Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

O tecido de Chapecó

Carlos Eduardo Rebuá

“Para mim, a literatura é uma forma de brincar.
Mas sempre acrescentei que existem duas maneiras
de brincar: o futebol, por exemplo, é basicamente
um jogo, e jogos são algo muito sério e profundo.
Quando as crianças brincam, em­bora estejam
se divertindo, levam a brincadeira muito a sério.
É importan­te. (…) A literatura é assim – um jogo, mas um
jogo no qual a gente pode colocar a própria vida.
Pode-se fazer tudo por esse jogo”.
[Julio Cortázar, Entrevista à Paris Review, 1984]

 

O ano de 2016 tem mostrado como a temporalidade é significada e medida profundamente pela intensidade do vivido, fazendo com que a duração do que é passado/presente e com que o (s) sentido (s) do/sobre o futuro sejam dilatados ou comprimidos, fortalecidos ou atenuados, respectivamente, de acordo com o que ocorre conosco. Numa conjuntura de derrotas, para ser eufemístico, diárias nos níveis da política, da cultura, dos processos econômicos, das formas de sociabilidade, seja aqui ou fora do país, uma tragédia envolvendo o jovem time brasileiro da Chapecoense[1], fundado em 1973 e de pouca expressão nacional e internacional até pouco tempo, teve a capacidade nos fazer emergir, por um momento, no/do mar bravio de ondas (neo)liberais e (neo)conservadoras, permitindo novas (um time ceder o título a outro, indo ao seu estádio na hora do jogo entoar os cânticos do adversário) e velhas alteridades (as torcidas e os jogadores se vestirem dos símbolos alheios, em profusões de homenagens), de variados níveis, num movimento em direção ao outro que até mesmo no futebol tem deixado de comparecer aos estádios. Não foi a tragédia a causadora automática desta experiência, mas justamente a própria experiência das reações ao trágico que parece nos indicar a possibilidade, ainda, de colocar a própria vida na órbita de algo ou neste algo propriamente dito, como salienta o escritor argentino.

Não se trata apenas da dor solidarizada ou do impacto que todo evento desta magnitude causa nos sujeitos, de Chapecó, Medellín ou Roma. Há algo mais vigoroso aí. Também não é apenas um efeito global do globalizado e multimidiático futebol, que faz com que um hincha do Nacional do Uruguai saiba da briga do técnico do Liverpool com seus comandados, minutos após uma partida do campeonato inglês. O futebol é algo muito sério, mesmo sendo um jogo. Nele colocamos a própria vida, diuturnamente, mais do que em qualquer outro esporte. Se nosso clube de futebol for à falência continuaremos sendo torcedores daquele espaço de experiência, porque há um espírito, uma partilha, um sentido de pertencimento que nenhum outro clube de nenhum outro esporte é capaz de igualar, no sentido mesmo da intensidade.

Em O segredo de seus olhos (2009), Juan José Campanella – Boca Juniors pela família e local de criação, e Racing Club pela simpatia e entusiasmo com sua torcida apaixonada[2], materializada na frequente retratação em seus filmes – insere na trama sobre um brutal assassinato a angústia da procura do criminoso, quase impossível de ser encontrado, por parte de Benjamin Esposito (Ricardo Darín) e Pablo Sandoval (Guillermo Francella, um ilustre torcedor do clube azul e branco de Avellaneda). Todavia, numa conversa fortuita em um bar com um amigo tabelião, e a partir da cifragem de uma carta do suspeito com menções a nomes de ex-jogadores racinguistas, eis que Sandoval chega a uma conclusão bastante conhecida dos amantes do esporte mais popular do mundo: não se muda de clube!

“Sandoval: – Tabelião, o que é o Racing para você?
Tabelião: – É uma paixão.
Sandoval: – Mesmo sem serem campeões há nove anos?
Tabelião: – Uma paixão é uma paixão!
Sandoval: – Está vendo, Benjamin? Um sujeito pode mudar de tudo. De rosto, de casa, de família, de noiva, de religião, de deus. Mas há uma coisa que não se pode mudar, Benjamin: não se pode mudar de paixão”.

 Sob o prisma Walter Benjamin, é possível compreender a experiência como construção, partilha, recuperação de significados sobre a própria existência e sobre o mundo. Para o filósofo alemão a experiência, no sentido da Erfahrung, também pode ser assimilada como um processo – complexo, dinâmico, dialeticamente individual e coletivo – de construção de sentidos. Em seus escritos dos anos 1920 sobre Goethe, Benjamin aborda o vínculo entre experiência e sentido quando afirma que “a experiência é carente de sentido e espírito apenas para aquele já desprovido de espírito” (Benjamin, 2009, p. 23).

O futebol tem a rara capacidade de atender à necessidade humana de uma experiência plena de sentido; de elaborar coletivamente e imprevisivelmente um espírito inacabado, multifacetado e de difícil explicação muitas vezes, extrapolando fronteiras nacionais, línguas, conflitos de múltiplos matizes, rivalidades. O que vimos no estádio Atanazio Girardot, do Atlético Nacional de Medellín, que enfrentaria a Chapecoense na final da Copa Sulamericana, não foi apenas fair play, tampouco solidariedade pura e simples: o que se deu ali, assim como em diversos outros estádios mundo afora, foi uma articulação singular de uma tríade ontológica – experiência, narrativa e memória -, com aquele elemento apontado no filme de Campanella: pasión.

Numa imagem de pensamento (Denkbild) livre, inspirada em Benjamin, defendemos que na tessitura coletiva dos fios da experiência, a agulha da narrativa – que tem no tempo da memória sua costura – forja um tecido cuja matéria é a vida humana (Rebuá, 2015, p. 326). Para além do marketing que todo grande evento acaba engendrando (por exemplo ver uma famosa loja de artigos esportivos aumentar o preço da camisa da Chapecoense logo após a tragédia), parece-nos que o futebol continua, tal como a literatura, sendo um lugar de experiência onde colocamos nossa própria vida, podendo fazer de tudo por ele. Cortázar, torcedor do Club Atlético Banfield, um dos mais tradicionais da Argentina e também alviverde, como o time de Chapecó, disse certa vez: solo nosotros sabemos estar distantemente juntos. Os fios de Chapecó apenas começaram a ser tecidos… juntos e ao mesmo tempo distantes.

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. Ensaios reunidos: escritos sobre Goethe. São Paulo: Duas Cidades: Editora 34, 2009.

REBUÁ, Eduardo. Da praça ao solo: um novo chão para a universidade. As experiências das universidades populares de Madres de Plaza de Mayo [UPMPM] e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra [ENFF] em tempos de crise neoliberal na América Latina [2000-2010]. Tese [Doutorado em Educação] – Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal Fluminense, 2015.

[1] Ao todo foram 71 mortos, entre jogadores, comissão técnica, jornalistas, tripulantes.

[2] Fernando Otero . “No he conocido hinchas más apasionados que los de Racing”. Olé, 24 mar. 2010. Disponível em: http://bit.ly/2ikzgYH