Bordado de Pedro João Cury
Bordado de Pedro João Cury

“Os dias eram assim” e o golpe do tempo presente

Amanda Moreira da Silva

A nova aposta da Rede Globo para o horário das 23h é a série “Os dias eram assim” de Angela Chaves e Alessandra Poggi, que retrata o período vivido sob o golpe militar de 1964. Apesar de o horário permitir certa ousadia, a trama mantém narrativa de novela que tenta se diferenciar como “super série” visando o mercado internacional, onde as séries são mais costumeiras. O enredo é perfeito para tal propósito, pois tentam exibir uma versão da ditadura para iniciantes e leigos ideal para ser exportada, deixando às claras que a produção não tem o objetivo de traduzir a complexidade do período que retrata, nem para o público brasileiro nem para os estrangeiros.

É puro entretenimento. Contudo, a intenção da Rede Globo de tratar do golpe militar no atual contexto histórico, por si só, já é motivo de atenção. Afinal, estamos vivendo um golpe e a Globo apoiou os dois: 1964 e 2016. Então, qual seria o motivo de uma emissora golpista, um ano antes das eleições presidenciais, durante o aniversário de um ano do golpe de 2016, produzir uma novela sobre o outro golpe (de 1964)? Há motivos suficientes para desconfiar e para isso é importante observar os elementos presentes.

Primeiramente, nota-se que há uma tentativa de desconstruir o golpe de 2016, trazendo a memória do golpe de 1964, no sentido de afirmar que são coisas diferentes. Que um foi violento, “militar” e o outro não, e que, portanto, em 2016 não estaríamos vivendo sob um golpe. O próprio nome da série já diz muita coisa: “Os dias ERAM assim”.

Empreiteiras e corrupção: uma tentativa de diferenciação

Arnaldo (Antonio Calloni), um típico vilão, representa um empreiteiro que executa projetos para o governo. O personagem serve como modelo da “linha dura” da ditadura. Arrogante, muito rico e apoiador financeiro do aparato repressor do regime militar, sente um prazer sádico em acompanhar sessões de tortura. No âmbito familiar é um machista controlador da esposa Kiki (Natália do Vale) e da filha Alice (Sophie Charlotte).

A inspiração para o personagem pode ter sido Hening Boilesen[1], um caso emblemático da participação civil na repressão e nos crimes da ditadura civil-militar. O executivo foi um dos grandes entusiastas da operação bandeirante (Oban), alinhado com a agenda dos segmentos industriais brasileiros e financiada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) (GRASSI, 1973).

Neste ponto, fica implícito, mas pode ter sido proposital uma ligação com a Odebrecht, numa oportuna conexão com o tempo presente. Tal abordagem expressa a disputa no interior do bloco no poder entre a mídia e setores da burguesia, revelando “a incapacidade dos setores dominantes em controlar o ‘núcleo do poder’ do Estado brasileiro” o que tem “gerado uma guerra de todos contra todos”. (PINTO et al., 2017, p. 3).

Quanto a isso, pode haver uma tentativa da emissora – representante dos segmentos dominantes e que se construiu na base da corrupção – se diferenciar/distanciar dos setores corruptos; assim como aumentar seu poder econômico e político, diante das outras forças sociais. Não é à toa que no atual cenário, a mídia, como uma das frações do bloco no poder[2], se coloca de forma explícita a favor da redução dos custos da força de trabalho com as teses da inevitabilidade das reformas em curso (trabalhista e da previdência) e também da lei da terceirização.

Um enfrentamento ao fascismo

Não deixa de causar estranhamento o fato de a Rede Globo fazer uma série que, com todas as limitações, traga uma crítica ao regime militar. Afinal, Roberto Marinho, aquele que andava de braços dados com Figueiredo, defendeu a participação no golpe de 1964. O próprio Grupo Globo entendia bem esse contexto, tanto que há um editorial emblemático no Jornal O Globo de 7 de outubro de 1984[3], no qual Roberto Marinho sai em defesa dos militares afirmando: “Participamos da revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”.

Todavia, com a abordagem escolhida para “Os dias eram assim”, a Rede Globo passa a ideia de que é contrária aos movimentos de extrema-direita e aos métodos ditatoriais autoritários. Não é casual que a família Bolsonaro tenha ficado ensandecida e utilizado o plenário da Câmara dos Deputados para fazer discurso contra a “peça de propaganda vermelha”. Os fascistas insistem na tese de que a Globo é comunista e tentaram lançar e multiplicar pela web a hashtag “os dias não eram assim” nas redes sociais, na tentativa de desconstruir a narrativa da série, que segundo eles, romantiza a esquerda e demoniza os militares.

No momento atual em que, não surpreendentemente, aparecem movimentos que pedem a intervenção militar, as saídas autoritárias jamais podem ser descartadas ou menosprezadas. Pode parecer alarmismo, mas é pavoroso quando um General de exército, Rômulo Bini Pereira, ex-chefe do Estado-Maior do Ministério da Defesa, sai da caserna para fazer a seguinte apologia: “[…] se o clamor popular alcançar relevância, as Forças Armadas poderão ser chamadas a intervir, inclusive em defesa do Estado e das instituições […]” (PEREIRA, 2016, p. 2).

Em meio a esse aparecimento sem pudores da extrema-direita, a Rede Globo tenta passar a ideia que é “imparcial” e não mais tão ortodoxa. Parece querer conter o monstro fascista que ela mesma ajudou a criar (no caso, o Bolsonaro) e estaria, assim, tentando unificar os votos da direita no candidato tucano (ou de algum partido “Novo”), possivelmente João Dória.

Uma caricatura da militância de esquerda

A trama ignora os grupos revolucionários e os atos contra o governo existentes no período. A militância de esquerda é retratada de forma caricatural, idealista, ingênua e romântica, como se não tivessem existido guerrilheiros experientes que tinham um alto grau de organização e clandestinidade. Um retrato muito mal feito do que eram os “subversivos” da época – e neste caso, claro, não dava pra esperar tratamento diferente.

O militante Túlio (Caio Blat) que fazia parte da luta armada e só ficou vivo até o primeiro capítulo, quando solta uma bomba na entrada da construtora Amianto, que pertence ao empresário Arnaldo, é capturado pela polícia, torturado e morto. Fora isso, há uma dezena de outros personagens, mas dentre eles se destacam Renato (Renato Góes) e Alice (Sophie Charlotte), que se apaixonam no segundo capítulo e vão viver uma história de amor que tenta resistir aos conflitos políticos e familiares. Um romance clichê entre pessoas pertencentes a classes sociais diferentes, onde o contexto histórico é um mero pano de fundo para o drama amoroso.

Renato é um médico residente que enfrentou o abuso de “autoridade” do empreiteiro durante uma situação no hospital em que trabalha. O jovem também é irmão de Gustavo (Gabriel Leone) que participou indiretamente do ataque à empreiteira, junto a Túlio. Gustavo e Túlio, logo no primeiro capítulo, se reúnem para fazer uma pichação na sede da empresa de Arnaldo. Tudo retratado como um ato de molecagem e sem vínculo com organizações de esquerda.

Esses já se tornaram fatos suficientes para sofrerem perseguição, onde o pai de Alice empreenderá uma caçada ensandecida contra eles, obrigando Renato a exilar-se do país. Já Alice é uma jovem abastada e transgressora, influenciada por Leila Diniz, que se coloca contra o pai, mas sem se envolver muito com a política. Só quer viver o seu amor, usar a pílula anticoncepcional e fazer topless com mais “liberdade” nas praias de Ipanema.

Toda essa trama juvenil tem uma ótima trilha sonora que se soma a um bom trabalho de inserções de imagens da época. Elis Regina, Chico Buarque, Raul Seixas, Legião Urbana, Secos & Molhados e os Novos Baianos desfilam suas canções pela série. E através de algumas cenas, os autores retratam, ainda que de forma tímida, o que ocorreu no cenário cultural brasileiro: artistas ávidos por liberdade e pela quebra dos mais variados tabus nos palcos, nas canções e nos costumes. Mas nem tudo é perfeito. Para atender à conciliação de sempre: o som que embala o casal não poderia ser outro que não a despolitizada jovem guarda na figura de Roberto Carlos.

A história se repete…

Em 1992, a minissérie “Anos Rebeldes[4]” também abordou o regime militar a partir do romance entre dois jovens com projetos de vida diferentes, com a política governamental influenciando definitivamente suas vidas. Heloísa (Claudia Abreu), a garota rica e fútil que descobre o mundo real e se torna guerrilheira; e João Alfredo (Cássio Gabus Mendes), um soldado da luta armada contra o violento regime de ditadura. De Gilberto Braga e Sérgio Marques, a série teve direção, entre outros, de Silvio Tendler[5] e foi baseada no livro de Zuenir Ventura “1968: o ano que não terminou[6]”, entre outros.

O destino dos personagens estava diretamente ligado ao momento político do país, numa série que se passou durante o movimento dos jovens “cara-pintada” no período do Impeachment do então presidente Fernando Collor, deposto no dia 29 de setembro de 1992, um mês e meio após o término da minissérie. À época, não foram poucos os que associaram a queda do presidente à exibição da minissérie, que teria incentivado os jovens a se rebelarem.

Segundo Abdala Junior (2012), o mais intrigante, entretanto, é que testemunhos de época insistem em afirmar que se estabeleceram relações entre as manifestações públicas que precederam o processo de impeachment e a minissérie. A revista de maior circulação nacional — a Veja —, por exemplo, afirmava numa das reportagens sobre as manifestações pró-impeachment que nos 50 mil panfletos e 20 mil cartazes distribuídos pela União Brasileira de Estudantes Secundaristas convocando a população para a manifestação de São Paulo “se lia ‘Anos Rebeldes, próximo capítulo: Fora Collor, Impeachment Já’”.

As semelhanças de “Os dias eram assim” com “Anos Rebeldes” cessam no fato de que as duas séries têm como cenário o Rio de Janeiro e possuem como pano de fundo o regime militar. Porém, uma não se compara a outra em termos de produção e de influência político-cultural. Toda época carrega as marcas que merece e temos aqui mais uma vez a história se repetindo: na primeira vez como tragédia, na segunda como farsa.

Referências:

ABDALA JUNIOR, Roberto. Brasil anos 1990: teleficção e ditadura – entre memórias e história”. Topoi, vol. 13, n. 25, jul/dez. 2012, p. 94-111.

GRASSI, Quirino. Grupo permanente de mobilização das federações de indústria. Conferência pronunciada na Escola Superior de Guerra. 30 de julho, 1973.

PEREIRA, Rômulo Bini. Alertar é preciso! (2). Estadão. 15 de dezembro de 2016.

POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

PINTO, Eduardo Costa; BALANCO, Paulo. Estado, bloco no poder e acumulação capitalista: uma abordagem teórica. Revista de Economia Política, 34 (1), 2014.

PINTO, Eduardo Costa; PINTO, José Paulo Guedes; SALUDJIAN, Alexis; NOGUEIRA, Isabela; BALANCO, Paulo; SCHONERWALD, Carlos; BARUCO, Grasiela. A Guerra de Todos contra Todos: a Crise Brasileira. IE- UFRJ Discussion paper, TD 006, 2017. Disponível em: http://bit.ly/2pXoEpl  acessado em 01/05/2017.

Notas

[1] Para saber mais sobre o tema, ver o documentário “Cidadão Boilesen” de Chaim Litewski, que esmiúça a participação de Boilesen na repressão. Disponível em: https://youtu.be/yGxIA90xXeY

[2] Tomamos como referência a definição de bloco no poder de Poulantzas (1977), resgatada por Pinto e Balanco (2014, p. 46), que seria uma unidade contraditória entre distintas classes e/ou frações de classes, sob a hegemonia no seu interior de uma dessas frações ou classes, em suas relações com o Estado capitalista. Sendo assim, o conceito de bloco no poder está arrolado ao nível político na medida em que recobre o campo das práticas políticas de classe, refletindo o conjunto das instâncias, das mediações e dos níveis da luta de classes numa determinada conjuntura histórica de uma formação social.

[3] Para ver o texto na íntegra assinado por Roberto Marinho, ver: http://bit.ly/2pr3QTn acessado em 29/04/2017.

[4] A Globo lançou uma caixa com três DVDs e a série também foi reprisada no Canal Viva em 2013.

[5] Diretor de excelentes documentários, dentre eles: “Jango” de 1984 e o “Veneno está na mesa” de 2011.

[6] VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.