Colagem de Singh Bean
Colagem de Singh Bean

O desafio da solidariedade

Sabrina Fernandes

A esquerda mais propriamente marxista, em suas várias facetas, identifica antagonismos estruturais, a nível do universal, como objetos centrais da luta tanto contra-hegemônica quanto por uma nova hegemonia. Porém, mesmo falar que “a esquerda identifica” algo, por exemplo, apresenta um problema de subjetividade que interage com o estruturalismo da luta. A esquerda age como um marcador, mesmo que fragmentado, de um sujeito coletivo também fragmentado.

Falamos muito da fragmentação da esquerda como problema fundamental com menor atenção para o fato que não apenas organizações se encontram fragmentadas, mas também as pautas de luta e seus sujeitos. Não é mais suficiente o chamado de “proletários do mundo, uni-vos” sem o reconhecimento de que a classe não somente se expressa e se compõe de acordo com outras relações de estrutura e superestrutura, mas também se constrói a partir das experiências subjetivas e individuais de cada um. Cabe ao coletivo acolher e compreender a particularidade e elevá-la ao universal na montagem de táticas e horizontes estratégicos nos diversos frontes de luta. O processo de universalização que interconecta experiências e lutas termina por desafiar conceitos tradicionais das organizações marxistas que hierarquizam o fronte anti-capitalista como antecedente aos demais. Assim, provoca (e incomoda, a nível particular) atores que, tradicionalmente, homens, brancos, conformados à heterocisnormatividade e letrados de alguma forma mesmo nos rankings classicamente proletários e não acadêmicos possuem dificuldade ou resistência de incorporar o seguinte entendimento: a revolução não poderá ser machista, racista, ou lgbtifóbica não somente porque mulheres, pessoas negras e LGBTIs dizem isso, mas porque uma revolução que limita a visão de classe ao capital verso à lógica da opressão na sociedade alienada e, por tanto, menos livre, será necessariamente uma revolução falida quanto à totalidade.

Entra o desafio da solidariedade como beneficente e ponte da dialética entre o particular e o universal e, portanto, essencial para que escapemos dos extremos pendulares do relativismo e da generalização à grosso modo.

 Solidariedade não é empatia

É interessante que a solidariedade é vista como valorosa do ponto de vista tático da formação de consciência e unidade nas ações militantes. Precisamos nos solidarizar com os grevistas, com o povo Palestino, com nossas companheiras atacadas pela mídia burguesa. Precisamos ser solidários entre nós para garantir atos unitários e coesão mínima nas ações dos partidos, sindicatos, movimentos e coletivos. Solidariedade na classe, solidariedade entre as mulheres (cuja confusão com sororidade realmente reduz a solidariedade à mesma), solidariedade com os oprimidos.

Apesar de haver certa teorização sobre o que essa solidariedade implica, a esquerda em si trabalha muito pouco com a construção e promoção dos significados propostos para solidariedade sempre que a evoca. Parte disso se dá pela tendência de se aceitar a solidariedade ora como uma expressão racionalizada de apoio, ora como afeto baseado no entendimento de sofrimento do próximo, ordinariamente associado à empatia.

Uma visão crítica e ampla do porquê de se solidarizar exige que a solidariedade seja compreendida além dos pontos de apoio, afetividade, empatia e construção da unidade na luta. Não que a solidariedade não possa ter como pressuposto a empatia, por exemplo, mas se somente afetiva ela não escapará do plano subjetivo e será vulnerável e limitada quanto ao plano político. Quando falamos de nos solidarizar dentro da esquerda (e para fora dela), necessitamos de compreender como a solidariedade política opera perante as diferentes e concomitantes formas de opressão.

A solidariedade deixa de ser um valor agregado a certas táticas e passa a ser uma tática em si para a estratégia de superação, e não meramente o combate, da opressão. Em termos simples, isso consiste na visão da solidariedade como ruptura do entendimento da dicotomia de coletivos “nós x eles” e até “oprimidos x opressores.” A solidariedade desmonta a polarização entre tais ao introduzir a subjetividade do reconhecimento e das múltiplas experiências e posicionamentos frente à estruturas de poder mesmo na busca por condições objetivas de luta. Podemos oprimir e ser oprimidos ao mesmo tempo, inclusive dentro da mesma posição estrutural. Isso significa que as ações opressoras, por ocorrerem tanto por intermédio da agência central quanto pela reprodução passiva do senso comum (e da cumplicidade, negligência e conivência), não nos fazem apenas sujeitos à interseccionalidade, mas também à contradição que age de forma contraintuitiva e contraprodutiva. Isso significa que uma mulher branca poder oprimir uma mulher negra no plano racial, ou outras mulher branco no plano classista, mas também, pode oprimir outras mulheres na reprodução e promoção do machismo por conta de suas próprias contribuições para a hegemonia do patriarcado que consequentemente lhe afeta negativamente também. A solidariedade política leva isso em consideração e demanda que pensemos nossas ações subjetivas e posicionamentos objetivos através do “e” e não do “ou.”

A provocação freirana

Tal visão está bastante ligada à práxis freiriana e à maneira como Paulo Freire trabalhava tanto o conceito de solidariedade quanto a dialeticidade da opressão nos campos subjetivo (consciência) e objetivos (ações individuais e coletivamente estruturais). A partir disso, entendemos não somente a possibilidade de um autor ser oprimido e opressor ao mesmo tempo, quanto que o autor possa não ter a consciência de seu papel de opressor ou de oprimido. Isso ilustra evidentemente situações em que a pessoa opressora é oprimida mas não reconhece sua própria opressão (por cegueira) ou até deslegitimiza qualquer alerta sobre sua opressão (por ideologia e projeto político). Isso significa que podemos nos solidarizar em alguns casos de opressão mas outros não?

Freire propõe que dentro da práxis revolucionária, se o objetivo é o combate da lógica da opressão, a solidariedade política deve ser absoluta. Veja bem que não se trata de empatia, a qual se estabelece majoritariamente afetivamente e não pode ser cobrada de forma objetiva. É completamente cabível recusar um afeto positivo a uma pessoa que passa por opressão ao mesmo tempo que oprime ativamente, até mesmo contribuindo a nível coletivo para a perpetuação da estrutura de opressão. Em vez disso, trata-se de solidariedade e seu papel em garantir que não nos juntemos ou nos confundamos com os opressores.

Essa interpretação vem do entendimento de que duas propostas de Freire a respeito da opressão são complementares e não devem ser tomadas isoladamente. Freire escreve que: “Para que esta luta tenha um significado, os oprimidos não devem, na tentativa de recuperar a sua humanidade (que é uma forma de criá-la), tornarem-se por sua vez opressores dos opressores, mas sim restauradores da humanidade de ambos. Essa, então, é a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos: libertarem a si e aos seus opressores” (FREIRE, 1970, p. 28). Essa provocação está ligada ao famoso ensinamento freiriano que relata que quando a educação não é libertadora, os oprimidos desejam ser / tornam-se como os opressores.

Freire ressalta continuamente que um ser humano não consegue libertar a ele mesmo ou a outro sozinho, mas que seres humanos se libertam como uma comunidade. O apelo é constantemente ao universal, de forma que a expressão de solidariedade a uma vítima seja pensada sempre a todas as vítimas e que a ousadia de libertar os opressores signifique diminuir a quantidade de vítimas e reduzir a opressão total.

Solidariedade e humanização

Esse último aspecto implica em abordar os opressores de forma combativa, antagônica estruturalmente (permitindo ainda sim espaço pessoal para afetos negativos), mas também humanizando-os para além da tendência de isolá-los e puni-los como monstros, a qual convenientemente nos isenta da responsabilidade da “tarefa humanista e histórica dos oprimidos.”

Na visão proposta de que a opressão desumaniza, a luta anti-opressão deve ser humanizadora. Se recusamos solidariedade política aos opressores quando estes são oprimidos, perdemos não apenas a oportunidade política de possivelmente instigar um processo de conscientização, mas também a de nos diferenciarmos dos opressores e da expectativa de ação e pensamento do senso comum. Se a solidariedade política é absoluta em todo e qualquer caso de opressão, inclusive quando a pessoa oprimida não solicita ou até mesmo rejeita a solidariedade oferecida.

Bom ressaltar que quanto a isso, não se exclui o papel da afetividade na solidariedade política através de afetos como ousadia e escuta. De fato, sem a afetividade da escuta, por exemplo, torna-se quase impossível expressar real solidariedade política, pois a falta de escuta afeta a interação pedagógica necessária para que a solidariedade seja mais que apenas simbólica e contribua para rupturas a nível de práxis nos indivíduos envolvidos (oprimidos, opressores, interlocutores, testemunhas e ouvintes) e, por consequente, no coletivo. A solidariedade deve servir à luta, e não a interesses meramente pessoais ou de aparência mesmo quando estendida em casos específicos e pessoais. Isso a difere da empatia e do afeto por si sós, pois há um propósito político por detrás e um interesse no processo desencadeado pela solidariedade frente a superação da lógica da opressão.

Referência bibliográfica

FREIRE, P. Pedagogy of the Oppressed. New York: The Seabury Press, 1970.

Nota

*Uma discussão aprofundada teoricamente sobre solidariedade e práxis libertadora pode ser encontrada em Fernandes, Sabrina. Pedagogia crítica como práxis marxista humanista: perspectivas sobre solidariedade, opressão e revolução. Educação & Sociedade, v. 37, n. 135, p. 481-496, 2016.