Ilustração de Mácia Teieira
Ilustração de Mácia Teieira

Partindo pro ataque: notas sobre as mulheres no país do futebol

Livia Mouriño

“Se o jogo fosse só a bola, está certo. Mas há o ser humano por trás. A bola é um reles, um ínfimo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, a tragédia, o horror, a compaixão” (Nelson Rodrigues)

Entre a luz e a escuridão, assim vivem as mulheres no futebol brasileiro.

Há muito elas estão presentes. Jogam, comentam, assistem às partidas, apitam, vão aos estádios, compõe equipes de dirigentes, integram torcidas… a participação das mulheres é inegável.

Apesar do resultado não ter sido a tão esperada medalha olímpica, o belíssimo desempenho da seleção brasileira de futebol feminino nos Jogos Olímpicos do Rio, aliada à desastrosa participação da seleção masculina na Copa de 2014, trouxe mais uma vez para o centro do debate a participação das mulheres nesse esporte.

Nas últimas décadas, houve um aumento da presença das mulheres nesse espaço em diferentes esferas; seja na profissional, amadora, acadêmica ou em espaços cotidianos de lazer. Mas esse avanço pode esconder uma trágica realidade: elas ainda brigam pelo direito de existir. Apesar de toda luta por participação e reconhecimento, as mulheres no futebol ainda vivem entre a luz e a escuridão.[1]

A última edição da Copa do Mundo de Futebol da FIFA, realizada aqui no Brasil em 2014, é um bom exemplo. Para muitos, a Copa do Mundo é um torneio realizado de quatro em quatro anos e disputado por seleções nacionais masculinas. Conta com grande repercussão mundial e grande apelo midiático. O que muitos não sabem, é que a Copa do Mundo não é apenas um torneio masculino, e desde 1991 a FIFA também organiza a versão feminina da competição.

E por que não sabem? É aí que mora a marca da invisibilidade.

Atualmente, as competições sequer ocorrem no mesmo ano: enquanto a Copa masculina ocorreu em 2014, o Mundial feminino foi realizado em 2015, no Canadá. Para muitos, esse é um dos fatores que facilita que a versão feminina passe despercebida e uma medida que ajudaria a valorizar e divulgar a competição seria a realização dos torneios de forma simultânea. Porém, a FIFA rapidamente já se posicionou contra a junção das competições.

Segundo declaração de Jérôme Valcke, quando ainda era Secretário-Geral da Federação Internacional de Futebol/FIFA em janeiro de 2015, “É algo sem sentido falar em organizar as duas Copas juntas. Por que juntar homens e mulheres, qual o sentido? São dois eventos espetaculares, por que temos que fazê-los juntos? ”[2]

Em seu discurso, ao equiparar o torneiro feminino ao masculino, o ex-secretário-geral da instituição faz uso da ideia falaciosa de que as mulheres já conquistaram e construíram um espaço autônomo no esporte. Na verdade, ao ignorar as desigualdades, esse é o tipo de argumento que só serve para manter o futebol feminino em sua condição secundária e marginal.

Um fato que expressa o quão irreal é essa ideia é que no Brasil, o “país do futebol”, a Copa feminina de 2015 sequer foi transmitida pelas grandes emissoras de televisão do país, ao contrário do Mundial masculino amplamente televisionado. Futebol de quem? País para quem?

Muitos são os argumentos levantados na busca de explicações que justifiquem a pouca visibilidade das mulheres no futebol. A falta de patrocínio é um fator fundamental, mas o que está por trás dessa falta de interesse? O que faz em um país onde o futebol é considerado pelo imaginário popular um importante elemento constituinte da identidade nacional, as mulheres ainda terem que lutar pela participação e aceitação?

É importante uma análise honesta dos motivos que ainda mantem as mulheres sob um véu de invisibilidade – que só é descoberto quando convém. É certo que, se buscamos entender os motivos que levam a essa marginalização, não podemos deixar de falar de questões que envolvem concepções de gênero, suas influências e consequências para o campo do esporte.

O brilho da seleção feminina de futebol é natural e isso é inegável. Jogam com garra, com vontade, com raça e determinação. Mesmo contanto com grandes estrelas como Marta e Formiga, jogam junto, como equipe. Jogam com paixão e por isso brilham mesmo quando o esforço é em apaga-las, em esconde-las. E foi assim que ganharam o coração dos brasileiros.

Mas, ao que tudo indica, essa visibilidade é consentida. A atenção que as mulheres receberam nas olímpiadas por parte da mídia está profundamente ligada ao péssimo desempenho da seleção masculina nos últimos anos, especialmente após o vexame mundial da derrota na semifinal da Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha, com o elástico placar de 7 a 1.

Parte do amor dos brasileiros a seleção feminina de futebol está sendo construído a partir do desamor com a seleção masculina.

Não é difícil de notar essa apropriação quando percebemos que grande parte das análises e comentários acerca do futebol feminino e da postura das atletas – dentro e fora de campo – são feitos em contraste com a falta de disposição e entrega da seleção masculina. A Marta não é apenas a melhor jogadora do mundo, a ‘Marta é melhor que o Neymar’; as jogadoras não são boas batedoras de pênalti e a goleira Barbara uma grande defensora da meta, ‘as jogadoras brasileiras não choram em disputas de pênaltis como a seleção masculina’… muitos são os exemplos que mostram que a valorização do feminino ainda vem pautada no referencial masculino.

É natural que ocorram comparações com o esporte masculino, uma vez que as diferenças em relação aos salários, premiações, investimento e infraestrutura representam um verdadeiro abismo. Mas o que está por trás de parte dos discursos que se constroem de forma comparativa é que o desempenho positivo, o belo futebol, a garra e a dedicação das jogadoras servem como uma forma de diminuir o desempenho dos homens e, a partir disso, estimula-los.

Essa é uma visão recorrente e histórica quando se trata de pensar a mulher no esporte e remonta, inclusive, os primórdios da sua participação, no início do século XX. Segundo Silvana Goellner, ao analisar os argumentos que buscavam justificar a exclusão das mulheres em determinadas práticas esportivas consideradas violentas e masculinas, como o futebol e as lutas, ressalta que o sucesso das mulheres “ […] nesta prática poderia infringir as leis da natureza pois, ao mostrarem-se mais fortes do que se supunha, seria fissurado o discurso das diferenças naturais cuja base estava assentada na sobrepujança física de um sexo sobre o outro”. (GOELLNER, 2005, p. 145)

Por mais inacreditável que seja, a desvalorização da mulher no futebol ainda se pauta em uma visão essencialista dos gêneros, segundo a qual, as representações de cada sexo correspondem a um conjunto de características inerentes e biológicas que definem o que é ser feminino e o que é ser masculino. Assim, pressupõe a existência de um conjunto de características naturais e imutáveis dos sexos – e que não devem ser alteradas.

No campo do futebol, o que se vê é a manutenção de concepções biologizantes e essencialistas. Ao longo de sua história, dois argumentos profundamente entrelaçados foram usados para justificar a privação da participação das mulheres no futebol.

A primeira parte da ideia de que, sendo o futebol um esporte essencialmente masculino, a participação das mulheres levaria a sua masculinização. A segunda pauta-se na naturalização e defesa da representação da mulher ‘feminina’ que a liga à beleza, graciosidade e, claro, sensualidade.

Durante o século XX, surgiram no Brasil políticas públicas de proibição legal da participação do público feminino em determinadas modalidades esportivas. Em 1941, o Decreto-Lei 3.199[3] impedia a participação de mulheres em esportes que não fossem compatíveis com a sua ‘natureza’. Implementado em 1965 pelo Conselho Nacional de Desportes, as modalidades proibidas às mulheres tornaram-se explícitas: futebol, futebol de salão, futebol de praia, lutas de qualquer natureza, pólo aquático, pólo, rugby, baseball e halterofilismo.

A partir dos anos 70, com a suspensão do Decreto-Lei e o aumento – ainda que lento e progressivo – da participação das mulheres no futebol, surge um segundo movimento: a erotização dos seus corpos pautada na afirmação de um determinado padrão de feminilidade.

A partir de então, elas até poderiam jogar, desde se que mantivessem femininas. O discurso de valorização de um determinado padrão de feminilidade não desapareceu nos dias atuais, ao contrário, é reafirmado e fortalecido, principalmente, pela grande mídia[4]. A erotização, objetificação e espetacularização dos corpos e condutas femininas ainda estão muito presentes no mundo do esporte e no terreno do futebol. São constantes os comentários e reportagens sobre a aparência das jogadoras, o que, inclusive, dificilmente ocorre com atletas homens.

Recentemente, Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF, causou polêmica, sendo acusado de sexista e machista, ao comentar os novos uniformes da seleção para a Copa de 2015

“Agora as mulheres estão ficando mais bonitas, passando maquiagem. Elas vão a campo de uma maneira mais elegante. Futebol feminino costumava copiar o futebol masculino. Até nos modelos de camisa, que era masculino. Nós vestíamos as meninas como garotos. Então faltava o espírito de elegância, de feminilidade. Agora os shorts são mais curtos, os cabelos são bem feitos. Não são mulheres vestidas como homens.”

Desde a fase de estruturação da participação feminina nos esportes, esse foi um tema que tirou o sossego de homens e mulheres. Espaço permeado por ambiguidades, ao desafiar as fronteiras dos comportamentos e condutas pré-estabelecidas para os sexos, ao deixar os corpos a mostra, ao promover o cuidado com a aparência, o esforço físico, as fortes emoções, a rivalidade e a liberdade de movimentos e atitudes, a participação das mulheres desafiava as representações de feminilidade e masculinidade.

Entre a luz e a escuridão, entre adaptações ou transgressões, o fato é que a condição da mulher no futebol ainda precisa ser analisada com cautela. O espaço dedicado ao esporte no país ainda é precário, a modalidade desvalorizada e os obstáculos são muitos.

Uma situação bastante ilustrativa foi a criação, no início de 2015 pela Confederação Brasileira de Futebol – CBF, da seleção permanente de futebol feminino. Visando a Copa do Mundo de 2015 e os Jogos Olímpicos de 2016, as jogadoras convocadas passariam a se dedicar exclusivamente à seleção com a promessa de contrato assinado e todos os benefícios e garantias. Essa seria uma importante política de incentivo e valorização do esporte, porém mais de um ano e meio depois a promessa ainda não foi cumprida.[5] As atletas romperam com seus antigos clubes, mas os contratos ainda não foram assinados e a relação segue apenas com base em acordos verbais.

É importante que se investigue os argumentos e ideias que ainda produzem essa invisibilidade se pretendemos construir um espaço verdadeiramente da mulher dentro de um território – ainda – masculino. Apesar dos avanços conquistados, dos questionamentos aos padrões impostos e da ameaça à hegemonia masculina, esse ainda é um desafio em curso e para alcança-lo, é imprescindível que a participação da mulher seja vista à luz da sua própria história. 

Referência bibliografica

GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol: entre sombras e visibilidades. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v.19, n.2, p.143-151, abr/jun. 2005.

Notas

[1] Time feminino conquista título contra garotos. Pais dos meninos não aceitam. Acesso em: 18/08/2016. Disponível < https://is.gd/igAl7d >

[2] FIFA descarta organizar copa masculina e feminina ao mesmo tempo: impossível! Acesso em: 18/08/2016. Disponível em < https://is.gd/STI3DV >

[3] BRASIL. Decreto-Lei N° 3.199, de 14 de abril de 1941. Acesso em 18/08/2016. Disponível: <http://bit.ly/2bx3Fml>

[4] Beleza também é com elas! Veja as jogadoras de futebol mais bonitas do planeta. Acesso em 17/08/2016. Disponível em < https://is.gd/hlBQr7 > ou Coração chega a apertar! Escolha a musa do futebol mundial. Acesso em 18/08/2016. Disponível em < https://is.gd/2F5K9U >

[5] CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Acesso em 20/08/2016. Disponível em <https://is.gd/uisc29>