Fotografia de Flora Próspero
Fotografia de Flora Próspero

O paulistocentrismo: tensões nas classes dominantes brasileiras

Virgínia Fontes

Desde as privatizações realizadas pelos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, com ênfase para este último, ocorreu uma recomposição regional da grande propriedade burguesa, à qual pouca atenção foi dada. Vários aspectos estão a exigir consideração e pesquisas detalhadas. Como o processo como um todo gerou enorme abertura internacional da economia brasileira (ou desnacionalização), com forte ingresso de capitais estrangeiros nas ex-estatais, este foi o ângulo privilegiado de análise sobre o processo. Compreende-se. Entretanto, uma tamanha reordenação da propriedade de imensos ativos foi fruto de complexas articulações internas, onde certamente embates significativos ocorreram. Vale lembrar a posição “estratégica” de Sergio Motta, para a garantia do apoio de parcelas diversas da burguesia a essas operações. Sem falar dos diversos escândalos.

É de supor que nesse processo, assegurando apoio político e recompondo as forças econômicas, com forte apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um certo redesenho regional da grande propriedade tenha ocorrido. Vale ver as listas anuais das grandes fortunas brasileiras no século XXI, que mostram a permanência de São Paulo em posição de destaque, mas evidenciam também a emergência de novos grupos, em diversas regiões. As sedes de suas empresas se deslocam para São Paulo, mas não suas histórias de vida e suas inserções regionais.

Para além e em paralelo às privatizações, a continuidade do processo de concentração da propriedade da terra, de expansão da industrialização agrária no país, da expansão da dinâmica capitalista e de integração aprofundada no mercado internacional geraria novas contradições. Trata-se agora de contradições propriamente burguesas na recomposição do controle e do crescimento dos grandes grupos, com o fracasso de alguns mais tradicionais, ascensão de enormes proprietários, externos aos parâmetros “familiares” tradicionais (famílias consideradas tanto por via consanguínea, quanto por matrimônios, quanto por vivência social – habitus, segundo Pierre Bourdieu – ou ainda por alianças diversas). O grau e a escala de organização setorial e política desses grupos não são claros.

Podemos supor estar ocorrendo um redimensionamento escalar da burguesia. Nas tensões oriundas desse redimensionamento, mesclando de maneira íntima questões econômicas (a escala da propriedade) e questões políticas (garantia de governabilidade) resultantes do governo FHC, se instalaria o governo Lula. Buscou acordos em todas as áreas burguesas, desde o agronegócio à indústria, passando pelo setor comercial e bancário. O jogo ficava a cada dia mais pesado: a escala tornava-se questão central para antigos e novos concorrentes. O processo que já vinha ocorrendo, desde sua âncora econômica, de impulsão do crescimento da concentração/centralização, assumiria novo patamar. Desde FHC, o BNDES tinha sido basilar no “salto escalar”, assegurando as privatizações. Doravante, assumiria a permanência do salto, com forte impulsão à multinacionalização (as tais “campeãs nacionais”). Nascidas nacionais, tornaram-se crescentemente multinacionais, voltadas para uma acelerada expansão externa, especialmente para a América do Sul e alguns países da África. Subalternas, mas multis. Como todas as multis, prepotentes. Como todas as multis, demandam recursos públicos e política forte de sustentação: apoio ativo do Estado para atuação externa, como em qualquer país com grandes multis, o que passa por políticas externas e econômicas capazes de mesclar promoção, agressividade e “solidariedade internacional”. Em alta velocidade. Suas disputas de mercado se travam agora em diferentes terrenos e são de outra escala, tanto econômica quanto politicamente. São “briga de cachorro grande”. Além disso, supõem uma certa acalmia das condições políticas internas (como qualquer multi) e tendem a resolver as questões políticas através do aporte de “generosos” recursos. Os estudiosos da política externa estadunidense se defrontam regularmente com tensões entre as burguesias de diferentes escalas, geralmente traduzidas por seus intelectuais orgânicos.

O primeiro paulistocentrismo se apresentava como econômico: São Paulo é um Estado grande e complexo, com uma das mais significativas classes trabalhadoras do país, no campo e na cidade. Mas a marca do que chamo aqui paulistocentrismo se configurou historicamente, ao menos desde a década de 1940 – e, em especial, através da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e da Sociedade Rural Brasileira (SRB) – como a expressão idealizada da burguesia brasileira em seu conjunto. Desprezava em boa medida as demais burguesias (arcaicas) e se erigia em “modelo”, que gostava de exibir: civilizatório e liberal. A locomotiva industrial que “arrastaria” atrás de si o peso das demais unidades da federação.

Dadas as novas condições de escala e implantação burguesa no país, o paulistocentrismo burguês ainda será capaz de se apresentar como representativo do conjunto dessas burguesias? Fizeram bastante esforço para isso, sobretudo retoricamente. Há pelo menos dois anos, entretanto, parece haver uma fissura na centralização paulista e na sua capacidade de aglutinação. Os “megacapitalistas” não são todos puro-sangue, educados pela paulistocracia. Têm interesses econômicos que exigem formas políticas mais flexíveis, próprias do capital-imperialismo e uma inflexão decidida do Estado. São Paulo condensa a massa do pequeno, médio e grande empresariado que se sente traída pelo governo ao aprofundar políticas de Estado para as multis. Veremos depois as contradições que se escondem aqui.

As burguesias “paulistocêntricas” não são apenas as paulistas, e releva a adesão da Rede Globo. Elas arrotam “liberalismo”, mas seguem imbricadas e dependentes dos Estados (federal, estadual e municipais), agora nas novas versões de Parcerias Público Privadas e em novas privatizações do setor público, endossadas e ampliadas pelo governo petista. Isso significa a expressão de interesses reais de uma indústria subalterna (que se expande para a Educação e para a Saúde), mas nem por isso menos burguesa. São Paulo também agrega parcela das campeãs nacionais. Porém não mais de maneira direta e mecânica, pela razoável diversidade regional dessas novas multis, algumas inclusive com… sedes no exterior. Será que São Paulo expressa o conjunto desses interesses? Um paulistocentrismo genérico que atravessa a reflexão sobre economia e política no Brasil torna difícil enfrentar o problema.

A maioria numérica da burguesia paulista – à imagem de Skaf – está constituída de setores em pleno enfraquecimento. Eles o reconhecem, mas sob o manto diáfano da “defesa da indústria”, silenciam sobre como o crescimento dessa mesma “indústria” nos conduziu à situação atual.

Seja por absorção pelos maiores (brasileiros ou estrangeiros), seja por expansão para outras regiões do país de suas atividades (especialmente agrárias, mas também industriais, comerciais e bancárias), no momento de uma crise econômica, essas burguesias paulistocêntricas se sentem atemorizadas, e retomam formas experimentadas de autodefesa: a truculência interna e a subserviência externa. É verdade que entre os grandes setores e as multis, São Paulo está presente, e muito. Parece entretanto crescer a distância entre a massa dos “médios-grandes” capitais e o pequeno grupo de alto voo, mesmo entre empresários/proprietários brasileiros; parece haver um hiato entre a fala paulistocêntrica tradicional (como o rancor de Folha de S. Paulo e de O Estado de S. Paulo, ambos em plena crise) e a maneira efetiva em que ocorreu essa nova “nacionalização” (no sentido de extensão no território nacional, e não de ‘marca de nascença’), da grande propriedade capitalista.

Essas diferenças escalares e regionais entre as burguesias brasileiras não vêm sendo publicizadas pela grande mídia, talvez porque explicitariam os limites do próprio paulistocentrismo na atualidade.

É muito difícil analisar esse processo e ainda mal descortinamos o que ocorre. Antes de tudo, não esqueçamos que Estado e Governo não são idênticos. As burguesias de todas as escalas (corporações, grandes grupos e grandes proprietários, inclusive as multis) e as entidades patronais setoriais ou sindicais participaram e seguem participando diretamente do Estado. Estão nas clássicas comissões internas aos ministérios que lhes interessam, as quais definem as políticas a serem traçadas por dentro da ossatura material do Estado, e onde têm cadeira cativa. Designam os “peritos”, os “técnicos”, para além dos cargos de ministros, secretários, etc. Estabelecem as estratégias de formação de quadros em suas unidades de “educação” e os impõem como insubstituíveis.

O conjunto diversificado dessas burguesias está também presente dentro de novas entidades criadas especialmente pelo próprio PT (no governo), fazendo reverter o peso eleitoral em prol do patronato (como o “Conselhão”, ou Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES –, o mais visível mas não o único). Enfim, essas grandes burguesias seguem fazendo o jogo duplo que caracteriza regularmente entidades burguesas diretamente patronais. Este jogo duplo envolveu – e envolve – definir os limites nos quais se move o Estado (e não apenas o governo); estabelecer permanente crítica ao governo, qualquer que seja. No caso do PT, a crítica agudizou o duplo registro econômico e político com ênfase para um estreito controle sobre o que tal governo poderia vir a fazer, caso entrasse em rota mobilizatória. O que sabemos, não ocorreu.

Talvez pensar sobre o paulistocentrismo pelo ângulo político-partidário traga novos elementos.