Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

O barulho dos inocentes: a revolta dos “homens de bem”

Felipe Demier

“Eu sou um cidadão quase que aposentado. Mas o que me deixa inquieto é o medo que a elite brasileira tem de que eu volte à Presidência da República. É um medo inexplicável, porque nunca eles (empresários e banqueiros) ganharam tanto dinheiro na vida como ganharam no meu governo. Eles deveriam todo dia agradecer e acender uma vela para minha passagem e a da Dilma pelo governo”. (Luís Inácio Lula da Silva)

“O que não faremos com quem nos faz mal, se condenamos quem nos ama?” (Dante Alighieri)

O ano de 2015 já se iniciou sob o signo da reação e do conservadorismo. Houve, entretanto, quem achasse que seria diferente, e não foram poucos. Em uma disputa acirrada com o tucano Aécio Neves no segundo turno das eleições presidenciais do ano anterior – disputa cujo imaginário, a despeito das intenções dos participantes, assumiu a forma de “ricos” x “pobres” –, Dilma teve quer ir alguns milímetros à esquerda de seu programa de campanha original (que nada tinha de esquerda). Essa guinada se deu, é verdade, mais na forma do que no conteúdo. Banners com a fotografia de Dilma retirada do prontuário do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) foram confeccionados e expostos nos comícios da candidata no segundo turno, nos quais, eventualmente, discursos de tom demagógicos contra as “elites” e em favor dos “menos favorecidos” foram proferidos pela ex-guerrilheira, então batizada de “coração valente” pelos seus seguidores mais à esquerda. Procurando enfraquecer eleitoralmente seu opositor e recuperar parte das desiludidas bases eleitorais petistas nos estratos médios de perfil mais democrático, Dilma, sem abdicar de nenhum de seus compromissos com o grande capital, condenou as privatizações dos governos de Fernando Henrique Cardoso (sem, no entanto, cogitar revê-las), prometeu não cortar verbas das áreas sociais e propagandeou os “avanços educacionais” de seu primeiro governo.

Todavia, como disse certa feita um antigo revolucionário alemão, “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Todas as promessas eleitorais da candidata vitoriosa à Presidência da República foram despudoradamente abandonadas, esquecidas como se nunca tivessem sido sequer aventadas por ela há tão pouco tempo. A felonia eleitoral, que se iniciou praticamente após a apuração dos votos no segundo turno, tornou-se ainda mais gritante na medida em que, não satisfeita em abandonar suas promessas de campanha, Dilma Rousseff adotou sordidamente o programa de seu opositor, isto é, do candidato derrotado Aécio Neves – o que não a impediu de continuar sendo admoestada pelos arqui-reacionários articulistas da mídia empresarial que, lunaticamente, a qualificam de “comunista”. A necessidade de jogar os custos da crise econômica sobre os ombros da classe trabalhadora falou mais alto, e a ofensiva do capital sobre o fundo público (como um meio de garantir seus superlucros) faz com que as políticas e direitos sociais – com destaque para a Educação – estejam sendo duramente atacados. As universidades públicas, incluindo suas áreas de pesquisa e pós-graduação, são alvo de um processo de sucateamento de suas instalações e precarização de sua força de trabalho, seja ela qualificada (pesquisadores bolsistas) ou não (limpeza e segurança). Já em relação à Saúde, uma simples fotografia das enfermarias dos hospitais públicos dispensa análises mais aprofundadas. O eixo dessa política neoliberal é o chamado “ajuste fiscal”, capitaneado pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, e reproduzido à escala estadual pelos governantes de turno, sejam eles de oposição ou aliados ao governo federal (com destaque para o tucano Beto Richa, o também tucano Geraldo Alckmin, de São Paulo, e Luiz Fernando Pezão, do PMDB, que, dando continuidade ao trabalho de seu antecessor, Sérgio Cabral, vem realizando um desmantelamento da educação pública sem precedentes no Rio de Janeiro). Já à escala municipal, a deteriorização, nas grandes metrópoles, dos serviços sociais voltados para as ingentes massas se combina com contrarreformas no tecido urbano que buscam adequá-lo cada vez mais aos interesses de investimento/especulação do capital, gentrificando bairros populares e transformando espaços públicos de sociabilidade em condomínios de luxo e shopping centers para uma classe média de parvenus, muitos dos quais, aliás, tinham prometido abandonar o país em caso de vitória de Dilma.

Com mais essa perfídia cometida pelo PT, que desmoralizou, novamente, as parcelas mais politizadas dos setores subalternos, a correlação de forças tornou-se ainda mais favorável ao capital. Em um cenário de crise econômica crescente, com uma classe trabalhadora na defensiva (embora venha levando a cabo numerosas e importantes lutas, greves e ocupações desde 2012), sua vanguarda política ainda alquebrada pelo lulismo, e uma burguesia se sentido cada vez mais politicamente ubíqua a ponto de lançar-se numa ofensiva pela retirada de seus bastardos intermediários petistas no governo federal, o caminho para a reação ficou aberto. Nosso Congresso Nacional, com sua perspicácia típica dos rapaces, não deixaria a oportunidade passar. É como se, parafraseando o clássico personagem de Dostoievsky, nossos deputados e senadores gritassem, em uníssono: “Se a esquerda está morta, então tudo é permitido!”. São nesses tipos de situação histórica, nas quais as grandes transformações sociais se encontram bloqueadas, em que os trabalhadores se encontram politicamente imobilizados porém seu espectro não deixa de assustar “as pessoas da sala de jantar”, é que as farsas podem ser encenadas, ainda que de modo breve. São nessas situações de paralisia histórica, em que nada de verdadeiramente importante pode acontecer, é que se abrem as possibilidades para que ordinárias figuras políticas, até então marginalizadas, saiam das coxias a adentrem o proscênio político do país. Ganham luz, então, sórdidos personagens como Eduardo Cunha, que iniciou sua carreira política apadrinhado pelo taciturno Paulo César Farias (PC Farias), tesoureiro e “testa de ferro” de ninguém menos que Fernando Collor de Mello.

Sob a gestão de Cunha como presidente da Câmara dos Deputados, esta, já livre de quaisquer peias, abriu a caixa de pandora e se pôs a discutir (e, às vezes, a votar e a aprovar) projetos que satisfazem não só o interesse do capital pelo barateamento da força de trabalho no país, como também os desejos mais profundos dos ditos “homens de bem” da sociedade brasileira (incluindo o mais reacionário dos coronéis cariocas de pijama, eleitor de Jair Bolsonaro). Como exemplo mais claro do primeiro caso, lembramos o Projeto de Lei 4330/04, que regulamenta a terceirização em praticamente todos os ramos empresariais. Parado na Câmara havia onze anos, o PL foi resgatado por Cunha e celeremente aprovado na casa, chegando a provocar comentários críticos até mesmo de Renan Calheiros, que, além da “pressa”, condenou também a terceirização das chamadas “atividades-fim”, a qual seria, para o ilibado presidente do Senado, “uma pedalada no direito do trabalhador”. Quanto ao segundo caso, recordamos a recente aprovação (por meio de um coup de main de Cunha) da redução da maioridade penal, que atendeu a clamores dos mesmos meios de comunicação que, aberta ou veladamente, vangloriam a ação de justiceiros que espancam e amarram menores infratores em postes pelas cidades, quando não os matam por meio de linchamentos. Além de bloquearem toda uma pauta referente às liberdades e direitos civis, como a questão da legalização do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e de combate à homofobia e à transfobia, os congressistas parecem se revezar diariamente na tarefa de expor insidiosas propostas, tais como o ensino criacionista nas escolas e outras formas de controle reacionário sobre a educação. Evidentemente, declarações de teor machista, racista e homofóbico não são escassos da parte de alguns conhecidos deputados, com destaque para os que se elegeram para os cargos legislativos valendo-se dos “ministérios” que ocupam no Executivo Celestial.

O Poder Judiciário, por sua própria tradição, não poderia ficar atrás dos demais poderes, sob risco de virar chacota nas caríssimas libações de Brasília. Desde o julgamento do “Mensalão”, o Supremo Tribunal Federal (STF), segundo alguns analistas políticos, assumiu o papel de instrumento da Oposição de Direita ao governo federal. Segundo tais analistas, sua seletividade condenatória é clara, e suas decisões parecem advir mais propriamente das redações jornalísticas do que da livre elaboração dos doutos magistrados. Muitos dos juízes de instâncias inferiores, como os envolvidos na chamada “Operação Lava Jato”, também estariam tomando partido abertamente da oposição direitista dirigida pelos tucanos. O caso do histórico dirigente petista José Dirceu nos parece exemplar. Cumprindo pena em função de sua condenação, pelo STF, no processo referente ao “Mensalão”, Dirceu foi novamente preso (de modo preventivo, a pedido do juiz Sérgio Moro, aplaudido em restaurantes chiques de São Paulo), acusado de envolvimento nos crimes investigados pela “Operação Lava Jato”, e, com a anuência do STF, trocou a prisão domiciliar na capital pela carceragem da Polícia Federal de Curitiba. É bem verdade que, tendo sido Dirceu um dos principais responsáveis pela transformação do PT em um partido da ordem que, tal como os demais, ataca os direitos dos trabalhadores, parte significativa da militância de esquerda tenha assistido com um sorriso de canto de boca a detenção do ex-chefe petista. Ocorre, entretanto, que foi não o transformismo do PT o crime pelo qual Dirceu foi parar, mais uma vez, atrás das grades. Do mesmo modo, não parece ter sido o seu envolvimento em atividades ilícitas (no esquema do “Mensalão”) o real motivo de sua condenação pelo STF, composto de insignes figuras como Gilmar Mendes. Afinal de contas, o tribunal em questão já absolveu políticos como Collor e Malluf, nada fez a respeito dos obscuros processos de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso, e, quando das condenações de Dirceu e cia., anunciou de pronto que não iria anular a votação da (contra)reforma da Previdência, a qual, segundo o próprio tribunal, havia sido aprovada de forma fraudulenta. No mesmo período em que ordenava o primeiro encarceramento de Dirceu e seus comparsas, o STF encerrava, pela chantagem, a briosa greve dos professores do Rio de Janeiro, e dia sim, dia não, punha em liberdade figuras como o banqueiro Daniel Dantas e o assassino de Dorothy Stang.

O fato de, à época, o ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, ter se tornado, para os “homens de bem”, uma espécie de super-herói caçador de petralhas (de capa e tudo!) é apenas uma das múltiplas demonstrações de que o conservadorismo presente nas instituições da democracia blindada possui um significativo lastro social. Assim, por mais que se proclamem contrários “a tudo que está aí”, os revoltados de controle remoto, saibam eles ou não, se encontram muito bem representados em todos os poderes da República – aliás, talvez nunca o tenha sido de forma tão fiel desde o fim da ditadura. Por mais que nas madrugadas das redes sociais vociferem contra o “comunismo corrupto” do Executivo, contra os “ladrões” do Congresso, e contra um ou outro “petista infiltrado” nos tribunais, nossos “homens de bem” têm inteiro acordo com o ajuste fiscal de Levy, com a precarização do trabalho aprovada pelos homens de Cunha e, claro, com as prisões dos políticos que os juízes do STF determinam seletivamente.

O argumento, hoje quase irretorquível, da existência de uma “onda conservadora” no país ganhou força empírica a partir das massivas manifestações do dia 15 de março, as quais se seguiram as do dia 12 de abril, e que agora tornarão a acontecer no dia 16 de agosto (este domingo). Voltando às ruas depois de décadas, a direita vem demonstrando o inegável crescimento de seu ideário, o qual coaduna aspectos ultraliberais com outros tradicionalistas, junto aos setores médios da sociedade brasileira. Convocadas por uma Nova Direita, extremista, internética e adepta de um anticomunismo irascível (Revoltados Online, Movimento Brasil Livre etc.), e dirigidas politicamente pela Oposição de Direita, sob a batuta do PSDB, as manifestações contra o governo Dilma vêm logrando amalgamar toda a fauna e flora reacionária da nossa (já não mais “primitiva e “gelatinosa”) sociedade civil. Vestidos com a camisa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), protestam, em harmonia, tanto as velhas senhoras viúvas da ditadura militar e os saudosistas lacerdistas de jornal embaixo do braço e linguajar forense, quanto os pós-yuppies digitais, os semiletrados com diploma universitário e os nossos novos “empreendedores”, cujo amor por camarotes VIP’s e a admiração por figuras como Luciano Huck impressionam até mesmo os liberais ilustrados da velha guarda. Quase todos brancos, nossos manifestantes nutrem, às vezes não só reconditamente, um ódio aos “quase todos pretos” cadastrados nos programas sociais focalizados e compensatórios do governo federal. Homens e emperiquitadas mulheres “de bem”, consideram que “estão fazendo a sua parte”. Pagam seus “altos impostos” em dia, sabem aproveitar “as oportunidades que o mercado oferece” ao invés de esperar o “paternalismo do Estado” e, eventualmente, até fazem filantropia e optam por marcas com “responsabilidade social” (que ajudam dez crianças na África para cada mil que exploram na Ásia). Em seus nada literários posts no Facebook, afirmam que não têm culpa alguma das injustiças sociais do Brasil. São, portanto, todos eles, “inocentes”, morem no Leblon ou no Morumbi.