Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

“O Rei do Gado” e os movimentos sociais: vale a pena ver de novo os anos 1990?

Rejane Carolina Hoeveler 

Um self-made man dos pastos, justo com os empregados, que oferece bois aos “invasores” de sua terra e não pede nenhum favor ao seu amigo senador – cuja campanha ele pagou com tantas arrobas. Fiel com sua mulher adúltera, embora ela fosse uma “perua” ingênua e fraca de caráter, o protagonista Bruno Mezenga (Antonio Fagundes) até namora uma bóia-fria sem-terra, ex-cortadora de cana que, como num bom conto de Cinderela, é a legítima herdeira de um imenso império agro-industrial.

Esses são alguns dos personagens de uma das novelas mais marcantes da teledramaturgia brasileira. Escrita por Benedito Ruy Barbosa – autor de “Pantanal” e “Renascer” – “O Rei do Gado” é uma obra de inegável qualidade em variados aspectos e sucesso comprovado de público, cuja terceira reprise, que chega agora ao final, é um fenômeno de audiência para o horário da tarde da TV Globo.[1]

O Rei do Gado estreou em 17 de junho de 1996, exatos dois meses depois do massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, episódio que trouxe à tona no debate público brasileiro a violência sofrida pelos ativistas dos movimentos do campo. Carajás é até hoje o mais conhecido caso de violência no campo na história recente do país (embora não necessariamente o mais violento, se lembrarmos o massacre de Corumbiara, ocorrido um ano antes[2]), e obrigou o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) a dar uma resposta a uma questão que até então havia conseguido, de alguma forma, ignorar.[3]

Apesar da campanha suja da grande mídia, que não poupava esforços em pintar os sem-terra das cores mais sórdidas, o MST contava, por essa época, com grande prestígio social, tendo sua importância política reconhecida nacionalmente. O MST representava simplesmente o maior movimento social organizado do Brasil, e um dos maiores do mundo em número de participantes, num período de forte refluxo nas lutas sociais e intensos ataques às organizações de esquerda.

Uma novela da Globo em horário nobre, no auge do neoliberalismo de FHC. Motivos suficientes para desconfiar. No entanto, o que logo de cara surpreendeu foi que a novela trazia para o grande público, aquele que assistia um Jornal Nacional no melhor estilo “podemos tirar se achar melhor”, uma imagem dos sem-terra que não era aquela de bandidos fanáticos que vão tirar a sua segunda escova de dentes, caso você tivesse duas.[4]

Não por acaso, na época, diversos líderes do movimento, como João Pedro Stédile, afirmaram que a novela trazia uma contribuição positiva para a luta pela reforma agrária, já que, em suas palavras, “a opinião pública viu o que era um acampamento e teve que conviver com a idéia de que tem gente que mora em barraco com suas crianças e que está lutando por alguma coisa”.[5] O dirigente destacou também a simpática figura da professora do acampamento, mostrando assim a valorização da educação pelo movimento, o que segundo ele foi uma reivindicação atendida por Ruy Barboza.

Da novela e da conjuntura, muito já foi dito. No entanto, o curioso, principalmente para os jovens que viram as Jornadas de Junho de 2013 e que eventualmente acompanharam a saga dos Mezenga e dos Berdinazi pela primeira vez agora, é notar como são antigos alguns discursos mobilizados diante de um movimento social que tem força e legitimidade. Focaremos em dois principais discursos que a novela constrói e que voltaram com enorme força desde junho de 2013: a ojeriza anti-política e o pacifismo anti-radical. Em ambos podemos notar componentes típicos de uma modalidade de “exercício de hegemonia” que, em seu formato atual, vem se construindo no Brasil desde, pelo menos, a década de 1990.

“A culpa é dos políticos”

O personagem do senador Caxias (Carlos Vereza) é marcado por um caráter inabalável e pelo apreço pelo regime democrático. Costumava sempre lembrar à sua empregada/namorada platônica Chiquinha (Arieta Corrêa) que antes, na ditadura, era muito pior. É também dono de um espírito impavidamente jovem e otimista. Sua trajetória é típica de um parlamentar de uma esquerda moderada: professor, engajado, que falava de Marx mesmo sem ter lido, cuja obra ele dizia ser o “catecismo dos deserdados, a cartilha dos revolucionários”.

Por suas características, Caxias foi desde o início comparado ao senador petista Eduardo Suplicy, o qual chegou a participar, junto com a também senadora petista Benedita da Silva, do episódio da novela que retratava o assassinato de Caxias.[6] A cena do discurso de Caxias sobre a reforma agrária diante de um plenário praticamente vazio foi confirmada pelo próprio Suplicy, que afirmou ter vivido situações semelhantes. A arte imitou a vida, que imitou e participou da arte.[7]

No entanto, a política retratada em O Rei do Gado é a visão típica de uma época em que a política consolida-se como sinônimo de corrupção, trapaça e auto-interesse, e as pessoas ocupadas com atuação política como trapaceiros, corruptos e egoístas. O grau de enraizamento desse senso comum é perfeitamente compreensível se lembrarmos que, no Brasil, a transição da ditadura a uma democracia – de tipo muito limitado – se combinou com a implementação do neoliberalismo (com suas medidas recessivas, desemprego e arrocho salarial), reforçando um imaginário pejorativo da política, dos políticos e mesmo do sistema político democrático, visto como ineficiente e corrupto. E que essa transição não foi capaz de desconstruir, no imaginário social, o tipo de despolitização que era marca indelével da ditadura.[8]

A novela retrata as injustiças sociais, isso é fato; mas a injustiça não existe apenas para os sem-terra. O empresário tem que lidar com problemas com fornecedores, comerciantes, oscilações do mercado, o preço da arroba, a febre aftosa, com a burocracia estatal e, ainda por cima, com ocupações de sem-terra. Os personagens de todos os extratos sociais buscam, de alguma forma, defender o que é seu; os interesses são legítimos. De quem é a culpa de toda a injustiça, afinal? Dos “políticos”. “Os políticos” (assim, genericamente), sugere-se o tempo todo e na boca dos mais diversos personagens, é que são o problema.

Em relação aos movimentos sociais, esse raciocínio se traduz no fato de que a única tolerância aceita para com os movimentos seja condicionada a que eles não sejam propriamente “políticos”. O maior crime do movimento é colocar em pauta a questão do poder. O segundo maior, quando ele organiza sua auto-defesa.

“O movimento é legítimo, desde que ele seja pacífico”

A certa altura, o líder Regino (Jackson Antunes), já assentado, conversava por telefone com o senador Caxias, quem, diante de um questionamento do movimento às ações do governo, dizia em alto e bom som:

“(…) vocês não querem a reforma agrária, vocês querem é baderna (…) não sei se a reforma agrária não sai por causa dos grandes latifundiários improdutivos ou por causa desses grupos políticos sectários que só pensam em sua própria sobrevivência política (…) Essas pseudo lideranças que estragam essa luta maravilhosa que é a luta pela terra.”

Alguns episódios adiante, Regino, tomando a decisão de abandonar o movimento por conta dos tais “sectários”, dizia que “A luta é pela terra, não pelo poder”. Por isso, ele defendia que a bandeira de seu movimento deveria ser verde, “símbolo da esperança”, e não o vermelho, ligado ao “derramamento de sangue”. Era o vermelho da bandeira do PT, da CUT e dos partidos e movimentos de esquerda, esse vermelho que devia ser evitado. O vermelho da luta propriamente política.

A novela mostra uma suposta divisão dentro do movimento, entre “pacifistas” (genuínos, honestos) e “violentos” (“políticos”, ambiciosos). Essa noção vem imbuída da idéia de que o movimento perde totalmente sua legitimidade no momento em que opta por qualquer ação “radicalizada”, por exemplo, defender a sua própria vida diante de um jagunço, ou mesmo bloquear uma estrada. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera ficção, tampouco uma reprise idêntica. A diferença fundamental é que hoje ele é firmemente encampado pelo governo do PT, e para defender o mesmo tipo de programa, do qual se encontra ausente qualquer projeto de reforma agrária que mexa na questão da concentração da propriedade fundiária.

O mais emblemático de todos os episódios é mesmo em um dos capítulos finais da novela, quando uma marcha dos sem-terra, liderada pela viúva de Regino, Jacira (Ana Beatriz Nogueira), se depara com um senhor que vinha na direção oposta, sozinho, carregando uma pequena bandeira vermelha. Jacira chega até ele e fala “a nossa luta é pela terra, não ‘vamo’ botar tudo a perder, pelo amor de Deus”. A bandeira do movimento agora é verde e amarela, e nela está escrito apenas “terra”.[9]

Desnecessário discutir o efeito despolitizante desse discurso, que carrega consigo a legitimação implícita da repressão seletiva. Mais do que isso: naquele momento, no Brasil, o MST encarnava plenamente a luta pela terra, era dela sinônimo. A novela, nesse sentido, ajudou a produzir uma dissociação mental entre a luta pela terra e o MST.

Programa completo

A mensagem que encerra o último capítulo, a “moral da história”, condensa esse duplo sentido de sua defesa da reforma agrária:

“Deus, quando criou o mundo, não deu terra pra ninguém, porque todos os que aqui nascem são seus filhos. Mas só merece a terra aquele que a faz produzir para si e para os seus semelhantes. O melhor adubo da terra é o suor daqueles que trabalham nela”.

Por um lado, essa mensagem legitima a luta dos sem-terra: eles merecem tê-la, pois nela trabalham. Ora, esse é um lema clássico de sua luta. Inquestionável. E que irrita profundamente os setores mais conservadores. Por outro lado, no entanto, legitima também o grande proprietário, como Bruno Mezenga, que é, a rigor, plenamente “produtivo”. Desde que adaptadas aos tempos modernos, não há problema nas grandes propriedades.

Essa noção se coadunava perfeitamente com a defesa de uma reforma agrária de mercado, que era o modelo do governo FHC.[10] Não por acaso, a novela claramente defende as duas medidas que o MST cansou de afirmar que não resolveriam o problema: o ITR (Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural) e a Lei do Rito Sumário para desapropriação de imóvel rural, que eram então apresentadas pelo governo como grande solução para o problema da terra. O personagem Caxias, o único político comprometido com os interesses dos sem-terra, defendia as medidas e portanto, o programa do governo – um governo que não tinha nada de fictício, e que tinha como estratégia clara isolar o MST politicamente.

Mas a novela também compartilha de outros aspectos da chamada “governança” neoliberal dos anos 1990, além da reforma agrária de mercado. Entre elas, a reforma administrativa sob o lema de “enxugar a máquina do Estado”. No mesmo capítulo em que Jacira joga a bandeira vermelha fora, a personagem Chiquinha, ex-empregada de Caxias, que por sua paixão a ele e seus ideais virou uma espécie de assessora do movimento dos sem-terra, afirma, diante de uma situação causada pela lentidão do sistema: “esse país não pode continuar bancando uma máquina que além de cara, não funciona”. Ora, em sã consciência, ninguém discorda que a tal “máquina” estatal deveria (e deve) funcionar melhor. No entanto, essa retórica não era ingênua; ela fez parte da defesa de um programa que significou um absoluto desastre para os serviços públicos; política que, em nome da “modernização” do “Estado paquidérmico”, desolou a saúde e a educação públicas.

Mas, para completar o programa neoliberal, o que não poderia faltar? A defesa de projetos assistencialistas, destinados a aliviar alguns sintomas da pobreza extrema, agravada pela aplicação do mesmo programa. E nem isso faltou. Certa feita, em um dos últimos capítulos, a ex-empregada de Bruno Mezenga, que agora é esposa de Saracura (Sergio Reis) explica o “Projeto Rio Criança Cidadã”. O projeto é descrito, num clima de alegria e descontração, como “uma aliança entre o Exército, a Arquidiocese do Rio, o governo do Estado” (então comandado por Marcelo Alencar, do PSDB) para “tirar as crianças da rua, dar educação, comida e tudo mais”. Mais um (não raro) mershandising político-institucional descarado.

Os verdadeiros reis do gado

O tamanho do rebanho do fictício Bruno Mezenga – os 100.000 bois vacinados que ele se orgulha em cuidar com ração e água tratada – só seria superado no mundo real recentemente por um verdadeiro “Rei do Gado” brasileiro, um paulista descendente de italianos. Usineiro da região de Ourinhos, no interior de São Paulo, a cerca de 200km da Ribeirão Preto de Mezenga, Roque Quagliato partiu para a região amazônica do Pará em 1973. Segundo reportagem de 2005 da revista Exame, Quagliato aparece quase sempre de camisa quadriculada e jeans, “parece mais um simples boiadeiro e não sai de casa sem colocar o chapéu de abas largas”, descrito pelos amigos como “um homem viciado em trabalho”, “ríspido pelo excesso de franqueza” e de “hábitos comedidos”.[11] Já Fernando, seu irmão mais velho, seria bem diferente. “Com quase 80 anos, o primogênito dos Quagliato é sofisticado, urbano e acostumado a circular nos bastidores da política local. Gosta de roupas de grife e de viajar pelo exterior. É casado com Marly, prima da rainha Silvia, da Suécia. Entre os encontros de família dos quais participou estão as bodas de prata da rainha e do rei Carlos Gustavo, em 2001, ocasião em que uma festa para nobres ocupou um castelo medieval e o palácio real em Estocolmo”.[12]

Os reis do gado da realidade estão profundamente entrosados com empresas estrangeiras do ramo de biotecnologia como a Holland Genetics, uma das maiores empresa de inseminação artificial do mundo. No entanto, em termos de questões trabalhistas e relação com o meio ambiente, entre outros quesitos, suas fazendas parecem ter parado na História.

Há muitos anos os Quagliato e diversos outros megapecuaristas são acusados de exploração de trabalho escravo pela Pastoral da Terra e outras entidades que fiscalizam a exploração do trabalho rural. “Quem dera os trabalhadores deles tivessem o mesmo tratamento dos bois”, ironizou Marcelo Campos, assessor da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho, que autuou diversas vezes as fazendas dos Quagliato – que se dizem vítimas de maus-entendidos e “pressões veladas”. Do lado ambiental, o desastre não é menor. Hoje são plenamente conhecidos os efeitos devastadores da expansão da pecuária na Amazônia, entre eles o aumento da freqüência e da gravidade das secas no sudeste.

Outro “rei do gado”, este, diversas vezes associado ao personagem interpretado por Antonio Fagundes, é Samir Jubran, falecido em 2012. Dono do Grupo Jubran, foi o primeiro a se destacar pela integração total da pecuária com a agricultura, com um sistema agropecuário que conta com mais de 300 mil hectares em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Recentemente, o empresário também mantinha grandes áreas com produção de cana-de-açúcar e de celulose em florestas de eucalipto, conhecidas por criar o chamado “deserto verde” – um tipo de plantação comprovadamente nefasto em termos de biodiversidade e de uso dos recursos hídricos e do solo.

Focamos aqui nos efeitos que esse discurso traz para os movimentos sociais. Mas é interessante notar que a “operação de hegemonia” aqui presente (que, evidentemente, não depende da intenção de seus autores) não se dirige apenas aos subalternos, mas também aos dominantes. O discurso da novela é de reprovação em relação ao proprietário que passa por cima da autoridade do Estado, que contrata pistoleiros para matar qualquer um que ele não goste etc. É, digamos, um discurso “civilizador” em relação à direita. Stedile, à época, disse ter notado uma diferença no comportamento dos fazendeiros após a novela: “Antes, eles tratavam nossos líderes como bandidos. Depois, começaram a, pelo menos, aceitar conversar. Há vários casos de fazendeiros dizendo: “temos que negociar este assunto, não dá mais para só chamar a polícia, vamos procurar um acordo etc.” Tem influência da novela nisso”.[13]

A crítica das mulheres

As mulheres do MST criticaram veementemente o tratamento dado pelo autor às personagens femininas, que apareciam em geral com personalidades fracas, ingênuas, suscetíveis, submissas ou maliciosas.[14] Como expressou o próprio Stedile, “Não gostamos também – e chegamos a comentar com o Benedito – do tratamento que ele deu ao papel da mulher. Ela sempre aparecia meio subjugada. Não é assim que se comportam as mulheres lideranças do movimento.[15] De fato, todas as personagens femininas são relativamente fracas, muito embora os personagens em geral da carreguem uma complexidade difícil de encontrar nas telenovelas em geral.

Veio também delas algumas das principais ações que denunciaram as mais novas e agressivas formas de expropriação no campo, representadas pelo monopólio capitalista das sementes transgênicas. A ação das mulheres do MST e da Via Campesina na Aracruz Celulose, em 08 março de 2006, articulada com uma nova ofensiva do movimento no Pontal do Paranapanema, traria de volta os fantasmas que os anos 1990 tentaram exortar. Taxada pela grande mídia como “puro vandalismo”, a ação mostrava que há muito o MST compreendera que o inimigo não era mais o latifúndio tradicional, e sim o grande capital internacional, plenamente industrial, que, cientificamente, eleva a expropriação a níveis nunca jamais vistos.[16]

Mas a história de Luana (Patrícia Pilar) é mais do que uma versão rural do mito sebastiano típico da teledramaturgia brasileira – o(a) legítimo herdeiro(a) da fortuna, que por armadilha do destino ou artimanha de algum personagem perverso, sofre ao longo de toda a trama para ter seu final redentor, onde finalmente se faz justiça. Luana é a síntese da superação do ódio: entre as famílias, entre as classes. É a paz na terra e no céu, agrada até os fantasmas das gerações mais antigas. A conciliação é sagrada em todas as esferas. E a aguda crítica social de Zé Ramalho em “Admirável Gado Novo” pode conviver com o “novo sertanejo” de Leandro & Leonardo.

Referências bibliográficas

ALENTEJANO, P.R.R. “A política de assentamentos rurais no governo FHC e os desafios da reforma agrária no Brasil do século XXI”. Agrária, n.1. p.2-15, 2004.

CASTRO, Daniel. “Autor de novela diz sofrer ameaças: escritor Benedito Ruy Barbosa afirma que tem sido pressionado por sem terras e por fazendeiros”. Folha de S. Paulo, 26 de janeiro de 1997.

ELIAS, Eduardo. “A vez dos sem terra: Benedito Ruy Barbosa acredita que sua novela, superprodução da Globo que estréia amanhã com direção de Luiz Fernando Carvalho, pode ajudar o país a conquistar a paz no campo”. O Estado de S. Paulo, 16 de junho de 1996.

FERNANDES, Bernardo Mançano & STEDILE, João Pedro. Brava gente. A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 1999.

FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo. Teoria e História. Rio de Janeiro: Edufrj/Fiocruz, 2010.

GOMES, André Messias de Oliveira & NASCIMENTO, Fábio José da Silva. Política, MST e O Rei do Gado. Trabalho de conclusão de curso em Comunicação Social. Bahia: UNEB, Julho de 1998. (disponível em http://bit.ly/1IizxQS).

MESQUITA, H.A. Corumbiara: o massacre dos camponeses. Rondônia, 1995. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2001.

PAIVA, Ana Bela. “Benedito defende sua isenção: autor de ‘Rei do Gado’ considera ameaça da UDR uma brincadeira”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 1997.

RAINHA JR, José. “FHC e a Reforma Agrária”. Folha de S. Paulo, 18 de fevereiro de 1997?

SALOMÃO, Alexa. “Os novos reis do gado”. Revista EXAME, 13 de janeiro de 2005 (disponível em http://abr.ai/1GK1TCy).

SOTTILI, Rogerio; AZEVEDO Ricardo. “Maledetto latifúndio”. Teoria & Debate, São Paulo, ano 10, nº 34-9, p. 32-39, 1997. (Disponível em http://bit.ly/1CUaoQF).

Notas

[1] A primeira reprise no “Vale a pena ver de novo” foi em 1999 e a segunda, no Canal Viva, em 2011.

[2] Em agosto de 1995, cerca de 600 trabalhadores sem-terra construíram acampamento num latifúndio improdutivo chamado Fazenda Santa Elina, em Rondônia. Foram cercados e atacados de madrugada por pistoleiros e policiais militares com o rosto coberto. Os jagunços do fazendeiro Antenor Duarte usaram mulheres e crianças como escudos humanos, e seus corpos foram queimados na própria fazenda. Testemunhas que sobreviveram asseguram que pelo menos 100 pessoas perderam suas vidas no massacre de Corumbiara. Ver MESQUITA, H.A. Corumbiara: o massacre dos camponeses. Rondônia, 1995. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2001.

[3] Raul Jungmann, do PPS, foi então nomeado ministro da Reforma Agrária e passou a dominar a propaganda do governo. Logo após a exibição do último capítulo da novela, entrou no ar uma propaganda das ações do governo federal para a reforma agrária. Sobre o governo FHC e a reforma agrária, ver FERNANDES, Bernardo Mançano & STEDILE, João Pedro. Brava gente. A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 1999; ALENTEJANO, P.R.R. “A política de assentamentos rurais no governo FHC e os desafios da reforma agrária no Brasil do século XXI”. Agrária, n.1. p.2-15, 2004.

[4] Era mais ou menos esse o nível da campanha da Veja e de outros órgãos.

[5] SOTTILI, Rogerio; AZEVEDO Ricardo. “Maledetto latifúndio”. Teoria & Debate, São Paulo, ano 10, nº 34-9, p. 32-39, 1997. (Disponível em http://bit.ly/1CUaoQF). Segundo Stedile, “Quando o pessoal dos assentamentos ia para a cidade, notava que o povo passava a nos tratar como se fôssemos atores: ‘vocês estão na novela agora!’, “estão por cima!’, ‘a Globo deu colher de chá para vocês…’ Mudou de forma impressionante o relacionamento com a população. As lideranças do movimento, sobretudo no Pontal, que antes da novela eram consideradas como chefes de quadrilha pela direita, passaram a ser tratadas com respeito pelos setores conservadores da sociedade”.

[6] Suplicy narra seus contatos com Benedito Ruy Barbosa em “A luta do senador Caxias e a vida real” e em “O Parlamento e a novela”, in “Maledetto latifúndio”. Op. Cit.

[7] Segundo o crítico Eugênio Bucci, no entanto, o senador nada tinha a ver com um senador do PT, pois “ele era apenas um senador honesto e bem-intencionado, mas politicamente inoperante. Ele não fazia política, fazia um pouco de caridade, com vacilação e culpa. Não era um senador com um programa de transformação social. Era alguém angustiado apenas com o drama humano dos sem-terra. Sem desmerecer a compaixão que move os homens e a solidariedade humana, mas ele era despolitizado. E chato”. “Maledetto Latifúndio”, Op. Cit.

[8] Apontamos em outro artigo esse “legado” da ditadura. Ver HOEVELER, R & MELO, Demian. A agenda anti-corrupção e as armadilhas da pequena política. Blog Convergência, 22 de abril de 2015 (http://blogconvergencia.org/?p=4373).

[9] No episódio da morte do senador Caxias, já baleado, Caxias fala pra Regino: “não deixe que a minha morte seja em vão (…) Paz, violência não. A cada movimento de violência, eu te peço meu irmão, pelo amor de Deus, responde com paz.” Pombas brancas voam pelo céu, como se simbolizassem a alma de Caxias indo para o “Além”. Um dos membros do movimento, que acompanhava Regino, fica indignado e conclama “vamos pegar o maldito que matou ele!” Regino responde, com consternação e preocupação, como se tivesse entendido o segredo do mundo: “Pelo amor de Deus abaixa essa arma. Não foi pra isso que ele morreu”. Stedile afirma que a base do movimento ficou possessa com a defenestração da bandeira vermelha. Maledetto latifúndio, op. Cit.

[10] A chamada reforma agrária de mercado tinha como princípio que o governo adquirisse as terras destinadas a assentamentos através do mercado de terras. O governo, através do Decreto 433 (que permitia que o INCRA realizasse desapropriações de forma negociada, usando dinheiro ou títulos), podia realizar esse pagamento pela terra com títulos da dívida agrária (TDAs), as quais foram muito usadas por seus proprietários na compra de estatais. Em 1999, o governo criaria o Banco da Terra, que teria como principal função captar recursos para aquisição de terras destinadas para assentamentos. Dessa forma, “o latifúndio deixa de ser penalizado por não cumprir com sua função social, conforme exigia a Constituição, e torna-se um ativo financeiro.” Ver FERNANDES & STEDILE, João Pedro. Op. Cit., p.141.

[11] SALOMÃO, Alexa. “Os novos reis do gado”. Revista EXAME, 13 de janeiro de 2005. Segundo a BeefPoint, consultoria especializada em agropecuária, tratava-se do maior rebanho no país, com 200.000 cabeças, 8 fazendas, 85.000 hectares de terra no Pará, com patrimônio estimado em 400 milhões de reais (dados de 2005).

[12] Idem.

[13] “Maledetto latifúndio”, Op. Cit.

[14] “Maledetto latifúndio”, Op. Cit..

[15] Stedile ainda mencionava duas críticas feitas no movimento, a de que havia um certo racismo na novela, “porque são sempre três negros, que eram ex-jagunços, que propunham o tema da violência no acampamento quando esquentava o clima”, e porque a trama não esclarecia que eram os fazendeiros que mandaram matar Regino, o que, segundo ele, “tirou um pouco a responsabilidade que a oligarquia rural tem pelos assassinatos no campo e pela violência rural”. “Maledetto latifúndio”, Op. Cit.

[16] Sobre as formas de expropriação, ver FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo. Teoria e História. Rio de Janeiro: Edufrj/Fiocruz, 2010.