Ilustração de Celly Inatomi
Ilustração de Celly Inatomi

Outras razões para “13 Reasons Why”

Rosi Morokawa

“Recuse-se a expressar uma emoção e ela morre” (William James, 1884).

Quem nunca pensou nas razões que alguém teve para tirar sua própria vida? Ou se havia alguma razão, ou se haveria algo que pudesse ser feito para impedir tal acontecimento? Quando isto acontece com alguém próximo um “porquê?” é inevitável. Se acontece com alguém que conhecíamos pouco, o “porquê?” pode tomar alguns segundos, ou quem sabe minutos?, de nossas vidas. Mas por vezes a pessoa que tirou a própria vida era desconhecida, e mesmo assim pode fazer nos lembrar de algo de nossa juventude ou nos imaginarmos em uma situação futura. E então, não toma segundos de nossas vidas, toma um tempo maior, porque nos abala profundamente.

O tema do suicídio tomou as redes sociais nos últimos dias e se tornou notícia nos meios de comunicação. Sete tentativas de suicídio de adolescentes em apenas uma noite, em uma única cidade.[1] Uma série de comentários, de especialistas ou não, vinculam os acontecimentos à série 13 Reasons Why e a um jogo virtual chamado “Baleia Azul”. Este texto é sobre a série que estreou no Netflix no dia trinta e um de março e uma questão latente: a relação entre o suicídio e o machismo.

Há alguns dias li a carta de uma adolescente que se suicidou, compartilhada na internet. Na carta, a série 13 Reasons Why é citada para afirmar que não foi por causa de uma série que a menina se suicidava, segundo ela, seria uma hipocrisia afirmar isto. Ela diz que já estava morta por dentro e ninguém percebia, porque por fora aparentava estar bem e sorrir. A adolescente diz que foi morrendo aos poucos quando era abusada sexualmente pelo seu padrasto e rejeitada pela mãe.

No mesmo dia comecei a assistir 13 Reasons Why e percebi que existem dois tipos de pessoas: as que ouviriam todas as fitas cassetes em uma noite apenas; e as que são como o personagem Clay, que não consegue ouvi-las sem sentir cada momento das fitas revivendo cada acontecimento. Explico, Clay é um jovem que recebe fitas cassetes gravadas por uma colega de classe do Ensino Médio, Hannah, que acaba de se suicidar. Ele relembra e imagina o que sua colega vai contando sobre as razões de seu suicídio.

Percebi que sou como Clay, porque não consegui assistir aos episódios da série em uma única noite ou em seguida, como acredito que muitos fazem. Por esse motivo não consegui ainda assistir além do episódio 3 “Fita 2, lado A” – os episódios são intitulados conforme as fitas gravadas e seus lados. No entanto, mesmo sem assistir muitos episódios, percebi que há uma forte relação na série (ficção) e na carta (real) entre a opressão machista que as adolescentes sofrem e o suicídio.

A personagem Hannah é uma jovem inteligente, bonita, alegre, com amigos e perspectivas para o futuro. Não é alguém que possui algum distúrbio mental ou esteja doente, mas alguém que vai sendo agredida física e psicologicamente até chegar a um extremo. Ela sofre bullying, que se inicia por compartilhamento de uma foto sua entre seus colegas, que supostamente a vincula a um ato sexual. Ela passa a sofrer preconceitos, assédios e agressões tanto dos colegas homens quanto das mulheres.

Alguns dizem que a série faz apologia ao suicídio ou mostra uma visão romântica sobre ele. Mas suponho que talvez se queira achar uma resposta fácil para uma questão difícil, o suicídio. Todos querem pistas, razões. O fato é que, desde que a série estreou os contatos recebidos pelo Centro de Valorização da Vida cresceram 415% nacionalmente e em mais de cinquenta e-mails 13 Reasons Why é citada.[2]

Será que as coisas não são mais do que parecem ser? O tema do suicídio é retratado de forma sensível e forte, mostra aquilo que a maioria das pessoas não quer ver. Uma delas é algo que acontece cotidianamente com mulheres muito jovens ou adultas, um constante julgamento que as inferioriza, a objetificação de seus corpos, a agressão física e psicológica, a desvalorização de suas vidas com o assédio, a violência e preconceitos.

Hannah quer ser ouvida, e só consegue ser através das fitas – aliás, a fita cassete é um soco no estômago para quem está acostumado com a vida virtual, smartphones e redes sociais. As fitas fazem com que cada um de seus colegas consiga ver suas atitudes. Hannah quer mostrar que estas atitudes vão magoando, agredindo, e que esta agressão pode levar a morte. Na série, como a maioria dos personagens ainda são adolescentes, parece que ainda há tempo para mudar as coisas. Mesmo sem perceberem, os colegas de Hannah estão oprimindo, magoando, fazendo coisas que parecem naturais. Mas e se percebessem?

Hannah diz: “as meninas não fazem isto, esta é a questão”. Hannah se refere a uma lista feita por um colega, que era seu amigo, ranqueando as meninas da escola. Ela pede para Clay imaginar o contrário, uma lista de meninos com seus corpos sendo comparados. Clay imagina, como algo normal. Ele chega a dizer que Hannah, por estar na lista das “mais gostosas”, deveria se sentir elogiada. Mas Hannah insiste que a questão é mais profunda e Clay não está percebendo.

Se 13 Reasons Why, até onde a assisti, mostra que algo poderia ser diferente, há algo de político nisto. De modo que, no compartilhamento de uma série de razões, mesmo que não sejam razões para pôr fim a uma vida, há a intenção de expor situações envolvendo a opressão. Por que estas situações podem e devem ser questionadas. Há um sentido nisto, o de que a opressão machista pode ser combatida porque ela não é natural, não é intrínseca aos seres humanos. Ao contrário, há uma humanidade que quer ser retomada, emergir. É o que sinto em três episódios, que é preciso retomar algo de verdadeiro nas relações entre as pessoas.

Vivemos em uma sociedade em que as pessoas parecem não se importar realmente com o que sentimos, onde o egoísmo e o individualismo imperam. Como em uma selfie, devemos parecer felizes e a vida é reconstruída em imagens como uma grande ficção que mascara o que realmente somos. E há lugar para o que realmente somos? Sinceramente, acho que é o que muitos estão a buscar e o que devemos construir, e há boas razões para isto.

Notas

[1] A Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba emitiu um alerta no dia 18 de abril de que houve cinco tentativas de suicídio na madrugada anterior, de adolescentes entre 13 e 17 anos. O jornal O Globo em reportagem do dia 20 de abril afirma que a polícia civil do estado investiga sete tentativas de suicídio na mesma madrugada em Curitiba.

[2] Informação divulgada em matéria da Gazeta do Povo do dia 20 de abril.