Bordado de Pedro João Cury
Bordado de Pedro João Cury

O nascimento do conservadorismo-liberal nos Estados Unidos

 

Alvaro Bianchi

Uma história global do pensamento político, atenta aos processos de circulação e recepção das ideias poderia ajudar a compreender a irrupção do conservadorismo-liberal no Brasil. Nos Estados Unidos uma similar fusão entre o pensamento liberal e o conservador teve lugar nos anos 1950 e expressou-se na influente National Review. Reconstruir essa trajetória pode ser importante para interpretar manifestações contemporâneas desse pensamento.

Em 1951, o jovem William Buckley Jr., filho de um magnata do petróleo, publicou seu livro God and Man at Yale, acusando a renomada instituição universitária de ter fracassado em sua missão de doutrinar seus alunos com duas ideias: o cristianismo e o individualismo.

Recusando explicitamente o princípio da liberdade acadêmica, o jovem Buckley censurava sua alma mater por te deixado avançar o secularismo entre seus professores e estudantes. Reclamava que os estudantes eram estimulados a ler “alguns dos mais famosos e brilhantes filósofos céticos”, como David Hume, Immanuel Kant e Bertrand Russel, sem que os professores assumissem a atitude de “contradizer ou tentar refutar boa parte das conclusões dos céticos” (BUCKLEY JR., 2002 [1951], p. 19). Essa atitude condescendente teria permitido a difusão do relativismo, do pragmatismo e do utilitarismo e, particularmente, do pensamento de John Dewey e seus discípulos, os quais teriam contaminado todos os departamentos em Yale com “o absoluto de que não há verdades absolutas, direitos intrínsecos e verdades últimas” (BUCKLEY JR., 2002 [1951], p. 23). O Consternado, Buckley reconhecia “uma falha em cristianizar Yale” e responsabilizava a administração da Universidade por esse fracasso (BUCKLEY JR., 2002 [1951], p. 39).

O ataque do jovem escritor à administração de Yale se estendia a sua conivência com as ideias econômicas keynesianas, consideradas pelo jovem escritor como “coletivistas”.[1] God at Men at Yale investia contra as ideias presentes nos manuais de economia utilziados na Universidade, em especial aquele que se tornou o mais conhecido de todos: o recém publicado Economics: an introductory analysis, de Paul A. Samuelson (1948). Esses manuais teriam investido contra as ideias individualistas “condenando a presente distribuição de renda”, propondo um “taxas elevadas de imposto sobre renda” e um “imposto sobre heranças” e advogando como indispensável a ação do governo para regular a economia, defendendo a inexistência de limites para os gastos governamentais, manifestando “animosidade contra as grandes empresas” (BUCKLEY JR., 2002 [1951], p. 50, 53, 54, 58, 62 e 68).

National Review e o anticomunismo

Após o sucesso de seu livro e o apoio que recebeu do movimento conservador, Buckley decidiu atirar-se em um novo projeto editorial: a publicação de uma revista de opinião conservadora. Em novembro de 1955 veio à luz o primeiro número da National Review, uma revista criada com o firme propósito de dar um basta às forças políticas que pareciam ameaçar a sociedade norte-americana. O polpudo financiamento que recebeu de seu pai e as generosas contribuições que recolheu entre empresários conservadores forneceram os meios para um empreendimento editorial bem sucedido.

Apesar das dificuldades, Buckley demonstrou ser o suficientemente hábil para aproximar diversas correntes do pensamento conservador e lança-las à batalha com sua revista como aríete. Em seu manifesto editorial, Buckley anunciava agressivamente: National Review, “ergue-se na encruzilhada da história gritando Basta, em um tempo no qual ninguém está inclinado a fazê-lo ou de ter muita paciência com aqueles que instarem a fazê-lo” (BUCKLEY JR., 1955). Mas “basta” a que ou a quem? Fundamentalmente esse era um grito de guerra contra a opinião pública liberal que, segundo acreditavam os editores, era incapaz de lutar contra a ameaça comunista de uma maneira apropriada.

Juntamente com manifesto a revista divulgava seu credo, uma lista de sete ideias que combinava ecleticamente um programa “libertário”, o qual considerava que a missão do governo central deveria se reduzir a “proteger as vidas, a liberdade e a propriedade de seus cidadãos”, com uma visão de mundo conservadora, que acusava os “Engenheiros Sociais” que pretendiam conformar a humanidade em suas utopias e se alinhava com “os discípulos da Verdade, os quais defendem a ordem moral orgânica” (BUCKLEY JR., 1955).

A revista também pretendia defender “um sistema de preços competitivo” que não fosse ameaçados pelos monopólios em geral, e pelo “sindicalismo politicamente orientado” em particular. O credo da National Review não apenas considerava o comunismo como a “a força mais ruidosa do utopismo satânico”, como apregoava que a “coexistência” com os comunistas não era “nem desejável, nem possível, nem honorável”. A revista afirmava que os Estados Unidos estavam “irrevogavelmente em guerra com o comunismo” e que não deveria ser existir “nenhum substituto para a vitória” (BUCKLEY JR., 1955).

Conservadores, liberais e fundamentalistas

O caminho que levou à constituição do conservadorismo-liberal no Brasil certamente é mais tardio e muito diferente daquele norte-americano. Mas é possível aprender algumas coisas com a comparação. O conservadorismo-liberal norte-americano foi sempre um movimento de elites políticas e intelectuais. Em 1964 esse movimento encontrou sua expressão com a candidatura presidencial de Barry Goldwater (1909-1998) à presidência da República, depois deste ter derrotado o republicano liberal Nelson Rockefeller (1908-1979), governador do estado de New York, nas eleições primárias do partido Republicano. Mas Goldwater foi massacrado nas eleições, perdendo para o democrata Lyndon Johnson (1908-1973), o qual obteve mais de 61% dos votos, a maior vitória eleitoral desde 1820!\

Os conservadores-liberais, entretanto, souberam ter paciência e ir atrás de sua base eleitoral. Foi apenas com Ronald Reagan (1911-2004) que chegaram à presidência dos Estados Unidos. O presidente eleito em 1980 reconheceu seu débito agraciando Buckley com a Presidential Citizens Medal, a segunda maior condecoração civil no país.[2] Reagan tinha sido um dos primeiros assinantes da National Review e havia participado várias vezes dos jantares anuais que ela organizava. Quando Reagan estava prestes a passar seu posto para o sucessor eleito, George Bush, Buckley afirmou: “Ronald Reagan deixará Washington tendo realizado uma transformação histórica não apenas de natureza econômica, mas também ética” (BUCKLEY JR., 2000, p. 338).

O que os conservadores comemoravam era o advento de uma opinião pública conservadora que se expressou na vitória eleitoral de Ronald Reagan e em sua popularidade. A hegemonia dos liberais havia, finalmente, dado lugar a uma nova hegemonia conservadora. Mas para chegar a esse ponto um longo caminho tinha sido percorrido e os conservadores-liberais precisaram romper seu isolamento e construir um discurso político de forte apelo popular. Foram as religiões fundamentalistas e evangélicas as que forneceram aos conservadores-liberais sua base social. Mas a aliança entre lideres religiosos e conservadores-liberais demorou quase duas décadas para vir à luz.

Referencias bibliográficas

BUCKLEY JR., William F.. Our mission statement. National Review, n. 1, 19 nov. 1955.

BUCKLEY JR., William F… Let us talk of many things: the collected speeches. New York: Basic, 2000.

BUCKLEY JR., William F.. God and man at Yale: the superstitions of “academic freedom”. Washington D.C.: Gateway, 2002 [1951].

Notas

[1] Deve-se notar que o uso do adjetivo “coletivista” contra o keynesianismo já havia sido utilizado por F. A. Hayek alguns anos antes. Para Buckley o oposto do coletivismo era o individualismo. Em seu prefácio à edição comemorativa do 50º aniversário do livro, seu autor esclarece que esse uso do termo era corrente na época, como, por exemplo, no Intercollegiate Society of Individualists, dirigido por Frank Chodorov. Se tivesse atualizado o vocabulário em 2002 teria preferido utilizar , na maioria dos casos, os termos “conservador” ou “monetarista” de acordo com as circunstâncias (BUCKLEY JR., 2002 [1951], p. xxvii).

[2] Buckley receberia ainda a mais alta comenda, a Presidential Medal of Freedom, das mãos do presidente George Bush, em 1991.