Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

Panidrom: o corpo de junho

Paulo Gajanigo

Quando, em 2003, Boris Kovac e Ladaaba Orchest lançaram um disco intitulado Ballads at the End of Time, fiquei curioso para saber qual seria a trilha sonora do fim, não o fim do apocalipse, os estrondos crescentes, hollywoodianos, do que imaginamos ser a explosão de tudo, mas a trilha sonora do que existe depois da explosão destruidora. O mundo depois do fim (ou como Kovac intitulou o disco seguinte: World after History). O que se encontra é uma melancolia marcante, espessa, não só por meio da melodia do violino e sax, pois o ritmo também sobreviveu ao fim do mundo na batida do tambor. Depois de tudo ter explodido, o ritmo possível é a batida dos Bálcãs, a simbiose entre a melancolia e a festa.

Com essa batida a peça teatral Panidrom empurra o público entre os escombros de uma cidade em reconstrução. O cortejo fúnebre pelo concreto quebrado, pelas vigas expostas da carioca praça XV, tem na música uma forma de articular a dor do progresso e a alegria de quem se sente confiante, entre os seus. A peça, tal como os discos de Kovac, assume uma tarefa arriscada. Assume a tarefa de fazer uma peça depois de junho. As peças continuaram a ser feitas, apresentadas, os teatros vão bem, obrigado. Imagino a Companhia Volante, formada por jovens, se entreolhando desolados, ansiosos, estranhando a volta à normalidade e pensando “uma peça para o trauma de junho”.

Junho foi traumático, isso explica nosso silêncio. A tomada das ruas, a relação carnal com a cidade, com os edifícios, a fricção com a pele da rua, o tesão em ver o cotidiano desfigurado. A peça é via de reencontro com esse desejo. Caminhamos entre as ruas em bando deixando o corpo se enganar de que estamos novamente conquistando a cidade. Junho foi traumático. Virar a esquina e encontrar a polícia. Ligar a televisão e encontrar-se vândalo. Todo o sermão, a oração, “manifestação pacífica com uma minoria de vândalos”, “minoria de vândalos”, “minoria de vândalos”. Esse vocabulário todo vagando em nossa mente ressurge na peça, gozamos ao ouvi-lo, felizes de que ganhe vida, saia do inconsciente, viva fora de nós novamente, masoquistas que somos. As infinitas plenárias, o tempo infinito das plenárias. O tempo para, o mundo em balanço e planejamento. Nossa mente funcionando assim, para cada nova questão uma plenária.

A peça é a continuação de junho por outra via. Tenta encontrar junho em nós, em nosso corpo. E talvez, mais do que uma organização que traga e preserve o legado de junho, o mais urgente seja trazer à superfície essa experiência. Por isso a arte, forma de compartilhar algo que não se nomeou, de amadurecer coletivamente, sem pais ou preceptores.

Uma geração que calhou de ser jovem quando o mundo já tinha acabado. Encontra-se em ruínas, ouvindo vozes fantasmagóricas sussurrando promessas de progresso e felicidade. Uma geração que se pensa fazendo piquenique sobre os escombros. Não para receber Godot. Não se trata de esperança. Soa, surpreendentemente, como singela confiança.

Referência:

LISSOVSKY, Clarice; BRAUNE, Tomás Braune. Panidrom (Companhia Volante; direção de João Pedro Orban). 2015. http://panidrom.wix.com/site