Ilustração de Flora Próspero
Ilustração de Flora Próspero

O dia que comoveu a Catalunha e o Estado espanhol

Josep Maria Antentas

(Tradução de Carla Luciana Silva)

Um dia. Um dia em que se condensaram todas as tensões acumuladas em cinco anos de interminável e lento processo independentista. O 1 de outubro já passou, deixando atrás de si toda uma etapa da história da Catalunha e do Estado espanhol e abrindo uma incerta, ainda que fascinante, nova fase.

Os números da jornada são eloquentes. 2.262.424 votos emitidos (sobre um censo eleitoral aproximado de 5,3, ou seja, 42,5% do coeficiente), ao que se somariam os votos expropriados pela polícia e os cidadãos que ao fim não puderam votar, dos quais 2.020.144 (90%) o fizeram a favor da independência, 176.566 (7,8%) contra, e 45.586 (2%) votaram em branco. Junto aos dados de participação e resultados, a outra cifra iniludível da jornada são os 890 feridos oficialmente registrados. Mas mais que as cifras, as imagens ainda são mais fortes: violência policial inaudita frente à imponente mobilização cidadã.

O movimento independentista saiu vitorioso da aposta. Isso não significa que vá conseguir de imediato seus objetivos. Mas sim que ganhou um impulso decisivo em um combate de mais longo alcance. Conseguiu três coisas de uma vez: a primeira, mostrar uma forte e resoluta determinação e capacidade de mobilização e organização, atraindo a repressão do Estado para impedir o referendo; a segunda, obter uma ampla maioria na votação e uma participação bastante aceitável dadas as circunstâncias e o boicote das forças do “não”; e a terceira, provocar um desgaste sem precedentes do Estado e do governo espanhol.

As consequências imediatas do 1 de outubro são claras. A Lei de Transitoriedade aprovada no Parlamento da Catalunha no 8 de setembro passado estipulava que se o resultado do referendum desse uma vitória do “Sim”, se levaria adiante a proclamação da República Catalã independente. Não está clara qual fórmula precisa o governo da Catalunha manipula, e segundo, a forma como for feito facilitará ou não que se possa manter de pé não apenas a frente independentista, mas o bloco democrático mais amplo que esteve comprometido com o referendo. Isso não terá implicações já, contrariamente ao que o independentismo tende a apresentar, a independência da Catalunha com respeito ao Estado, mas a entrada em uma nova e decisiva fase do atual conflito político no qual a curto prazo o choque institucional e político vai agudizar-se. Ainda que o relato oficial independentista enfatiza muito que o trabalho já está feito, na realidade agora é que começa a fase mais crítica.

Por isso a convocatória de greve geral para essa terça dia 3 deve ser vista como o segundo ato da peça começada no dia 1. Inicialmente impulsionada pelos sindicatos minoritários, ao final conta com o apoio parcial dos majoritários, CCOO e UGT, que não convocam greves mas paralisações parciais pactuadas, das duas organizações dirigentes do movimento independentistas, a ANC e a Omniun (ainda que a primeira tenha tido reticentes contra a decisão) e de maneira mais ou menos explícita do próprio governo catalão. Este bloco oficialista acabou reformulando a greve em uma proposta de paralização interclassista do país que acabará sendo uma mescla de greve tradicional, manifestações e fechamento voluntário de pequenas e médias empresas e da administração pública. Mas seu resultado será importante para o jogo de pulso que se avizinha com o Estado.

Entretanto, o desenlace dos acontecimentos catalães não apenas dependente do que sucederá na Catalunha mas, de maneira muito determinante, do impacto que tudo isso tenha para a política espanhola. Ai a situação é complexa e quiçá resulte prematuro tirar conclusões apressadas. Por um lado o PP utiliza do independentismo catalão para criar coesão na sua base social e alimentar pulsões reacionárias. Por outro lado há uma parte da opinião pública espanhola que não compartilha a repressão e que seria favorável a um referendo pactado, cuja defesa é um dos estandartes do Podem. Naqueles lugares do Estado em que existem também questões nacional e/ou regionais, o processo catalão pode provocar uma polarização entre um recrudescimento espanholista e um relançamento dos movimentos nacionalistas e/ou regionalistas respectivos. Tudo isso desenha um cenário complicado para a esquerda espanhola que, em qualquer caso, quanto mais terreno ceda a curto prazo na defesa dos direitos democráticos catalães, mais sofrerá a longo termo. No fundo está a gestão de um importante paradoxo: objetivamente o independentismo catalão constitui a maior ameaça para a continuidade da plataforma político e institucional criada em 1978, mas isso tem um impacto distorcido e não automático que pode traduzir-se em um endurecimento, nem que seja temporariamente, de alguns de seus pilares e gerar um marco político que aumente a polarização social para a direita.

A estratégia do PP

O PP (em osmose com o aparato do Estado e o grosso dos meios de comunicação), tanto por convicção como por cálculo político, optou desde 2012 por uma política inflexível e de mão forte. Seguirá com ela enquanto faça a leitura de que isso lhe beneficia em regiões chave do Estado espanhol e lhe serve para criar coesão e manter tensionada sua base social, recuperar terreno diante do Ciudadanos, ter ao novo PSOE de Pedro Sánchez sob pressão e deslocar o debate político dos temas que beneficiam ao Podemos (corrupção, crise econômica…). Mas pela enésima vez desde que começou a crise do atual marco institucional, primeiro com o ascenso do 15M em 2011 e depois do independentismo de 2012, a estreita razão de partido e as políticas de curto prazo prevalecem sobre a razão do Estado e o pensamento de longo alcance, em uma mostra clara das limitações estratégicas do grosso da elite política do Estado espanhol diante da crise política do regime de 1978, resistir, aguentar e enrolar-se diante dos desafios (seja o independentismo catalão ou a rebelião popular do 15M e suas traduções eleitorais posteriores), foi sua principal linha de atuação.

Na realidade a política de terra arrasada do PP tem já um precedente que se situa de fato nos alvores do ascenso do independentíssimo na Catalunha: o nacionalismo espanhol agressivo do segundo governo Aznar (200-2004) que tendo sido útil para a direita no imediato, em realidade desencadeou os prolegômenos do processo histórico atual. O preço, em termos da lógica do Estado, da política do PP pode haver sido abrir uma dinâmica de afastamento irreversível na Catalunha em relação ao Estado espanhol.

É provável que nos cálculos do governo esteja manter e endurecer o confronto com o independentismo até derrotar suas esperanças de materialização da independência a curto prazo e, depois de ter praticado a “política de vara”, tentar “a cenoura”, depois da derrota, oferecendo alguma saída ao independentismo moderado esperando que volte a seu curso natural. Mas como sua política embute mais a situação, mais difícil lhe resultará tentar operar um giro nela. As coisas têm ido tão longe que não é evidente que o governo espanhol tenha margem de manobra para reconduzir a situação facilmente, quando a legitimidade falta, só sobra a força. Mas o uso da segunda só serve para erosionar ainda mais a primeira, e hoje a crise de legitimidade do Estado na Catalunha chegou a seu máximo histórico desde a Transição. Final de partida?

Do 20S ao 1 de outubro

Até os fatos de 20 de setembro (20S), quando o Estado intensificou sua política repressiva, a dinâmica de auto-organização por baixo foi praticamente nula no movimento independentista, dirigido pela Assembléia Nacional Catalã (ANC) e Òmninium. Somente a CUP representava um independentismo não oficialista, mas ao preço de ter graves contradições internas e sofrer enormes pressões externas. Mas o aríete repressivo do 20S e a iminência do 1 de 0utubro esporeou pela primeira vez uma dinâmica de auto-organização popular, cuja melhor expressão foram os Comitês de Defesa do Referendo criados em muitos bairros e povoados, juntamente com o movimento “Escoles Obertes” (Escolas Abertas) com um peso decisivo de professores, que organizou voluntários para concentrar-se diante dos centros de votação no dia 1 de madrugada. Não pode falar-se em sentido estrito de um transbordamento da ANC e Òmnium (que teve uma política com mais punch que a primeira), mas sim de capacidade para arrastar a seus militantes sobre o terreno para ser mais consequentes e mais ofensivos na desobediência civil, diante de um posicionamento oficial inicialmente bastante tímido que parecia conformar-se apenas com poder ter urnas e cédulas em seus colégios eleitorais no dia 1, mas que não tinha planejado nenhum sistema de defesa real para afrontar a fustigação policial.

A auto-organização em grande escala no entanto emergiu tarde, in extremis. O que se conseguiu no dia 1 foi espetacular mas se deixou sentir a falta de um movimento unitário nos meses prévios ao referendo. A ANC não quis impulsioná-lo e por fora dela não houve capacidade de iniciar uma dinâmica própria que tivesse o lugar de uma política unitária em relação à ANC. Somente os acontecimentos dos últimos dias precipitaram uma mudança de dinâmica de contra-relógio, iniciando um processo por baixo como não havia existido até agora. Sem dúvidas, se a Catalunha no Comú tivesse implicado ativamente nele, mas além de surfar a onda e acompanha-la simbolicamente, se teria podido chegar muito mais longe, ainda que seja preciso assinalar que muitas e muitos de seus militantes tiveram um rol ativo por debaixo de todo o processo, mais além do realizado oficialmente pelo partido.

O independentismo diante de seu futuro imediato

Na confrontação sustentada que se vislumbra no horizonte, os desafios fundamentais para o movimento independentista são quatro:

Primeiro, ampliar sua base social. É difícil avaliar com detalhes os resultados do dia 1 de outubro devido a todos os condicionantes da votação. Sem dúvida, 2.020.144 votos a favor do “Sim” mostram um bloco social importante. Um bloco hegemônico sem ser estritamente majoritário numericamente entre toda a população (algo que costuma ser pouco habitual nos movimentos político-sociais), mas sem ter um contra-bloco organizado e ativo de frente. O independentismo explodiu entre 2012 e 2014. Desde então permanece mais ou menos estancado mas em índices muito altos. Alguns setores cansaram-se de um eterno processo que parecia não ir a lugar nenhum mas ao mesmo tempo nos últimos dias se acrescentaram novos apoios ao independentismo, fundamentalmente pela questão democrática e anti-repressiva. E em conjunto é difícil saber quantas pessoas, que em condições normais haveriam votado “sim” finalmente não puderam ir votar no dia 1 devido a todas implicações da jornada.

Em termos de sua composição social, como já se assinalou amplamente, sua base balança em torno às classes médias e a juventude (ainda que nas filas de votação a quantidade de pessoas mais velhas e de idade avançada era também muito visível). Sua principal debilidade é a ausência de uma parte da base social da esquerda para a qual o independentismo puro e simples não teve nenhuma política ativa, além de esperar que os que duvidam se convençam sozinhos. A política titubeante e desencorajadora da Catalunha na Comú não apenas obedece a limites subjetivos de sua direção, mas também expressa uma realidade social desde baixo. Convém recordá-lo porque é um fator chave. Ter uma política específica frente às organizações políticas e sociais de esquerda e sua base social é necessário, algo que choca, sem dúvida, com o projeto da direita neoliberal no poder, o PDeCAT, cuja debilidade deveria explodir-se para impor um giro à esquerda. E isso somente pode chegar de três formas mais ou menos mescladas: garantindo a implementação de medidas políticas e sociais de urgência na forma de um pacote anti-crise sério; dando centralidade à abertura de um projeto de processo constituinte; e criando um marco estratégico e político no qual quem não comparta necessariamente o horizonte final de independência mas sim a necessidade de uma ruptura constituinte e de ação unilateral diante do Estado, possam também sentir-se partícipes do projeto. Não esqueçamos que a ausência de toda aliança entre independentistas e partidários do direito a decidir é um dos pesados lastros estratégicos de todo o processo catalão. Esta última questão tem um primeiro derivado imediato: conseguir que a aplicação por parte do Parlamento da Catalunha do mandado popular do referendo, ou seja, a proclamação da República catalã independente, se faça de forma que aqueles setores não independentistas que participaram da organização do 1 de outubro se sintam interpelados e incluídos. Ou seja, evitar que, sem desvirtuar o significado do aprovado no dia 1, a frente democrático-desobediente que contribuiu com o êxito do referendo se frature e se reduza somente a uma aliança exclusivamente das forças independentistas.

Segundo, manter o punch mostrado depois do 20S, os dias prévios ao 1 de outubro e durante a mesma jornada. Os organismos democráticos de base, como os CDRs deveriam manter-se (ou reconverter-se de uma forma ou outra. Mais além da ANC e o Omnium é necessário a existência de comitês amplos que tenham a seu turno uma orientação unitária, de pressão e não subalterna frente às organizações que lideram o movimento. Até o 20S a capacidade de ação do independentismo foi fundamentalmente advindo das impressionantes manifestações anuais do 11 de Setembro, mas teve pouca capacidade de resposta em momentos importantes e/ou de ir mais além da ANC ou Òmium quando estas optaram pela passividade em conjunturas que requeriam outra coisa. Convém não voltar à normalidade e tentar sustentar na medida do possível a dinâmica de auto-organização que deu largada nas vésperas do 1 de outubro.

Terceiro, assumir uma perspectiva estratégica mais complexa no que concerne à luta política, a confrontação e à vitória. Como já assinalamos em outro texto, o movimento sintetizou seu enfoque estratégico frente à independência com o termo “desconexão”, um conceito que embora tenha servido para transmitir uma atrativa imagem de facilidade e de mudança tranquila, simplifica extraordinariamente o que se supõe seja enfrentar-se a um Estado e pretender romper com ele contra sua vontade. O discurso oficial do independentismo insistiu que a obtenção da independência equivale a uma mera transição de uma legalidade, a espanhola, para a catalã, evitando o fato de que se a primeira não aceita dita transição em realidade o que começa é uma briga na qual a força bruta é decisiva (recordemos a frase de Marx no capítulo VIII do Capital “entre direitos iguais é a força que decide”). Uma força que, no entanto, está condicionada pelo contexto e a legitimidade de quem a exerce, se mistura com a força política. Ter em mente tudo isto é importante para o pulso erguido que se aproxima e no qual não haverá vitórias fáceis.[1]

Quarto, buscar e tecer alianças no conjunto do Estado espanhol. Diante da intensificação da repressão as mostras de apoio recebidas a partir de fora da Catalunha tem sido crescentemente bem recebidas por parte do independentismo. Mas isso baseou toda a estratégia na ação unilateral e não teve nunca uma política ativa na busca de apoios em outras partes do Estado espanhol (além dos nacionalismos periféricos bascos ou galegos). Em realidade, unilateralidade e busca de alianças são compatíveis e não contraditórios. E, agora, os apoios exteriores se desejam ainda mais necessários. Enquanto o PP considere que a mão forte lhe beneficia a curto prazo, o fustigamento repressivo e o bloqueio político vão ser mantidos. O desafio que tem o independentismo é articular sua luta, sem dissolvê-la em um combate mais amplo contra o marco institucional, o regime, de 1978. O desafio pendente é como ter empatia com as lutas políticas e sociais de tipo diverso que tem lugar em outras partes do Estado em um momento, sem dúvidas, de pouca mobilização social (ainda que com conflitos concretos relevantes). A democracia, tanto em sua vertente anti-repressiva quanto em sua faceta de poder decidir o próprio futuro, são o ponto de partida. A constatação de que há um adversário comum, o segundo passo.

As linhas interiores e os desafios da esquerda

No conflito aberto depois do ascenso do independentismo desde 2012 há uma primeira frente óbvia entre o Estado espanhol e o movimento em seu conjunto. Mas no paralelo há também uma batalha dentro do campo soberanista e democrático catalão, uma batalha na frente interior. A mais visível é a de dos partidos do governo, o independentismo neoliberal do PDeCAT e a centroesquerda representada pelo ERC. Mas, mais além da competição entre ambos os partidos, o mais decisivo no espaço independentista é a possibilidade ou não de avançar no desborde do bloco formado pelo governo da Catalunha, a ANC e Òmnium. Os acontecimentos desde o 20S, a auto-organização por baixo e a radicalização do enfrentamento podem favorecer o avanço das forças mais à esquerda, tanto no terreno político (fundamentalmente a CUP) como no social. O papel que jogue Catalunha na Comú será decisivo para isso.

O partido “De los Comunes”[2] ficou preso a uma política passiva. Desde que o governo catalão pôs rumo ao referendo em Setembro de 2016 jogou sempre a carta do colapso interno dos planos governamentais. Sucessivamente foi confiando que cada passo do governo seria o último e que o referendo unilateral se desempenharia pelo caminho. Teve que pronunciar-se tarde e a contratempo sobre o 1 de outubro, indo sempre a reboque dos acontecimentos. Optou por uma posição morna, defendendo-o como mobilização mas sem comprometer-se com seu êxito nem chamar o voto massivo nele. Depois da rodada repressiva do 20 de Setembro, modificou parcialmente sua postura, implicando-se na mobilização anti-repressiva mas sem transformar sua orientação estratégica de fundo, o voto branco de Ada Colau, nem “sim” nem “não” sintetizou em boa medida o incômodo dos Comuns diante do 1 de outubro e seu estaticismo eleitoreiro.

Passado o referendo se abre um novo período em que a Catalunha na Comú deverá escolher. Ou bem segue a reboque dos fatos e olhando a partida a partir de uma certa distância, ou bem se implica no pulso com o Estado e no projeto de abertura de um processo constituinte na Catalunha, com o duplo objetivo de vencer ao Estado e contribuir a superar à direita e à centro esquerda independentista. Fazê-lo não implicaria necessariamente assumir a independência como horizonte, mas ao menos considerar que agora a ruptura é a condição necessária para um eventual horizonte federal. Ou seja, desde seus próprios postulados programáticos seria possível apoiar agora a proclamação da República catalã e a abertura de um processo constituinte. Se se mantém ora e à margem do mapa de rota independentista o tempo dirá se isso lhes empurra à periferia da política catalã ou se bem por um efeito de rebote lhes dá um novo alento a médio prazo se o independentismo for derrotado. Mas, sem dúvidas, se à passividade prévia ao 1 de outubro lhe segue um enfoque similar na nova etapa que se abre, sua natureza como projeto de mudança política e social ficará gravemente ressentido. Como já assinalamos em outras ocasiões não apenas é a posição da Catalunha na Comú diante do debate independentista o que está em jogo, mas sua própria pulsão constituinte e rupturista. A inquietação do independentismo, e em particular do de esquerdas, com a posição dos Comuns é compreensível, mas isso não deveria fazer-lhes esquecer a necessidade de ter uma política unitária frente a isso, em particular no terreno democrático e constituinte.

Podem[3] Teve uma posição mais proativa e comprometida, real e honestamente, com o referendo, chegando muito mais longe do que ninguém poderia haver imaginado. Isso não tira que sua postura, de tipo democrático, tivesse limitações importantes, fundamentalmente a negação do caráter vinculante do 1 de outubro e sua defesa do “Não” como consigna de voto. Dois elementos que chocam com sua própria proposta de abrir um processo constituinte na Catalunha. Passado o evento do dia 1, Podem deverá escolher se ficará à margem da dinâmica que se abre – um novo enfrentamento com o estado em função da proclamação da República Catalã independente e a abertura de uma dinâmica constituinte catalã – ou se assume o resultado do dia 1 de outubro e opta por posicionar-se na nova fase da batalha contra o Estado e na luta para deslocar a direita catalã dentro do bloco soberanista[4].

Emergem, assim, para o presente futuro três tarefas interrelacionadas: manter a unidade de ação do bloco independentista frente ao Estado espanhol; articular mais além deste um bloco democrático e anti-repressivo e; ao mesmo tempo, batalhar por um transbordamento ou por uma mudança de correlação de forças que favoreça à esquerda no mapa político catalão.

O último ponto leva em si mesmo, de maneira implícita, uma questão mais de fundo: a discussão sobre o próprio significado do termo “independência” no mundo atual e sua relação dom o conceito de “soberania”. O projeto da “independência” tem a particularidade que se apresenta oficialmente como a solução global dos problemas e ao mesmo tempo vazio de qualquer conteúdo concreto. Na verdade, o independentismo, tanto em sua vertente neoliberal como de centroesquerda, poderia desembocar, no caso de obter um Estado próprio e reconhecido internacionalmente, em um projeto paradoxal de independência sem soberania real, em um Estado formalmente independente em uma posição subalterna dentro da União Europeia, favorável aos acordos internacionais como o TTIP e com um a política a serviço das grandes multinacionais[5]. Complexificar a noção de soberania e ver como sua dimensão nacional, social, econômica, alimentar… se entrecruzam (e também ver como se relaciona com as próprias noções de democracia e de solidariedade para evitar ao mesmo tempo um soberanismo reacionário), é um dos debates de fundo para situar no próximo período.[6] Dito de outra forma, a discussão pendente é como ligar uma proposta de mudança política com uma proposta de outro modelo social, econômico e institucional, para ir mais além de uma mudança sem mudança que encarna o independentismo mainstream.

Contradições, paradoxos e (im)purezas

Aqueles que a partir da esquerda, tanto na Catalunha como no Estado espanhol, permaneceram desde 2012 em oposição ou à margem do movimento independentistas, o fizeram assinalando com mais ou menos perícia as inumeráveis contradições do processo. A mais notória de todas: a presença em frente ao governo de Catalunha de um partido neoliberal, defensor de uma estrita política de recortes sociais desde sua chegada ao poder em 20120, e que jamais foi independentista. Mais acima já remarcamos alguns limites, em termos de base social e das forças em disputa, do processo político catalão, e aprofundar em suas características não é o que me interessa agora[7].

Mais além da análise concreta do movimento aberto em 2012, esta insistência permanente nas contradições ou imperfeições do processo, ao ponto de super exagerá-las ou de inventar algumas que não existem, reflete uma atitude de fundo excessivamente escolástica frente à própria realidade social e que, frequentemente, é uma constante de muitas forças de esquerda diante de fenômenos que rompem seus esquemas.

As contradições, em maior ou menor medida, formam parte de todos os processos sociais. Isso é resultado da própria complexidade das sociedades humanas e de como se expressam os conflitos em seu seio. Um movimento não apenas contém contradições e limitações mas sua própria evolução provoca resultados também contraditórios e limitados. Isso nos remete à velha problemática do que a teoria social chama de consequências não intencionais da ação social.

Toda estratégia anticapitalista e de mudança deve saber trabalhar em um contexto de contradições e limites para tentar resolver as primeiras em um sentido emancipatório e aumentar as fronteiras dos segundos.

A estratégia pura é precisamente a que sabe manejar-se em um mundo impuro, contraditório e complexo. A razão estratégica pura não serve para buscar processos e lutas puras, mas para orientar-se em meio das contradições e limites destas. Pretender encontrar processos incólumes na realidade leva a uma estratégia petrificada, sempre na espera do que não acontece. A estratégia em estado puro implica assumir as imperfeições das lutas político sociais e, por extensão, da própria estratégia.

“Quem esperar a revolução social pura, não a verá jamais. Será um revolucionário de palavra, que não compreende a verdadeira revolução”[8], escreveu Lenin em 1916 a propósito da insurreição irlandesa daquele ano e polemizando com aqueles dentro do movimento socialista que não a apoiaram. Não estamos diante de uma revolução ou uma insurreição, mas a ideia serve também para aplica-la à realidade catalã. Diante das imperfeições do conflito real há duas opções: optar por uma política passiva e, com isso, contribuir para aumentar involuntariamente ditas deficiências, ou por uma política ativa, que busque intervir sobre a realidade e modificá-la na direção desejada. A primeira opção empurra, em função do caso, ao radicalismo passivo ou abstrato, o propagandismo linear ou o rotinismo institucionalista. Todas essas políticas que, sem dúvidas, não tem nada que ver com uma tentativa séria de mudar o mundo.

As contradições e limites do processo independentistas auspiciaram, como resultado da condensação dos cinco anos de processo na batalha do 1 de outubro, a abrupta emergência de chamados paradoxos, um termo que nos remete em si mesmo tanto a situações cômicas como trágicas. Sem dúvidas, os dias prévios ao 1 de outubro foram dias de paradoxos. Partidos desobediente chamando à ordem e à calma, esquerdistas confiando nos Mossos de Esquadra[9]. Forças direitistas apelando à desobediência institucional (ainda elegantemente disfarçada de cumprimento da nova legalidade catalã). Ativistas alternativos e/ou libertários querendo votar. Governos reacionários acusando de golpistas àqueles que queriam organizar um referendo. Na atividade real, quando os processo sociais se aceleram, todo pensamento estratégico que não quisesse ficar fossilizado quase já antes de nascer deve saber mergulhar em um cenário repleto de paradoxos, onde as coisas não são o que aparentam e onde as consequências das ações nem sempre são claras.

O paradoxo da estratégia é que com frequência pode ficar superada pelos próprios paradoxos da realidade. E o paradoxo dos paradoxos da política real é que podem, às vezes, estimular um pensamento estratégico que supere os paradoxos que previamente o desarmaram.

Notas:

[1] Desenvolvo com mais detalhes toda essa questão em: Antentas, Josep Maria (2017). “Días decisivos”, 25 de Septiembre . Disponível em: http://vientosur.info/spip.php?article13036. Traduzido e publicado no Brasil pelo Blog Junho: http://blogjunho.com.br/referendo-de-1o-de-outubro-na-catalunha-dias-decisivos/

[2] Ver Nota de Rodapé 4.

[3] Podem: Podemos da Catalunha.

[4] Analiso com mais detalhes a política da Catalunha na Comú e de Podem em: Antentas, Josep Maria (2017). “Los Comunes y sus dilemas”, 7 de Septiembre. Disponível em: http://vientosur.info/spip.php?article12978

[5] Para uma reflexão inicial sobre isso ver: Antentas, Josep Maria (2013). “Independencia y proceso constituyente”, Público, 26 de febrero. Disponível em: http://blogs.publico.es/dominiopublico/6611/catalunya-independencia-y-proceso-constituyente

[6] A obra coletiva, Sobiranies: una proposta contra el capitalisme, impulsionada por membros do Seminario de Economia Crítica Taifa e ligados à CUP, vai na direção aprofundamento do conceito de “soberania”. Por seu lado, Catalunha em Comú insistiu bastante também em seus documentos na questão da “soberania”, mas o fez mais dissolvendo a questão nacional na pluralidade de soberanias ou de dimensões e não tentando pensar o concepto em sua totalidade e a interrelação entre suas distintas facetas.

[7] Para isso, ver por exemplo: Antentas, Josep Maria (2017). “1 de Octubre: terciando en el debate Llonch-Garzón”, Público.es, 18 de Julio. Disponível em: http://blogs.publico.es/tiempo-roto/2017/07/18/1-de-octubre-terciando-en-el-debate-llonch-garzon/

[8] Lenin (1916). “Balance de la discusión sobre la autodeterminación”, Obras Tomo VI (1916-17). Moscú: Progreso, p.25.

[9] NT: Mossos de Escuadra, a Policía Autonómica de la Generalidad de Cataluña.