Colagem de Singh Bean
Colagem de Singh Bean

Mudaram os ministros, e agora?

Eric Gil

Depois de muito ameaçar, finalmente Joaquim Levy deixou nesta sexta-feira o comando do Ministério da Fazenda, posto este que ocupava desde janeiro deste ano. Em seu lugar assumiu o então ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Mas o que isto nos sinalizaria?

Levy é, e sempre foi, o representante exclusivo de uma determinada fração de classe capitalista, a financeira. Ele nem sequer se esforçava para contemplar as outras frações que também compunham as forças que governam o país.

Desde o início Joaquim Levy sempre quis mais: mais juros e mais cortes. Nelson Barbosa, um economista de orientação heterodoxa, sempre foi mais moderado, defendia um ajuste fiscal mais flexível e realista. Sem o compromisso exclusivista com a fração de classe financeira, Barbosa também se preocupou em não afundar de vez a economia com um ajuste recessivo, o que traria consequências eleitorais e diminuiria ainda mais o apoio do restante das classes sociais à Dilma, o que fragilizaria um governo que já está em uma corda bamba.

Em uma queda de braço constante, o Planejamento há alguns meses já se colocava um pouco a frente da Fazenda – é importante lembrar que nem sempre na história do Brasil a Fazenda foi mais importante do que o Planejamento, vide o período da Ditadura Civil-Militar –, ou seja, a política econômica implementada pelo Executivo nos últimos meses já era a de Nelson Barbosa, especialmente a última meta fiscal proposta ao Congresso Nacional, que fechou para 2016 um nível de 0,5% do PIB para superávit primário (Barbosa defendeu ainda uma flexibilização para caso não fosse possível atingir a meta de 0,5% pudessem fechar o ano com 0% de superávit primário, proposta esta derrotada no Congresso e não no Executivo, vale salientar).

Se engana quem (muitos tinham como objetivo se enganar mesmo) achava que o ajuste era de exclusividade do queridinho do mercado financeiro. Como bem lembrou nesta mesma sexta-feira o petista e ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, a política econômica é do governo, os ministros as executam. O ajuste é de Dilma, não de Joaquim Levy. Em discurso de posse de Nelson Barbosa, a posição era a mesma: temos que continuar o ajuste, diminuir custos com a Previdência, flexibilizar os gastos obrigatórios do governo, leiloar os aeroportos e todo aquele longo etc. que já estamos cansados de saber.

Mas isto tudo quer dizer que Joaquim Levy e Nelson Barbosa são iguais? Não, isto é muita simplificação da realidade. Se eles fossem iguais por que então Levy teria pedido demissão do governo? Ele poderia continuar firme e forte a frente da Fazenda já que não possuiria divergências com Dilma e Barbosa. No entanto, como a política econômica aplicada já era a de Nelson Barbosa (que possui, este sim, uma afinidade ideológica com a presidente), o ex-ministro, depois de muito blefar, jogou a toalha.

Então o que esperar? A continuação da atual política econômica, mas não a sua radicalização, como gostaria Levy e Cia. A ideologia econômica que orienta um governo tem importância, mas apenas em certo grau. Ela é, na verdade, reflexo de uma composição social do próprio governo e também se adéqua à realidade vivenciada – apesar de ser a mesma governante, a política de Dilma I se diferencia de Dilma II em muito por conta do atenuante da crise econômica, e posteriormente da crise política. A mudança de ministros não foi uma mudança de orientação política do governo, e sim sua adequação ao que ele realmente é. Levy sempre foi uma pedra no sapato de Dilma, mas não por ela ser contra o ajuste, mas porque tinham visões diferentes sobre como lidar com o ajuste, mais especificamente sobre a sua intensidade.

A mudança servirá para deixar claro que o problema não é o ministro que assume uma pasta, ou gritar Fora Levy!, e poderemos ver o verdadeiro culpado, o governo. Não restarão dúvidas que o garçom que está levando a conta para a mesa dos trabalhadores não é ninguém além da própria Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores e todas as outras forças políticas que compõe o atual governo.