Ilustração de Chris Tamsbascia
Ilustração de Chris Tamsbascia

O legado de Antonio Cândido

 

André Kaysel

Na última sexta-feira, dia 12 de maio, faleceu o crítico literário e sociólogo, professor da Universidade de São Paulo (USP), Antonio Cândido de Melo e Souza, aos 98 anos. A morte deste que era, possivelmente, o último grande pensador do Brasil, do nível de outros como seu companheiro de geração Florestan Fernandes, causou grande comoção nos meios intelectuais e no campo político progressista, indo mesmo além de suas fronteiras. Entre artigos, entrevistas, depoimentos e postagens nas redes sociais, muitos foram os que lembraram a importância crucial de suas obras – entre as quais se destacam clássicos como Os Parceiros do Rio Bonito (1954) e Formação da Literatura Brasileira (1959) –, sua longa carreira como docente, que formou discípulos da qualidade de Roberto Schwarz, David Arrigucci e Walnice Galvão, sem falar na trajetória militante, desde os tempos da “esquerda democrática” e da fundação do Partido Socialista, nos anos 1940, à formação do Partido dos Trabalhadores (PT), nos 1980.

Nas linhas que se seguem, não pretendo acrescentar nada de novo ao que foi dito. No que tange ao seu legado como crítico literário e intérprete do Brasil, outros já o fizeram e ainda o farão de modo muito mais competente do que eu o faria. Meu objetivo é examinar sua herança para as novas gerações da esquerda brasileira no cruzamento de três dimensões: a personalidade pública, a postura intelectual e o compromisso político.

Parto de uma constatação que, ainda que seja trivial a primeira vista, não me parece ser nada banal. Refiro-me a quase unanimidade de vozes que lamentaram sua perda em um amplo espectro das forças de esquerda ou democráticas. É quase proverbial a aura de unanimidade que por vezes a morte parece conferir no imaginário social brasileiro. Porém, dos tantos falecimentos que precipitam uma enxurrada de mensagens de pesar nas redes sociais, poucas vezes vi uma figura que catalisasse um sentimento de aprovação em uníssono em um ambiente, tão perpassado pelas divisões, fragmentação e o sectarismo. Também é evidente que a obra de Cândido, como aliás a de qualquer autor, está sujeita a críticas,. Para ficar em um exemplo que me é particularmente familiar, seu cânone tão consagrado do pensamento brasileiro dos anos 1930, exposto no prefácio à edição de 1967 de Raízes do Brasil (1936)de Sérgio Buarque de Hollanda, alinhando esta última obra ao lado de Casa-Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Jr., tem sido posto em questão por pesquisas recentes no campo dos estudos da história do pensamento político-social brasileiro.

Contudo, além da inegável grandeza de seu trabalho intelectual, parece ter havido algo de particularmente cativante em sua persona pública. Não faltou quem recordasse o professor exemplar que discorria com simplicidade e elegância por temas densos, sem, ao mesmo tempo, fazer nenhuma concessão à simplificação. Outros lembraram a generosidade do intelectual que recebia, de maneira humilde e acolhedora, os mais jovens para conversar sobre literatura e política. Por fim, mereceu destaque o humanista radical que via no socialismo a culminação da democracia em todos os âmbitos da vida social e que valorizava a literatura e a cultura, como no título de um de seus mais célebres escritos, O Direito à Literatura (1988), como um direito humano inalienável.

São justamente essas três facetas – o professor acessível, o intelectual íntegro e o humanista convicto – que forjam o encanto dessa pessoa pública que parecia fazer justiça a seu segundo nome.

Tanto na obra como na trajetória política de Antonio Cândido se apresentam duas constantes que articulam e conferem sentido a esses atributos: a combinação rara de firmeza e consistência de princípios, por um lado, e largueza de vistas e ecumenismo, por outro.

No plano da sua produção, Cândido soube incorporar o referencial teórico marxista, mas sem nunca a ele se restringir, dialogando com uma ampla gama de abordagens, seja no campo da crítica literária, seja no da sociologia. Esse pluralismo metodológico, entretanto, não deve ser confundido com aquilo que, nos meios acadêmicos, se rotula pejorativamente como ecletismo, muito menos com a adesão a modismos ou vogas intelectuais. Pelo contrário, ao longo de sua vasta obra, se pode observar certas constantes que lhe conferem rigor e densidade. Em Literatura e Sociedade (1965), Cândido rejeitou, tanto o formalismo do New Criticism, que restringia a análise literária aos aspectos internos do texto, seja o sociologismo que o reduzia a suas determinações contextuais, procurando flagrar o peso dos fatores externos na própria contextura interna à obra. Esse preceito metodológico acompanha sua crítica literária antes e depois da publicação do trabalho referido..

Já em sua trajetória política, ao lado de companheiros como o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, Cândido optou por um socialismo democrático que rejeitava os caminhos seguidos pela União Soviética. Essa tomada de posição nunca o impediu de travar um diálogo sincero com um amplo espectro de posições ideológicas, indo de conservadores e liberais a comunistas. Sua auto-localização pode ser encontrada em um ensaio como Radicalismos (1990), no qual ele procurava identificar uma tradição radical no Brasil que, distanciando-se do conservadorismo dominante no país, buscava a democratização da sociedade.

Mas seu engajamento ia além dos escritos ou de suas lealdades partidárias, dedicando-se ativamente à luta pela universidade pública, instituição à qual devotou o melhor de sua vida. No final dos anos 1970, Cândido foi vice-presidente da segunda diretoria da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp), tomando parte na primeira grande greve das universidades estaduais paulistas em 1979. O professor recordaria esse episódio duas décadas mais tarde, em um depoimento comovente coligido na coletânea Tempos de Greve na Universidade Pública (2000). Para ele, mesmo quando derrotadas, as greves sempre seriam vitoriosas pois cumpririam um papel de pedagogia política.

Posicionamentos como esses não significam que as opiniões de Cândido eventualmente não contrariassem o senso comum de amplas parcelas do movimento estudantil ou docente. Em mais de uma ocasião ele se manifestou contrário a participação paritária de estudantes, funcionários técnico-administrativos e professores na direção da universidade. O que une ambas as tomadas de posição é o modo franco e tranquilo com que as expunha a seus interlocutores, fossem quais fossem.

Aqui chego a um ponto fundamental, já aludido acima, de seu rico legado: a completa ausência de sectarismo político-ideológico. Cândido abraçou a laicidade e o iluminismo em seus sentidos mais profundos, o que implicava em uma permanente disposição à escuta e ao diálogo. Nada mais distante da tendência da esquerda brasileira a pugna sectária, na qual a internacionalmente conhecida tendência ao facciosismo se combina a inclinação nacional pela personalização do embate de ideias.

Embora antigos, esses traços se agravam de modo particularmente perverso nos dias que correm, exacerbados pelo individualismo e fragmentação que pautam o presente. Nas bolhas que pululam no mundo da comunicação virtual, celebridades de ocasião se digladiam com virulência por questões menores, convertendo conceitos em chavões sob medida para desqualificar adversários e arrancar aplausos de fãs. Um mundo, em suma, que eleva a frase lapidar do Manifesto Comunista de Marx e Engels – “tudo que é sólido se desmancha no ar”- a um novo e preocupante patamar.

Nada mais distante do universo de um homem que trabalhava na máquina de escrever e falava ao telefone fixo. Contudo, se Cândido pertenceu ao século XX, isso não faz dele um personagem ultrapassado. Pelo contrário, desde seu tempo Cândido nos interpela, propondo o desafio da resiliência nas convicções e da fraternidade nas discordâncias.

Esse quase centenário passou por acontecimentos tão traumáticos como a Segunda Guerra Mundial, ou o Golpe de 1964, no âmbito nacional, sem nunca perder a esperança no progresso da humanidade. Nesse sentido, me lembra o historiador inglês Eric Hobsbawm, seu contemporâneo, , quem, diante da derrota sofrida pelo comunismo em 1989, não abandonou, como outros, as convicções que pautaram sua também longa vida.

Quis o destino que Cândido viesse a falecer no dia do aniversário de um ano do golpe de Estado de 2016 e de todo o cortejo de mazelas que vieram em sua esteira. Nós, diante da tragédia que se abateu sobre o país, não raro nos entregamos à desesperança, à autocomplacência, à culpabilização recíproca ou à ânsia por uma tábua de salvação qualquer. Em um clima como esse, a figura de Antonio Cândido aparece como um ponto de referência fixo em um horizonte tormentoso. Daí talvez a homenagem unânime de todo(a)s aquele(a)s que, em que pese as muitas divergências entre si, ainda esperam algo da democracia e da justiça social.

O humanismo radical de Antonio Cândido não parece caber em um mundo cada vez mais dominado pelo culto à mercadoria e pela correlata brutalidade anti-intelectualista. Mas é essa inconformidade com o espírito do tempo que o torna tão atual. Saibamos ler suas obras com o espírito crítico que ele certamente aprovaria. Mas, acima de tudo, saibamos extrair as lições do exemplo daquele que foi, na acepção forte da palavra, um mestre.