Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

O desafio Podemos: entrevista com José Maria Antentas

George Souvlis

(Tradução de Maryanne Galvão)

Apesar de seu sucesso, Podemos recusou-se a lidar seriamente com a União Europeia e o que seria necessário para realmente transformar a Espanha. Na Espanha, o desafio popular da austeridade, que começou com o movimento dos indignados – comumente abreviado como 15-M, em referência ao 15 de maio, o dia em que os protestos começaram em 2011 – tem contribuído para o surgimento de novas formações políticas com amplo apoio. Podemos, um partido que surgiu a partir de 15- M, é agora um ator importante na política nacional. Em dezembro de 2015, a eleição geral espanhola não conseguiu produzir uma maioria pela primeira vez desde o fim da ditadura de Franco em 1977 – o Podemos ganhou cerca de 20% dos votos, vindo logo atrás do Partido Popular de centro-direita (PP) e o centro-esquerda Partido Socialista dos Trabalhadores (PSOE). Como o Podemos recusou-se a se alinhar com o PSOE, nenhuma coalizão poderia ser formada, provocando um segundo turno de votação. Antes que o segundo conjunto de cédulas fosse lançado, em junho de 2016, o Podemos entrou em uma aliança com a Esquerda Unida, um partido menor, com raízes nos partidos históricos da esquerda espanhola. Mas esta nova coalizão, apelidada de Unidos Podemos, não conseguiu mobilizar sua base, e o PP emergiu da segunda eleição vitorioso. Josep Maria Antentas falou com George Souvlis para Jacobin, discutindo suas raízes no movimento 15-M, a trajetória preocupante do Podemos desde 2014, e a questão em aberto de independência catalã.

George Souvlis – A guisa de introdução, que experiências fortemente influenciaram você, política e economicamente?

José Maria Antentas – Eu pertenço a uma geração que foi politicamente formada na década de 1990, num contexto marcado pela derrota histórica em que o “curto século XX” terminou. Eram tempos brilhantes para o neoliberalismo. A hegemonia do que Ignacio Ramonet rotulou o pensée unique foi esmagadora. No meio da década, os primeiros grandes desafios para o neoliberalismo surgiram, como a revolta zapatista em janeiro de 1994 ou as greves francesas de novembro e dezembro de 1995. Mas não foi até o final do milênio que entramos numa nova fase – graças ao florescimento do movimento de justiça global após a cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Seattle em Novembro de 1999. Eu participei ativamente deste novo movimento – que durante sua breve existência mudou o clima político internacional e mostrou que a história tinha de modo algum terminado. Durante as primeiras décadas dos anos 2000, eu participei na construção do que se tornou os Anticapitalistas, uma organização que passou a participar na formação do Podemos. Formamos os Anticapitalistas porque nós sentimos que, além de tomar parte nas lutas sociais, era também necessário construir uma alternativa política real, o que nós imaginamos como um produto do encontro plural entre as diferentes organizações e indivíduos. Foi uma aposta estratégica – e uma que sofreu oposição pela maioria dos ativistas sociais, que apostaram numa estratégia “movimentista”. Nossa hipótese era não construir uma ferramenta política que poderia se tornar maioria da sociedade – isso viria com a crise – mas que poderia ter uma audiência e influência significativa. Intelectualmente, nos anos 1990 e 2000, eu estava envolvido no estudo dos processos de globalização e dos movimentos de resistência. Eu estava interessado também nos debates estratégicos que surgiram no interior do movimento de justiça global, bem como os relativos às experiências “bolivarianas” na América Latina e aqueles entre os partidos de esquerda europeus. A influência intelectual mais decisiva para mim foi Daniel Bensaïd, que combinou a tradição revolucionária do movimento operário com uma gama de diversas explorações teóricas. Depois da crise, em 2008, e tudo o que veio depois, eu tenho sido particularmente interessado em voltar novamente para a obra de dois autores que eu sempre gostei – Walter Benjamin e Antonio Gramsci, que são úteis quando se pensa sobre o mundo contemporâneo.

George Souvlis – Conte-me sobre as origens do movimento 15-M e seu efeito sobre a política espanhola. Como é que o movimento influenciou o surgimento do Podemos?

José Maria Antentas – O movimento 15-M foi um ponto decisivo na trajetória política e social espanhola. Apesar de que o 15-M logo se dispersou e deixou de existir emquanto um movimento social articulado, ele é transformado em uma miríade de iniciativas que, juntas, constituem uma espécie de “galáxia 15-M”, que se inspira no movimento. A rebelião dos indignados colocou a elite financeira e política no centro da sua crítica – e adotou a “democracia” como bandeira, mas com o adjetivo significativo do “real”. Eles expressaram uma reação contra a subjugação de toda a sociedade ao interesse de uma pequena minoria financeira – com a classe média em ruínas desempenhando um papel importante. A figura emblemática do movimento foi a juventude, especialmente os jovens graduados cuja perspectivas profissionais foram bloqueadas e cuja única trajetória parecia ser decrescente. Mas o movimento foi além dessa base de jovens de classe média, atingindo também os bairros da classe trabalhadora e se tornando mais diversificado em termos de composição geracional e de classe. O movimento surgiu fora do millieu militante tradicional, num contexto de desamparo real sobre a esquerda para enfrentar com êxito a ditadura financeira. O 15-M não só se opôs ao sistema político e poderes financeiros, mas também a uma esquerda que tinha sido cúmplice do projeto neoliberal ou foi comprovadamente incapaz de lutar com sucesso contra este. Ao mesmo tempo, 15-M implantou-se na base dos valores historicamente associados com a esquerda – valores que, no entanto, têm estado em tensão permanente e, por vezes, em contradição com a prática da própria esquerda. Neste sentido, o “evento 15-M” modificou os termos do debate político e o cenário político, colocando as elites na defensiva. A passividade, apatia e resignação que até então eram esmagadores deram lugar a um período de maior politização, embora esta politização tenha sido parcial e contraditória. Em outras palavras, 15-M ajudou a modificar o “senso comum” hegemônico (no sentido gramsciano do termo). O 15-M colocou algumas questões estratégicas não resolvidos na mesa, as quais o movimento em si não tinha respostas, e que realmente foi além do que o movimento poderia ter oferecido. O nascimento do Podemos em janeiro 2014 marcou uma mudança estratégica significativa – um salto em relação à atividade eleitoral. Uma verdadeira mudança de paradigma gradualmente ocorreu entre 2012 e 2014, graças a três fatores: o agravamento da crise financeira no verão de 2012 por causa da falência do Bankia e o socorro ao sistema bancário; a ascensão do Syriza [na Grécia] nas eleições de maio e junho de 2012; e a verificação dos limites de resistência social. As hipóteses estratégicas que prevaleceram nos anos 1990 e 2000 – mudar o mundo sem tomar o poder, criação de espaços livres, engajamento em ativismo social, ignorar partidos e política eleitoral, engajar-se em lobbying institucional de ONGs – simplesmente tornaram-se, de repente, velhas. Estas estratégias revelaram-se insuficientes como uma resposta à crise política. Passo a passo, a ideia de que era também necessário participar na arena eleitoral começou a ganhar força, embora ainda de maneira vaga. É necessário salientar que o Podemos não é o partido do 15-M e nunca pretendeu ser. Não é tampouco uma emanação orgânica do movimento, nem uma consequência inevitável do mesmo. Pelo contrário, é o produto das escolhas políticas específicas de um determinado grupo de pessoas – Anticapitalistas (então denominada Izquierda anticapitalista) e um grupo de ativistas em torno de Pablo Iglesias, fortemente influenciados pelas experiências “bolivarianas” latino-americanas. Ambos tiveram o bom senso de propor algo além de lidar com a crise de uma forma rotineira, como se fosse negócios como de costume, e reconheceu a crise como um momento potencialmente vital de ruptura. No entanto, sem 15-M Podemos não teria existido. Foi 15-M e as lutas contra a austeridade que ocorreram em 2012 e 2013 que criaram as condições para o desenvolvimento de um projeto como o Podemos – uma iniciativa que, de qualquer forma, não teria existido sem a boa jogada estratégica de seus fundadores.

 George Souvlis – O movimento de independência na Catalunha colocou um desafio para Podemos. O que está em jogo no debate sobre a chamada “questão nacional”, tanto dentro como fora do partido?

José Maria Antentas – O caráter multinacional do Estado espanhol e da ascensão do processo de independência catalã, em conjunto, constituem um dos principais desafios para projeto populista do Podemos. O partido foi obrigado a conciliar seu discurso nacionalista popular com o reconhecimento da realidade multinacional do Estado espanhol – um reconhecimento que, por sinal, nunca foi tão bem definido por um partido político mainstream, simbolicamente ou explicitamente, como é pelo Podemos. Entretanto o Podemos fez vários ziguezagues sobre a questão específica da independência catalã. Antes das eleições européias de maio de 2014, ele defendeu um referendo sobre a independência da Catalunha, que sofreu forte oposição por parte do governo espanhol e de outros setores poderosos da sociedade espanhola. Mas depois de seu sucesso nessas eleições, o Podemos começou a dissolver sua defesa do referendo catalão, entrando em uma fase errática com várias mudanças de posição e aumentando a ambiguidade na sua plataforma. Isto terminou em um fiasco eleitoral nas eleições catalãs de 27 de setembro de 2015. Em seguida, houve um novo rumo e o Podemos participou da construção de uma ampla coalizão plural na Catalunha – En Comu PODEM, liderada por Ada Colau, a atual prefeita de Barcelona e ex-porta-voz do movimento anti-despejos. Isto implicava que o Podemos mais uma vez abraçou o referendo da independência catalã. Além da questão nacional, a decisão do Podemos de adotar um discurso “patriótico” apresentou uma outra dificuldade. Símbolos nacionais espanhóis (incluindo a bandeira e a própria noção de pátria) têm sido a moeda da direita desde, pelo menos, a Guerra Civil Espanhola. Como resultado, as tentativas do Podemos de resignificar o conceito de pátria para evocar uma visão democrática e multinacional têm parecido bastante artificial.

George Souvlis – Qual é a posição do partido em relação à dívida nacional? A Espanha registrou uma dívida pública de 99,2% do PIB do país em 2015, e essa dívida chegou a um máximo recorde de 99,3% em 2014.

José Maria Antentas – Primeiramente, o Podemos desenvolveu uma concepção de política na qual o programa político, específicamente, é muito secundário para o esforço eleitoral. Na verdade, em cada uma das eleições em que o Podemos participou (eleições para o Parlamento Europeu, em maio 2014, as eleições regionais em maio de 2015, e as eleições legislativas em dezembro de 2015 e junho de 2016) o seu programa consistentemente mudou em favor de uma abordagem mais moderada, que derrubou qualquer proposta que poderia parecer muito “radical”. O Podemos evitou adotar compromissos públicos e programáticos, e não fez qualquer esforço para descrever seu projeto em termos específicos – muito menos para articular o que um governo antiausteridade poderia parecer. Também não trabalhou para popularizar demandas populares que poderiam servir como alavanca de mobilização e combate político. O programa do Podemos têm sido bastante invisível e líquido, para usar a famosa expressão de Bauman. Ao mesmo tempo, ao longo dos últimos dois anos, os líderes do Podemos ter apresentado repetidamente propostas contraditórias. Este é o contexto que você precisa considerar se quiser entender a posição do Podemos relativamente à dívida. No início o Podemos defendeu a auditoria cidadã, mas posteriormente esta foi por água abaixo, em favor da renegociação da dívida e de sua reestruturação. Desde então, o Podemos não tem oferecido uma posição coerente sobre a questão da dívida. Por exemplo, quando a Comissão Europeia anunciou que o novo governo espanhol teria que fazer cortes drásticos nos gastos públicos pouco antes das eleições do 26 de Julho, Iglesias não se pronunciou explicitamente contra a lógica dos cortes. Em vez disso, ele simplesmente enfatizou que a redução do déficit necessária poderia ser realizada sem tocar nos serviços públicos básicos se o estado arrecadasse mais dinheiro a partir de um sistema fiscal melhor.

George Souvlis – Podemos surgiu de um movimento de protesto associado a uma ideologia horizontalista não encontrado nos partidos tradicionais da esquerda. Será que a institucionalização do movimento no Podemos sufocaria esta tradição, limitando o espaço para a oposição dentro do partido?

José Maria Antentas – O grupo fundador do Podemos incluía dois projetos. Um, representado pelos Anticapitalistas, defendia um “movimento-partido”, que poderia trabalhar em harmonia com o legado e a cultura do 15-M, com base na democracia interna e com participação no espírito de ruptura. Mas a tendência que prevaleceu foi o projeto de inspiração “populista” em torno de Pablo Iglesias e Íñigo Errejón, em que a democracia interna e a participação da base não desempenhou nenhum papel, e que foi apenas centrada para a vitória eleitoral de curto prazo. Este modelo de partido foi oficialmente confirmado pelo congresso de fundação do Podemos, em Vistalegre, em outubro de 2014. Configurou-se então o que Errejón nomeou “máquina de guerra eleitoral”, encerrarando qualquer tentativa de experimentação organizacional. O Podemos foi moldado como um partido centrado apenas na competição eleitoral e na comunicação política. Tem negligenciado completamente o trabalho de base do partido em sindicatos, organizações comunitárias e movimentos sociais. Esta máquina de guerra eleitoral tinha uma estrutura altamente hierárquica e centralizada que criou lideranças locais e regionais fracas – os líderes regionais foram muitas vezes promovidos com base em sua lealdade à liderança central do partido, ao qual permaneceu política e materialmente dependente. Órgãos de decisão internos foram eleitos por métodos não-proporcionais de modo a excluir as minorias. Como resultado, os órgãos internos tornaram-se a expressão da facção dominante em cada lugar e não corpos plurais de síntese política. Neste esquema, filiais locais (chamadas círculos) não desempenharam nenhum papel e não tinham nenhuma função além da organização de campanhas eleitorais. Eles nunca se tornaram locais de debate político real, nem locais de planejamento do trabalho político diário. O resultado tem sido uma organização com uma forte equipe central de política e comunicação, sobreposta a uma estrutura muito frágil. Crises internas nos órgãos locais e regionais são recorrentes, há poucos e preciosos quadros políticos, e o partido é mal incorporado na vida social fora da sua capacidade de comunicação de massa. Qualquer partido organizado num período tão curto de tempo e experimentando tamanho sucesso eleitoral teria tido todos esses tipos de problemas, mas o modelo de partido adotado pelo Podemos ajudou a amplificá-los. Na sequência da decisão de Iglesias de substituir o secretário da organização em março, houve algumas melhorias concretas e criou-se um clima melhor de trabalho. Mas o modelo de partido deve ser completamente mudado.

George Souvlis – Como você explica os fracos resultados do Podemos nas últimas eleições, quando o partido perdeu um milhão de votos em comparação com a rodada anterior de votação?

José Maria Antentas – A partir de uma perspectiva histórica ampliada, a Unidos Podemos – a aliança entre Podemos e o partido menor Esquerda Unida – foi um sucesso. Na verdade, ela demonstrou a profunda transformação do sistema partidário tradicional no Estado espanhol – nunca uma força política como o Unidos Podemos teve tanto apoio eleitoral. No entanto, a partir de uma perspectiva de curto prazo, os resultados foram abaixo do que era possível e do que era esperado. A aliança perdeu sua chance de desferir um ataque definitivo no bipartidarismo na Espanha. Entre a primeira rodada de votação em Dezembro de 2015 e o segundo turno em junho, o Podemos emitiu muitas mensagens contraditórias. Repetidamente, os eleitores viram o Podemos dizer uma coisa e fazer o oposto: rejeitaram a unidade da esquerda e, em seguida, fizeram uma aliança com a Esquerda Unida; disseram que nunca iriam formar um governo conjunto com PSOE para, em seguida, fazerem uma oferta para exatamente isso; recusaram o rótulo de “esquerda” para, em seguida, abraçarem o rótulo de “democracia social”. O efeito cumulativo dessas mensagens contraditórias é não somente desorientar a base social do partido, mas também para dar a impressão de que o Podemos é a força inconstante que adapta sua política dependendo do momento. Isso tem atacado a sua credibilidade. Para piorar a situação, o Podemos montou uma campanha muito leve e frágil, projetada para apelar mais para eleitores moderados do que para mobilizar própria base social do Podemos. O Podemos tem sido tradicionalmente uma força ousada no campo eleitoral. Mas desta vez o partido projetou uma campanha conservadora destinada a não tomar quaisquer riscos. Não tiveram sucesso. O Unidos Podemos perdeu um milhão de votos em comparação com o Podemos e a Izquierda Unida obtiveram separadamente na primeira rodada de votação em dezembro. A maioria desses votos foram perdidos para a abstenção, não para outros partidos. Claramente, o Unidos Podemos falhou em mobilizar suficientemente sua base eleitoral para a segunda rodada de votação. Desde junho, Errejón disse que é necessário o Podemos se mover para além da máquina de guerra eleitoral e desenvolver um “movimento popular”. Entretanto, ele compreende um “movimento popular” em termos culturais – enquanto uma estratégia destinada a ganhar a hegemonia cultural de longo prazo, e como um complemento paralelo ao trabalho eleitoral. Mais uma vez, a luta social, para não mencionar a autoorganização, está em falta. Da sua parte, Iglesias expressou a ideia de que, após as eleições de Junho o Podemos deve deixar de ser um “exército partidário” para ser um “exército regular”. Não está claro quais as consequências políticas concretas se seguirãoa partir disso, é provável que o Podemos se desviará e mudará de repente, como tem feito desde a sua formação. Mas parece haver um desejo geral por parte da liderança do Podemos para moderar ainda mais as posições do partido a fim de aumentar a sua credibilidade governamental e institucional, especialmente entre os eleitores potenciais ainda desconfiados do Podemos. Eu acredito que o partido deveria realmente tomar outra direção. O Podemos deveria distinguir-se permanentemente como um tipo diferente de partido – um partido que faz as coisas de forma diferente, que diz o que os outros não dizem, que tenha prática e discurso coerentes. Não se trata de ficar aprisionado num debate clássico entre ser uma força governamental ou uma força de oposição, mas em discutir que tipo de credibilidade é necessária e como ela pode ser obtida. Os partidos políticos tradicionais não são especialmente confiáveis, e então, agir como eles não ajudará o Podemos a avançar neste campo.

George Souvlis – Que efeito tem a experiência do Syriza na Grécia sobre o Podemos?

José Maria Antentas – O governo Tsipras fez o oposto do que era necessário. Ele capitulou rápido e quase sem luta. Ele teve de enfrentar dificuldades reais, com forças extremamente poderosas reunidas contra ele. Mas Tsipras se recusou a ser ousado, para realmente tentar viver de acordo com a promessa radical do partido. Ele nunca teve um plano B, além de tentar fazer a quadratura do círculo, e sem Plano B não há nenhum plano A. Agora, ele tornou-se uma caricatura de si mesmo. Em menos de um ano ele enterrou as esperanças de mudança, se dobrou aos poderes financeiros, e esfaqueou seus apoiadores pelas costas. A história tem mostrado que em muitos casos os coveiros do futuro podem vir das fileiras do campo do povo. Quando isso acontece, as consequências são devastadoras. Desorientação e confusão expandem sem controle e leva tempo para se recuperar. Este é precisamente o que a troika estava procurando. O Podemos cometeu um grande erro em oferecer o seu apoio a Tsipras, e por isso viuse sem argumentos quando adversários políticos apontaram para o exemplo da Syriza e disseram: “Está vendo? Não é possível governar de uma forma diferente”. A situação grega não foi fácil para o Podemos. Admitir que Syriza capitulou não é agradável, mas fingir que nada aconteceu e que tudo está indo bem é ainda pior. O Podemos deveria ter tentado enviar duas mensagens estratégicas sobre a Grécia. Em primeiro lugar, a mudança é possível, mas complexa, por isso não é suficiente votar em um partido anti-austeridade – é também necessário mobilizar e organizar. Em segundo lugar, o Podemos tem um compromisso inquebrável com os interesses da maioria do povo espanhol, e assim não hesitará em se distanciar de forças amigas, como a Syriza, se eles tomarem um caminho errado. Talvez essa abordagem com a situação grega não teria conquistado tantos eleitores ao Podemos. Mas pelo menos ela teria melhor posicionado o partido para a batalha de médio e longo prazo. Na realidade, não houve um debate sério sobre o que aconteceu na Grécia, em qualquer uma das organizações relevantes da esquerda espanhola – incluindo Podemos, Esquerda Unida, ou as candidaturas locais que ganharam as eleições locais de 24 de maio de 2014 em Madrid, Barcelona , Zaragoza, A Coruña e outras cidades. Por que esta oportunidade foi perdida? Em primeiro lugar, a falta de um internacionalismo prático e concreto na prática cotidiana das principais organizações de esquerda espanhola, cujas lideranças não se projetam na direção do que está acontecendo em outros países europeus. Em segundo lugar, o foco em tarefas domésticas dificulta a sua capacidade de lidar com questões não-imediatas. A intensidade da crise política espanhola e a concatenação de eleições garante que o urgente sempre prevalece sobre o necessário. Em terceiro lugar, as pessoas dentro do Podemos têm sido relutantes em ver a realidade grega como é, porque em certo sentido, ele projeta algumas sombras sobre o seu próprio projeto dentro do Estado espanhol. Este auto-engano assume três formas: a negação da gravidade do que Tsipras têm feito; a consideração de que seu pró-memorando se transformará num desvio temporário, e a esperança de que, quando o equilíbrio de forças estiver mais favorável, Syriza tomará um rumo anti-austeridade; e pensamento de que as coisas num contexto espanhol serão diferentes porque a Espanha tem um estado mais poderoso do que a Grécia, então um governo de esquerda será capaz de negociar em melhores condições com a União Europeia. 9

George Souvlis – Por que tantas pessoas continuam a votar em um partido corrupto e desacreditado como o Partido Popular (PP), que ganhou as últimas eleições?

José Maria Antentas – O PP conseguiu usar o espectro de uma possível vitória do Unidos Podemos para mobilizar o voto conservador e concentra-lo em torno PP – em detrimento da Ciudadanos, um novo partido neoliberal promovido artificialmente pela mídia como um substituto para os tradicionais partidos de direita. Temos de acrescentar a isso o efeito do Brexit. O referendo Brexit ocorreu precisamente na fase final decisiva da campanha eleitoral, e foi apresentado de forma apocalíptica pela mídia. Isso ajudou a criar um clima de medo que levou muitos eleitores a apoiar PP por causa de seu suposto compromisso de manter a adesão da Espanha como membro da União Européia. Além de tudo isso, quando se analisa a força eleitoral do PP, é importante não esquecer o fator geracional. A maioria dos eleitores PP são pessoas de idade avançada. Este não é um problema para o PP no curto prazo – afinal, eles operam em um país com altas taxas de abstenção entre os jovens. Mas, a longo prazo, a falta de contato com novas gerações é um problema para qualquer partido político.

George Souvlis – Qual é a sua opinião sobre os últimos desenvolvimentos no Reino Unido e com Brexit? Poderia um nacionalismo de esquerda ser uma solução progressiva hoje?

José Maria Antentas – O referendo mostra várias contradições e paradoxos. Brexit é um golpe para o capital financeiro britânico, bem como a outras classes dominantes na Europa, cujo projeto de integração continental agora é confrontado com uma nova crise. Ao mesmo tempo, a campanha “Saia” foi dominada por forças reacionárias e xenófobas que foram encorajados por sua vitória e agora será capaz de definir a agenda política britânica interna no curto prazo. No entanto, o referendo também pode reacender o processo de independência da Escócia, o que poderia contribuir para o enfraquecimento do Estado britânico no futuro. A esquerda britânica estava desequilibrada, forçada ou a fazer campanha para o Lexit (left exit/saída da esquerda) (mas sem uma chance real de silenciar a reacionária campanha “Saia”), ou a fazer campanha para permanecer enquanto, ao mesmo tempo, ser crítica do europeísmo oficial e da União Européia. A esquerda européia, particularmente a esquerda Euro-Mediterrânea, tem de lidar seriamente com a questão européia. Temos de desenvolver uma crítica sistemática de todo o projecto da UE, mas em uma base internacionalista que confronte abertamente o direito xenofóbico, sem qualquer nostalgia do Estado nação keynesiano. A lição grega é clara: romper com os enquadramemtos da UE é crucial para qualquer governo anti-austeridade. As propostas de reforma da União Europeia ou de negociar uma agenda mais flexível com as autoridades europeias são um beco sem saída estratégica. A esquerda tem que avançar numa alternativa baseada na soberania vinda de baixo e na solidariedade internacional – não se apegar à esperança fútil de reforma na UE. No caso espanhol, a maioria das forças de esquerda têm propostas insuficientes sobre a União Européia e parecem estar estrategicamente desarmados. O Podemos recusouse a lidar com a questão da UE de uma forma consistente, e ao invés disso, desviou-se do assunto. De todos os limites programáticos do Podemos, isto é para mim o mais importante e o mais urgente. Se alguma vez houver um governo liderado pelo Podemos, esta fé fútil em um compromisso improvável com a troika pode pressionar o governo em um cul-de-sac não tão diferente do que Syriza encontrou na Grécia.