Colagem de Singh Bean
Colagem de Singh Bean

A pós-verdade dos juros no Brasil

Eric Gil

No país onde a verdade não é mais tão verdadeira assim, o governo de Michel Temer e sua trupe tenta convencer os brasileiros que eles estão derrubando as taxas de juros, com as recentes decisões do COPOM para cortar a SELIC, sendo a última delas uma mudança de 13 p.p. para 12,25 p.p.

Mas como isto poderia ser mais uma das “pós-verdades” de Temer?

Quando o atual governo assumiu, em 31 de agosto de 2016, a SELIC, que é a taxa básica de juros brasileira, estava em 14,25%, e hoje ela está 2 p.p. abaixo! No entanto, a diferença está na taxa real de juros, aquela quando descontamos a inflação, que é a taxa que realmente interessa. Quando Temer assumiu, a inflação acumulada de 12 meses era de 9,56%, o que gerava uma taxa real de juros de 4,63%, já hoje a inflação acumulada de 12 meses é de 4,84% (esta queda da inflação devido ao empobrecimento geral da população e o fim do ciclo de subida dos preços administrados, visto no governo Dilma 2), o que gera uma taxa real de juros de inacreditáveis 7,41%.

No gráfico abaixo podemos ver a variação da taxa real de juros, aqui referente à SELIC, desde julho de 2009, menor patamar da taxa de juros nominal desde 1998. O número em azul (4,37) representa o início do governo Temer.

Gráfico 01 – Variação da taxa real de juros SELIC no Brasil

graf1

Fonte: BCB, IBGE [Elaboração própria]

Com a diminuição paulatina da inflação, a taxa de juros não acompanhou a queda. Isto fez com que no início do governo de Temer esta taxa real diminuísse, mas que na sequência ela chegasse ao maior nível em todo o período referido. Isto legitima que os bancos comerciais mantenham e mesmo aumentem, apesar de estarmos em meio à uma crise econômica, as taxas de juros cobradas às pessoas físicas.

A maior taxa de juros do mundo

Como grande parte dos leitores deste blog já sabem, o Brasil possui a maior taxa de juros do mundo, ao menos dentre as economias relevantes. Há muitos anos nos matemos no topo da lista, às vezes revezando o primeiro lugar com a Turquia, Rússia ou outro país da vez. Vejamos o ranking elaborado a partir de dados sobre inflação e taxa de juros de 26 regiões que englobam 44 países.

Tabela 01 – Taxa real de juros em 26 diferentes regiões

país/região taxa real juros
Brasil 7,65%
Rússia 4,61%
Índia 4,02%
Indonésia 3,01%
México 1,53%
China 1,53%
Chile 0,72%
Nova Zelândia 0,45%
África do Sul 0,21%
Polônia 0,09%
Israel 0,00%
Austrália 0,00%
Arábia Saudita -0,30%
Japão -0,30%
Dinamarca -0,66%
Coreia do Sul -0,78%
Canadá -1,00%
Suíça -1,10%
Turquia -1,22%
Hungria -1,41%
Grã-Bretanha -1,66%
EUA -1,75%
Zona do Euro -1,76%
Suécia -1,90%
R. Tcheca -2,13%
Noruega -2,26%
Média

0,21%

Fonte: global-rates.com [Elaboração própria]

Como podemos ver, o Brasil hoje tem uma taxa real de juros que equivale a 35,6 vezes a média mundial. Um verdadeiro paraíso dos banqueiros.

Mesmo em meio à uma crise econômica mundial, destoando da esmagadora maioria dos países do mundo, que diminuíram suas taxas de juros para tentarem reanimar as suas economias, o Brasil aumentou ainda mais a sua, garantindo a rentabilidade do sistema financeiro em cima não só dos trabalhadores endividados, mas da própria produção de mercadorias, ou a economia real, o que beira a insanidade.

Mas esta insanidade já começou a ser contestada mesmo dentro do mainstream da teoria econômica. Em janeiro deste ano o economista André Lara Resende, que foi um dos arquitetos do Plano Real e ex-diretor do Banco Central e presidente do BNDES, escreveu um artigo chamado “Juros e conservadorismo intelectual”, nas páginas do Valor Econômico. Neste artigo, André Lara questiona a eficiência de altos juros para combater a inflação, já que como podemos ver na tabela acima somos campeões de juros no mundo e mesmo assim ainda mantemos uma alta inflação. O fato mais curioso do debate que se abriu com este texto foi Armínio Fraga, o quase ministro da Fazenda de Aécio Neves, colocar como perigosa a publicidade deste questionamento, em entrevista dada à Folha.

Bem, nisto Fraga tem razão, debates são perigosos, e é justamente por isto que nós não podemos deixar de denunciar este extravio de dinheiro público através do pagamento de juros, retirando verba da Saúde, Educação e Previdência para garantir que a fração de classe financeira continue a gozar de todo centavo que pertence aos cofres públicos.