamente, o que não devia jamais se esperar é que a empresa de organizar o primeiro grande Estado socialista fosse cumprida por um partido de mais de um milhão de militantes apaixonados (com o acordo da maioria mais um), sem debates nem conflitos violentos”. Em “O exílio de Trotsky”, publicado em fevereiro de 1929 (MARIÁTEGUI, 2012, p. 201-205).

[5]“A nova literatura russa”, publicado em 20 de março de 1926.

[6]“O primeiro período da revolução não foi propício para uma intensa produção literária. Não havia tempo, papel nem humor para livros (…). A falta de papel resultou particularmente hostil à prosa. À poesia basta muito pouco papel. Um verso se deixa aprender de memória ou escrever com fiz sobre um muro. E do outro lado, o ambiente de epopeia da revolução acendia, preferentemente, a imaginação dos poetas” (MARIÁTEGUI, 2012, p. 141).

[7]“Sergei Essenin”, publicado em outubro de 1927.

[8]“O realismo na literatura russa”, publicado em 23 de novembro de 1929.

[9]“O Partido Bolchevique e Trotsky”, publicado em 31 de janeiro de 1925.

[10]“Leon Trotsky”, publicado em La escena contemporánea, 1925.

[11]As posições do Comintern tendiam à homogeneização das conjunturas políticas e econômicas dos países latino-americanos sob a alcunha de “semicoloniais” e à defesa da revolução “democrático-burguesa” como etapa prévia da revolução socialista na região (cf. FLORES GALINDO, 1982, p. 28-33).