Ilustração D. Muste
Ilustração D. Muste

O pacto social e estética em Que horas ela volta?

Paulo Gajanigo

Um bom ator pode fazer qualquer papel, sabemos. Mas certos efeitos, muitas vezes, só são atingidos por meio de um ator específico. Por isso o diretor comemora quando acha o ator certo. Me lembro da boba polêmica sobre a escolha do casal Nicole Kidman e Tom Cruise para o filme De olhos bem fechados. Estranharam que Stanley Kubrick tenha os escolhido pois não seriam atores do universo cult que aprecia seus filmes. O diretor queria o casal, que o era na vida real, pois o filme ganharia com o que estes mobilizavam no imaginário coletivo: a imagem do casal perfeito.

A escalação de Regina Casé para o filme Que horas ela volta? parece da mesma natureza. Não se trata só do fato de que ela representou bem o papel de Darlene em Eu, Tu, Eles, como afirma a diretora. Parece se tratar também do que Casé é como signo em nossa cultura. Desde Programa Legal, de 1991, Casé tem ocupado um lugar de mediadora entre as classes no imaginário social (uma cultural broker, como diriam os antropólogos).

Hoje, com seu programa Esquenta, Casé e sua equipe (que envolve parceiros fundamentais como o antropólogo Hemano Vianna e Guel Arraes) parecem ter chegado a uma forma de mediação que se iniciou já nos trabalhos dos anos 1990: em Programa Legal, Brasil Legal e Muvuca recebíamos os relatórios da pesquisa midiática sobre o povo, não se tratava simplesmente de programas populares, mas de exaltação do popular.

É difícil não relacionar essa valorização do popular que vai percorrendo a década de 1990 com a construção de uma nova hegemonia política no país que culmina na eleição de Lula em 2002. O governo Lula, que apresenta continuísmo em vários campos, tem diferenças fundamentais dos governos anteriores em especial na construção de uma imagem de Brasil. Atuava numa mudança fundamental no imaginário social: a positivação do popular. E Casé, com sua equipe, tem a responsabilidade de trazer aos horários principais da grade da Globo um Brasil que não cabe no imaginário da elite, mas dá audiência.

Um dos sentimentos possíveis vendo Que horas ela volta? é a da certa alegria em ver uma elite patética que não digeriu até hoje que pobres possam ocupar o lugar de um rico na universidade pública. Mas o filme pode provocar outras alegrias, risadas sobre a dificuldade de Val em arrumar as xícaras que lembram as de uma segura patroa vendo as pequenas trapalhadas de alguém que nunca entenderá e terá “bom gosto”. Val, ao mesmo tempo, comove pois é o povo, e faz rir pois é caricaturara do povo.

Regina Casé carrega em si essas diferentes demandas, nesse sentido, tem um grande poder de atração. Devemos assisti-la, acompanhar cada passo seu, pois ela expressa muito de nossos dramas. Por isso, a escolha dela para que fizesse o papel de uma empregada doméstica não é banal. Ao interpretar uma empregada, Casé traz consigo um conjunto já consolidado de imagens e discursos. Em entrevista ao Fantástico, ela afirma que a sua carreira está dedicada a dar voz às milhares de Vals.

Um ano atrás a Globo estudava a possibilidade de lhe dar o horário dominical do Faustão, quando este se aposentar. Até ano passado, o programa Esquenta! apresentava bons índices de audiência. O programa surgiu em 2011 e é de uma estética arrebatadora, um produto amadurecido dos processos vividos pela equipe de Casé. Além disso, Esquenta! foi veículo discursivo de um país do pacto social, talvez seja a imagem mais clara de como a valorização do popular encontrou um espaço possível na hegemonia. É fácil lembrar do encontro dos funkeiros com o secretário de segurança do Rio de Janeiro, José Maria Beltrame. Esquenta! apostou pesado nas possibilidades de acordos sociais que se tornaram mais fáceis de imaginar com os anos de governo Lula. Em um ano, porém, a audiência do programa caiu e tem dificuldades em liderar o horário. Já surgiram boatos de que poderá ser cancelado. Não parece coincidência que as UPPs também não vão tão bem. O pacto social está apodrecendo.

A diretora do filme, Anna Muylaert, concorda que seu filme acaba registrando o período pós-Lula. Esse parece um consenso da crítica já existente. A questão é saber, no entanto, se é o primeiro filme do pós-Lula ou se é o último filme da era Lula. Ainda que cronologicamente o filme seja após Lula, seu imaginário parece estar imerso nas formas que construíram seu governo. O soco no estômago que é dado no filme atinge os excessos da elite, não sua condição. O filme parece estar em sintonia com a energia que ainda reverbera e que impulsionou o voto em Dilma no segundo turno: uma afirmação popular e democrática contra a elite caduca.

É dessa situação que surgem os dramas vividos como a professora universitária que postou uma foto de um senhor de camisa regata com a pergunta: “aeroporto ou rodoviária?” O que foi respondido por milhares de postagens criticando sua postura aristocrática. O clima de confiança que envolveu essas respostas produziu novas polêmicas. De fato, a positivação do popular, o que significou também que a cabeça do povo já não estava tão baixa, foi configurando um cenário de pequenos e inúmeros embates entre a postura aristocrática e a democrática. O filme está nesse ambiente, mostra confiança nesse caráter democrático, o bom resultado no vestibular da filha de Val é mais um episódio de resposta a essa elite.

Outra característica fortalecida nesse período foi a ideia de bom senso. Há um setor que aprendeu que não se deve ostentar, aprendeu a elogiar os esforços dos pobres e torce para uma sociedade menos desigual. Esse bom senso se alimentou também de Regina Casé. Esse bom senso comemora a denúncia do filme. Em um blog da Revista TPM, Nina Lemos conta da vergonha que sentiu ao assistir ao filme em Berlim e ver os alemães estranhando os hábitos da elite brasileira. Esse bom senso parece se entender como um esforço de modernização da sociedade brasileira – uma democratização dos modos de vida e direitos de expressão aliado a uma ideia de que a postura aristocrática é coisa arcaica.

O filme se aproxima de ser uma expressão artística bem acabada do imaginário dessa hegemonia que povoou os últimos dez anos. Se desenvolve dentro de um regime do bom senso democrático e acaba por ser uma peça fechada do imaginário. Tem uma estrutura bem definida, cada personagem tem um significado social claro: sabemos sem dificuldades de onde vem cada um e quem representam. É um filme que não transborda para além desse imaginário, a filmagem é pouco generosa com as imagens, para cada cena apresenta um propósito, para cada ação, uma reação. Não há fio solto, a experiência estética no filme é pouco marcante, o que impacta é sua mensagem, seu propósito. Isso explica porque a crítica tem sido rápida na sua digestão. Assistimos e logo gostamos. Tem sucesso em criar um mal-estar político, mas não estético. Um mal-estar político que já estava entre nós, por isso, o filme entra com certa facilidade dentro de uma dinâmica já madura de enfrentamentos políticos: o bom senso democrático contra a elite caduca. Parece cumprir um papel ilustrativo e seu sucesso age como uma operação somatória dos acúmulos e conquistas dessa luta democrática. Fecha-se a conta.

Que horas ela volta? tem grandes chances de ter um espaço importante no cinema nacional, e creio que seja por isso, por ser um filme que representa uma imagem forjada no pacto social: o sonho de termos um país mais popular e democrático. Portanto, é um filme atrasado. Não pelo fato do sonho ter morrido, mas sim pois o horizonte que acalentou e deu forma ao sonho – um país popular e democrático via pacto social, no qual a principal característica é o desenvolvimento de um bom senso com ares de modernidade – não tem encontrado mais incentivo cotidiano. O que faltaria ao filme para ser o primeiro da era pós-Lula, ou seja, ser um filme que abra para os dramas em gestação, é o descentramento do olhar e da narrativa. Assim poderia também nos provocar um mal-estar estético que nos desse os excessos afetivos desse pacto, ódios e seduções menos simbólicos e mais físicos. Nesse sentido, O Som ao Redor parece estar mais afim ao nosso momento, ainda que seja anterior ao filme de Muylaert. Nele o mal-estar nos contagia, as imagens pesam, a violência se insinua. O caminho da estética está nas provocações sensíveis que permitem que o público perca sua estabilidade, que os significados se suspendam e novas sínteses se produzam. Essa política da estética Que horas ela volta? pouco pratica e por isso só atua sobre o já consolidado.

O desfecho no filme acontece quando Val pede demissão e vai construir sua família. No entanto, a instabilidade gerada por essa situação não reverbera: o que será de uma senhora desempregada e de sua filha cursando arquitetura numa universidade pública nesses tempos? O filme segue outro caminho. Há um belo elogio à autodeterminação de Val, incentivada por sua filha – dessa geração mais confiante. Termina-se o filme com uma sensação de suavidade e de liberdade, em consonância com a perspectiva de que uma certa elite caducou e já não compõe mais a cena, ela se foi.

Que horas ela volta?