Ilustração Marlon Anjos
Ilustração Marlon Anjos

O mito da desconcentração de renda no Brasil

Eric Gil

Quando se fala em Partido dos Trabalhadores no Governo Federal lembramos do seu principal discurso: “distribuímos a renda no Brasil”. É difícil acreditar fielmente nestas palavras ao ver o crescimento interminável de favelas, de população de rua, da luta dos trabalhadores sem-teto, etc. No entanto, os dados não nos permitem dizer o contrário… Ou ao menos até agora não nos permitia.

Na onda dos novos estudos sobre concentração de renda, capitaneado mundialmente pelo economista Thomas Piketty, que ficou famoso com seu best-seller O Capital no Século XXI, publicado em 2013 na França, e logo depois nos Estados Unidos, três brasileiros resolveram utilizar o que Piketty e sua equipe já fazia com outros países e inovar nos estudos sobre concentração de renda no Brasil.

Estes novos estudiosos, em artigo publicado neste ano pela revista Dados[1], inovaram no que se refere à fonte utilizada para a extração de dados sobre renda, negando as pesquisas domiciliares, que no Brasil são principalmente a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) e o Censo, todas feitas pelo IBGE. No lugar destes dados passaram a utilizar as declarações de Imposto de Renda da Pessoa Física (DIRPF), agora disponibilizadas pela Receita Federal.

Segundo esta pesquisa, que abrange o período que vai de 2006 a 2012, as 0,1% pessoas mais ricas do Brasil se apropriaram de 11% de toda a renda do país, com uma renda individual 110 vezes maior do que a média nacional. Já os 1% mais ricos se apropriaram de um quarto de toda a renda do Brasil. E, por fim, os 5% mais ricos de 44%, ou quase a metade do total da renda nacional.

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Fonte: Medeiros, Souza & Castro (2015)

No entanto, o que mais chama a atenção aqui não é a concentração de renda em si, que é espantosa, mas o que haveria mudado ao longo do tempo, pois o que costumamos ouvir é que hoje o Brasil é um país muito menos desigual do que antes. Como pode ser visto no gráfico acima, os 5% mais ricos do país passaram a se apropriar de mais renda relativamente ao total que se apropriavam da renda entre os anos de 2006 e 2012. Ou como o ex-presidente Lula gostava de dizer sobre os empresários, “nunca antes na história deste país eles lucraram tanto!”

As diferenças entre os dados

É importante frisar a diferença dos dados agora utilizados, tendo como fonte a DIRPF. Se compararmos com outros dados do IBGE, como citamos no começo deste artigo, as declarações de Imposto de Renda demonstram uma concentração de renda nacional muito maior.

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Fonte: Medeiros, Souza & Castro (2015)

O gráfico acima mostra os diferentes resultados da concentração de renda no Brasil quando utilizamos dados distintos. Quanto mais precisa for a pesquisa, maior a concentração de renda mensurada, ou na sequência, DIRPF, Censo, POF e PNAD. Isto se dá porque pesquisas domiciliares tendem a subestimar as rendas das pessoas mais ricas, seja por estas pessoas mais ricas esconderem seus rendimentos, seja por nem sequer saber quanto ganha exatamente.

Estes resultados também são verificados por Piketty e sua equipe para países como Estados Unidos e França, ou seja, quando se utilizam dados mais confiáveis mostra-se a maior concentração de renda nas economias capitalistas ao redor do mundo.

E o que nós, marxistas, temos a ver com isto?

No ano passado, em meio ao badalado momento em que vivia o livro O Capital no Século XXI, Dadiv Harvey com toda sua arrogância prestou um desserviço ao marxismo brasileiro, declamando a seguinte frase replicada pela página do Facebook da Boitempo: “Pra que ler Piketty quando você poder ler Marx?”[2]

O marxismo deve sempre evitar o dogmatismo, e a negação da leitura de outros autores simplesmente por não serem marxistas é um dos piores erros que esta ciência pode cometer, perigando rumar para uma religião de tolos. Por que não ler, e inclusive utilizar uma nova fonte de dados quando somos convencidos que este nos mostra uma realidade mais concreta?

A ciência avança, o marxismo também.

Notas:

[1] MEDEIROS, Marcelo; SOUZA, Pedro H. G. Ferreira de  e  CASTRO, Fábio Avila de. O Topo da Distribuição de Renda no Brasil: Primeiras Estimativas com Dados Tributários e Comparação com Pesquisas Domiciliares (2006-2012). Dados, v. 58, n. 1, p. 7-36, 2015. Disponível em: <http://bit.ly/1N6UuWP>.

[2] http://on.fb.me/1Q5Xrp0