Fotografia de Erick Dau
Fotografia de Erick Dau

O espectro de Donald Trump

Charles Post

Um espectro ronda o Partido Republicano. Ao contrário dos anos 1980, não é o “comunismo” ou a “ameaça soviética”. Não é o “radicalismo islâmico” ou o “terrorismo”. É Donald Trump, o autodenominado “self-made” bilionário – na verdade um dos mais malsucedidos homens de negócios dos últimos tempos – que emergiu como líder na abarrotada corrida pela candidatura presidencial dos republicanos.

A aberta xenofobia de Trump conta muito para sua popularidade na base dos republicanos – predominantemente profissionais brancos de classe média suburbanos (e interioranos), administradores, pequenos empresários e uma minoria de trabalhadores brancos. Evitando o que chama por politicamente correto, ele condena os “estupradores e criminosos”, supostamente provenientes do México e pede a deportação em massa de imigrantes indocumentados.

O enfoque repercute uma ampla seção das classes médias brancas. Em Trump elas veem o antipolítico consumado – um “homem do povo” de discurso contundente, que fala sobre seus medos e ansiedades e irá restaurar a grandeza da América.

O crescimento de Trump tem alimentado pânico no establishment republicano, que agora tenta mobilizar seus recursos para bloquear sua candidatura (CONFESSORE, 2015). Esse establishment está, por exemplo, financiando anúncios (GABRIEL; PARKER, 2015) que acusam Trump de ser inelegível por causa de suas “visões extremistas” e de ser um “liberal no armário” que já apoiou o direito ao aborto e um programa público nacional de seguro de saúde.

A grande mídia também acolheu os argumentos do “extremismo” de Trump e de sua “inelegibilidade”, alegações que a esquerda deve saudar com algum ceticismo. Afinal de contas, Ronald Reagan parecia estar bem à direita da corrente principal da política dos Estados Unidos, em 1980, e ainda provou ser eminentemente elegível.

À esquerda, dois escritores – Harrison Fluss (2015) e Stanley Aronowitz (2015) – ofereceram recentemente reflexões diferentes sobre Trump. Para Aronowitz, Trump expõe o papel do dinheiro na política burguesa. Ele “põe o elefante no meio da sala, mostrando algo que o sistema político passou mais de um século disfarçando”, pondo assim em causa a legitimidade da democracia representativa na América. Fluss, entretanto, vê Trump como a “fruta podre da classe dominante norte-americana”, cujas ideias não são “uma aberração para o mainstream” da política convencional.

Existem elementos de verdade em ambas as interpretações. Por um lado, a capacidade de Trump e vários super-PACs[1] de gastar quantias ilimitadas de dinheiro permite que pequenos grupos politicamente marginais de contribuintes, o suficientemente ricos para tal, distorçam a arena eleitoral de tal maneira que comprometem a fé na democracia capitalista (DAVIDSON, 2015).

Por outro, a acumulação capitalista e a concorrência desenfreada acarretaram o declínio dos padrões de vida e uma maior insegurança não só para a maioria das pessoas que trabalham, mas também para segmentos das classes médias. Na ausência de um movimento de esquerda ou trabalhista viável, a precariedade que estes grupos enfrentam os torna abertos aos apelos de demagogos de direita como Trump.

No entanto, nenhuma dessas análises lida com o que faz a candidatura de Trump tão atraente para camadas das classes média branca e dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, tão assustadora para o establishment republicano. Simplificando, as candidaturas de Trump e aquelas alinhadas com o Tea Party, como Ben Carson e Ted Cruz, não representam nenhum segmento da classe capitalista nos Estados Unidos (POST, 2012; 2014).

Enquanto sua hostilidade aos sindicatos e o apoio a uma brutal austeridade e à redução dos impostos às corporações coincidem com a opinião capitalista preponderante nos Estados Unidos, os republicanos do Tea Party no Congresso contrariaram o capital a respeito do shutdown do governo federal – colocando em risco o crédito do Estado e do capital – e da imigração.

Em 2014, a Chamber of Commerce gastou dezenas de milhões para derrotar os candidatos do Tea Party nas primárias republicanas no Congresso em todo o país. No entanto, embora muitos candidatos fossem derrotados em 2014, isso não impediu que os reeleitos empurrassem John Boehner (R-OH) para fora da presidência da Câmara, irritados com sua oposição ao uso do teto da dívida federal como moeda de troca para diminuir o financiamento do programa de planejamento familiar, das pensões do Medicare e dos veteranos.

Na corrida presidencial, é provável que a Chamber of Commerce – que representa um amplo leque de empresas médias e grandes – e a Business Roundtable – que representa as maiores, as corporações transnacionais – tentem isolar Trump e os candidatos do Tea Party para favorecer Jeb Bush. Se isso falhar, muitos dos capitalistas que apoiam Bush, hoje vão se sentir muito confortáveis com a candidata democrata líder, Hillary Clinton (KUCINICH, 2015).

Uma das razões é a imigração, uma questão muito complicada para os capitalistas nos Estados Unidos. Evidentemente, eles não querem massas de imigrantes entrando nos Estados Unidos legalmente e ganhando rapidamente direitos de cidadania. No entanto, eles são militantemente contrários a deportações massivas e outras medidas que os privem de uma força de trabalho barata e flexível.

Em 2010, a Câmara de Comércio se juntou à American Civil Liberties Union e à League of United Latin American Citizens para opor-se à lei antiimigrantes do Arizona (SB 1070), que levou milhares de pessoas a fugir desse estado com medo da prisão e da deportação.

Além disso, a Business Roundtable e a Chamber of Commerce têm estado na vanguarda da pressão para a reforma da lei de imigração no Congresso. Ambos querem uma combinação de mais “proteção eficaz das fronteiras”, um (longo e difícil) “caminho para a cidadania” para quase 11 milhões de imigrantes indocumentados nos Estados Unidos e um programa de trabalhadores convidados para futuros imigrantes, que forneceria ao capital norte-americano uma oferta de trabalhadores sem direitos e sem capacidade de se tornarem residentes permanentes ou cidadãos.

O rápido crescimento de Trump é um repúdio a essa agenda. Como o Tea Party, Trump é um exemplo de política radical de classe média. Preso entre uma classe trabalhadora desorganizada e uma classe capitalista cada vez mais voraz, segmentos das classes médias – especialmente brancos suburbanos nos Estados Unidos – se sentem inseguros econômica e socialmente. Eles veem os seus meios de subsistência e sua posição social ameaçada por todos os lados.

Incapazes de desafiar diretamente o capital, setores das classes médias são atraídos para uma política que torna bodes expiatórios os imigrantes, sindicatos, mulheres, pessoas LGBT e de cor. A crescente radicalização de direita das classes médias tem alimentado a expansão das formações de extrema-direita e o surgimento de personagens que são independentes das classes capitalistas em um número de sociedades capitalistas avançadas: o Independence Party, na Grã-Bretanha; o Front National, na França; o Movimento 5 Stelle, na Itália; e o Tea Party e Donald Trump nos Estados Unidos.

Essa radicalização da classe média – o que Trotsky (1969) certa vez chamou de a “poeira humana” – tem algumas semelhanças com os movimentos fascistas clássicos dos anos 1920 e 1930. Genuínos elementos fascistas (grupos de supremacia branca com grupos de luta de rua organizados) têm sido atraídos para o Tea Party e Trump.

No entanto, nem o Tea Party nem Trump podem ser descritos como fascistas. Ambos procuram ganhar poder através de política eleitoral e não querem abolir as eleições e governo representativo. Os capitalistas nos Estados Unidos não optarão, no futuro previsível, por uma opção tão extrema-direita. Se o establishment republicano não conseguir parar Trump, eles provavelmente cruzarão as linhas partidárias e apoiarão uma política neoliberal como Hillary Clinton (YOUNG; BECERRA, 2015).

O espectro da Trump não só assusta o establishment republicano, mas a maioria da esquerda nos Estados Unidos. Como acontece de tempos em tempos desde 1930, a ameaça da extrema-direita servirá como uma desculpa para a burocracia sindical e o establishment liberal dos movimentos dos direitos civis, feministas e LGBT mobilizarem suas bases para apoiar os democratas.

Mas esta solução para a ascensão de Trump e da extrema direita não é uma solução para tudo: abraçar o “menor mal” em 2016 significaria mais uma vez renunciar à obra de reconstrução dos movimentos sindicais e sociais e, em vez disso, subordinar nossa política radical ao Partido Democrata. O resultado desastroso seria que a única oposição visível à classe capitalista não viria da esquerda, mas sim de um empresário bilionário.

Referências bibliográficas

ARONOWITZ, Stanley. The Real Reason Donald Trump Embarrasses The GOP. TPM, 13 Aug. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1NsMWdw

CONFESSORE, Nicholas. Talk in G.O.P. Turns to a Stop Donald Trump Campaign. New York Times, 4 SEPT. 2015. Dispon;ivel em: http://nyti.ms/1LaTk6v

DAVIDSON, Neil. Neoliberalism as the Agent of Capitalist Self-Destruction. Salv age, 1 Aug. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1VuC95q

FLUSS, Harrison. Donald Trump: American Psycho. Jabobin, 17 Sept. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1ik23fx

GABRIEL, Trip; PARKER, Ashley. Republican ‘Super PACs’ Turn to TV Ads for High-Stakes Primaries, New York Times, 24 SEPT. 2015. Disponível em: http://nyti.ms/1YU43MN

KUCINICH, Jackie. Hillary Clinton’s Mega-Donors Are Also Funding Jeb Bush. The Daily Beast, 4 Aug. 2015. Disponível em: http://thebea.st/1QPkbcC

POST, Charles. The Future of the Republican Party. Jacobin, 23 Dic. 2014. Disponível em: http://bit.ly/1KVHRsf

POST, Charles. Why the Tea Party? New Politics, v. XIV-1, n. 53, 2012. Disponível em: http://bit.ly/1WByXHH

TROTSKY, Leon. Fascism: What It Is and How To Fight It. New York: Pathfinder, 1969.

YOUNG, Kevin; BECERRA, Diana C. Sierra. Hillary Clinton’s Empowerment. Jacobin, Jacobin, 3 Aug. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1AbrsKT

Nota

[1] Nos Estados Unidos, os Political Action Committes (PACs) são organizações legais que tem a finalidade de arrecadar recursos para doá-los a candidatos ou campanhas políticas.

(Publicado originalmente no blog da revista Jacobin. Tradução de Alvaro Bianchi.)