Fotografia de Marlon Anjos
Fotografia de Marlon Anjos

“O marxismo brasileiro precisa se renovar”: entrevista com Marcelo Badaró e Alvaro Bianchi

Daniela Mussi 

Em 1998, ano em que o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels completou seu 150 oaniversário, surgiu no Brasil a Revista Outubro. Seu manifesto de lançamento editorial apresentava uma revista marxista independente, cuja vocação estava na publicação de artigos e resenhas dedicados à atualização da pesquisa teórica e empírica crítica do mundo capitalista. Seu corpo de colaboradores era formado por pesquisadores e professores experientes e jovens acadêmicos e era principalmente do trabalho dedicado destes últimos que a revista retirava sua vitalidade e dinâmica.

A Revista Outubro nasceu com a meta de agregar e divulgar o pensamento de intelectuais marxistas em um contexto cujo ambiente acadêmico e a opinião pública brasileira se mostravam fortemente refratários à contribuição teórica e analítica destes. Seu desafio era o de enfrentar, por um lado, o agressivo avanço das ideologias do “fim da história” e da morte do ideário socialista e revolucionário, sob as quais se erguiam e sustentavam governos neoliberais ao redor do mundo. Por outro, o de compreender e enfrentar as forças centrípetas e centrífugas que desagregavam e desorganizavam o que restara da cultura marxista e criavam polos efêmeros de atração intelectual, cujo alcance se esgotava na estação seguinte.

Hoje, passados pouco mais de 15 anos, a Revista Outubro decidiu disponibilizar todo o material produzido na Internet e passará a publicar suas próximas edições exclusivamente online. São dezenas de artigos e resenhas acessíveis gratuitamente, com pesquisas e comentários bibliográficos a respeito de diversas tradições marxistas brasileiras e internacionais. O objetivo é dinamizar a produção e divulgação de seu material, bem como democratizar o acesso de antigos e novos leitores e leitoras ao conteúdo da revista.

Leia a seguir a entrevista com dois fundadores da Outubro, os professores Alvaro Bianchi (Unicamp) e Marcelo Badaró (UFF), sobre a trajetória desta revista, a atualidade do marxismo e os desafios para o futuro.

Como surgiu a Revista Outubro? Quem fazia parte dela? O que motivou seu lançamento?

Alvaro Bianchi – A revista Outubro surgiu da percepção de que no final dos anos 1990 existia uma renovação do pensamento socialista e uma reativação dos movimentos sociais. O sinal havia sido dado pela greve geral na França, em 1996, e pela revolta em Chiapas, no México, em 1994. A revista foi lançada em outubro de 1998 e  em novembro de 1999 ocorreu a grande manifestação contra a Organização Mundial do Comércio, em Seattle. Acho que nossa caracterização estava certa.

No início reuníamos quatro grupos diferentes. O primeiro era formado por professores da Universidade Estadual de Campinas, como Edmundo Fernandes Dias, Márcio Bilharinho Naves e Ângela Tude, que haviam se afastado da revista Crítica Marxista, depois que Edmundo foi excluído de seu comitê editorial. O segundo era de professores e ativistas do Rio de Janeiro, como Marcelo Badaró Mattos, Juarez Duayer, Marina Barbosa e Elisa Guimarães, os quais estavam envolvidos na criação de um centro de formação política e sindical chamado Instituto de Estudos Socialistas (IES). O terceiro era organizado por Robério Paulino e reunia ativistas do IES de são Paulo. O último desses grupos era de jovens pós-graduandos da Universidade Estadual de Campinas, dentre os quais estávamos Ruy Braga e eu.

Marcelo Badaró – A revista surgiu em 1998, a partir da iniciativa de um grupo de professores (universitários e do ensino básico), estudantes e militantes políticos associados ao Instituto de Estudos Socialistas, fundado com o objetivo de promover cursos de formação política e difundir o debate teórico marxista. A nossa principal motivação era ocupar o que diagnosticávamos como uma lacuna entre os periódicos marxistas disponíveis.

Pretendíamos construir uma revista capaz de aprofundar o debate sobre a teoria marxista e as grandes questões da luta de classes hoje, que fosse ao mesmo tempo consistente do ponto de vista das contribuições ao debate e interessante para um público leitor militante que iria além dos espaços acadêmicos.

É muito comum encontrar no ambiente acadêmico e na opinião pública brasileira a ideia de que o “marxismo morreu”, que as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels não possuem atualidade alguma. Como você localiza o pensamento marxista nos debates teóricos e políticos atuais?

Alvaro Bianchi – É um processo que tem um desenvolvimento desigual e combinado. Houve nos últimos anos uma importante expansão das universidades públicas brasileiras e isso permitiu o ingresso no sistema de ensino superior de novos professores e pesquisadores. Se nossa caracterização estivesse errada o pensamento marxista não teria sido beneficiado por essa expansão, mas o que ocorreu é que um número considerável dos jovens professores, principalmente na área de humanas, tinham passado pelo movimento estudantil ou sindical e eram influenciados de alguma forma pelo pensamento marxista. Nos anos 2000 cresceu muito o número de revistas, de centros de pesquisa e de encontros acadêmicos marxistas.

Mas como disse esse é também um processo desigual. Houve de alguma maneira uma ruptura nos anos 1990 que separou as gerações atuais das gerações precedentes. As razões são várias e eu destacaria duas: o avanço da ideologia neoliberal e o processo de absorção de muitos intelectuais promissores pela máquina de administração estatal petista. Dessa maneira as novas gerações de intelectuais marxistas tiveram que recomeçar seu trabalho praticamente do zero. Isso teve um preço bastante elevado. Em minha opinião  teoria marxista produzida hoje no Brasil está aquém daquela dos anos 1960 e 1970. O marxismo brasileiro é muito influente, mas precisa renovar-se e estar mais atento ao debate internacional, particularmente àquele que tem lugar na Inglaterra e nos Estados Unidos, que são hoje os centros dinâmicos de desenvolvimento da teoria marxista.

Marcelo Badaró – Acredito que a fase mais dura do antimarxismo nos debates públicos foi vivida nos anos 1990. Desde 2008, com a nova etapa de manifestação mais aguda da crise capitalista, os nomes de Marx e Engels voltaram a ser reconhecidos, ao menos como analistas relevantes da economia capitalista, muitas vezes até por porta vozes de um pensamento econômico liberal.

No entanto, o estrago produzido pelo antimarxismo acadêmico dominante desde anos 1990 foi forte o suficiente para que as novas gerações de professores e estudantes de pós-graduação tenham sido formadas, na maior parte das vezes, com uma visão estereotipada e preconceituosa do marxismo, que se reproduz amplamente nas áreas de Ciências Humanas e Sociais. Daí a importância dos centros de estudos marxistas e de revistas como Outubro, que se constituíram em trincheiras de resistência, aglutinaram marxistas dispersos em vários departamentos e instituições e ajudaram a formar uma nova geração de intelectuais críticos e militantes que teve muito pouco contato com o marxismo nas suas salas de aula.

O que é a renovação do marxismo hoje?

Alvaro Bianchi – A renovação do marxismo significa, a meu ver, enfrentar dois desafios hoje. Primeiro, o de um novo retorno crítico à obra de Marx e Engels, à luz das descobertas que a nova edição da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA) tem permitido.  Temos hoje no Brasil novas traduções de importantes obras, as quais tem permitido estudos mais atentos às sutilezas do texto marxiano. Os primeiros passos tem sido dados nessa direção. Mas ainda há dívidas a serem saldadas, por exemplo, com a obra de Engels, frequente e injustamente desvalorizada, e com os escritos históricos e políticos que Marx produziu na década de 1860 e 1870.

Significa, em segundo lugar, ir além dessa obra e enfrentar, com o método de Marx e a partir de suas pistas, quatro críticas que considero fundamentais: a crítica da economia política contemporânea, a crítica da política presente, a crítica da atual divisão do trabalho e a crítica das ideologias pós-modernas. Para renovar-se, ou seja, para enfrentar esses desafios, o marxismo brasileiro precisa  internacionalizar-se e superar seu apoliticismo.

O marxismo brasileiro é ainda provinciano. Precisa colocar-se em diálogo com as correntes mais férteis do marxismo no mundo. E necessita, também, sair das universidades e vincular-se de maneira mais íntima aos movimentos sociais e aos partidos de esquerda. Sem essa internacionalização e sem a politização a renovação enfrentará limites intransponíveis.

Nos últimos anos, assistimos a um ciclo de revoltas e revoluções ao redor do mundo em que a juventude desempenhou um importante papel importante, bem como a Internet e suas redes sociais. Como pensar esse novo momento de um ponto de vista marxista?

Marcelo Badaró – Penso que a nós cabe o desafio de compreender em que medida tal participação da juventude, com suas potencialidades e limites, se relaciona à dinâmica da luta de classes, ou seja, de que forma podemos entender como as novas configurações do conflito entre capital e trabalho potencializa revoltas dessa natureza. Por exemplo, compreendendo como os protagonistas de muitos desses movimentos foram/são jovens com formação escolar mais elevada que seus pais trabalhadores, mas que apesar disso, em quadros sociais de avanço do desemprego e da precarização, já não possuem sequer a perspectiva do trabalho regular, quanto mais a de ascensão social. Isso, no entanto, não os faz identificarem-se automaticamente como parte da classe trabalhadora e, especialmente, os leva muitas vezes a rejeitar genericamente todas as organizações tradicionais da classe, como os partidos e os sindicatos. O que, diga-se de passagem, é um sentimento reforçado pelo percurso errático da maior parte dessas organizações nas últimas décadas.

Alvaro Bianchi –  O número 22 da revista Outubro trará um interessante artigo de Colin Baker que permite pensar esses processos políticos e sociais. Em vez de falar de “movimento sociais”, como boa parte da literatura tem feito, enfatizando as particularidades de cada um, ele propõe retornar à formula marxiana de “o movimento social em geral” para apreender as formas e manifestações variadas de revolta popular contra o atual desenvolvimento capitalista. Eu acho essa uma fórmula promissora que pode ajudar a compreender esse ciclo de revoltas e revoluções de um ponto de vista marxista. O que o marxismo permite é uma análise desses movimentos do ponto de vista da totalidade, como diz Lukács, apesar de sua heterogeneidade interna.

Não foram poucos os que tentaram explicar esses processos políticos e sociais. E nem sempre os marxistas acertaram. Algumas formulações que tentam atribuir a esses movimentos o caráter de “movimentos de classe média” são, a meu ver, claramente deficitárias teórica e empiricamente. Mas as melhores respostas foram dadas pelos marxistas e eu fico muito feliz em perceber que alguns deles são colaboradores da revista Outubro.

No caso brasileiro eu estou convencido de que foi um membro do Conselho Editorial da revista Outubro, Ruy Braga, quem matou a charada das revoltas de junho de 2013. O conceito de precariado que ele desenvolveu para explicar traços importantes das classes trabalhadoras brasileiras, permitiu compreender as principais características dessas revoltas: a juventude de seus integrantes, o fato da maioria deles trabalhar, a espontaneidade do movimento, sua radicalidade e, também, seu caráter ideologicamente confuso.

O nome da revista, Outubro, faz uma referencia ao processo revolucionário de 1917, na Rússia, quando os trabalhadores tomaram o poder do Estado, dirigidos por figuras como Lenin e Trotsky. Quase cem anos depois, é possível dizer que aquele “outubro” se mantém como referencia? Em que sentido?

Alvaro Bianchi – Nós estávamos em uma daquelas discussões intermináveis sobre o nome da revista, quando Márcio Bilharinho Naves sugeriu Outubro. Foi um consenso instantâneo. Porque, de certa maneira, Outubro sintetiza nosso programa. A revista tem um perfil anticapitalista, antirreformista e antiburocrático. Seu programa é, também, o programa da revolução Russa de 1917. Acho importante destacar que em outubro de 1917 teve início um período riquíssimo de desenvolvimento da teoria marxista. Algumas correntes dogmáticas tentaram reduzir esse desenvolvimento a este ou aquele líder soviético. Mas o que a revolução permitiu foi um impressionante movimento de ideias e o surgimento de correntes intelectuais inovadoras: o pensamento jurídico de Stuchka e Pashukanis; a linguística de Bakhtin e Volossinov; a teoria econômica de Rubin e Preobrazhenski; a historiografia da escola de Pokrovski; além é claro, do desenvolvimento do pensamento político de Lenin e Trotsky.

Isso sem falar das vanguardas estéticas na poesia, na literatura, na música e nas artes plásticas, das quais gosto muito. Descobri há pouco algo que deveria ter conhecido há muito, a opera de Shostakovich, Lady Macbeth  do Distrito de Mtsensk, inspirada na obra de um narrador russo que Walter Bejnamin apreciava muito, Nicolai Leskov. A obra de Shostakovich é impressionante, de uma complexidade notável. Como muitos, esse compositor foi perseguido pelo stalinismo, que não lhe perdoou o fato de ter começado sua carreira com o apoio do comandante do Exército Vermelho, o grande estrategista Mikhail Tukhachevsky, executado em 1937 por ordem de Stalin.

Essa tradição teórica e cultural está longe de ter esgotado todo seu potencial e pode continuar a estimular um marxismo laico, livre de todo culto à personalidade. Por isso a revolução de outubro é não apenas uma referencia política, é, também, uma referencia intelectual.

Marcelo Badaró – Para nós, no momento de fundação da revista, o nome Outubro indicou um horizonte político claro: o de um marxismo comprometido com a transformação socialista, que só pode ser alcançada pela via da ruptura revolucionária. É nesse sentido que a revolução de 1917 continua a nos inspirar.

A orientação marxista revolucionária da revista nunca foi construída de forma dogmática ou sectária. Pelo contrário, nossa intenção sempre foi tomar a experiência soviética como objeto de reflexão. Temos como ponto unificador do coletivo a perspectiva crítica ao estalinismo, mas procuramos não receitar fórmulas revolucionárias definitivas. Por isso mesmo, o debate sobre as estratégias revolucionárias é outro ponto aberto nas discussões da revista.