Colagem de D. Muste
Colagem de D. Muste

Paraná: ocupar e resistir

Affonso Cardoso

Paraná. 14 de outubro de 2016. 440 escolas públicas e 6 universidades estaduais ocupadas, em 55 cidades, por estudantes em expressiva mobilização. Restam poucas dúvidas de que o movimento iniciado em São José dos Pinhais, cidade da Região Metropolitana de Curitiba, na noite do dia 03 de outubro, representa, atualmente, o mais significativo fenômeno na luta social brasileira. Em repúdio, fundamentalmente, à Medida Provisória 746 – assinada pelo ilegítimo Michel Temer no final de setembro – e às perversas alterações na estrutura do Ensino Médio trazidas por ela, milhares de estudantes passaram a ocupar as escolas públicas no estado. Enquanto esse texto é elaborado estima-se que mais de 25% das instituições de ensino paranaenses estejam sob controle estudantil.

Embora as ocupações ainda estejam aumentando exponencialmente, é possível notar que houve pouca articulação prévia entre os estudantes. Em muitas escolas sem qualquer tradição de movimento secundarista organizado, e mesmo à revelia dos grêmios estudantis, as ocupações se mostram massivas, com a presença constante de dezenas de estudantes nos espaços escolares. Não é prematuro afirmar que as organizações políticas tradicionais no movimento estudantil não possuem qualquer protagonismo nessas ocupações. Em algumas escolas ocupadas, em especial nas maiores, a presença da militância organizada é constante, mas com capacidade absolutamente limitada em influenciar no encaminhamento das discussões e decisões. É importante destacar que muitos estudantes, em especial de grandes escolas, têm se deslocado, voluntariamente, para auxiliar colegas de outras instituições, a ocupá-las e garantir o controle do espaço.

Na última terça feira, em visita a uma pequena escola situada na divisa entre Curitiba e Colombo, cidade da região metropolitana, foi possível verificar o protagonismo dos jovens sem qualquer histórico de ação política mais efetiva. Ao chegar com doações de alimentos, fomos recebidos por uma estudante de 13 anos, a responsável, por decisão coletiva, em nos mostrar a organização da escola. A clareza com que descrevia a rotina na ocupação e os motivos que os mobilizava era surpreendente.

Os estudantes, após consolidar o controle das escolas, organizam-se em várias comissões – segurança, limpeza, alimentação, agenda e eventos, saúde – que se mostram muito efetivas. Nas visitas realizadas em algumas instituições de Curitiba nessa semana foi possível verificar que há uma organização rigorosa da gestão do espaço. Cartazes e faixas espalhados lembram a oposição à “reforma” do ensino médio como objeto central das mobilizações. No entanto, manifestações visuais contra a PEC 241, a homofobia, o racismo, a misoginia são comuns. As figuras nefastas de Michel Temer e Beto Richa também são repudiadas. As regras da ocupação – “sujou, limpou; sem vandalismo; sem preconceito; sem álcool; sem a reforma” – são afixadas em locais visíveis. A entrada e saída das ocupações recebe particular atenção, com registro das informações de visitantes.

A limpeza dos espaços e, em muitos casos, o reparo na estrutura física degradada por décadas de negligência do estado, saltam à vista. Não é incomum ouvir de estudantes que “a ocupação tem deixado a escola melhor do que a pegaram ao ocupar”.

A agenda de atividades é garantida por oficinas de todos os tipos. Na pauta é possível encontrar discussões sobre a Medida Provisória, sobre a PEC 241, golpe parlamentar, “balanços” sobre a qualidade do ensino atual, feminismo, combate à homofobia, racismo, limites da democracia representativa. Até mesmo um debate sobre a situação do futebol brasileiro após o último jogo da seleção pelas eliminatórias para a copa de 2018, encontramos na agenda de uma escola. As atividades culturais com shows, peças de teatro, oficinas de dança, fotografia, cinema e literatura mostram a pluralidade de interesses dos jovens. A agenda de eventos é organizada pelos próprios estudantes, de acordo com seus interesses, a partir das sugestões apresentadas por membros da comunidade escolar, estudantes e professores universitários.

A alimentação, em grande parte garantida por doações de professores, pais e mães de alunos e alguns sindicatos, é elaborada pelos próprios estudantes e apoiadores. Com horários rigorosos para serem servidas, em muitas escolas os vegetarianos e veganos têm suas particularidades respeitadas.

O calor dos acontecimentos limita, em grande medida, a análise aprofundada sobre o sentido do fenômeno. Mas não é difícil notar sua grandeza. Diferente das protelações burocráticas de direções sindicais, em especial aquelas represadas aos limites do lulismo, para organizar a luta contra as medidas do governo sem votos de Michel Temer, os secundaristas do Paraná têm mostrado incrível disposição. O protagonismo dos jovens, em grande medida “por fora” das organizações tradicionais do movimento estudantil, expressa uma relação clara de pertencimento com o espaço escolar por meio das ocupações e, a partir delas, o interesse na construção autônoma de uma agenda de resistência às medidas anunciadas por Temer – e a uma série de outros temas. Quando dizem estar “lutando não por nós, mas pelas próximas gerações”, contradizem as visões míopes do senso comum que associam a juventude ao desinteresse por temas públicos e pela luta política aberta.

Observar que parcela dos que estão na ocupações são estudantes do terceiro ano do ensino médio, às vésperas dos processos seletivos, expressa claramente o desprendimento desses jovens às pressões pelo “sucesso” contidos nos instrumentos de seleção excludentes/meritocráticos. Não é incomum ouvir frases como “o vestibular não é mais importante que ter escola de boa qualidade”. A disposição de luta dos secundaristas, ocupados em suas 440 escolas, merece reflexões e análises de fôlego. Mas, além disso, o entusiasmo e a esperança num outro amanhã.

Como diz a piazada: “Ocupar e Resistir!”.

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 Fotos: Gilberto Calil e Ocupa Paraná (página no Facebook).