Fotografia de Erick Dau
Fotografia de Erick Dau

O convite

Felipe Demier

 “O que não faremos com quem nos faz mal, se condenamos quem nos ama?” (Dante Alighieri)

Todos nós temos ou já tivemos aquela amizade que, seja pelo descuidado das partes envolvidas, seja pelo fim do seu prazo de validade, definhou até acabar. Sempre é um pouco triste, mas é assim. Muitas vezes, tal fato só se torna perceptível quando tomamos ciência, com certo atraso, de que o amigo distante noivou (alguém ainda noiva?), se casou, teve filhos e tal, mas nós não fomos convidados para qualquer festejo, cujas fotos padronizadamente felizes aparecem publicadas nas redes sociais. É bem verdade que, muito provavelmente, não iríamos a tal evento – justamente pelo esgotamento da amizade, já um tanto quanto insípida –, mas o sentimento é, quase sempre, o de que gostaríamos de ter sido, ao menos, lembrados. Aguardávamos um convite, ainda que para dele declinar. O esquecimento assinala, assim, o desfecho, frio, da relação fraternal.

Por aproximadamente duas décadas, o Partido dos Trabalhadores manteve laços orgânicos com os trabalhadores, sobretudo por meio dos movimentos sociais, em seus mais diversos matizes. A despeito de um crescente recuo programático, os trabalhadores constituíam sempre o seu público, a sua base social, e a sua reserva política. À frente do governo federal, esse quadro se alterou com uma rapidez até certo ponto espantosa. Por meio das burocracias sindicais, cada vez mais atreladas ao Estado (sobretudo via cargos no aparato público e controle dos fundos de pensão), o petismo logrou manter a hegemonia sobre a maior parte dos trabalhadores organizados sindicalmente, ao passo que a maioria dos demais movimentos sociais aderiu ao governo por conveniência ou por debilidade congênita. Diferentemente de experiências passadas (algumas até recentes) na América Latina, essa captura das formas associativas dos trabalhadores se deu por uma via desmobilizatória, em consonância com o caráter do nosso regime democrático-blindado erigido na transição dos anos 1970 e 1980. Não se tratou, como nos casos de regimes “semibonapartistas democráticos”[1] no continente, como os velhos peronismo e o cardenismo (ou mesmo o chavismo), de conservar a ordem burguesa por meio de uma mobilização de massas controlada pela cúpula estatal reformista, mas sim de colocar o movimento de massas em um estado de concordância apática com o governo – ainda que o consenso oferecido pelas burocracias sindicais aos governos petistas seja de caráter “ativo”, como expuseram Ruy Braga e Alvaro Bianchi.[2] Já em relação às ingentes massas desorganizadas, a uma multidão de trabalhadores precários e empobrecidos, o PT levou a cabo um projeto de concertação social que se estruturou a partir da efetivação de uma cidadania pelo consumo, distante do modelo socialdemocrático europeu baseado no acesso a direitos. A noção de um trabalhador que, por direitos, tem acesso a serviços públicos, gratuitos e de qualidade deu lugar à propaganda do cidadão que consome, seja lá o que for. O vocábulo “trabalhador” foi, amiúde, substituído nas falas governamentais pelo de “consumidor”. Mais uma vez, o sonho de uma grande middle class como fundamento da diluição dos conflitos sociais teve lugar, e, mais uma vez, ele se mostraria, ao final, como um mero sonho.

Durante os anos de êxito do petismo no poder, milhões de trabalhadores pobres, sem acesso à Educação e à Saúde de qualidade, afluíram ao mercado de consumo, podendo adquirir, a prazo, televisões HD e celulares com whatsapp, com os quais se entretém ao longo das infindáveis horas que gastam nos apinhados transportes de massa que os conduzem no trajeto casa-trabalho-casa. Por um lado, a ampliação do emprego formal não qualificado, às custas de uma alta exploração da força de trabalho, foi acompanhada de um rebaixamento geral dos salários, afetando os segmentos médios superiores, seja porque suas funções qualificadas/semiqualificadas estagnaram ou mesmo decaíram em termos salariais, seja porque, em início de carreira, passaram a competir com mais gente (ex-cotistas e outros “filhos de empregadas”) pelos postos de trabalho não qualificados, em especial no setor de serviços – As próprias domésticas, aliás, com a possibilidade de emprego formal aberta em setores como o telemarketing, ganharam a possibilidade de não mais se sujeitar aos caprichos exploratórios das dondocas fitness. Com o horizonte profissional pouco atrativo na iniciativa privada, muitos dos jovens oriundos dos segmentos médios superiores passaram a se dedicar aos estudos visando à entrada nos postos bem remunerados do serviço público, recorrendo, assim, ao bom e velho Estado que seus antecessores, nos anos 1990, qualificavam apenas como uma inchada, ineficiente e dispendiosa máquina burocrática. Por outro lado, muitos dos jovens trabalhadores precarizados, estes milhões de novos consumidores sem direitos para os quais sua ascensão é obra de seus próprios méritos ou de Deus, passaram a frequentar, com seus trajes e modos plebeus, espaços de sociabilidade burguesa antes restritos aos segmentos médios superiores (e à média burguesia). Assim, nossos empreendedores, médicos, advogados e designers começaram a se deparar com shoppings enegrecidos (com direito aos “rolêzinhos”), com mais tempo de espera nas emergências dos planos de saúde privados, com ruas mais congestionadas por carros “baratos” e com aeroportos que, segundo uma desembuçada professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mais parecem rodoviárias.[3]

O cheiro de povo acirrou, claro, o ódio ao povo, o tradicional ódio de classe cultivado pelos estratos superiores brasileiros, e nada melhor do que a típica figura de Lula, ou de uma mulher por ele feita presidente, para fazer verter para si todo esse sentimento. Com a crise, a volta da inflação e o consequente aumento do custo de vida (incluindo não só o tomate, mas também a vodka absolut das “baladas”), voltou a ter lugar entre os setores médios o chamado “temor da proletarização”, bastante utilizado pela sociologia explicativa do fascismo. Tomadas por um mal estar social crescente, e muitas vezes acossadas por dívidas e contas a pagar, parcelas significativas dos setores médios passaram a dirigir sua insatisfação contra os de baixo, identificando sindicatos e partidos de esquerda como os responsáveis pelo seu declínio social (e, nesse ponto, o PT, devido ao seu passado classista, ofereceu os ingredientes simbólicos necessários para essa ideologia pueril e reacionária). Considerando-se os verdadeiros sustentáculos do país graças à proporcionalmente alta carga tributária que pagam, os setores médios tornaram-se mais realistas que o Rei, e foram politicamente à direita dos financistas, industriais e demais segmentos burgueses, cuja contribuição tributária é proporcionalmente pífia. Derrotados eleitoralmente pelos votos “dos nordestinos que recebem bolsa família”, os setores médios conservadores revoltaram-se de vez, e começaram a falar demais por não ter nada a dizer. Alimentando uma repulsa por pobres, negros, sindicalistas, homossexuais, transexuais, haitianos e até mesmo por índios, eles saíram às ruas e modificaram o cenário político do país.

A crise econômica alterou também o posicionamento da burguesia propriamente dita. Depois de ter passado anos praticando “orgias cosmopolitas”[4] com o dinheiro público sob os governo petistas, boa parte da classe dominante nacional começou a pender para a Oposição de Direita, a qual, por sua vez, viu nas reacionárias mobilizações dos estratos médios conservadores uma chance de renascer das cinzas, já que passara um bom tempo como uma exangue oposição parlamentar cujo programa econômico havia sido roubado pelo governo. Ainda que permaneça dividida e em compasso de espera – como que concedendo à política um tempo a mais para que, com sua autonomia relativa, resolva os problemas que ela própria criou, e que a economia possa de novo tentar se reabilitar sem inconvenientes peias – a burguesia brasileira parece estar progressivamente rompendo com o governo Dilma, em um quadro onde este já dá indícios de não conseguir aplicar o ajuste fiscal no grau e intensidade exigidos pelo capital. Nesse cenário de crise econômica crescente, com uma classe trabalhadora na defensiva (embora venha levando a cabo numerosas e importantes lutas, greves e ocupações desde 2012), sua vanguarda política ainda alquebrada pelo lulismo, e uma burguesia se sentido cada vez mais politicamente ubíqua a ponto de lançar-se numa ofensiva pela retirada de seus bastardos intermediários (petistas) do governo federal, o caminho para a reação ficou aberto. Nosso Congresso Nacional, com sua perspicácia típica dos rapaces, não deixaria a oportunidade passar. É como se, parafraseando o clássico personagem de Dostoievsky, nossos deputados e senadores gritassem, em uníssono: “Se a esquerda está morta, então tudo é permitido!”. São nesses tipos de situação histórica, nas quais as grandes transformações sociais se encontram bloqueadas, em que os trabalhadores se encontram politicamente imobilizados porém seu espectro não deixa de assustar “as pessoas da sala de jantar”, é que as farsas podem ser encenadas, ainda que de modo breve. São nessas situações de paralisia histórica, em que nada de verdadeiramente importante pode acontecer, é que se abrem as possibilidades para que ordinárias figuras políticas, até então marginalizadas, saiam das coxias a adentrem o proscênio político do país. Ganharam luz, então, sórdidos personagens como Eduardo Cunha e, por meio deste, em um gesto açodado, personalista, vingativo e mesquinho, foi lançada a cartada do impeachment.

Rechaçado por parcelas cada vez maiores dos setores médios e progressivamente abandonado pela ingrata burguesia brasileira, o Partido dos Trabalhadores, depois de anos de um transformismo impudente, encontra-se em situação crítica. Ameaçado politicamente e socialmente isolado, talvez só reste a ele recorrer ao seu amigo de outrora – talvez já ex-amigo a esta altura –, com quem não se encontra, de verdade, faz tempo. Sentindo a mudança da maré em 1943 e, sobretudo, em 1945, o solerte Getúlio Vargas procurou, por meio do queremismo, se aproximar do movimento de massas, apelando a sua mítica imagem de “pai dos pobres”. Em 1953-1954 e 1963-1964, novamente Vargas e seu sucedâneo João Goulart, respectivamente, fizeram um movimento similar. Quando as frações capitalistas os abandonaram, os populistas voltaram seus braços para os trabalhadores, seja apresentando um programa reformista, seja aumentando o volume da verborragia anti-imperialista (em alguns casos, fazendo os dois). Apesar de seu conteúdo semibonapartista e até mesmo frente populista, o antigo trabalhismo demonstrou certa dose de coragem para o embate político. Ele perdeu, mas jogou.

O mesmo não parece acontecer com o petismo decadente. A cada punhalada que recebe do capital (seja ela assestada pelo Legislativo, pelo Judiciário ou pela imprensa), o governo responde com outra, em maior profundidade, no peito dos trabalhadores. Cada vez mais acossado pela burguesia, mais o petismo tenta agradá-la, como que buscando obter o perdão e reatar o namoro, mesmo que não tenha cometido nenhuma perfídia contra sua histérica cônjuge. Quanto mais atacado pela direita, mais à direita o PT se posiciona. A postura do Governo Dilma se assemelha àquela de um timorato treinador de futebol que, a cada gol que toma, coloca mais um zagueiro para evitar um desastre pior, ou a de um escolar menino esquálido que, ao brigar contra um mais velho e mais forte, prefere nem tentar desferir um golpe, já que, por mais fraco que o seja, este pode acirrar o ímpeto do oponente, provocando uma surra ainda pior. O Governo Dilma é, sim, alvo de um golpe. Não um golpe de regime político (como em 1964, por exemplo), mas um golpe de governo. Para evitá-lo, ao invés de reformas populares e diminuição do ônus da crise sobre os ombros dos trabalhadores, o que o petismo apresenta é uma combinação de manifestações governistas fleumáticas organizadas pela burocracia sindical (acríticas e sem nenhuma exigência ao governo) e uma plataforma abertamente contrarreformista, baseada na retirada de direitos e em um imoral ajuste fiscal. Em 2005, quando do “Mensalão”, o partido entregou todas as cabeças pedidas pelos editoriais jornalísticos esperando amainar a sanha da Oposição de Direita e, assim, salvar o projeto petista de permanecer à frente do governo federal. Mas e agora, o que espera salvar? Pode ser que pretenda salvar o governo comprando a piedade da burguesia, mas pode ser também que, em última análise, pretenda salvar apenas o regime democrático-blindado, evitando colocar forças sociais em movimento que possam vir a atrapalhar o ramerrão da nossa tão sagrada institucionalidade. Vá saber. O certo, entretanto, é que o PT, como disse certa feita Marx, não ousa dar “à luta de classes uma pequena oportunidade”, pois não se sente capaz de “brincar com fogo”.[5] Se recebessem um convite de seu longínquo amigo de outrora, muitos trabalhadores, politicamente mais conscientes, declinariam do mesmo, afinal, por que ajudariam um de seus algozes contra outro? Muitos outros trabalhadores, talvez tendo em mente a mínima (porém significativa) melhoria de vida obtida sob o auge da concertação social lulista, poderiam se lançar na luta contra o impeachment. Indecisa, a enorme maioria dos trabalhadores, provavelmente, se poria a refletir sobre o convite. O fato, porém, é que o convite não veio e não virá. Nunca. Os últimos laços foram cortados, e amizade se desfez. Para sempre.

Notas:

[1] TROTSKY, L. ____.“Discusion sobre America Latina” in ____ Escritos latinoamericanos. 2ª edição. Buenos Aires: Centro de Estudios, Investigaciones y Publicaciones León Trotsky (CEIP León Trotsky), 2000, p. 124.

[2] BIANCHI, A.; BRAGA, R. “Hegemonia e crise: noções básicas para entender a situação brasileira” in Blog Junho, 28 de abril de 2015 (http://bit.ly/1HQRwlA).

[3]“Professora da PUC ironiza passageiro de avião e ganha página”. Exame, 7 de fevereiro de 2014 (http://abr.ai/NdUN5P).

[4] MARX, K. La guerra civil em Francia. Moscou: Editorial Progreso, 1980, p. 61-62.

[5] MARX, K. O 18 brumário de Luís Bonaparte. 4ª edição. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1978, p. 87.