Ilustração de Antonio Máximo
Ilustração de Antonio Máximo

O papel do fantástico no marxismo

 

Mariana Rio

Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões.

Isaac Asimov

 Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

Arthur C. Clarke

 

Fantasia e fantástico são termos polissêmicos, ou seja tem mais de um significado, a origem desses conceito remetem a diversas formas primitivas de expressão humana, dos mitos e lendas dos povos nórdicos , á grande sagas heroicas gregas, esses termos abrangem o surrealismo, o sexo e a sexualidade, tradições folclóricas, fantasias da vida cotidiana, utopias sociais e infinitos outros termas.

A literatura sem dúvida , foi a que mais soube se apropriar desses termos, criado assim gêneros literários específicos. Clássicos como Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, e 1984, de George Orwell, deram origem, à centenas de outras obras, e seguem conquistando o coração de milhões.

Largamente considerada como filha da Revolução Industrial, a popular ficção científica se consolidou como gênero literário no século XIX, classificada como um gênero “menor” pelos críticos da época, a ficção, foi por décadas considerada, a literatura do proletariado, com o advento do cinema e das comics americanas modernas, esse gênero de Science Fiction & Fantasy ganhou proporções de “entretenimentos para ás massas” no século 20.

O premiado escritor de ficção “weird”, China Miéville, teve seu famoso livro, A cidade & a cidade, lançado no Brasil pela editora Boitempo, fato esse, que pode causar estranhamento ao publico que desconhece sua biografia de acadêmico e militante marxista. Miéville publicou um interessante artigo sobre isto, que possui uma tradução para português como “Marxismo e fantasia”.

Marxismo e Fantasia

“Marxismo e Fantasia” discute a complexa relação de parceria e antagonismo dos intelectuais que se debruçaram sobre estes dois temas: “das análises de Walter Benjamin e dos marxistas da Escola de Frankfurt sobre o surrealismo, Kafka e Disney, passando pelas reflexões de Ernst Bloch sobre a utopia e por surrealistas trotskistas, como Andre Breton e Pierre Naville, até os slogans dos situacionistas, em suas tentativas de transformar o fantástico e os sonhos em armas de classe” (Miéville, p.2). Fala de como o capitalismo se apropriou e soube incorporar a ficção científica e a fantasia ao seu sistema.

O mercado de distribuição de filmes, livros, televisão, quadrinhos, videogames etc., rende bilhões todos os anos às grande corporações. Há um padrão cultural nisso e, mais que isso , um estilo de vida construído em cima da fantasia e ficção cientifica, do sucesso extraordinário de filmes como da franquia Star Wars, a séries de livros como Harry Potter que entram no imaginário social de bilhões de pessoas, salientado assim a popularidade dos gêneros. Miéville nota que a popularização e apropriação da ficção científica e fantasia pelo capitalismo, ocorreu diretamente um maior “afastamento” da referência entre o mundo do fantástico e o pensamento marxista. Isto explica o discurso de muito ativistas marxistas para quem HQs e filmes de super heróis não passam de “ópio do povo”.

Não e possível concordar com a ideia de que a ficção cientifica e a fantasia sejam simplesmente agentes da alienação humana. A crítica que caminha neste sentido, mesmo entre os marxistas, parece imbuída de argumentos elitistas quando se refere a fantástico e ficcional. Também entre os brasileiros é possível observar um senso comum entre os ativistas e intelectuais que muitas vezes os afasta da linguagem e gosto popular reivindicado superficialmente.

A sociedade moderna consome vorazmente a ficção cientifica e a fantasia. A singularidade da realidade capitalista após Revolução Industrial construiu um novo homem adaptado a este “consumo”: o fetichismo da mercadoria produziu a “coisificação” da nossa espécie, o fantástico vem como uma síntese de nosso pesadelos e sonhos. A concepção de “realismo” e a representação “realista” de uma verdade” é radicalmente descontruída e reconstruída nas grandes obras fantásticas.

Um exemplo. A trilogia  Fundação , do escritor Isaac Asimov, conta a história da possibilidade de utilizar a ciências para prever a queda de um “império galáctico” em um futuro distante. Ao longo da obra, Asimov utiliza como ninguém um arsenal de conhecimentos científicos produzidos “na realidade”, desde a filosofia antigas e matemática moderna. Entre o fantástico e sua reelaboração do real emerge no romance um forte sentimento de defesa da emancipação humana, que é também fantástico e real.

Segundo Mivéille, Franz Kafka foi um dos poucos escritores que T. Adorno considerou […] adequado ao desafio de fazer literatura no mundo moderno. Aqui também o fantástico evidencia como pode ser um modo particularmente adequado e ressonante com as formas da modernidade. A acusação rotineira de que a fantasia é escapista, incoerente ou nostálgica (se não abertamente reacionária), embora talvez verdadeira para grandes extensões da literatura, carece de conteúdo. A fantasia é uma modalidade que, ao construir uma totalidade internamente coerente mas efetivamente impossível – construída tendo como base que o impossível é, para a narrativa em questão, verdade – mimetiza o “absurdo” da modernidade capitalista” “

O outro lado do realismo

Ficção científica e a fantasia, são gêneros únicos, mas compartilham várias semelhanças em suas raízes. Em 1971, Thomas D. Clareson publicou uma antologia de ensaios acadêmico sobre ficção científica intitulada SF: The Other Side of Realism, num contexto de grande carência de estudos de cunho acadêmico sobre a ficção científica. A antologia  tomou como ponto de partida a bastante corrente opinião segundo a qual a ficção científica reflete, mais do que qualquer outra forma literária, o impacto do pensamento científico moderno. Clareson assinala que a prosa de ficção moderna se origina no século XVIII com o romance, quando a sociedade letrada em geral se volta do misticismo para o racionalismo (Giroldo 2011).

Darko Suvin, autor do ensaio Three World Paradigms for SF, uma vez disse que a fantasia é um gênero “descerebrado”. Enquanto a ficção científica, estimula o senso crítico e a inteligência de seus leitores, a fantasia seria um gênero mais simplório, orquestrado por regras aleatórias e que pouco contribuem para o pensamento. Suvin parte os elementos mágicos da fantasia eram bobos, sem profundidade e entregues de bandeja para o leitor, que é mais deslumbrado do que realmente impactado pelo gênero. Recentemente, Suvin publicou um novo artigo, revendo seus conceitos e admitindo que a fantasia podia ser um gênero “cognitivo”, como ele acredita que seja a ficção científica, desde que bem escrita.

Por fim, polêmicas no meio literário a parte, reivindico que obras como Fundação, 1984 e Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? podem ajudar em certa medida na educação dos sujeitos, na sua noção de mundo.

Como dito no início, Science Fiction & Fantasy  tem como ponto de partida uma visão realista, de busca pelo controle do homem sobre o impossível. A criatividade emancipatória e sistematicamente combatida pelos capitalistas, no mundo da fantasia, ela ganha asas para voar. A magia na nossa sociedade, é extremantes (e historicamente) resignificado, num mundo a maioria absoluta das pessoas diz acreditar em uma forma superior de vida, num tipo de Deus, a fantasia e a ficção, possui um mundo sem limites.

O marxismo como conjunto teórico tem como objetivo uma mudança nas formas econômicas e sociais do mundo. As crenças e folclores da espécie humana foram construídos ao longo dos milênios de vida do homem. Por isso, o marxismo precisa ir além das aparências e compreender as formas culturais que permeiam nosso mundo.

Referências bibliográficas

MIÉVILLE, China. Marxismo e Fantasia. Margem Esquerda, n. 23, p.107-117, 2015.

CARNEIRO, André. Introdução ao Estudo da “Science Fiction”. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura/Comissão de Literatura, 1967.

GIROLDO, Ramiro. Ficção Científica: O Outro Lado do Realismo? Zanzalá: Estudos de Ficção Científica, n.1, v. 1, 2011

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