Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Ornitorrincos com PhD

Alvaro Bianchi

Parcela significativa dos intelectuais brasileiros, poderia dizer até a maior e mais importante, parece ter desenvolvido um duplo papel. Nas revistas acadêmicas comportam-se de modo ponderado e comedido, como cabe aos cientistas. Formulam problemas de pesquisa, apresentam hipóteses, reúnem evidências e submetem suas ideias a rigorosos testes científicos de acordo com as metodologias mais modernas. Mas nas colunas dos jornalões e nas redes sociais esses mesmos acadêmicos comportam-se como fanáticos fundamentalistas, cães de guarda e bate-paus ideológicos. O que está acontecendo? Tento aqui esboçar uma resposta.

Há alguns anos atrás participei, juntamente com Chico de Oliveira e Carlos Nelson Coutinho, de um seminário no Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da Universidade de São Paulo, no qual a hipótese de hegemonia às avessas, lançada pelo primeiro era discutida. De acordo com essa hipótese a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder expressava uma situação na qual as classes dominantes exerciam seu poder por meio de organizações políticas das classes subalternas. Quando as classes dominadas assumiram o governo, a “direção moral” da sociedade, segundo Chico, a dominação burguesa se tornou mais descarada.

Carlos Nelson reagiu à provocação de Chico de Oliveira argumentando que na sua opinião tratava-se de uma hegemonia da pequena política. No poder, o lulismo teria abandonado o debate estratégico e reduzido a luta política e as disputas ideológicas às pequenas escaramuças palacianas. A pequena política teria, entretanto, um alcance estratégico, uma vez que reforçaria o status quo e permitiria ao lulismo permanecer nos mesmos quadros institucionais herdado de seus predecessores, sem se obrigar a apresentar um projeto abrangente de reforma moral e política da sociedade brasileira.

Na ocasião Ruy Braga e eu apresentamos uma terceira hipótese: vivia-se uma revolução passiva à brasileira, um processo de transformação molecular e atualização do capitalismo brasileiro, dirigido pelo Estado, o qual tinha a sua frente setores da burocracia sindical que haviam se transformado em gestores dos fundos de pensão. Acho que nossa hipótese era mais rigorosa e precisa para descrever as mudanças que estavam acontecendo no Brasil.

Por um lado, o conceito de burocracia e sua transformação em gestores dos fundos de pensão apresentava uma solução mais robusta para o problema da agência desse processo. Era mais robusta porque permitia identificar a gênese desse processo na década anterior e evitava a surpresa de uma classe oriunda do nada, como parecia ser a nova burguesia identificada por Chico de Oliveira. Também resolvia as antinomias da ideia de hegemonia da pequena política, a qual parecia sugerir a supremacia de uma prática política e não de uma classe, fração de classe ou grupo político, deixando sem resolver o problema da agência.

Por outro, a ideia de revolução passiva à brasileira apresentava uma leitura que permitia entender não apenas o lulismo no poder, mas o processo decenal de transformação do PT em um partido da ordem. Desse modo também recusava o susto com uma misteriosa e inesperada capitulação do PT aos banqueiros, em 2002, com a Carta aos brasileiros. Em resumo, a hipótese de uma revolução passiva à brasileira introduzia as noções de burocracia e transformismo para compreender as características da supremacia burguesa em nosso país.

Um pouco de autocrítica

Agora, olhando certas tendências políticas e intelectuais percebo que nossa análise deixava de lado certos movimentos ideológicos e culturais que as hipóteses de Chico e Carlos Nelson eram capazes de captar. A ideia de hegemonia às avessas apresentava uma interessante hipótese para o estudo das formas culturais contemporâneas que provenientes das classes subalternas afirmavam sua supremacia no próprio seio da burguesia brasileira, a qual partilharia com seus compatriotas mais pobres o gosto pela música sertaneja e as produções da Globo Filmes. A evidente contrapartida ocorreria no fato de sujeitos provenientes das classes subalternas governarem para o capital.

Esse estranho processo que Chico analisou com a divertida metáfora do ornitorrinco não era contraditório com a supremacia da pequena política apontada por Carlos Nelson. De certo modo, a hegemonia às avessas se realizaria por meio da pequena política, a qual representaria a incorporação, pelo Partido dos Trabalhadores, de práticas políticas longevas na formação social brasileira. Compra de votos no Congresso Nacional, utilização da Polícia Federal como instrumento de pressão política, liberação de recursos em troca de apoio, velhos inimigos se abraçando em palanques eleitorais, tudo vale a pena quando a grana não é pequena.

O que ambas visões destacavam era uma identidade das práticas culturais e políticas de petistas e tucanos. Uma identidade que, é bom destacar, apresentou-se em todo seu esplendor apenas quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao poder. O debate político que se estabeleceu a seguir entre os velhos cardeais tucanos e os novos reformadores petistas não primou pela sofisticação. Movimentaram-se contra seus inimigos com a sutileza que Tomás de Torquemada e Thomas Cromwell haviam demonstrado como Inquisitor generalis e Vicar-generalde suas respectivas religiões nos séculos XV e XVI. E do mesmo modo que Torquemada e Cromwell disputaram qual era a melhor igreja para adorar o mesmo deus.

Bons cristãos, heréticos e ex-dissidentes

Os intelectuais democráticos e socialistas que haviam passado os anos precedentes no Partido dos Trabalhadores reagiram com surpresa. No início protestaram contra a Carta ao Povo Brasileiro e a reforma da Previdência. Alguns tiveram sua atenção chamada pelas autoridades partidárias e como bons cristãos reacomodaram-se na nave para melhor acompanhar o sermão. Outros preferiram o caminho da heresia e o rompimento com a disciplina eclesiástica, uniram-se a novos movimentos sociais e políticos que procuravam reconstruir a igreja primitiva, fundar uma nova ecclesia ou, simplesmente, abandonar toda fé.

Uma parcela significativa permaneceu expectante. Preferiu acompanhar a cerimônia no fundo da igreja, atrás dos pilares, sem fazer ruído, simplesmente esperando o desenrolar dos acontecimentos para escolher seu destino. Em 2005, com o escândalo do mensalão esse grupo passou pelo seu apogeu, localizando-se no ponto mais distante do astro petista ao redor do qual orbitava. Não foram poucos os que flertaram com a candidatura de Heloísa Helena no primeiro turno, embora incomodados com o discurso moralista que predominou na campanha e com a sua incapacidade de oferecer como alternativa uma ampla reforma moral e política. Mas mesmo esta parcela, discretamente, optou pelo mal menor no segundo turno, apoiando mais uma vez a candidatura Lula.

O segundo mandato de Luiz Inácio reaproximou o partido dos intelectuais. Crescimento do PIB, formalização do mercado de trabalho e políticas sociais compensatórias serviram como justificativas. Mas o que animou realmente os ex-dissidentes foi a expansão do sistema universitário brasileiro, a criação de mais instituições federais de ensino superior e a abertura de concursos públicos para a contratação de docentes. Estrangulados pela gestão do colega Paulo Renato no governo FHC um importante contingente de intelectuais universitários brasileiros viu ao longe, no segundo mandato de Lula, a terra prometida. Os dissidentes reconciliaram-se, assim, com o papado do Planalto Central e junto consigo carregaram os clérigos recém ordenados.

Vale-tudo acadêmico

A reconciliação foi, também, a vitória de um estilo de fazer política. Os ex-dissidentes rapidamente abandonaram o debate estratégico e começaram a participar das escaramuças sobre a avaliação de políticas públicas, conflitos palacianos e guerrilhas tecnocráticas. Reconvertidos, precisaram mostrar seu forte compromisso com o papado lulista e tomaram parte intensamente dos acalorados embates sobre juros ou inflação, pibinho ou pibão, privatização ou concessão, bolsa alimentação ou bolsa família, Marco Maciel ou José Sarney, tucanoduto ou mensalão, Joaquim Barbosa ou Ives Gandra.

Para muitos desses intelectuais, estes confrontos teriam realmente dividido o país em dois conjuntos, e apenas dois, contrapostos. Teorias conspiratórias começaram a emergir. Os tucanos juraram de pé junto que as universidades brasileiras encontravam-se dominadas por professores trotskistas e comunistas que financiados pelo governo federal promoviam a lavagem cerebral de inocentes pós-adolescentes. Os petistas denunciaram insistentemente a preparação de um golpe que teria a sua frente a grande mídia, a qual apesar de receber vultuosas verbas publicitárias do governo federal estaria profundamente interessada em sua deposição.

Dai a perplexidade quando os terceiros excluídos tomaram as ruas em junho de 2013. Intelectuais tucanos e petistas estiveram juntos contra as ruas, uns protegendo os outros, mas depois de tantas escaramuças não foram mais capazes de se autorreconhecerem. De novo apelaram para as teorias conspiratórias. Para os primeiros, os manifestantes eram perigosos anarquistas protegidos pelo governo federal que fez uso deles para atacar as instituições democráticas. Para os segundos, os mesmos não passavam de grupos fascistas instrumentalizados pela grande mídia para intimidar os governos eleitos democraticamente.

Nas manifestações uns viram os germes da anarquia petista e outros o ovo da serpente do fascismo tucano. Mas, principalmente, viram a ameaça de perder seus privilégios sociais e políticos. Viram a pequena política à qual haviam se acostumado sendo contestada e apedrejada nas ruas das capitais brasileiras. E juntos reivindicaram o retorno à ordem e ao progresso, ao direito de ir-e-vir, à garantia da propriedade privada e à iniciativa política dos    governantes.

Quando Dilma Rousseff discursou prometendo uma reforma política e um plebiscito, intelectuais tucanos e petistas respiraram aliviados. Os prefeitos recuaram dos aumentos das tarifas, esperando uma melhor oportunidade e os manifestantes, cansados, voltaram para suas escolas e locais de trabalho com algumas lições nas mochilas. Os sábios estavam cientes de que as promessas não se realizariam, mas comportaram-se como se fosse tudo verdade. Tiveram assim a chance de voltar para a pequena política, culpar-se uns aos outros e unirem-se nos gritos contra aquilo que foram incapazes de entender: Anarquistas! Fascistas! Petralhas! Tucanos! Gentalha! Classe média!

A gritaria continua intensa. Basta alguém opor-se aos gastos dos governos federal e estaduais com a Copa do Mundo, protestar contra a repressão policial ou manifestar-se nas ruas para que sofisticados conceitos sejam banalizados e transformados em insultos ao lado de outros mais usuais no reduzido léxico da pequena política. Torna-se difícil entender esse comportamento. Intelectuais que escrevem papers esforçando-se para explicar o crescimento da classe média no Brasil são os mesmos que acusam os manifestantes de “classe média”; pesquisadores especializados no estudo das experiências coletivas das classes subalternas afirmam que os jovens não têm experiência política; investigadores do direito à cidade apoiam as obras da Copa e silenciam sobre a remoção de favelas; estudiosos da democracia participativa assumem o papel de porta-vozes de supostas maiorias silenciosas; especialistas em direitos humanos criminalizam movimentos sociais; e analistas críticos do Banco Mundial festejam as políticas sociais focalizadas.

Obviamente não se pode transitar de um papel para outro sem despir-se em algum ponto da trajetória da beca acadêmica e junto dela de todas as normas de boas práticas científicas, dos livros e dos artigos publicados. Bem comportados acadêmicos quando têm seus privilégios ameaçados vestem seus novos uniformes de lutadores de vale-tudo e transfigurados lançam-se a um octógono virtual no qual gritam, rosnam e mostram os punhos. Não seria possível reconhece-los se não fosse a idade avançada, a má forma física e a constrangedora falta de familiaridade com a luta política. Tornam-se, assim, estranhos espécimes de homo academicus, tão estranhos como o ornitorrinco descrito por Chico de Oliveira. A diferença é que são ornitorrincos com PhD.