Fotografia de André Rodrigues
Fotografia de André Rodrigues

O ciclo econômico, o aniversário do golpe e o futuro da esquerda

Eric Gil

Há um ano Michel Temer assumia a Presidência, concretizando o golpe dado no governo de Dilma Rousseff. Um dos discursos que Temer e sua trupe sustentavam para justificar a retirada de Dilma era que a economia só voltaria a crescer se este governo fosse derrubado. Mas todos nós sabemos o final desta história.

Como os economistas marxistas sempre gostam de lembrar, a economia capitalista se movimenta através de ciclos econômicos, ora em baixa, ora em alta. Este ciclo econômico afeta também a política, pois em época de crise econômica há um ambiente muito mais propenso à crises políticas, ou à “situações de crise”, como Maria Celina D’Araújo prefere classificar momentos que não tenha “produzido uma ruptura institucional nem representado uma transformação estrutural em nosso sistema político” (D’ARAÚJO, 1992). Para quem ainda não se convenceu do papel crucial do econômico nas crises políticas, há também o raciocínio do caso contrário, em momentos de crise ou “situação de crise”, como o do mensalão petista, o grande crescimento econômico da época impede maiores desdobramentos, freando possíveis oposições mais radicalizadas ao governo.

Mas vamos aos dados econômicos.

Em relação ao PIB, Temer já amargou alguns trimestres (os dados oficiais deste ano ainda não foram divulgados oficialmente pelo IBGE) de contração econômica. No segundo semestre de 2016, quando ele dirigiu sozinho a presidência, a queda do PIB foi de 0,7% no terceiro trimestre, relativamente ao segundo, e de 0,9% no quarto trimestre se comparado ao terceiro. No ano a queda ficou em 3,6%. Neste ano de 2017 a estimativa, segundo o Boletim Focus, é de um crescimento do PIB de 0,47%. Esta estimativa se mantém mais ou menos constante desde o final do ano passado.

Já o desemprego não parou de subir. De abril do ano passado para março deste ano o desemprego subiu de 11,2% para 13,7%, dois pontos percentuais e meio em apenas 11 meses, mais ou menos a mesma velocidade do aumento de desemprego do segundo governo Dilma.

Já a taxa de inflação, o dado mais ressaltado pelo governo até agora, de fato caiu. Saiu de 10,67% em 2015 para 6,29% em 2016 e hoje há uma projeção de 4,72% (pelo Boletim Focus) para este ano. Mas a explicação da queda da inflação está longe de ser o “governo”. A inflação aumentou em 2015 em grande parte por reajustes de preços administrados (aqueles preços gerenciados pelo governo, como tarifa de energia, de transporte coletivo, etc.). Além do mais, a inflação também caiu neste último um ano e meio por conta do aumento do desemprego e da renda da população. Se há tantos desempregados e as pessoas estão mais pobres, como aumentar os preços? Obviamente há exceções na história econômica para isto, tal como os momentos de estagflação, vivido inclusive pelo Brasil. Mas não é o caso de agora.

Já em relação às contas públicas, apesar do déficit fiscal ter parado de aumentar em outubro do ano passado, as receitas públicas continuam ziguezagueando.

Bem, dá pra concluir que a economia ainda patina, e teremos pelo menos mais um ano de crescimento nulo que se somará à dois anos de retração, ou seja, a saída da Dilma não “ajudou” a economia.

Mas, como nos ensina a teoria econômica marxista, não podemos acreditar que os governos tenham o papel de criar ou resolver crises econômicas. Elas ocorrem independentemente de quem está no poder. Estes governos podem, claro, intensifica-las ou amenizá-las, mas não podem fazer com que elas desapareçam. Assim como Lula e Dilma não conseguiram inverter o ciclo com políticas fiscais expansionistas (redução do IPI ou Plano Brasil Maior), nem Temer (ou Dilma em seu segundo mandato) nem os governos europeus conseguiram com o “ajuste fiscal”.

Na verdade, o papel dos governos nisto é arbitrar e resolver quem vai pagar a maior parte da conta da crise. No Brasil nem preciso gastar muitas linhas pra convencer alguém que após a PEC do teto dos gastos, a reforma previdenciária e a trabalhista, os trabalhadores terão perdas imensas para fazer com que o lucro da patronal aumente. Então os trabalhadores que pagaram por esta crise (e somente eles).

Mas de agora por diante, a pergunta que fica é: quem se beneficiará quando o ciclo econômico se inverter e o crescimento econômico retornar? Temer ruiu e já é o governante mais impopular que se tem notícia, e como chegaremos até o próximo ano com nenhum ou muito pouco crescimento econômico, o que fará com que continue a alta taxa de desemprego e os cortes nos serviços públicos, é quase impossível que sua popularidade se inverta. Com isto, o seu sucessor poderá ser taxado como o salvador da pátria. Afinal de contas, ele será tido como o responsável por – após tentativas de Dilma e Temer – melhorar a situação material do país.

Se Luiz Inácio Lula da Silva for o vencedor do pleito presidencial, o ciclo econômico provavelmente o ajudará, novamente, como aconteceu em seus dois mandatos, o que o martirizará. O efeito disto para a esquerda socialista poderá ser, novamente, uma marginalização política, situação que vivemos de 2003 até hoje, com momentos melhores ou piores. O desafio de mostrar o nosso programa político e nos diferenciarmos do petismo será ainda maior do que foi até então.

Já caso Doria ou alguém tão bizarro quanto (Luciano Huck!?) viesse a ganhar, o resultado será provavelmente ainda mais desastroso, pois abrirá um espaço ainda maior para a extrema-direita, que cresce em todo o mundo, mas que ainda não conseguiu se estabilizar fora dos EUA.

O futuro nos reserva muitos desafios, nenhum deles fácil, mas nossa única opção será enfrentá-los.

Referência

D’ARAÚJO, M. C. O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e crise política. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992.