Ilustração de Pierre Lapalu
Ilustração de Pierre Lapalu

O Davos Man e a crise

Rejane Carolina Hoeveler

“Uma terrível tragédia também pressupõe uma oportunidade para o pensamento criativo”. (Matthew Bishop, ex-Young Global Leader do Fórum de Davos.)

Mais um janeiro gélido na Suíça. Mais um encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos, onde os homens mais ricos do mundo e seus políticos, artistas e escribas favoritos se reúnem para, do alto de suas fortunas, discutir como preservá-las diante das montanhas de catástrofes que a sua própria existência pressupõe.

Dentre os parceiros do Fórum, encontramos corporações de diversos setores: alimentício, energético, farmacêutico, informático, e principalmente, muitos bancos. Coca-Cola, Goldman Sachs, Volkswagen, Nestlé, Morgan Stanley, Google, Facebook, Allianz SE, Saudi Aramco, Unilever, e dezenas de outras – entre as quais uma brasileira, o Banco Bradesco S.A. O investimento total para os executivos participarem do encontro fica na casa dos três milhões de dólares, mas o retorno parece estar valendo a pena, já que a cada ano um número maior de companhias participa. [1]

O Davos Man é esse capitalista multibilionário que foge dos impostos e investe em filantropia. Ele combina operações financeiras altamente agressivas, engenharia fiscal de ponta para escapar de legislações nacionais e ambientais, doações a organizações filantrópicas e a universidades, tem amigos escritores e um estilo cool. Um verdadeiro “empreendedor social” que compartilha do lema oficial do Fórum, “Committed to improving the world” – “Comprometido em melhorar o mundo”. O Davos Man também é pioneiro da filantropia empresarial e do planejamento corporativo-empresarial no que diz respeito a todo tipo de crise, garantindo para sua marca o selo de “responsabilidade social” ou de “sustentável”. O Fórum foi criado ainda nos anos 1970 pelo empresário suíço Klaus Schwab e desde então tem sido um importante lócus de articulação inter-empresarial internacional. Seu verdadeiro leit-motiv tem sido, cada vez mais, transformar a tragédia em oportunidade.

As novas catástrofes lucrativas

Uma das presenças mais chamativas do encontro deste ano é a do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, do Syriza, que assinou a mais nefasta proposta de “acordo” já feita pela Troika[2], após um plebiscito convocado pelo próprio governo de Tsipras, no qual a maioria do povo votou contra os termos do acordo. A elite grega se tornou uma das mais apreciadas na Suíça com a eclosão da crise econômica e política no país; entre eles está o assíduo freqüentador do fórum Aristotelis Mistakardis, sócio da multinacional de matérias-primas Glencore, e que graças ao paraíso fiscal suíço se tornou do dia pra noite o homem mais rico da Grécia.

Dos latino-americanos, a presença mais marcante neste ano é a de Mauricio Macri, novo presidente da Argentina, país que há dez anos não enviava representantes ao encontro. O Brasil enviou uma delegação chefiada por Nelson Barbosa, novo ministro da Fazenda, incumbido da missão da garantir a confiabilidade do Banco Central brasileiro e das metas de inflação do governo.

No primeiro dia do encontro, a previsão, feita pelo próprio Fórum, da perda de mais de pelo menos 5 milhões de empregos em todo o mundo nos próximos cinco anos, é creditada a uma “quarta revolução industrial”, “dos computadores, da automação e do big data”, requentando as teses do “fim do trabalho” que tanto sucesso fizeram a partir do final dos anos 1970.[3]

O espectro de um novo crash nas bolsas ronda todos os hotéis em Davos, mas a experiência desde 2007-2008 provou que o Davos Man tem uma notável resiliência.[4] O patrimônio dos 103 ultrarricos mundiais (indivíduos cujo patrimônio ultrapassa 30 milhões de dólares) caiu 20% após 2008, mas em 2011 já havia subido em 33% – portanto, mais do que compensando as perdas anteriores e ultrapassando o recorde anterior. O número de bilionários listado pela Forbes aumentou 27% desde 2007, número certamente inferior àqueles que caíram no desemprego, na dependência de ajuda estatal ou mesmo na miséria extrema.[5]

O tema da extrema polarização das rendas já havia tomado lugar desde 2008, tomando mais fôlego a partir de 2011 e os protestos Occupy e a chamada “Primavera Árabe”. No capitalismo, se a desigualdade se aprofunda mesmo nos períodos de expansão, na crise ela se expande com velocidade. Diante do óbvio, não foram poucos no Fórum os que cinicamente disseram que “nada os impediu” de acumular as fortunas ridiculamente grandes. Eles se recuperam enquanto afundam todo o resto, mas cordialmente abrem espaço para personalidades hollywoodianas como Leonardo di Caprio fazerem inócuos discursos greenwashing.[6]

Outro tema sensível no encontro deste ano é a questão dos refugiados e da imigração, prevalecendo a visão de que devem ser desenvolvidas formas de integrar (leia-se, superexplorar) os mais novos chegados aos continentes europeu e americano. Uma grotesca “vivência” de um dia com refugiados foi montada para que os “líderes mundiais” possam mostrar às câmeras das TVs e jornais bajuladores a sua extrema consternação com a situação desses atingidos. Em contrapartida, reina absoluto o discurso xenófobo que vem embasando as políticas anti-democráticas que vem sendo impostas pelos países imperialistas em nome do combate ao terror.

As catástrofes a serem debatidas, sejam elas sociais ou ambientais[7], são intermináveis. Mas nada que não seja transformável em uma oportunidade de negócios para o Davos Man – com o benefício adicional de melhorar a sua imagem.

Brasil: da euforia à depressão

O jornalista Andy Robinson, do periódico independente La Vanguardia, foi um dos poucos críticos a adentrar nos restritíssimos salões onde se encontravam os Davos Men, e escreveu um livro-reportagem em janeiro de 2013 sobre o que coletou em sua intrépida missão nos Alpes – cenário de um famoso romance de Thomas Mann, A Montanha Mágica, publicado em 1924. Robinson tem se dedicado a investigar como a evasão tributária anda de mãos dadas com o crescimento do mercado filantrópico e a deterioração dos serviços públicos nos quatro cantos do mundo.[8]

Ele visitou o pequeno povoado de Zug, a meio caminho entre Davos e Zurique, que, com pouco mais de 15 mil habitantes, tem nada menos que 30 mil empresas registradas. A explicação não poderia ser mais simples: Zug é um paraíso fiscal dentro de um paraíso fiscal, a Suíça, o lugar no mundo onde menos se paga impostos sobre lucros e ganhos de capital. Lá estão as sedes de centenas de corporações multinacionais, que mantém normalmente um escritório com alguns funcionários, ou mesmo apenas um endereço postal. E que frequentemente utilizam trabalho escravo em Taiwan ou Bangladesh.

Uma das empresas que têm “sede” em Zug é a rede de fast food Burger King, que tem como maior acionista o brasileiro Jorge Paulo Lehmann, um dos 62 homens mais ricos do mundo, de acordo com a espantosa lista divulgada pela Oxfam há poucos dias[9]. Lehman é um dos dois brasileiros na seleta relação, junto com Joseph Safra, do Banco Safra.[10]

Como foi divulgado à época, um ex-funcionário do HSBC vazou a informação da existência de cerca de 8 mil contas secretas de brasileiros na Suíça, no escândalo que ficou conhecido como “Swissleaks”.[11] Tais contas acumulariam cerca de sete bilhões de dólares, volume equivalente ao “ajuste fiscal” proposto pelo governo Dilma Rousseff, que no Fórum de 2014 se encontrou pessoalmente com Sepp Blatter, da FIFA. Os lucros obtidos pela FIFA com a Copa do Mundo no Brasil foram canalizados pelas contas suíças, garantidas pelos mais seguros segredos bancários e melhores cofres do mundo.

Dilma nunca chegou, no entanto, a ser tão bajulada no Fórum com seu antecessor, que “despertava os instintos mais primitivos” do Davos Man, conforme podemos notar no relato do jornalista Andy Rodinson.

“A partir do momento em que Lula ganhou as eleições, os gestores de fundos de investimento globais passaram a elogiar o Brasil durante suas reuniões ao lado das pistas de esqui como se tratassem de uma nova fase do capitalismo. Não há nada mais atraente em Davos do que um operário lutador, convertido em presidente business friendly, e Lula se tornou uma estrela entre os convidados das festas nos ex-sanatórios dos tuberculosos do romance de Thomas Mann, agora convertidos em hotéis de luxo. Foi escolhido estadista global do Fórum Econômico Mundial, um ‘exemplo de liderança planetária a ser seguido’, conforme resumiu Klaus Schwab, o empresário suíço que criou o Fórum da elite há quarenta anos”.[12]

Se em 2014 o Brasil da Copa era a bola da vez, junto com os demais “emergentes”, em 2015 voltou para a reserva; e o confiável Joaquim Levy viajou aos Alpes para garantir aos colegas Davos Men a aplicação do “ajuste” fiscal no Brasil, país que passou de promessa de valorização carnavalesca a mais um dos “indisciplinados” com o “dever de casa” de aplicar a fria “austeridade” do corte de investimentos estatais, da redução das políticas compensatórias, e do ataque brutal aos direitos sociais para a abertura das “novas oportunidades”. E, se em 2011 os chamados “PIGS”[13] eram cidadãos de segunda classe em Davos, o Brasil agora está no mesmo nível dos romances de Paulo Coelho, outro brasileiro tarimbado no fórum.

Evasão fiscal e filantropia, duas faces da mesma moeda (de ouro)

Melhorar a própria imagem pode ser, afinal, uma das melhores formas de evitar as vistorias da Receita Federal. Diversas pesquisas têm mostrado como o mercado filantrópico tem aumentado no mundo todo, proporcionalmente ao aumento do desastre social exacerbado pela crise econômica e pelos diversos conflitos militares em curso.[14]

Bill Clinton, um dos papas do filantropo-capitalismo, dono de uma das três maiores fundações do mundo (as outras duas são a de Bill e Melinda Gates e o “Fundo Global” de Bono, do U2), deve boa parte de sua conta bancária à sua “missão humanitária” pelo mundo. Somente com seu livro “Giving” (“Doar”), escrito para convencer seus pares dos benefícios da caridade, ele ganhou 6,3 milhões de dólares, dos quais doou apenas 1 milhão. Mas o buraco é muito mais embaixo, pois o que os ultra-conectados ricos de Davos fazem através de suas fundações é facilitar os negócios de seus colegas. Ficou público que a fundação de Clinton foi a principal responsável pelo contato de uma empresa canadense do setor de mineração e energia, com Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, que assinou com ela contratos bastante generosos de exploração de ouro e petróleo no país latino-americano.[15]

Clinton foi um dos paladinos da “reconstrução” do Haiti após o terremoto de 2010, quando uma avalanche de empresas filantrópicas e fundações vieram testar as oportunidades no país devastado. Anos após as suas visitas, milhares de haitianos ainda viviam acampados precariamente em frente a suas antigas casas, mas o serviço de telefonia de Porto Príncipe já havia sido literalmente doado para Denis O’Brien, capitalista filantrópico irlandês sócio da Digicel, empresa que se gaba de mandar mais na cidade do que o prefeito. Na época, Clinton convenceu ainda seu colega Jerry Steiner, da Monsanto, a fazer “generosas” doações de sementes híbridas para os camponeses pobres haitianos – muitas das quais foram queimadas em protesto pelos próprios, que entenderam perfeitamente a relação de dependência e expropriação que estava implicada no caridoso gesto.[16]

Davos foi também o lugar perfeito para o surgimento da chamada “novíssima filantropia”, ligada diretamente à privatização de serviços públicos. Lá foi feita uma negociata envolvendo escolas pobres do subúrbio londrino e a ONG “sem fins lucrativos” ARK (Absolute Return for Kids – “Retorno certo para as crianças”), fundada pelo multimilionário gestor de hedge funds Arpad Busson, freqüentador assíduo de Davos. Com ajuda do governo de David Cameron, recursos privados direto da City londrina, e o complemento de gordas verbas estatais, a ARK deu start em seu primeiro projeto de peso ao ganhar gestão de vinte escolas em bairros pobres da Inglaterra, num claro exemplo de privatização de um serviço público essencial.[17]

A novíssima filantropia vai além, conseguindo transformar até os protestos anti-capitalistas em lucros. Foi o caso do blog criado por Ariana Huffington na esteira dos protestos contra a guerra de Bush no Iraque. De articulador de blogs anti-imperialistas, o Huffington Post, criado por ela em 2005, foi vendido para a AOL por 300 milhões de dólares. Juan Luis Cebrián, CEO do grupo de imprensa espanhol Prisa, ficou tão entusiasmado que firmou, em Davos, parceria com Huffington, e de quebra negociou a venda do tradicional periódico de centro-esquerda El País para um fundo de investimento de outro Davos Man muito conhecido, Nicolas Berggruen.[18] Berggruen é sócio e amigo do economista americano Nouriel Roubini, que como descreve Andy Robinson, sentenciou no fórum de 2013, diante de uma platéia de CEOs perplexos: “Marx tinha razão. O capitalismo cria obstáculos para seu próprio desenvolvimento”…[19]

Mas não podemos encerrar sem falar do roqueiro cool Bono, líder da banda U2, a qual mudou seu domicílio fiscal para Amsterdã, para evitar o pagamento de cerca de 1,4 bilhão de dólares na Irlanda, seu país originário. Aqui a evasão fiscal ganha ares de “rebeldia” roqueira… Mas a sonegação pegou mal entre os fãs irlandeses, que viviam uma crise dramática em 2008, iniciada com o estouro de uma bolha imobiliária. Bono e todos os demais membros do quarteto de Dublin são sócios no mercado imobiliário, amigos/sócios de empreiteiros donos de hotéis e terrenos nos Estados Unidos e na Europa. Quando a bolha estourou, o Estado irlandês lançou um pacote de resgate inacreditável de 40% do PÍB, chafurdando os trabalhadores na pobreza; mesmo assim, ou talvez justamente por isso, a Irlanda não deixou de ser um cobiçado modelo de paraíso fiscal em Davos.

Como lembrou o jornalista Andy Robinson, A Montanha Mágica de Thomas Mann representava a decadência da elite européia no início do século XX, à sombra da Grande Guerra inter-imperialista de 1914. Um século depois, as elites capitalistas globais continuam jogando o mundo na mais profunda decadência. Agora globalizadas, o fazem com muito mais cinismo. E gosto artístico bastante duvidoso.

Notas

[1] A programação oficial, participantes e a lista de empresas associadas pode ser acessada em: http://bit.ly/1SLaZHU.

[2] Expressão usada para designar o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Européia desde a explosão das crises na zona do euro, nas quais essas entidades se uniram para impor planos neoliberais de “austeridade”.

[3] Sobre o tema, ver ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Campinas: Cortez, 1999; e ______________ Os sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009.

[4] “Os indivíduos com patrimônio muito alto se recuperaram espetacularmente após a crise” afirmou Alan Walker, da consultora Capgemini, especializada em atender clientes do tipo. ROBINSON, Andy. Um repórter na Montanha Mágica. Como a elite econômica de Davos afundou o mundo. Rio de Janeiro, Apicuri, 2015. p.23-24.

[5] Somente nos Estados Unidos, país de origem da maioria desses bilionários, o censo de 2012 apontava que 32% da população se classificava como classe baixa ou média baixa, comparados com 25% em 2008, grande parte desses vivendo de seguro-desemprego. ROBINSON, Op. Cit, p.85.

[6] “Lavando verde” – expressão usada para designar ironicamente as empreitadas das grandes indústrias para se dizerem “sustentáveis”.

[7] Foi divulgada recentemente pesquisa da NASA provando que 2015 foi o ano mais quente da História, desde que a medição começou a ser feita em 1880, e que 15 dos 16 anos mais quentes foram a partir de 2000. DINIZ, Mariana. “Nasa declara 2015 como o ano mais quente da história”. Agência Brasil, 20 de janeiro de 2016. http://bit.ly/1Qp6O5C.

[8] ROBINSON, Andy. Op Cit. Agradeço a indicação de Luiz Mario Behnken.

[9] OXFAM International. “Richest 1% Will own more than all the rest by 2016”. 19 de janeiro de 2016. Disponível em: http://bit.ly/1BBc62I.

[10] BBC Brasil. “Quem são as 62 pessoas cuja riqueza equivale a metade do mundo”. Folha de S. Paulo, 21 de janeiro de 2016. Disponível em: http://bit.ly/1lBGGaY.

[11] Agência Brasil.”Ministério Público e PF investigam brasileiros envolvidos no SwissLeaks”. 07 de julho de 2015. Disponível em: http://bit.ly/1SB8I4G.

[12] ROBINSON, A. Op. Cit., p.10-11.

[13] Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha na sigla em inglês.

[14] CAMPOS, Adriano. “Os filantrocapitalistas vão salvar o mundo?” Esquerda.net. 10 de janeiro de 2016. http://bit.ly/1Pa4RJk. Agradeço a indicação de Renato Lemos.

[15] Um porta-voz de Clinton chegou a declarar que “aumentar os lucros as companhias não tem por que entrar em disputa com o aumento da eficácia das empresas caridosas”. ROBINSON, op. cit., p.70.

[16] Como se sabe, as sementes híbridas da Monsanto teriam que ser sempre compradas, já que não se reproduzem naturalmente. “É um presente envenenado”, declarou o líder camponês Jean-Baptiste Chavannes, do Movimento Papaye (MPP). ROBINSON, Op. Cit., p.135-136.

[17] O caso está longe de ser exclusivo; na Suécia, por exemplo, dois fundos de private equity gerem centenas de escolas públicas. No Brasil, algo parecido é a Escola Nave, gerida pela Oi Futuro, no Rio de Janeiro.

[18] Com a venda, um terço dos jornalistas foi dispensada e a linha editorial do jornal foi radicalmente modificada. No Brasil, o Huff Post é associado à Editora Abril.

[19] ROBINSON, A. Op. Cit., p.27.