Bordado de Pedro João Cury
Bordado de Pedro João Cury

O fim do fim da História, ou o divórcio entre o capitalismo e a democracia

Gustavo Araújo Simi

Nossos inimigos dizem: a luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou.
Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada.
Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda.
Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se conheça a verdade
ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgaremos.
É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda de nossos inimigos.
(Bertolt Brecht, Nossos inimigos dizem.)

Em 1992, o cientista político estadunidense Francis Fukuyama publicou O fim da História e o último homem, argumentando que “a democracia liberal pode constituir o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a forma final de governo humano e, como tal, constitui o fim da história”[1]. No contexto da queda do muro de Berlim e da desintegração da União Soviética, o autor escreveu que “faz sentido falarmos novamente de uma história coerente e direcional da humanidade que, finalmente, conduzirá a maior parte dessa humanidade à democracia liberal”.[2] Segundo Fukuyama, todos os problemas experimentados pelas sociedades capitalistas em que vigoram democracias liberais (“desde as drogas, os sem-teto e o crime até a destruição ambiental e a frivolidade do consumismo”[3]) não seriam decorrentes dos princípios constitutivos dessas sociedades, mas apenas o resultado das dificuldades provenientes da implementação incompleta desses princípios (que, ao seu ver, são “liberdade” e “igualdade”).

A tese fukuyamiana não sugere “o fim da ocorrência dos eventos, nem dos fatos grandes e importantes, mas da História, ou seja, da história como um processo único, coerente e evolutivo, considerando a experiência de todos os povos em todos os tempos”.[4] Na verdade, Fukuyama estava convencido de que a democracia liberal é o destino final dessa História, sua culminância, “o ponto de união entre regiões e culturas diversas no mundo todo”[5]. Para ele, a liberdade política efetiva é experimentada invariavelmente como consequência ou percepção decorrente de uma “revolução liberal” no pensamento econômico – revolução essa que chegaria, mais cedo ou mais tarde, para todos os indivíduos e povos do mundo. Essa ideia está ancorada na convicção de que o progresso da humanidade, por mais que não gere necessariamente a felicidade e o bem-estar de todos os homens, é capaz de forjar um determinado Espírito que, por sua vez, asseguraria a existência de uma História Universal.

Como observou Perry Anderson, em muitos aspectos Fukuyama é menos hegeliano do que desejaria: como cientista político do Departamento de Estado da Casa Branca, sua leitura da filosofia de Hegel focou-se menos no que é efetivamente a sua “instância fundamental” (o desenvolvimento do Espírito) do que em uma de suas dicotomias (a História, que se contrapõe à natureza)[6]. Ademais, a hipótese sobre o “fim da História” acabou baseada em uma tradução que, inevitavelmente, traiu e falsificou o que havia registrado o sistema hegeliano:

“Hegel nunca utilizou os termos Ende [fim] Schluss [encerramento] no léxico de suas conclusões; somente Ziel [meta, alvo], Zweck [objetivo final, finalidade] ou Resultät. A razão disso é simples, num determinado nível. Em alemão, não existe uma palavra que combine os dois sentidos de end em inglês, como término e como propósito, e o interesse essencial de Hegel era mais pelo segundo do que pelo primeiro”[7]

Com efeito, a teoria de Fukuyama acabou ridicularizada por inúmeros autores, entre conservadores, liberais e comunistas. No dia seguinte aos atentados às torres gêmeas, o colunista George Will referiu-se ironicamente a essa teoria: para ele, a História havia “voltado de férias”[8]. Em um artigo de 2007, Eric Hobsbawm afirmou: “Quando caiu o muro de Berlim, um americano incauto anunciou o fim da história. Evito, portanto, usar uma expressão tão claramente desacreditada”[9]. Fukuyama, contudo, manteve a sua posição, conforme expressou em entrevista para a Revista Veja no ano de 2004: “Nunca vamos ter um modelo de sociedade melhor do que a democracia orientada pela economia de mercado. Nada do que ocorreu desde então [desde que publicou seu livro], nem mesmo os atentados de 11 de setembro de 2001, mudou isso”[10]. No entanto, como comentou o historiador Daniel Araújo Marques, esses atentados concretizaram, efetivamente, na forma histórica, a tese do “choque das civilizações” de Samuel P. Huntington[11].

A ideologia hegemônica, que em nenhuma circunstância se contrapõe efetivamente às democracias liberais, passou a se orientar pela noção pós-moderna de “multiculturalismo”, com suas interações e conflitos entre as múltiplas práticas culturais, políticas, sociais e religiosas. Desse modo, Fukuyama não estaria inteiramente equivocado ao anunciar o fim de uma ordem bipolar: apenas a sua consequência teria sido outra daquela por ele prevista. No lugar de uma “união entre as diferentes regiões e culturas do mundo todo”, uma nova palavra de ordem emergiu para estruturar a maioria dos sistemas políticos do ocidente: a tolerância. Não se trata mais de acreditar que “os países atrasados” e “os povos primitivos” trilharão um caminho (tortuoso, é verdade) até as suas estabilizações em sociedades de livre mercado e com democracias liberais, mas sim que essas últimas devem simplesmente tolerar “o atraso” e “o primitivismo” das outras que não as alcançaram “ainda”. Mantém-se, assim, uma concepção hierárquica dos sistemas políticos e econômicos, das experiências sociais e culturais e, em última análise, das formas de vida, como notou Slavoj Zizek:

“É fácil rir da noção de fim da história de Fukuyama, mas o ethos dominante hoje é “fukuyamiano”: o capitalismo democrático-liberal é aceito como a fórmula da melhor sociedade possível que finalmente se encontrou – só resta torna-lo mais justo, mais tolerante etc”.[12]

No entanto, foi o próprio Fukuyama, no texto “O Futuro da História”, de 2012, quem afirmou que “algo estranho” estaria ocorrendo no mundo em decorrência da crise de 2008, resultado de um modelo de baixa regulação da economia inaugurado ainda nos anos 1970 (período Reagan/Thatcher) em relação ao qual apenas o populismo de direita (representado, por exemplo, pelo movimento Tea Party nos Estados Unidos e os partidos neofascistas na Europa), mas não os marxistas (ainda presos aos ideais de uma “antiga socialdemocracia”), estaria demonstrando ser capaz de se apresentar como uma alternativa concreta[13]. Não que o sistema filosófico fukuyamiano mereça toda essa importância, mas esse artigo já pode ser lido como um documento histórico na medida em que registra a frustração que o neoliberalismo provocou em seus próprios operadores, sobretudo após o crash do Lehman Brothers e a bancarrota global instituída pelos milionários de Wall Street a partir daquele ano. Nem Osama Bin Laden foi tão devastador quanto os piores mafiosos do sistema financeiro internacional.

Para nós, marxistas, sobrou uma provocação do artigo de Fukuyama: como não soubemos mobilizar as potências dessa gigantesca decepção para um movimento efetivamente revolucionário? Alguns poderiam argumentar (corretamente) que houve tentativas nas rebeliões populares que se espalharam pelo mundo, desde o Egito até o Chile, passando pela Grécia, Espanha, Turquia, Brasil, pelos próprios Estados Unidos etc. No entanto, também não seria um equívoco afirmar que esses movimentos não passaram de “rebeliões populares” episódicas, pontuais, rapidamente desmobilizadas pelas manipulações da ideologia hegemônica (ou pelo cassetete da Polícia, simplesmente). A rigor, a única ameaça concreta que paira sobre as democracias liberais e sobre o sistema capitalista hoje provém de nossos antigos inimigos: os fascismos. Como observou Michel Löwy após as eleições para o Parlamento Europeu em 2014 (quando em países como a França e a Inglaterra, a extrema-direita obteve cerca de 30% dos votos), a crise econômica favoreceu mais os movimentos e partidos reacionários do que a esquerda radical[14].

A meu ver, a explicação para esse fenômeno perigoso – a “onda marrom”, como vem sendo chamada na França essa expansão do fascismo – não pode se limitar ao caráter econômico da crise atual, como salientou Löwy. Não foi apenas uma determinada forma de capitalismo (neoliberal) que colapsou em 2008, mas sobretudo o modelo político. Marx escreveu que se o capitalismo resulta em um processo crescente de socialização do trabalho e das forças produtivas (o que, em um determinado estágio do seu desenvolvimento, provocaria a sua superação a partir da socialização da apropriação dos bens produzidos – o que não é a mesma coisa de estatização, diga-se de passagem), em contrapartida “um outro aspecto da dinâmica capitalista – organicamente relacionado com esse (…) que poderia ser chamado de socialização da política[15] acabou deixado em segundo plano. Mais do que as dificuldades de regulamentação do sistema financeiro global, a atual conjuntura revela os limites das democracias liberais e seu princípio fundamental de representação.

Um valor básico de qualquer democracia moderna, como o da soberania popular, hoje é considerado uma verdadeira ameaça para a própria democracia: na Grécia, por exemplo, após a eleição de uma coligação de esquerda radical que colocou para votação em sufrágio universal os rumos da política econômica nacional (em um referendo no qual mais de 60% da população optou pelo “não” ao ajuste fiscal exigido pela Troika) a resposta da União Europeia foi muito contundente: ou o governo grego deveria ignorar a expressão do desejo da maioria do país, ou deveria arcar com as consequências de um “Grexit”. Como afirmou na época o primeiro-ministro Alexis Tsipras, o recado que a União Europeia deu para a Grécia e para os demais países do continente foi o de que a vontade dos povos não exerce qualquer influência nas decisões de poder: ou seja, a democracia não tem espaço, não cabe no atual modelo político-econômico. Com efeito, a constatação de Zizek sobre o sucesso da administração do capitalismo pelo Partido Comunista Chinês parece uma tendência universal: há, de fato, um “sinal agourento de que o casamento entre capitalismo e democracia está próximo do fim”[16].

Resta saber se as esquerdas terão a capacidade de reinventar a política, de propor novas formas de organização, mobilizando as forças do inconformismo e da indignação para um movimento emancipatório, libertador e capaz de enfrentar o aspecto mais perverso do capitalismo neoliberal: a desigualdade econômica. O que ocorrerá efetivamente nesse “fim do fim da história” nós ainda não sabemos, mas uma coisa já podemos afirmar sem muitas dúvidas ou riscos de estarmos equivocados: trata-se de um processo irreversível. A história, definitivamente, “voltou de férias” e os “acontecimentos históricos” estão na ordem do dia novamente, inclusive no Brasil. Vivemos um tempo de oportunidades revolucionárias como há muito não ocorria. Talvez o que esteja faltando seja simplesmente avisar aos revolucionários dessa “boa nova”.

Notas

[1] FUKUYAMA, Francis. O fim da História e o último homem. Tradução: Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 11.

[2] Idem, p. 13.

[3] Idem, p. 22.

[4] Idem, p. 12.

[5] Idem, pág. 14.

[6] ANDERSON, Perry. O Fim da História: de Hegel a Fukuyama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

[7] Idem, p. 18.

[8] WILL, George. The end of our holiday from history. Jewish World Review. 12 set. 2001. Disponível em < http://www.jewishworldreview.com/cols/will091201.asp > Última visualização: 08 abr. 2016.

[9] HOBSBAWM, Eric. Guerra, paz e hegemonia no início do século XXI. Em: Globalização, democracia e terrorismo. Tradução: José Viegas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 36

[10] Entrevista de Francis Fukuyama para a Revista Veja. 16/11/2004. Disponível em < http://bit.ly/1XXuzms> Última visualização: 8 abr. 2016

[11] MARQUES, Daniel Araújo. Do fim ao futuro da História: uma análise do percurso de Francis Fukuyama de 1989 a 2012. Revista Historiador, a. 6, n. 6, jan. 2014, p. 100. Disponível em: < http://www.historialivre.com/revistahistoriador > Pág. 100. Última visualização: 08/04/2016

[12] ŽIŽEK, Slavoj. Unbehagen in der Natur – Além de Fukuyama. Em: Em defesa das causas perdidas. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 416

[13] FUKUYAMA, Francis. O futuro da História. Foreing Affairs, jan.-fev. 2012. Disponível em < http://fam.ag/1SO4wNf > Última visualização: 8 abr. 2016

[14] LOWY, Michael. Dez teses sobre a ascensão da extrema-direita europeia. Folha de S. Paulo, 15 jun. 2014. Disponível em < http://bit.ly/1TznJ5p > Última visualização: 18 abr. 016.

[15] COUTINHO, Carlos Nelson. Sobre a questão democrática em Marx e em alguns marxistas. Em: Por que Marx? KONDER, Leandro. CERQUEIRA FILHO, Gisálio. FIGUEIREDO, Eurico de Lima (orgs). Rio de Janeiro: Graal, 1983. p. 66

[16] ZIZEK, Slavoj. O violento silêncio de um novo começo. Em: Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas. Sâo Paulo: Boitempo, 2012. p. 17