Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Pelas vidas de Bento Rodrigues, a Vale vai pagar?

Fernando Aglio

A tragédia anunciada de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), é só mais um exemplo da conduta agressiva e criminosa da Vale. Não é de hoje que a companhia é denunciada pelas violações de direitos humanos e impactos ambientais cometidos no Brasil e em outros países. Tanto é que além de estar entre as três maiores do setor, também ostenta o título de “Pior Empresa do Mundo” recebido da organização Public Eye Award, em 2012.

Só para citar alguns exemplos que mancham sua trajetória posso destacar graves episódios, alguns deles vistos por meus próprios olhos: a acusação de espionagem e trabalho em condições análogas às de escravidão em Itabirito e a grande ameaça à sociobiodiversidade das comunidades tradicionais da Serra do Gandarela, em Minas Gerais; o descumprimento da legislação no licenciamento ambiental da duplicação da Estrada de Ferro Carajás, no Pará e Maranhão, que além de toda degradação ambiental associada, também foi responsável pela remoção de centenas de trabalhadores rurais de suas propriedades, perseguição política e até mesmo assassinatos de militantes do MST – com fortes indícios de seu envolvimento, em 1996, na chacina de Eldorado dos Carajás –; a operação ilegal – sem possuir licença – da TKCSA, que faz cair “chuva prateada” sobre os telhados do bairro de Santa Cruz e que devido à construção de uma soleira submersa, inviabiliza o trabalho e a vida das comunidades de pescadores do Rio São Francisco e Ilha da Madeira, na Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro; o pó preto contaminante que é lançado aos ares e mares da Grande Vitória, no Espírito Santo; e a contaminação do Rio Cateté por metais pesados que provocou vários casos de má formação fetal em índios da etnia Xikrin, no Sul do Pará. Há mais de trinta outros casos de conflitos que são objeto de denúncias ao Ministério Público. Considerada de vanguarda na exploração mineral internacional, a companhia brasileira também arrasta inúmeros processos de exploração de mão de obra e crimes ambientais em Sudbury, Canadá; e por participar de esquemas fraudulentos para dominar a exploração de ferro em Simandou, na Guiné.

A irresponsabilidade socioambiental da Vale é encoberta pela corrupção de políticos, órgãos e agentes ambientais para aprovação de licenças e arquivamento de processos. Sua imagem é maquiada por um forte departamento de marketing que utiliza-se da estratégia da “neutralização de críticas potenciais”, bastante praticada por outras empresas desse porte para “desviar os olhares” para os patrocínios nos segmentos cultural, educacional e ambiental. Como exemplo disso temos ações como o Trem da Vale, que promove “cultura patrimonial” em Ouro Preto; programas de formação tecnológica e de especialização acadêmica e profissional em várias unidades de produção da empresa; e a manutenção da Floresta Nacional de Carajás, em Parauapebas (PA), que esconde sob a bandeira da “conservação ambiental” um subsolo com uma das maiores reservas de ferro e de pelo menos sete outros tipos dos mais importantes metais comercializados no mundo. Tão boa é essa empresa que explora, mas preserva… Só que não!

As barragens de Fundão e Santarém são de responsabilidade da Samarco, empresa na qual a Vale divide a metade das ações e negócios milionários com a BHP Billiton, outra gigante do ramo da mineração. Eram classificadas de “baixo risco” pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) quanto à probabilidade de rompimento – por serem barragens “muito bem monitoradas e geridas”. Mas, romperam! Não avisaram a ninguém e desceram pelo vale arrastando vorazmente o que estivesse à frente: caminhões e máquinas, estradas e pontes, árvores e pessoas, casas de uma comunidade inteira. Pelas vidas de Bento Rodrigues, a Vale vai pagar? Quem vai pagar?

Não concordo com a máxima de que “a natureza não perdoa e de vez em quando cobra a sua fatura”. Este fato não é uma tragédia natural, é crime e tem responsáveis! Nem que “para que uns tenham conforto outros devam se sacrificar, isso é o progresso”. Pela “lógica econômica”, pode-se considerar que “as mortes de pobres têm um custo mais baixo do que de ricos, pois recebem salários mais baixos”, já dizia isso o Banco Mundial em meados dos anos 1990. Por esse viés, a conta é baixa, pois as vidas de Bento Rodrigues valem muito pouco ante os rentáveis recursos que essas empresas exploram e vendem. Certo é que esse avanço exploratório tão bem denominado “pilhagem” pelo saudoso escritor uruguaio Eduardo Galeano gera impactos socioambientais que não são solucionados pelas políticas econômicas ou por inovações tecnológicas. Atingem desigual e desproporcionalmente alguns grupos sociais mais que outros.

Durante o tempo que estudei biologia em Ouro Preto, gostava de passear pelos seus povoados e me impressionava com a exuberância da natureza e cultura da região. Ao mesmo tempo me assustava com o poder de devastação e o risco iminente dessas minas e barragens. É com muita dor que vou lembrar das vezes que passei por Bento Rodrigues, rincão sossegado quase parado no tempo, que dava vontade de ficar por lá. Agora já era, está tudo debaixo de lama! E quem vai pagar por isso? #SomosTodosBentoRodrigues!