Ilustração de Jaime Prades
Ilustração de Jaime Prades

Mercado editorial e universidade: Mário Pedrosa, um caso exemplar?

Josnei Di Carlo

Com o lançamento do livro Pas de politique Mariô!: Mário Pedrosa e a política, de Dainis Karepovs, pela Ateliê Editorial em conjunto com a Fundação Perseu Abramo, poderíamos nos perguntar sobre a relação entre o mercado editorial e a universidade, caso atentarmos para um fato: entre 2001 e 2016, foram defendidas 19 dissertações e três teses sobre Mário Pedrosa (1990-1981), com elas sendo antecedidas, de 1991 a 2001, por cinco livros sobre ele e por quatro livros reunindo parte de sua obra[1]. Refletiremos sobre essa relação, partindo da hipótese que o mercado editorial é um dos fatores que levou os pesquisadores a terem se interessado por Pedrosa no século XXI, embora privilegiando suas colunas de arte, produzidas incessantemente por ele entre 1945 e 1968, e não seus artigos políticos, onde ele analisou a conjuntura para intervir no debate público candente do mesmo período.

Recuando até 1982, ao Mário Pedrosa tornar-se objeto de estudo na universidade pela primeira vez, foram defendidas quatro teses e 23 dissertações sobre Pedrosa; publicados nove livros sobre ele – sendo três publicações de tese ou dissertação –; e organizados sete livros com as obras dele até 2016. Se o número não impressiona, surpreende por ele situar-se, no campo da arte, como colunista de artes visuais, incluindo arquitetura, e, no campo político, na extrema-esquerda, posicionando-se contra o PCB. Retrospectivamente, um marginal nas artes e na política. Com um olhar histórico, nem tão à margem nem tão ao centro, suas colunas de arte e seus artigos políticos foram publicados na grande imprensa da época. Talvez Mário Pedrosa tenha sido um “marginal” que procurou estar no centro do debate artístico e do debate político de seu tempo.

A partir de 2001, sua obra passou a ser um objeto de estudo frequente no Brasil: das 27 dissertações e teses sobre ele cinco foram defendias até 2000. De 2001 a 2016, pós-graduandos não apresentaram uma pesquisa sobre a obra pedrosiana para obter um título de mestre ou de doutor apenas em 2005 e 2009. Para além da expansão da pós-graduação, o mercado editorial é um dos fatores que pode ter alavancado as pesquisas sobre Pedrosa. Em 1991, Otília Arantes publicou Mário Pedrosa – itinerário crítico, analisando os textos de arte do crítico, não só de seu período mais produtivo (1945-1968), mas recuando até os anos 1930 e avançando até os anos 1980. De 1995 a 2000, Otília organizou uma antologia com os textos pedrosianos de artes. O primeiro movimento do mercado editorial em direção a Pedrosa, iniciando em 1991 e prosseguindo até 2001, marcado pelo centenário de seu nascimento no ano anterior, aparentemente desperta o interesse da universidade por ele. Isso pode ser visualizado no gráfico abaixo, com a linha azul da produção acadêmica (PA) e a linha vermelha da produção editorial (PE).

Mercado editorial e universidade. Mário Pedrosa, um caso exemplar. Gráfico

Sendo a tentativa mais completa de se organizar a obra de Pedrosa no campo da arte, Política das artes (1995), Forma e percepção estética (1996), Acadêmicos e modernos (1998) e Modernidade cá e lá (2000) fornecem as fontes para a universidade interessar-se com mais frequência pelo crítico; enquanto Mário Pedrosa – itinerário crítico (1991) os problemas a serem investigados pelos pesquisadores. O mercado editorial, ao pôr em circulação o trabalho de Otília, em certa medida teve poder de agência nas pesquisas acadêmicas sobre Pedrosa.

O recorte, porém, privilegiou sua atuação enquanto crítico de arte. Das 5 dissertações e teses defendidas entre 1982 e 1992, 3 são sobre sua atuação no campo da política e 2 sobre sua atuação no campo da arte. Após 2001, a divisão equitativa dos trabalhos de pós-graduação sobre os dois campos deixou de existir. Passou-se a privilegiar um campo em detrimento do outro, sendo 19 dissertações e teses fundamentando-se em sua obra voltada para o entendimento do fenômeno artístico e apenas 3 em sua obra voltada para a conjuntura política. Como Mário Pedrosa não tinha se consolidado como um objeto de estudo na universidade, um dos fatores que o levou a entrar na agenda de pesquisa no século XXI foi o mercado editorial, ao pô-lo em circulação, através de livros sobre ele e livros com parte de sua produção intelectual lançados no final do século XX. Mas deu-se um recorte, centrando em seus textos de arte. Por quê? Eles estavam sistematizados e parte deles organizados em livros, enquanto sua obra política ainda não. Daí ele vir se consolidando como objeto de estudo no campo da arte e não no campo político desde então.

Certamente, o livro de Dainis Karepovs recém-lançado represente para a obra política de Pedrosa o que o de Otília Arantes representa para a crítica de arte pedrosiana, um manancial de problemas a ser explorado. Mas Pas de politique Mariô! insere-se no segundo momento em que o crítico é posto em circulação pelo mercado editorial. Movimento iniciando em 2011, que não ganhou consistência em razão da Cosac Naify decretar falência logo após começar a lançar uma antologia da obra pedrosiana em 2015[2]. Esse segundo movimento levou Dainis a sistematizar seu conhecimento da vida e da obra de Mário Pedrosa que vem desde os anos 1980, já que ele seria um dos organizadores do volume dedicado à obra política pedrosiana para a Cosac Naify[3]. Movimento que possivelmente se alimentou do ciclo de pesquisas acadêmicas sobre Pedrosa iniciado em 2001. Agora, posto em circulação uma sistematização de sua obra política pelo mercado editorial, através do livro de Dainis, os pós-graduandos têm um caminho rico para investigar a história política brasileira do século XX, através da atuação de um intelectual marxista no centro do debate político, principalmente através da grande imprensa, majoritariamente liberal e, entre os anos 1940 e 1960, alinhada à UDN. Mercado editorial e universidade se retroalimentam. E pesquisadores não escolhem isolados em seu escritório um objeto de estudo, mas dentro do processo social.

Se a análise centra na relação entre o mercado editorial e a universidade para pensarmos uma hipótese que levou Pedrosa a tornar-se um objeto de estudo constante desde a última década, não nega que variáveis podem se entrecruzar. Em outubro de 2001, o acervo de Mário Pedrosa foi doado à Fundação Biblioteca Nacional, com sua organização sendo encerrada em março de 2003, possibilitando sua consulta. Dissertações e teses sobre o crítico defendidas no Rio de Janeiro passaram a predominar a partir de 2006: das 15, 9 são de programas de pós-graduação de lá. Em 28 de outubro de 2002, um dia após o fim das eleições, Lula fez um discurso na Avenida Paulista em que se lembrou do primeiro a assinar o Manifesto de Fundação do PT: “Eu, hoje, estava lembrando, quando fui votar […]. Eu lembrava da figura extraordinária de Mário Pedrosa, que também começou junto conosco esta luta”[4]. Nisso, pesquisadores poderiam investigar algumas matrizes ideológicas do PT, como o trotskismo e o socialismo democrático, marcados pela atuação de Pedrosa nos anos 1930 e anos 1940 em diante, respectivamente. Tanto é que no contexto de formação do PT, duas dissertações defendidas nos anos 1980 voltaram-se para o Vanguarda Socialista, periódico difusor do socialismo democrático dirigido pelo intelectual marxista entre 1945 e 1948; e uma tese defendida em 1992 – publicada no ano seguinte – para sua militância trotskista. Em 2012, foi disponibilizado a Hemeroteca Digital Brasileira, possibilitando a consulta dos jornais em que Mário Pedrosa colaborou periodicamente de 1945 a 1968. Dado as condições materiais, outras causas tinham de se entrecruzar para sua obra política despertar interesse pela universidade, mesmo assim, em 2013, na UFSCar, e 2016, na UFG, apareceram duas dissertações embasadas nessa obra. São agenciamentos externos à universidade, cujos programas de pós-graduação, por motivos vários, também têm os seus.

O mercado editorial, ao pôr em circulação o esforço de sistematização e de organização dos textos pedrosianos de arte de Otília Arantes no final do século XX, contribuiu para Pedrosa entrar na agenda de pesquisa. Como efeito colateral, submergiu um ator político fundamental para entendermos o marxismo e a esquerda no Brasil. “A história do marxismo no Brasil não se poderá fazer sem a referência obrigatória à figura humana e à atuação intelectual de Mário Pedrosa”, afirmou Oliveiros S. Ferreira[5], que não foi o único a admitir publicamente ter sido influenciado por Pedrosa. Hélio Jaguaribe também admitiu: “Fui discípulo de Mário Pedrosa, nessa época, e participei da experiência do Partido Socialista a seu lado”, disse em entrevista ao lembrar-se de sua formação intelectual nos anos 1940[6]. Agora, com o mercado editorial pondo em circulação o trabalho de Dainis Karepovs, a contribuição de Pedrosa à política brasileira ao longo do século XX emerge, podendo nuançar essa agenda de pesquisa. Ficando, porém, um desafio: compreender a obra pedrosiana em sua totalidade, ao se articular consistentemente seus textos de arte com seus textos de política.

Nota

[1] O levantamento foi feito no Currículo Lattes e, posteriormente, nas referências bibliográficas dos trabalhos sobre Mário Pedrosa.

[2] Segundo Francisco Alambert, que seria responsável por um dos volumes da antologia, outra editora comprou os direitos e o projeto de publicar as obras pedrosianas deve seguir adiante. (DI CARLO, Josnei. “Política das artes e arte da pesquisa: entrevista com Francisco Alambert”. Em Tese, v. 13, n. 1, jan./jun. 2016, p. 243-257.)

[3] PAVAM, Rosane. “As reflexões do crítico Mário Pedrosa”. Carta Capital, 27 mai. 2015. https://www.cartacapital.com.br/revista/850/as-reflexoes-do-critico-mario-pedrosa-1951.html. Acesso: 28 jul. 2017.

[4] SILVA, Luiz Inácio Lula da. “Discurso de Lula na Avenida Paulista”. Terra, 28 out. 2002. http://noticias.terra.com.br/eleicoes/interna/0,,OI64590-EI380,00.html. Acesso: 28 jul. 2017.

[5] FERREIRA, Oliveiros S. “A espada e o escudo”. O Estado de S. Paulo, São Paulo, ano III, nº 144, 13 mar. 1983. Cultura, p. 14 [14-15].

[6] MOTA, Lourenço Dantas. “A classe média é o pêndulo do sistema político brasileiro”. In: MOTA, Lourenço Dantas. (Coord.) A história vivida (III). São Paulo: O Estado de S. Paulo, p. 170 [167-202], 1982.)