Fotografia de Erick Dau
Fotografia de Erick Dau

O que houve com o rock político brasileiro?

Romulo Mattos

A provocação do título diz respeito ao comportamento da geração dos anos 1980 nos atuais tempos do golpe e do movimento “Fora Temer”, em vias de crescimento. Aqui cabe uma ressalva: não se trata de revisitar os tipos ideais do reacionarismo roqueiro fornecidos por Lobão e Roger Moreira, que se tornaram folclóricos nesse sentido. Enquanto o primeiro lançou um álbum com o título inspirado no pensamento de Olavo de Carvalho, o outro chegou a ponto de questionar o procedimento das vítimas de um acidente ocorrido em uma obra pública realizada por uma empreiteira amasiada com a municipalidade do Rio de Janeiro. O caso deles “já deu”, como se diz. Nos últimos anos, vem aparecendo a figura de Rodrigo Santos (quem?), que no último Rock in Rio levou cartazes contra Dilma Rousseff, além de ter se apresentado, serelepe, em carros de som das passeatas golpistas. Baixista freelancer certamente bem relacionado nos anos 1980 (tocou com diversos artistas do rock nacional), na década seguinte, ganhou residência fixa no Barão Vermelho – mas nem por isso deixou um legado musical consistente. Não compunha por ofício, não era um instrumentista acima da média (não era um Bi Ribeiro, por exemplo), não criou uma só linha de baixo clássica etc. Portanto, não há por que contribuir para os 15 minutos de quase fama de um músico praticamente anônimo que identificou no pensamento reacionário uma oportunidade de aposentadoria privada. Este texto trata principalmente de bandas que há cerca de três décadas se mantêm no circuito de shows com um repertório em que a contestação é uma característica importante, embora sejam incapazes de relacionar o conteúdo de suas letras com o tempo presente, de forma a potencializá-las.

No dia 9 de setembro, Camisa de Vênus e Plebe Rude encheram o Circo Voador, palco histórico do rock brasileiro. A plateia reverenciou os dois grupos e cantou com entusiasmo o repertório composto na década de 1980 (e não apenas os sucessos). Havia um inegável apetite político pelos espectadores, devido à convergência entre o atual contexto de crescimento da oposição ao golpe (e às reformas conservadoras) e a memória social sobre as bandas oitentistas, associadas a uma obra musical engajada. Quanto a esse último aspecto, é certo dizer que a maioria dos conjuntos da época não era politizada, e que mesmo aqueles mais engajados cantavam sobre diversos temas da juventude do período, como o cotidiano, as relações afetivas, o amor e o sexo. Porém, é inegável que grandes hits do rock nacional sejam canções de protesto.

A Plebe Rude é um raro caso de banda radiofônica cujo repertório é majoritariamente constituído por músicas de crítica política e social. O seu show no Circo Voador também comemorava os 30 anos do mini-LP O concreto já rachou (1986), um dos melhores trabalhos do rock brasileiro, tocado na íntegra. Os dois maiores sucessos desse álbum que vendeu 200 mil cópias levaram o público a cantar o “Fora Temer”. O primeiro deles, “Proteção”, trata da repressão policial ocorrida em Brasília no dia 25 de abril de 1984, quando houve a votação da Emenda Dante de Oliveira – cujo objetivo era restaurar as eleições diretas para presidente. No tempo atual, em que outra campanha baseada na palavra de ordem “Diretas já” ganha força, aquela música poderia ter sido antecedida por um belo comentário de Philippe Seabra sobre o assunto. Conforme declarou a uma pesquisa acadêmica: “Eu havia composto a música proteção para uma namorada, porém, não consegui escrever a letra. O que passou em Brasília e o projeto Dante de Oliveira rejeitado no Congresso foi uma forte inspiração de primeira mão”.[1]

Seabra não apenas deixou passar em branco a oportunidade de associar as duas conjunturas históricas, como abafou o coro contra o presidente golpista ao puxar a canção seguinte, sem demonstrar interesse pelo clamor que vinha da plateia. Atenta, ela revalorizou segundo o contexto atual os versos sobre a restrição à liberdade de manifestação política, fazendo aquilo que o cantor não quis fazer:

“Tropas de choque, PM’s armados

Mantêm o povo no seu lugar

Mas logo é preso, ideologia marcada

Se alguém quiser se rebelar

Oposição reprimida, radicais calados

Toda angústia do povo é silenciada

Tudo pra manter a boa imagem do Estado!

Sou uma minoria mais pelo menos falo o que quero apesar da repressão!”.

O outro sucesso popular que inflamou os espectadores foi “Até quando esperar”, responsável por encerrar o show de forma catártica. O público cantou com estusiasmo uma letra que: fala sobre a “má distribuição” da riqueza na sociedade, reclama a sua “fração” para o cidadão comum, e pergunta “Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda de Deus?”. Esses versos que abordam a desigualdade social, e convocam o povo para a resistência (ao criticar a sua apatia diante desse quadro), levaram o público a entoar o “Fora Temer” de forma apaixonada. Mas o vocalista novamente ignorou essas palavras de ordem e preferiu ressaltar a coerência artística da Plebe Rude ao longo dos anos, em uma provável crítica indireta ao Camisa de Vênus – que subira ao palco com atraso e estendera a sua apresentação para além do previsto. Porém, coerência mesmo seria a banda brasiliense relacionar as suas canções de protesto político e social com o tempo presente. Seria também uma forma contundente de se distanciar das festas “Ploc”, nas quais a chamada cultura jovem dos anos 1980 é tragicamente consumida por uma classe média acometida por uma saudade patológica da juventude – e que canta hits com os olhos fechados e dança com a coreografia da época sucessos da Plebe Rude, ok, mas também do Dr. Silvana, do Dominó e de outras pegadinhas da indústria fonográfica.

O caso do Camisa de Vênus é mais complexo. É inegável que a banda tenha músicas francamente machistas, que atingem os limites da misoginia (“Silvia”) e até do feminicídio (“Bete morreu”). Mas ela também ficou conhecida pelo seu comportamento anárquico e pela crítica à ditadura militar contida em um de seus maiores sucessos, “Simca Chambord” (cujo clip inclui até cenas de tortura). Não obstante, gravou “Ouro de tolo”, de Raul Seixas, que ironiza o milagre econômico brasileiro, e “Gotham City”, clássico de Jards Macalé e (José Carlos) Capinam, cujos versos mencionam indiretamente a repressão promovida pelos militares: “Há um morcego na porta principal. Cuidado!”. O conjunto de Marcelo Nova tinha no humor um elemento importante de suas letras, mas conseguiu fugir ao rótulo de engraçadinho, que tão bem se encaixou ao Ultraje a Rigor. Diferentemente desse último, o Camisa de Vênus promovia um escracho punk e desafiava as convenções sociais. Quando ainda percorriam o circuito alternativo de Salvador, declararam guerra à institucionalizada MPB e aos setores mais conservadores da cidade – o jornal A Tarde queria que a censura proibisse o nome da banda e o título de seu espetáculo, “Ejaculação precoce”.[2]

Por conta desse histórico, muitos que estavam no Circo Voador esperavam que Nova esculachasse o presidente golpista, ou, pelo menos, apoiasse os gritos de “Fora Temer”, que só não foram mais insistentes que o tradicional coro “Bota pra foder” – inventado pelos seus fãs na década de 1980. Além de ignorar o protesto dos espectadores, o vocalista promoveu um lamentável discurso em prol do “politicamente incorreto”, momento em que não se diferenciou de um Lobão, de um Roger. Essa foi a forma que Nova encontrou para revalidar suas canções mais polemicas, baseadas no machismo. Outro caminho para atenuar os efeitos do tempo sobre o seu repertório seria reforçar o antigo tom de contestação à ordem, promovido nos shows, e atualizar a crítica à ausência de democracia ao cantar músicas que abordam o período da ditadura (de sua autoria e de outros compositores) – mas essa via não foi percorrida pelo cantor.

Camisa de Vênus e Plebe Rude decepcionaram as expectativas políticas daqueles que enxergaram no show dessas bandas uma boa oportunidade para protestar contra o golpe no Brasil. Outros artistas da geração roqueira dos anos 1980 têm demostrado um comportamento vacilante em relação ao delicado contexto atual. Dinho, do Capital Inicial, chegou a se manifestar contra o impeachment de Dilma Rousseff, apesar de achar a sua obra desastrosa. Declarou ser de centro-esquerda e completou: “É meio assustador ver todo o rock ficar de direita”.[3] Por esse motivo, foi acusado de ser um representante da “esquerda caviar” por Rodrigo Constantino, um dos principais articulistas da intelectualmente rasa nova direita brasileira.[4] No entanto, em um recente show do Capital Inicial em Curitiba, Dinho mencionou a presença de Sérgio Moro antes de cantar “Que país é este?” e pediu para o público aplaudi-lo. O juiz da Lava Jato, que teve papel destacado no processo do golpe, agradeceu.[5]

Leo Jaime reagiu negativamente à vitória de Dilma na última eleição presidencial: “Já dizia Joseph Marie Maistre: ‘Cada povo tem o governante que merece’. Que povo pobre de informação”.[6] E continuou fazendo oposição de direita à presidenta, em sua militância virtual: “Dilma, vc tem o direito de ter quantos ministros vc conseguir decorar os nomes. Que tal?”.[7] No entanto, declarou mais tarde: “Sou contra o impeachment mesmo sendo contra Dilma. Sou contra Temer/Cunha/Renan, também. Ou seja: #eleiçõesjá, isso aí é tudo a mesma laia”.[8] Enquanto Dinho conseguiu ser contra o golpe e ver Moro com admiração, Leo Jaime repetiu clichês da nova direita golpista durante todo o segundo governo da presidenta, mas se colocou pela preservação da democracia. É reinante a confusão mental desses roqueiros nacionais. Vale ressalvar que a música desse último nunca teve traços de politização, diferentemente da do Capital Inicial, que já fez dois discos ancorados no repertório do Aborto Elétrico, a primeira banda punk de Brasília, liderada por Renato Russo.[9]

Nem tudo está perdido nesse terreno. Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana, recusou-se a relacionar “Que país é este” com a Lava Jato, apesar de a 10ª fase da Operação ter sido batizada pela Polícia Federal com o nome dessa canção – e de ela ter sido incluída na trilha sonora das passeatas coxinhas. O músico não se rendeu ao discurso anticorrupção de viés udenista e, num dos shows da turnê Legião Urbana XXX Anos, ainda dedicou (de forma irônica) a composição ao Supremo Tribunal Federal – que suspendeu a ação penal que tramitava na Justiça Federal do Rio de Janeiro contra cinco militares reformados acusados pelo homicídio e ocultação de cadáver do ex-deputado Rubens Paiva.[10] Dado também manifestou apoio ao PSOL nas eleições municipais de 2016 e esteve presente ao evento que lançou a candidatura de Marcelo Freixo.

Outro alento político foi a postura de Herbert Vianna na apresentação dos Paralamas do Sucesso com a Nação Zumbi, no Boulevard Olímpico. O cantor manifestou em um breve discurso a sua concordância com o “Fora Temer”, vindo da plateia. Lembro que ele é autor de “Luís Inácio (300 picaretas)”, de 1995, cuja mensagem é extremamente crítica: “Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”. Se não bastasse, a letra cita os políticos que protagonizaram o escândalo conhecido como “Anões do orçamento”, e também os parlamentares que detinham concessões de rádio e TV, o que é proibido pela Constituição de 1988. O então procurador da Câmara dos Deputados, José Bonifácio de Andrada, conseguiu proibir a execução de “Luís Inácio (300 picaretas)” em um show dos Paralamas do Sucesso, em Brasília. Em protesto, a banda tocou “Proteção”, da Plebe Rude. Na época em que a composição de Vianna foi gravada, Lula pertencia a um partido político que no plano federal fazia oposição ao projeto neoliberal capitaneado pelo PSDB.

O terceiro nome do rock brasileiro dos anos 1980 que merece ser citado como um artista que promove ideias políticas progressistas é o de Leoni, que integrou o Kid Abelha e os Heróis da Resistencia. Naquele contexto, ele não promoveu uma obra artística politizada, tendo se tornado mais conhecido por versos como “Tira essa bermuda que eu quero você sério” ou “Fazer amor de madrugada/ Amor com jeito de virada”. Atualmente, porém, combate nas mídias sociais as investidas dos partidários da nova direita e critica o reacionarismo dos seus colegas de geração. “Na época da ditadura, tínhamos um inimigo comum. Quando acabou, percebemos o que cada um pensava”, diz Leoni.[11] Compositor possivelmente subestimado, com diversos sucessos no currículo, a sua insistente militância pró-esquerda é um oásis no deserto das ideias políticas do campo roqueiro do país.

Concluindo, o rock brasileiro dos anos 1980 suscita uma memória social relacionada a temas engajados, e o momento atual é propício para o reforço dessa noção. Porém, muitos artistas de tal geração parecem não estar interessados na manutenção dessa memória, que é também uma identidade e um projeto. Mas não deixa de ser curioso que bandas que carregaram a bandeira da contestação política, como a Plebe Rude, ou da negação anárquica à ordem e aos padrões estabelecidos, caso do Camisa de Vênus, sejam indiferentes ao “Fora Temer!”. Principalmente no caso da Plebe Rude, vemos a contradição de um grupo com repertório musical de protesto e postura apolítica nos palcos. E se este texto ressuscitar discursos contra o patrulhamento ideológico de artistas brasileiros, lembro que o conceito de patrulha, surgido no fim dos anos 1970, no contexto da limitada abertura política, deve ser entendido como uma reação liberal à crítica da esquerda. Ou seja, não é capaz de tirar o meu sono.

Notas

[1] ROCHEDO, Aline do Carmo. “Música e juventude: o rock nacional dos anos 1980”. In: QUADRAT, Samantha Viz (org.). Não foi tempo perdido: os anos 1980 em debate. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2015. p. 147.

[2] DAPIEVE, Arthur. BRock: o rock brasileiro dos anos 1980. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. p. 162.

[3] BERGAMO, Monica. ‘É meio assustador ver todo o rock ficar de direita’, diz Dinho Ouro Preto. Folha de SP, 06 de mar. 2016.

[4] CONSTANTINO, Rodrigo. Dinho, do Capital Inicial, é apenas mais um artista da esquerda caviar. Blog da Veja, 7 de mar. 2016.

[5] Sérgio Moro é ovacionado por plateia durante show da banda Capital Inicial. G1, 26 de jun. 2016.

[6] Leo Jaime (@LeoJaime) | Twitter, 27 de out. 2014.

[7] Leo Jaime (@LeoJaime) | Twitter, 1 de jan. 2015.

[8] Leo Jaime (@LeoJaime) | Twitter, 17 de abr. 2016.

[9] Capital Inicial, de 1986, e MTV Especial: Aborto Elétrico, de 2005.

[10] MATTOS, Romulo. “Se fosse só sentir saudades”: notas sobre a turnê Legião Urbana XXX Anos. Blog Junho, 16 de nov. 2015. http://blogjunho.com.br/se-fosse-so-sentir-saudades-notas-sobre-a-turne-legiao-urbana-xxx-anos/

[11] ARAUJO, Pedro Zambarda de. O que aconteceu com os roqueiros dos anos 80? Leoni, o único que não virou reaça, fala ao DCM. Diário do Centro do Mundo, 28 de jun. 2014.