Fotografia de Erick Dau
Fotografia de Erick Dau

Para além da marolinha: a crise e a onda conservadora no Brasil

Demian Melo

Uma análise dialética deve evitar entender a contradição como uma relação aritmética, onde a preponderância de um pólo deva implicar necessariamente na fraqueza relativa do outro. Na teoria da hegemonia de Gramsci, por exemplo, a relação entre coerção e consenso não implica que uma alta dose de consenso terá como par procedimentos de coerção mais soft. Vejamos um caso extremo.

Na experiência do fascismo histórico, Mussolini e Hitler lideraram regimes políticos onde se combinaram altas doses de coerção com amplo apoio social, ativo em vários momentos, calcado na mobilização social, advindo, no caso de Hitler, da espetacular recuperação da economia alemã no contexto da Grande Depressão. Outra fonte de adesão popular aos regimes fascistas foram os sucessos na política externa – que criou vibração entre as massas populares tanto italianas, com as guerras de agressão na Líbia e na Etiópia, quanto alemãs, com a anexação da Áustria e os lances imediatamente posteriores que levaram à eclosão da Segunda Guerra Mundial. Naturalmente, ao lado da excitação e adesão popular havia a OVRA e a Gestapo, polícias políticas dos respectivos regimes, e todo o cortejo de terror contra opositores que caracterizou aquelas ditaduras.

Dou o exemplo dos regimes fascistas justamente por se tratarem de ditaduras extremas. Mas poderíamos pensar também em situações como as das atuais democracias liberal-representativas, como as existentes nos EUA e mesmo no Brasil, onde em tempos recentes se pôde ver a combinação de uma alta dose de apoio popular aos seus governos com o simultâneo recrudescimento dos instrumentos de repressão. Nos EUA após o 11 de setembro de 2001, o Patriotic Act e uma série de outros procedimentos legais impuseram uma série de restrições aos elementares direitos civis que são considerados a base da democracia representativa desde a Inglaterra do fim do século XVII.[1] Não obstante, a “Guerra ao Terror” foi apoiada por amplos estratos populares, ainda que a voz de críticos fosse expressiva naquela ocasião. É claro que, como ensina Gramsci, a coerção destinada a impor a dominação de classe para aqueles que não consentem está sempre predisposta a ocupar a posição preponderante em situações críticas, onde se amplia essa massa daqueles que não consentem.

E no Brasil temos assistido ao recrudescimento do aparelho coercitivo, através de uma série de expedientes que se intensificaram desde as Jornadas de Junho de 2013. De lá pra cá, nesse contexto de crise, como não lembrar das condições políticas do Brasil em 2010, quando o amplo apoio popular ao governo Lula combinava-se com a implementação de políticas de gestão armada da vida social em algumas favelas cariocas, que em vários casos extinguiu os direitos civis daquela população pobre e preta? Quando uma irracional “guerra às drogas”, implementada a partir da intensificação da ação da Polícia Militar – uma instituição sabidamente corrupta e sem nenhuma credibilidade social – foi vendida como um método adequado para garantir a “paz social”? Com um amplo apoio midiático, as Unidades de Polícia Pacificadora apresentaram-se como verdadeira panaceia, enquanto produções cinematográficas como o filme Tropa de Elite vendiam a ideia de que aquela velha conhecida do morro e do asfalto possuía uma ala incorruptível, capaz de se tornar o veículo dessa “paz social”.

Até o caso Amarildo começar a quebrar o coro dos contentes, as UPPs tinham amplo respaldo social. O espetáculo da ocupação pelas Forças Armadas e polícias das favelas do Complexo do Alemão e Vila Cruzeiro eletrizou o país, levando amplas parcelas da população a pararem tudo que estavam fazendo para “assistir aquela guerra”, como me confessou na ocasião um taxista estúpido que tive a má sorte de conversar naquele novembro de 2010. O evidente fracasso da UPP não deve nos fazer esquecer como gente considerada progressista buscou dourar essa pílula, ou pelo menos apresentar uma ilusão complementar de que uma “UPP Social” seria o que faltava naquela suposta “retomada do Estado daquele território dominado pelo crime organizado”. Ora, o que pensar agora quando não resta mais nenhuma dúvida de que um crime muito mais organizado, praticado pelo Estado, afinal “tomou aquele território”?

Uma imagem que me vem à mente sempre que penso nisso foi quando vi o desconforto de muitos dos presentes ao lançamento do livro A crise do capital, do geógrafo marxista David Harvey no Rio de Janeiro em 2012, quando este lembrou aos presentes dos resultados catastróficos nos países que organizaram grandes eventos esportivos, como havia sido o caso da Grécia, após as Olimpíadas de Atenas (2004). Entre os apoiadores mais fanáticos do governo do PT, que àquela altura gozava de grande popularidade, qualquer crítica que pudesse pôr em risco a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 deveria ser creditada a “gente de direita”. Não é por acaso que diante das Jornadas de Junho se comportaram como “John Travolta confuso”, para usar uma metáfora demasiado simpática.

Sobre a onda conservadora

No plano eleitoral, um dos fenômenos que atravessou todo esse período foi o crescimento da agenda conservadora ligada aos costumes, associada ao discurso contra as chamadas minorias, contra os direitos das mulheres e da população LGBT, em campanhas que se apresentaram como em defesa da “vida” e da “família”. Esse foi o terreno do voto neopentecostal em pastores fundamentalistas e da aproximação destes com alas associadas ao neofascismo, como o do conhecido militar cuja carreira se liga à defesa da ditadura militar e seus procedimentos. Variadas caricaturas da direita têm tido boa performance eleitoral nesse período, enquanto o Lulismo desmoralizou permanentemente as esquerdas, incluindo aquelas que sempre fizeram oposição pela esquerda ao petismo desde 2003, já que não conseguiram conformar uma alternativa de poder.

Em 2012, por ocasião da ascensão meteórica de Celso Russomano nas pesquisas de intenção de voto para a prefeitura de São Paulo, ocientista político André Singer, lançou pela primeira vez a expressão “onda conservadora”. Numa mesa redonda realizada na USP, em que participaram também Vladimir Safatle, Marilena Chaui e Ricardo Musse, Singer apresentou uma elaborada hipótese explicativa para a questão, ainda de forma exploratória, partindo de sua afamada tese do fenômeno do Lulismo.[2] Singer situou o que identificou como a emergência de um pensamento de tipo neoliberal, de direita, que teria começado a ser elaborado ainda nos anos 1990, quando, alega, teria se quebrado a hegemonia da esquerda no plano cultural. Incorporando a conhecida avaliação de Roberto Schwarz para o estado da cultura brasileira nos anos 1960,[3] alegou que só no fim dos anos 1990 teria se quebrado a hegemonia cultural da esquerda.[4]

Uma onda longa neoliberal no plano internacional, que sabidamente deitou raízes tardiamente no Brasil, desenvolveu-se ao longo dos últimos 30 anos. A mudança política no âmbito religioso é também outro ponto levantado, com a direitização da Igreja católica e isolamento dos setores progressistas, quanto da entrada em massa das confissões evangélicas (que hoje representam 30% dos religiosos), cuja teologia da prosperidade se adequa muito bem ao pensamento neoliberal. No médio prazo, Singer assinala um profundo deslocamento da opinião da classe média: se após a crise do “milagre”, passou majoritariamente para a oposição à ditadura, nos anos 2000 foi à direita, como reação ao Lulismo. Em sua tese do Lulismo, Singer assinala que com a crise de 2005 há uma mudança na base eleitoral histórica do PT, que perde grande parte da classe média e incorpora uma massa de setores subalternos da classe trabalhadora, sem tradição política e sindical, e que são alvo das políticas sociais compensatórias. Desenvolveu-se, por isso, não obstante o caráter conservador do pacto social costurado pelo Lulismo, um arraigado ódio social entre largos estratos médios, ódio tanto ao governo quanto aos setores da população beneficiados pelos programas de transferência de renda.

Naquela ocasião, Vladimir Safatle fez agudas considerações sobre a natureza da ascensão conservadora, explorando o conceito de Lulismo elaborado por Singer, mas indo muito além deste.[5] Provocou desconforto nos intelectuais petistas ao constatar que figuras conservadoras em ascensão no terreno eleitoral faziam parte da base de apoio do governo do PT, constituindo-se naquilo que chamou de “filhos bastardos do Lulismo”. O próprio Celso Russomano seria um exemplar dessa espécie. Associava-se a isso, o projeto lulista de inclusão de significativos estratos populares ao mercado consumidor a partir da generalização dos mecanismos de crédito, aspecto que combinava-se com as ideologias oriundas dos meios evangélicos, como a já assinalada por Singer teologia da prosperidade, com enorme capacidade de sensibilizar os setores mais pauperizados da classe trabalhadora, estratos que não possuíam qualquer experiência de organização política. A análise de Safatle na ocasião era perfeita, mostrando um caminho de interpretação de um fenômeno que hoje está muito mais amadurecido.

No entanto, ao apagar das luzes de 2015, ano em que depois de meio século a direita que não teme dizer seu nome saiu às ruas para pedir a derrubada do governo do PT e até “intervenção militar constitucional”, o filósofo publicou um artigo na Folha em que defende que “a hipótese da onda conservadora nos reconcilia com nossa própria paralisia e incapacidade de criar alternativas”, concluindo que “falar em onda conservadora é a melhor coisa que podemos fazer quando não sabemos o que fazer ou quando temos medo de fazer qualquer coisa”.[6] Sua tese é que na verdade o que ocorre é uma decomposição radical do “campo das esquerdas”, elemento que nos parece correto.[7] Mas essa “decomposição radical do campo das esquerdas” não é justamente uma das condições para a tal “onda conservadora”?

Safatle é um dos mais importantes intelectuais da esquerda brasileira. Sua independência para criticar o esquema Lulista, mesmo quando este era celebrado por grande parte da esquerda, lhe dá muita credibilidade. Em várias lutas suas intervenções tem sido importantes, e nessa polêmica queremos deixar claro nosso respeito ao interlocutor. Nesta questão, sua leitura expressa a posição de uma parte importante da esquerda, principalmente daquela que não possui nenhuma ilusão de que o Lulismo possa dar uma “guinada à esquerda” e aposta na criação de um campo independente.

Ele está certo em pontuar que a crise atual não aponta necessariamente para uma vitória desse conservadorismo. Nenhuma crise tem um desdobramento necessário. Os socialistas que acreditam que em toda a crise há sempre inscrito o triunfo do socialismo creem num messianismo tolo. Safatle está bem consciente disso e por isso, de forma absolutamente legítima, preocupa-se com que o diagnóstico da onda conservadora acabe contribuindo para uma paralisia da esquerda. Sabe que nenhuma luta está decidida de antemão, muito menos que uma derrota seja inevitável. A forma como as forças de esquerda intervirão no processo é um elemento decisivo dessa relação de forças, e uma avaliação que seja puro pessimismo não contribui em nada.

No entanto, sua tentativa de negar uma onda conservadora recorre a uma forma de argumentação bastante dúbia e de certo modo frágil, quando, por exemplo, se referindo aos dados sobre intensões de voto em uma virtual disputa eleitoral para a Presidência da República, escreve:

“Vejam que onda conservadora bisonha. Digamos que teríamos eleições gerais hoje. Segundo pesquisas, Aécio Neves teria 26%, Lula 20%, Marina 19%, Ciro Gomes 6%, Bolsonaro 4%, Luciana Genro, entre 2 e 3%, e qualquer candidato do PMDB entre 1 e 2%, além de 14% de indecisos. Até segunda ordem, Lula, Marina, Ciro Gomes e Luciana não fazem parte de onda conservadora alguma e somam muito mais do que os outros candidatos juntos. Se houvesse eleições para o Congresso, e aceitando que há uma tendência do voto de presidente influenciar os demais votos, o Congresso que sairia dessas eleições seria muito diferente e melhor do que a camarilha que temos atualmente. Acrescente-se a isto o fato de que boa parte dos 60 deputados indiciados seriam pegos pela lei da Ficha Limpa em alguns meses e que leis contra financiamento empresarial de campanha foram aprovadas.”

Nesse parágrafo é possível observar um notável deslocamento na análise corretíssima que Safatle fazia sobre a ascensão conservadora associada ao Lulismo em 2012. Afinal, como é possível justificar que intensões de voto em figuras como Marina Silva e Ciro Gomes possam ter conteúdo não-conservador? O que pode ser mais conservador que uma proposta quemescla um discurso oportunista no plano ambiental com posições conservadoras no plano dos costumes e explícitos compromissos com o capital financeiro, como em Mariana Silva? E Ciro Gomes é algo diferente de uma alternativa à direita nessa disputa em torno aos escombros do Lulismo? Não seriam esses dois exemplares legítimos de filhos bastardos do Lulismo, tanto quanto Russomano e pastores outrora aliados do Palácio do Planalto? A ideia de que agora, numa eventual eleição geral, um Congresso mais progressista seria eleito é de um irrealismo político atroz. O que de novo ocorreu desde a eleição de 2014 que faz com que agora a tendência do eleitorado possa ser não conservadora? A lei da ficha-limpa, que não impediu a eleição de Cunha? Ou o fim do financiamento empresarial de campanhas, como se o capital não fosse capaz de estabelecer estratégias para burlar essa decisão do Supremo?

É possível, por outro lado, argumentar que de 2012 pra cá muita coisa mudou e é sempre necessário renovar a análise. Como revelado recentemente pelo DIEESE, 2013 superou o pico histórico de greves, que até então era o ano de 1989, embora não tenha superado o número de horas paradas de 1989 e 1990.[8] No período 2009-2014 houve um aumento constante da atividade grevista no Brasil, acompanhadas de conquistas salariais. Teve Junho de 2013 e seu rebatimento nas lutas sociais. Como já assinalaram diversos analistas, as próprias Jornadas de Junho não podem ser entendidas sem que se considere o quadro ascendente de lutas dos trabalhadores nas últimas décadas, que forneceram os elementos das palavras-de-ordem confusas que se manifestaram nas ruas (“Educação padrão FIFA”, “Escolas padrão FIFA” etc.),[9] e de uma latente inquietação social.[10]

No entanto, é triste dizer isso, mas, como tem sido uma marca das lutas sociais em todo o globo, uma parte significativa destas greves e lutas no último período foram derrotadas, ou pelo menos aquelas que, não obstante a simpatia conquistada na sociedade, não lograram nenhum êxito, como foram os casos das greves no ensino público em 2013 no Rio, e em São Paulo e no Paraná no primeiro semestre de 2015. Deixando de lado a possibilidade de se afirmar, ou não, que em 2015 as lutas sigam no mesmo diapasão de 2013, derrotas como as assinaladas, em categorias chave da classe trabalhadora, não melhoram as condições das forças da esquerda no processo político.

Isso não deve desmerecer a enorme generosidade dessas lutas, nem questionar sua oportunidade. Sem elas certamente nossa situação seria muito pior. É possível também acrescentar que novos movimentos sociais vêm emergindo ao longo do processo da crise brasileira, de que é um belo exemplo a primavera feminista no Rio de Janeiro e o emocionante movimento de ocupação de escolas em São Paulo, além de uma série de greves que pontuaram a conjuntura de 2015. Esses lances nos fazem seguir em frente e ver que as coisas não estão totalmente perdidas, mas negar as tendências em sentido contrário que veem se manifestando no Brasil com força não conduz à construção de alternativas.

É preciso situar também que dialeticamente o conservadorismo também se alimenta do próprio recrudescimento das lutas sociais, pois estas acabam servindo de combustível para as mais estapafúrdias teorias da conspiração, que é um elemento que compõe o imaginário dessa direita emergente. Só isso explica como versões tão estúpidas sobre a natureza dos protestos de Junho de 2013 e até dos chamados “rolezinhos” façam tanto sucesso. Ainda há pouco não haviam black blocs sendo acusados por blogueiros de direita de estarem “a soldo do governo do PT”? Ou que talvez o ISIS os teriam treinado em “táticas de guerrilha urbana” (ninguém explica por que não as usa), numa conexão internacional que junta FARC, MST, Hugo Chávez, URSS, Osama Bin Laden e quem sabe até o próprio Obama? Embora insólitas, essas narrativas compõem a ideologia que guia a mobilização da base social da direita na conjuntura, e estão presentes na lavra de populares comentaristas políticos da direita, personagens que há pouco ou não eram conhecidos, ou eram apenas folclóricos, e hoje estão nas listas dos mais vendidos.

O termo onda conservadora, aliás, apareceu posteriormente como título de um artigo de Guilherme Boulos, dirigente do MTST, publicado na Folha de S. Paulo ainda em outubro de 2014, logo após o primeiro turno das eleições.[11] Não parece nada sustentável atribuir a esse autor a pecha de alguém interessado em “paralisar a esquerda”, ou amortecer as lutas, e vale acompanhar seu raciocínio. No artigo publicado na Folha, Boulos constatava a virada à direita refletida nas votações massivas alcançadas pelas mais execráveis figuras da direita na eleição do Congresso, o mais conservador desde a ditadura militar. Não se trata apenas da vitória eleitoral de figuras fisiológicas, que parasitam o sistema político aliando-se pragmaticamente a com quem for possível conseguir se eleger, e sim de gente ideologicamente de direita, que prega uma agenda explicitamente de direita, sem máscaras.

É verdade que o terreno eleitoral contaminado pelo poder econômico distorce a opinião popular, e um Congresso majoritariamente ocupado por representantes diretos de grupos empresariais, do agronegócio às pequenas (e grandes) igrejas e grandes negócios, não são representantes legítimos da maior parte da população. Mas a representação eleitoral é um elemento objetivo da realidade e revela certa conformação ideológica, o senso comum predominante numa dada sociedade. Votar em Tiririca para a Câmara Federal não é o mesmo que votar em Marcos Feliciano, Jair Bolsonaro e Luiz Carlos Heinze, que personificam os mais odiosos discursos fascistas. E eles foram simplesmente os mais votados em seus respectivos estados. Um governador que reprimiu brutalmente as Jornadas de Junho de 2013, como Geraldo Alckmin, foi também reeleito no primeiro turno, consolidando mais de duas décadas de domínio tucano no estado chave de São Paulo. Isso não pode ser desprezado na análise.

O próprio candidato do PSDB ao Planalto, quase chegou lá, para dizer as coisas como são. O Macri brasileiro ficou por muito pouco, e isso depois de ter mobilizado os símbolos mais caros da direita brasileira, da retórica anticomunista (se referiu inúmeras vezes ao “Porto em Cuba”, ao Foro de São Paulo e ao “bolivarianismo do PT”) ao udenismo. Alias, simbolizou sem disfarce a recuperação de uma velha tradição udenista: não se conformar com os resultados eleitorais desfavoráveis. Nos últimos momentos da campanha do segundo turno, a campanha de Aécio Neves deu notórias indicações de que não aceitaria perder o pleito, escudado pela fina flor do jornalismo marrom, de Merval Pereira a Reinaldo Azevedo, que às vésperas do segundo turno anunciava que mesmo que conseguisse vencer, Dilma Rousseff sofreria um “processo de impeachment”.

No plano latino-americano, as dificuldades crescentes que os chamados “governos progressistas” vêm enfrentando nos últimos anos, que desembocaram em vitórias expressivas da direita na Argentina e na Venezuela, também constitui um combustível ao crescimento da direita brasileira. A influência, aliás, que os processos políticos nos países vizinhos exercem na direita brasileira se liga a sua própria internacionalização, que está além de simplesmente um pool de elites ligadas ao imperialismo estadunidense (embora isso não seja inexistente), mas que também tem sido estabelecida a partir de articulações hemisféricas das classes dominantes, incluindo a partir de trocas de experiências[12] e solidariedade.[13]

Essa agitação toda da direita ao longo de 2015, embora agora pareça bastante desgastada (principalmente em razão de sua notória associação às figuras mais corruptas da República, como Eduardo Cunha), compõe a relação de forças da presente crise. Ainda é cedo para afirmar que as selfies com genocidas de farda, micaretas com camisa da CBF e até coreografias deixarão de constranger o espaço público em 2016 e nos próximos anos. Se não resta dúvida que só as lutas concretas determinarão o desenlace final dessa crise, negar ou negligenciar o potencial dos inimigos não nos arma em nosso campo de lutas.

Desagregação ou incapacidade da esquerda?

Voltando ao ponto inicial, na Alemanha do início dos anos 1930 a crise da República de Weimar comportava uma desagregação do projeto da esquerda reformista, e um simultâneo crescimento das forças da revolução (os comunistas) e da contrarrevolução (o nazismo). Não havia um crescimento do nazismo num vazio deixado pela esquerda, pois a parte revolucionária dela deu passos no sentido de disputar o poder e organizar a classe operária, mas a própria crise capitalista e os erros estratégicos limitaram a eficiência dos comunistas.

A crise capitalista, pois, ao contrário do que os comunistas imaginaram, fragilizou a situação da classe operária com o aumento exponencial do desemprego, enquanto a política estúpida de considerar os social-democratas igualmente fascistas (com base na teoria stalinista do “social-fascismo”) contribuiu para a derrota. A onda fascistizante registrada na ascensão eleitoral de Hitler e seu partido nazi no início dos anos 1930 não foi, assim, possibilitada por uma espécie de vazio, mas pela intensificação da luta de classes e polarização social.

Já o atual avanço da direita no Brasil (que comporta uma plêiade de direitistas, dos saudosistas da ditadura, aos fundamentalistas de mercado, os mercadores de alma neopentecostais, passando pelos fascistas tout court, ratazanas de sacristia etc.) também não opera num vazio, e obviamente segue trajetória própria. Concomitante à onda conservadora, ondas de natureza contrária expressam-se também na crise brasileira. E nesse ponto cabe precisar sobre o que se está chamando de “decomposição radical do projeto de esquerda”. Pois se na esquerda cabe incluir a experiência do governo do PT, aí se está falando algo completamente diferente do que escrevemos aqui.

As pálidas medidas realmente reformistas tocadas pelo Lulismo (Lei Maria da Penha, cotas nas universidades, expansão contraditória e precarizada das universidades públicas etc.), aliadas à política de valorização do salário mínimo, lhe dão um tom no máximo róseo que acaba borrado pela manutenção e aperfeiçoamento do neoliberalismo naquilo que é fundamental, com a manutenção de instrumentos como a Lei de Responsabilidade Fiscal, que garante o pagamento religioso da dívida pública, aliada a contrarreformas neoliberais (como a da Previdência realizada ainda em 2003 e muitas outras que aumentaram a flexibilização da legislação trabalhista), privatizações, o reforço nos procedimentos de institucionalização de um estado penal, a transformação do território das cidades em espaço de valorização do capital, impulsionado por grandes eventos culturais e esportivos (processo que plantou as sementes da presente crise, como previu Harvey!). Nada disso pode ser identificado impunemente como algo “de esquerda”. Em suma, a experiência do governo do PT é o principal fator de “decomposição radical do projeto de esquerda”, e não uma tendência em sentido contrário. Salvo engano, não parece que Safatle discorde dessa avaliação.

Nesse sentido, o que nos parece mais urgente resolver é a atual, mas não insuperável, incapacidade dos setores propriamente de esquerda, a esquerda anticapitalista e socialista, de construir uma alternativa independente de poder. Sem isso, essa onda conservadora irá nos atropelar.

Notas

[1] “Essa onipotência da polícia e de uma justiça a serviço do governo é tendência universal: basta lembrar que a Grã-Bretanha, pátria da democracia burguesa, praticamente aboliu o Habeas corpus que prevê que uma pessoa detida deve ser apresentada em três dias diante do juiz e cuja introdução, em 1679, costuma ser considerada como o início do Estado de direito e da liberdade do indivíduo em face da arbitrariedade do Estado – uma abolição que soa como o encerramento simbólico de uma longa fase histórica. A tendência ao Estado policial parece, entretanto, mais desenvolvida na França do que em qualquer outra ‘velha democracia’. O país foi muito longe no apagamento das fronteiras entre terrorismo, violência coletiva, sabotagem e ilegalidade. Essa criminalização de todas as formas de contestação não estritamente ‘legais’ é um grande acontecimento em nossa época. Vimos ultimamente que fazer grafites ou ser responsável por algum atraso nos trens pode ser considerado ‘terrorismo’. Professores se viram levados ao tribunal por terem protestado verbalmente contra uma brutal ‘redução à fronteira’ a que assistiram num avião, Os fatos já são conhecidos demais para serem repetidos aqui. A ‘democracia’ é mais do que nunca puramente formal e se limita à escolha periódica entre os representantes das diferentes nuanças da mesma gestão (e até esse resto de escolha é viciado). Toda e qualquer oposição à política das instâncias eleitas que vai além de um abaixo-assinado ou de uma carta ao deputado local é considerada pelo Estado, por definição, “antidemocrática”. Em outras palavras, tudo que poderia ser minimamente eficaz é proibido, mesmo o que ainda era permitido há não muito tempo.” JAPPE, Anselm. Violência, mas pra quê? São Paulo: Hedra, 2013, p.12-15. No mesmo sentido, ver as considerações de AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.

[2] A tese de Singer apareceu primeiramente num artigo, “Raízes sociais e ideológicas do lulismo”, publicado em 2009 na revista do CEBRAP (n. 85, nov. 2009 Disponível em http://bit.ly/1Rqcjk1), e depois desenvolvida no livro Os sentidos do lulismo (São Paulo: Companhia das Letras, 2012).

[3] Num ensaio escrito no final dos anos 1960, Schwarz afirmou que embora desde 1964 tivesse se estabelecido uma ditadura de direita, a “esquerda dava o tom nos templos da burguesia”, nos espaços da alta cultura, no teatro, literatura, cinema, no mercado editorial. A partir disso afirma existir uma hegemonia cultural da esquerda. Cf. SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1968. In. O pai de família e outros ensaios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p.61-92.

[4] É possível perceber que esta a noção de hegemonia de Schwarz está bem longe da acepção de Gramsci.

[5] Ver sua fala em http://bit.ly/1MorBji

[6] SAFATLE, Vladimir. A falsa onda conservadora. Folha de S. Paulo, 25/12/2015. Disponível em http://bit.ly/1mZV6mn

[7] Ele já havia se pronunciado a esse respeito em 2012, num argumento bastante semelhante ao de Singer. SAFATLE, Vladimir. A perda da hegemonia. Carta Capital, 1 set. 2012. Disponível em http://bit.ly/1OGTOZQ

[8] DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS. Balanço das greves em 2013. Estudos & Pesquisas, n.79, dez.2015. http://bit.ly/1JsvlFw

[9] Marcelo Badaró Mattos chamou atenção para o fato de que muitas das reivindicações expressas em Junho de 2013 serem traduções de proposições que os setores organizados da classe trabalhadora vem fazendo ao longo das últimas décadas, como mais verbas para educação e saúde. MATTOS, Marcelo Badaró. Greves no Brasil: o despertar de um novo ciclo de lutas? Correio da Cidadania, 23/05/2014. Disponível em http://bit.ly/1SyomN8

[10] Em sua análise crítica do Lulismo, Ruy Braga já havia sinalizado uma crescente inquietação social, latente entre os setores da classe trabalhadora em situação mais precária. Cf. BRAGA, Ruy. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012.

[11] BOULOS, Guilherme. A onda conservadora. Folha de S. Paulo, 9 out. 2014. Disponível em http://bit.ly/1pVl2tZ

[12] As mobilizações de rua já são uma prática da direita venezuelana desde 2002, e na Argentina atravessou os anos da crise do kirchnerismo até a recente eleição de Macri.

[13] A forma como o noticiário da Globo tratou o fechamento da RCT venezuelana e a Lei da Mídia argentina denota um sólida rede de solidariedade internacional dessa fração decisiva do capital.