Ilustração de Juliana Lessa
Ilustração de Juliana Lessa

Nós detonamos

Zandria

(Tradução e adaptação Daniela Mussi)

[No ultimo 8 de fevereiro de 2016, a cantora Beyoncé lançou inesperadamente uma nova música e novo videoclipe nas redes sociais. Formation [Formação] foi lançado no mesmo dia da realização de grande evento esportivo anual norteamericano, o Super Bowl, no qual a cantora também se apresentou. Assumindo como tema central a questão racial e social negra, a música e vídeo causaram impacto imediato na opinião pública dos Estados Unidos. Esta passou a se perguntar se a música foi um ato de protesto ou entretenimento, bem como começaram a surgir instigantes interpretações da música e intenções de Beyoncé.

Para trazer este debate ao público brasileiro, o Blog Junho optou por traduzir uma destas interpretações. Longe de fechar questão sobre o tema, o objetivo aqui é aproximar nossos leitores e leitoras dos ângulos em que a música pop norteamericana pode ser discutida. Em especial, dos esforços que articulam a interpretação da música  e a vida política popular.]

Beyoncé não dá a mínima para seu final de semana. O que quer dizer – como a voz de Big Freedia na nova música de Beyoncé, Formation – “Ela não veio para brincar com vocês, vadias. Ela veio para detonar.”[1]

Neste videoclipe ela “detonou”, como sempre, mas com o Sul caindo para as frequências baixas. Enquanto a música No Angel ofereceu uma visão “Texas Bama”[2] de Houston, o visual de Formation apresenta New Orleans como lugar de convergência para a negritude que destrói por meio dos sonhos, trabalho, pertencimento, legado e a audácia dos corpos que ousam se mover e viver diante da morte. Como um espaço real e imaginado de êxtase, tragédia, memória e possibilidade revolucionária para o sul negro, New Orleans é o pêndulo no qual Beyoncé retraça em movimento a genealogia sulista que atravessa o Sul Profundo do Alabama à Lousiana, até o Texas, e de volta, com paradas no meio do caminho.

Mergulhados por entre a paisagem da New Orleans negra, severa e prazerosa, passado e presente, os significados e simulacros do sul negro estão ali, implacáveis. Corpos estão quietos, esperando o movimento e, então, pulsam alto: nos estacionamentos, piscinas vazias, nas ruas, sob cavalos, diante da linha de formação policial, na igreja, na “segunda linha”[3], em uma sala, em espelhos. Beyoncé coloca sua própria e indiferente negritude rural – de cabelos afro, tranças e narizes negros, bebidas escuras, garotas e garotos morenos, molho apimentado e biscoitos de queijo temperados[4] – como diálogo e descendência de uma negritude sulista mais ampla, frequentemente obscurecida e invisível nos discursos nacionais, tida como um espetáculo grotesco, excessivo, decadente.

Por meio desta negritude interiorana indiferente, ela se torna toda negra sulista que é possível encarnar, se deslocando pelo tempo, classe e espaço. No limite, as vozes e a presença de uma identidade de gênero não binária assumem o comando. Estas vozes fazem as perguntas difíceis: “O que aconteceu em New Wildin[5]?”, pergunta Messy Mya da tumba.[6] Beyoncé nos encoraja a escutar esta como uma questão sobre o assassinato de Mya, nunca esclarecido,[7] e também como uma questão sobre a cidade e o povo negro do Sul: “O que aconteceu depois, New Orleans?” Vozes que também nos comandam audaciosamente a detonar, implacavelmente e sempre. Somos, assim, impulsionados para a vida e morte, futuro-presente-passado conjurados pelo vídeo.

A articulação da negritude sulista, aqui, nos convida a teorizar as práticas de resistência negra. Existe a resistência expressiva que levanta e luta, carrega armas e encena golpes. Existe a resistência silenciosa, do tipo mediado sobre o qual fala Kevin Quashie[8]. Desta o protagonista de Invisible Man, de Ralph Ellison, é seu estado de hibernação, o ato de um tipo particular de invisibilidade, que é a “preparação encoberta de uma ação mais explícita”.

Formation é uma forma diferente de resistência prática, enraizada na epistemologia das pessoas às margens da negritude, epistemologia que é muitas vezes visível apenas para elas mesmas. A cientista política Cathy Cohen[9] fala sobre ativismo nestas margens, o tipo de desvio-como-resistência construído e cultivado às margens da negritude respeitável. Formation é, nesse sentido, uma metáfora, uma teoria negra-feminista, negra-queer, da comunidade que se organiza e resiste. É o reconhecimento mútuo de uma negritude “marginal” – feminina, queer, de gênero não binário [genderqueer], trans, pobre, incapacitada, imigrante legal e ilegal – e que antecede ação política evidente.

Para as garotas negras do Sul, uma formação é – por meio de elaboração de gênero – o alinhamento, a quietude, o preparar-se que antecede o requebrado [twerk], o rebolado [turn up], o movimento (social). Para ser bem sucedida, a formação exige coordenação, do tipo que coreógrafos e líderes políticos buscam, do tipo que mulheres negras realizam em bairros e organizações. Para destruir a violência da supremacia hetero-patriarcal branca, precisamos começar – como argumenta Beyoncé – com uma formação adequada. Esta é possível, sustenta, pela participação e liderança da negritude que está na margem.

No vídeo, a celebração das margens – corpos negros em movimento, centralizado pelas vozes femininas – subjuga o Estado, representado pelo carro da New Orleans Police Department (NOPD). Beyoncé – representando cada mulher negra do Sul – parece usar o peso do próprio corpo para afundá-lo, sacrificando-se ao mesmo tempo para tal. Exatamente como tantos e tantos companheiros/as negros/as destas margens, presentes no movimento em defesa do valor de todas as vidas negras. Esta formação é o que emerge do sacrifício.

Formation é uma homenagem e reconhecimento deste trabalho nas ruas das cidades do Sul. Nas “second lines” das cidades e bairros “chocolate”. A negritude do Sul está de volta, como dizia Messy Mya, “como exigência popular”.

(Publicado originalmente em New South Negress.)

Notas:

[1] “[She] did not come to play with you hoes. [She] came to slay, bitch.”

[2] Combinação de Texas e Alabama (N. da T.).

[3] Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Second_line_%28parades%29.

[4] “Cheddar bay biscuits”, na cadeia de restaurantes Red Lobster, muito popular nos Estados Unidos. Ver http://bit.ly/Zc6Khx (N. da T.).

[5] Literalmente “Nova doidera”, o termo em inglês é um jogo fonético com New Orleans (N. da T.).

[6] Messy Mia, comediante trans muito conhecida das redes sociais dos Estados Unidos, assassinada em 2010 em Nova Orleans. Ver http://bit.ly/1nQuCE8 . (N. da T.)

[7] Ver Memmott, Mark. Who Killed Messy Mya? High-Profile New Orleans Murder Trial Halted. NPR, 25 Sept. 2012. Disponível em: http://n.pr/1Qn5Br4

[8] Ver Quashie, Kevin Everod. The sovereignty of quiet: Beyond resistance in black culture. Rutgers University Press, 2012.

[9] Ver Cohen, Cathy J. “Deviance as resistance: A new research agenda for the study of black politics.” Du Bois Review v. 1, n. 1,  p. 27-45, 2004. Disponível em:  http://bit.ly/1UYrXmE

Correção. Inicialmente o verbo “to slay” foi traduzido por “destruir”, mas “detonar” parece expressar melhor a ambiguidade do verbo em português.