Ilustração de Pierre Lapalu
Ilustração de Pierre Lapalu

Por que a Fiesp apoia o impeachment?

Alvaro Bianchi

Dia 14 de dezembro a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) divulgou nota conjunta com o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) anunciando seu apoio ao processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Segundo a nota, “esse posicionamento reflete o desejo dos industriais paulistas, demonstrado em levantamento feito pelo Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp e do Ciesp (Depecon). A maciça maioria (91,9%) dos entrevistados respondeu que a Fiesp deveria se posicionar a respeito do processo de impeachment” (AGÊNCIA INDUSNET FIESP, 2015).

A nota marca a ruptura da Fiesp com o governo federal. Até o momento, a Federação havia preferido não manifestar-se favoravelmente ao impeachment, embora afirmasse seu descontentamento com os rumos do governo e da economia. Por enquanto a Federação das Industrias do Estado do Rio de Janeiro não alterou sua posição contrária ao impedimento da presidenta (BATISTA, 2015).

Duas teses rapidamente apareceram para explicar essa nova posição dos industriais paulistas: a da ingratidão e a do golpismo. A tese da ingratidão destaca que os industriais não teriam do que reclamar de um governo que os tratou a pão-de-ló com desonerações fiscais sem precedentes. A tese tem seus fundamentos. Os industriais se dizem vítimas dos altos impostos, mas na verdade entre 2005 e 2014 houve uma pequena redução da carga tributária, que passou de 33,6% do PIB para 33,4%. Segundo o economista Rodrigo Octávio Orair, a redução foi muito maior na tributação sobre o lucro das grandes empresas e os impostos sobre bens e serviços. As grandes empresas foram as maiores beneficiadas, o declínio recente dos impostos que incidem mais tipicamente sobre as grandes empresas foi bastante expressivo: entre 2008 e 2014 estes caíram -0,96 p.p. do PIB (ORAIR, 2015, p. 25-26). Outro tanto poderia ser dito dos generosos financiamentos do BNDES e da preferência à contratação de fornecedores brasileiros nas compras da Petrobrás que privilegiaram as indústrias brasileiras.

Mas a tese da ingratidão pode servir para explicar o que os empresários não deveriam fazer – romper com o governo –, mas não o que eles estão fazendo – apoiando o impeachment. Assim, para se sustentar essa tese necessitaria recorrer a algum dispositivo psicológico que explicasse porque os empresários agem de uma maneira contrária a seus interesses. Esse dispositivo tem várias versões: os empresários seriam movidos por um ódio atávico ao PT; seriam cegos a seus próprios interesses; ou simplesmente malucos dispostos a trocar um governo que só lhes fez bem por uma situação incerta. Enfim, dispositivos psicológico não costumam ser boas chaves explicativas para processos políticos dessa envergadura, funcionando como mecanismos ad hoc para contornar as dificuldades de uma tese insustentável.

A segunda tese é a do golpismo. Os industriais paulistas seriam golpistas por natureza. Assim como em 1964, a Fiesp estaria revelando seu desapego às instituições democráticas e sua preferência por soluções autoritárias. Esta tese é superficial, equivocada e, principalmente, desmemoriada. Afinal, quase mais de dez anos a Fiesp ficou alinhada com o governo. Ou o governo era golpista ou a Fiesp deixou de sê-lo por dez anos. Além do mais, como a Firjan ainda não mudou de posição, para manter a coerência seria necessário afirmar que golpistas são apenas os paulistas e que os industriais cariocas tem natureza democrática.

O problema dessa tese é que ela desconhece o padrão de atuação política dos empresários paulistas ao menos nos últimos quarenta anos. Como ficou claro com o nascimento de uma oposição empresarial ao regime ditatorial, a partir de 1974, o empresariado, em particular o paulista, age de modo pragmático e não tem grande apego por princípios ideológicos. Apoiaram o golpe civil-militar e, depois, com a mesma naturalidade se alinharam com a oposição moderada; defenderam a candidatura de Guilherme Afif, de Mario Covas e finalmente de Fernando Collor, em 1989; mas também ficaram do lado de Itamar Franco quando ocorreu o impeachment e, depois, de Fernando Henrique Cardoso, até muitos abandonarem o PSDB nas eleições de 2002; e apoiaram Lula da Silva de depois Dilma Rousseff, pelo menos até o final de 2012, quando a redução da taxa de juros pelo Banco Central colocou sob ameaça os ganhos fáceis.[1] Os industriais não tem um partido, mas usam todos de acordo com as circunstâncias.

Quais são, então, as razões para a adesão da Fiesp ao impeachment? Como diria James Carville, assessor de Bill Clinton em sua campanha presidencial de 1992, “é a economia, estúpido”. Quem conhece a cozinha da Fiesp sabe que os industriais são mais pragmáticos do que ideológicos, que costumam agir guiados pelos resultados no curto prazo e que tendem a adiar a tomada de uma posição política, embora ao contrário dos banqueiros costumem em algum momento tomar partido. A mudança de posição sinaliza que os empresários paulistas:

  1. Consideram que o ciclo de desenvolvimento econômico baseado na expansão do crédito e do consumo, gerenciado pelos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, está encerrado.
  2. Deixaram de acreditar que o atual governo seja capaz de reestabelecer uma dinâmica de crescimento econômico, por meio de um ajuste fiscal e da reforma trabalhista que consideram necessárias.
  3. Passaram a considerar que a crise política é um entrave para a recuperação econômica, na medida em que cria uma situação de desgoverno e diminui a margem de manobra da equipe econômica.
  4. Não estão dispostos a esperar por uma vitória da oposição em 2016 e desejam uma solução imediata para esta crise, a qual passa pelo PMDB paulista e pela liderança de Michel Temer.

Obviamente não devem ser excluídas outas motivações secundárias, mais ideológicas, como o renitente conservadorismo dos industriais, ou mesmo políticas, como os sonhos eleitorais do presidente da Fiesp Paulo Skaf, filiado ao PMDB. Tais motivações secundárias são, por assim dizer, sobredeterminadas e podem ter tido um papel importante na definição do momento. Mas as oscilações do humor dos industriais parecem seguir de perto os índices do PIB industrial e serem determinadas por cálculos de curto prazo. Por essa razão, nada impede que esses mesmos empresários mudem de posição mais uma vez com relação ao impeachment, principalmente se avaliarem que o processo contra a presidenta poderia gerar uma situação ainda mais incerta para a indústria. Afinal de contas, não se pode dizer a respeito dos industriais paulistas que entraram neste jogo agora e que lhes falta sagacidade. A pirâmide da Avenida Paulista não é habitada por patos; aquele é o habitat de velhas raposas.

Referências bibliográficas

AGÊNCIA INDUSNET FIESP. Fiesp e Ciesp definem apoio a processo de impeachment. Portal Fiesp, 14 dez. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1ROjwuX

BATISTA, Renata. Para Firjan, impeachment gera tumulto e prejudica a economia. Valor Econômico, 3 dez. 2015. Disponível em http://bit.ly/1PN5Z7q

BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Reconstruir a esperança: discurso ao receber o prêmio Juca Pato como Intelectual do Ano de 2014, da União Brasileira de Escritores. São Paulo, 9 nov. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1OcfmqS

ORAIR, Rodrigo. Octávio Desonerações em alta com rigidez da carga tributária: o que explica o paradoxo do decênio 2005-2014? Texto para Discussão Ipea, n. 2117, ago. 2015.

SINGER, André. O lulismo nas cordas. Piauí, n. 111, dez. 2015, p. 31-38.

Notas

[1] É Luiz Carlos Bresser Pereira (2015) quem sinaliza o final de 2012 como o momento do afastamento entre os empresários e o governo. A tese é retomada por Singer (2015, p. 33).