Fotografia de Amalyn Malix
Fotografia de Amalyn Malix

Por que perdemos? Moral cristã, individualismo e espetacularização nos movimentos de protesto

Franck Tavares

Discutir a esquerda política sob a perspectiva de quem adere e tem simpatia por esse campo da práxis e das ideias exige, antes de tudo, o exercício permanente da crítica e a renúncia ao panfletarismo apologético ou à autocomiseração ritualística. A reflexão intelectual não se reduz à propaganda de uma causa, assim como a marxiana crítica que se “transforma em força material” não encontra freios nas fronteiras que delimitam grupos não privilegiados, repertórios confrontacionais transgressivos ou práticas sociais prefigurativas de um mundo sem exploração ou dominação. Permanece válida e desafiadora, nos dias atuais, a sugestão de Horkheimer, para quem a crítica “é agressiva não apenas frente aos apologetas da situação vigente, como também (…) nas suas próprias fileiras”[1]. Este texto se propõe a oferecer uma crítica que se revele imanente e solidária à esquerda política do tempo presente. Parte-se da premissa de que a “Onda Global de Protestos”[2], eclodida em 2008, não deve ser tão efusivamente festejada. Os Estados Unidos sob Trump alguns anos após a ocupação do Zucotti Park e movimentos consequentes; o Egito sob cruel ditadura após as vitórias e reveses da Praça Tahir; a escalada autoritária na Turquia de Erdogan, depois das jornadas da Praça Taksim; o Brasil sob Temer apenas três anos após o levante de Junho; a Espanha governada por uma coalizão entre PP e Ciudadanos, depois de todo o curso de lutas que segue do 15M à criação do Podemos; e até mesmo a Grécia sob um governo da Syriza que capitulou aos ditames da Troika e, agora, sob a iminência de uma vitória eleitoral da ND e de um crescimento assombroso dos nazistas da Aurora Dourada; convidam a uma séria reflexão sobre as sucessivas derrotas que a esquerda tem vivido nos últimos tempos.

A ideia deste texto é aplicar a máxima Lordiana[3] de que “as armas do senhor não podem desmantelar a casa do senhor” às lutas sociais que enredam o protesto político de esquerda desde 2008. Discutem-se, adiante, três casos específicos de “armas do senhor” frequentemente adotadas por ativistas em suas lutas atuais: i) o individualismo; ii) a autocompaixão e; iii) a espetacularização da política. O tema exige profundo cuidado filosófico e sociológico, o que não cabe em um breve texto de opinião. A proposta, aqui, é apenas polemizar e provocar reflexões sobre a seguinte assertiva: muito daquilo que passa por novidade na política radical dos nossos dias encerra, de fato, uma reprodução de imemoriais lógicas de ação indecomponíveis do status quo liberal e cristão.

Tome-se, primeiramente, o profundo legado judaico-cristão a irradiar suas normas e o seu cosmos precisamente sobre as lutas sociais que pretendem uma sociedade profana e secular. A esquerda dos nossos tempos manifesta uma clara tendência à condução ética dos seus processos políticos segundo a máxima consignada no Sermão da Montanha, para a qual “quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. O léxico composto de termos como “sacrifício” (muito usado em ocupações, onde a falta de sono ou de comida é entendida como virtuosa por si só), “privilégio” e “lugar de fala” é apenas a ponta de um iceberg político em que condição dominada, atributos naturais ou pré-definidos dos sujeitos e validade moral dos atos praticados se amalgamam. Suscita-se, assim, um contexto de interações sociais em que o sofrimento, a derrota ou a dominação estão, inelutavelmente, em patamar deontológico superior. Nada mais cristão e, portanto, patriarcal. Como a filósofa Jodi Dean notou, “para muitos/as esquerdistas, a atração da posição de vítima é, assim, dupla: está-se sempre moralmente correto – pois quem irá negar o sofrimento da vítima? – e nunca se é politicamente responsável – pois as vítimas são muito fracas e feridas para governarem”[4]. A autora prossegue e conclui que não apenas a esquerda, mas, também, “cristãos evangélicos e fundamentalistas falam como vítimas”. Para estes, de qualquer modo, a danação terrena e a exaltação da condição de subjugados/as em um vale de lágrimas traz em seu âmago a promessa da salvação eterna. Para quem, contudo, pretende agir de forma mundana na promoção moral a priori e reificada da condição de vítima ou de sofredor/a, ficam apenas duas alternativas, igualmente indesejáveis: cair na imoralidade (deixando de ser vítima e, assim, perdendo o lastro da legitimidade moral) ou padecer sob a dominação (afirmando-a ritualisticamente, sem um horizonte estratégico para a sua superação).

Há um problema adicional nessa lógica e um exemplo concreto pode ajudar a explicá-lo. Recentemente, em um debate público sobre políticas de promoção da paridade de gênero, uma pessoa pediu a palavra de modo ríspido e disse: “eu concordo com tudo o que disse o meu antecessor, mas ele não deve dizê-lo, porque é um homem, cis, branco e hetero. Eu devo dizer essas coisas, eu estou em condições de fazê-lo pela minha experiência… Ele não”. A condução desse argumento ao limite seria o cemitério da alteridade, a impossibilidade da solidariedade, o primado da experiência pura sobre a interlocução e, afinal, a profunda fragmentação da esquerda, reduzida, assim, às individualidades e suas singulares experiências. Nada mais conservador do que a redução da humanidade à promoção da dor como licença moral e a exaltação da experiência individual como argumento político revestido de validade intrínseca.

Outro atributo frequentemente observado em meio aos grupos que protagonizam os protestos urbanos dos dias atuais é, precisamente, a lógica individualista que define as ações e escolhas de ativistas. É justa e compreensível a origem deste fenômeno. Ao longo do século XX, máquinas burocráticas de sindicatos e partidos sufocaram o pensamento e a liberdade de indivíduos, reduzindo-lhes a executores de tarefas em uma estrutura protomilitar. A máxima “se você pensa que pensa, você pensa mal, quem pensa por você é o comitê central” já não consegue aprisionar os ânimos de uma juventude crescida em meio à crise e traição das burocracias e, lado outro, à emergência das tecnologias de comunicação associadas à Internet. Nadia Urbinati define essa geração como aquela que se revolta contra os “corpos intermediários”, a exemplo de partidos e veículos de comunicação de massa[5]. O problema da esquerda, na atualidade, é que se caminhou na direção oposta. Decisões coletivas, não importa o quão democráticas e inclusivas sejam, cedem terreno a figuras como revolta, catarse, defecção individual e um constante alheamento, ancorado na lógica de que cada pessoa só pode representar a si, na condição de mônada. Partidos, movimentos sociais e sindicatos não raramente são expulsos de protestos. Indivíduos optam por táticas ou práticas que não foram discutidas previamente e sentem-se plenamente legitimados pelo exclusivo foro das suas mentes. O horizonte da antropologia filosófica que inspira uma significativa parcela da esquerda contemporânea não consegue ir além da linha de origem inglesa que conduz de Hobbes a Locke. É, portanto, ao menos estranho que o combate à sociedade individualista do liberalismo capitalista acredite encontrar uma venturosa novidade em sua condução sob bases igualmente individualistas. A resposta que Hobbes deixou ao igualitarismo individualista dos niveladores talvez tenha sido definitiva: a luta por igualdade em bases estritamente individuais só pode terminar em um Leviatã. A esquerda levou muitos anos para erigir novas subjetividades, como a classe. Abdicar dessas formas em favor da unidade de análise preferida pelos senhores e patrões implica uma rendição, antes de um progresso em direção a uma esquerda não burocrática. O desafio das lutas sociais deste século XXI reside na busca de subjetividades que estejam além do autoritarismo associado aos dirigentes despóticos e, a um só tempo, das mônadas que atuam conforme suas vontades em uma cena coletiva. O individualismo liberal que se vê nas ações voluntaristas dos protestos contemporâneos é um Cavalo de Troia liberal, antes de uma arma sob controle da esquerda e dos grupos dominados ou explorados.

A lógica de indivíduos que não respondem a coletividades e atuam segundo o próprio alvedrio costuma vir acompanhada de uma redução da política à catarse, à adrenalina e às sensações que, estéreis estrategicamente, entregam aos praticantes uma certeza moral do dever cumprido. É um truísmo a constatação de que a política de esquerda encerra uma necessária, libertadora e inextricável dimensão estética. A redução dos protestos ao espetáculo da revolta sem direção estratégica, contudo, implica a dissolução da ação coletiva naquilo que há de mais reificador na sociedade capitalista e de massas: a busca por sensações intensas que tentam projetar na eternização do hoje alguma emoção, tão arrebatadora quanto efêmera. O ativismo que não pensa mais nos objetivos, mas exalta as táticas mal-chamadas de “ações diretas” como um fim em si, padece da mesma espetacularização da política e sujeita-se ao mesmo ethos observado na visão, som e fúria das campanhas eleitorais de figuras como Donald Trump. Revoltas, como é sabido ao menos desde os luditas, sempre criam belas cenas para quem vê a própria trajetória como um roteiro de Hollywood. Todavia, desprovidas de organização, adesão multitudinária e um tão insosso como necessário cotejo weberiano entre meios e fins, definem-se apenas como combustível a alimentar a sociedade do espetáculo que, acredita-se, a esquerda pretende superar.

As burocracias que hegemonizaram a esquerda no Século XX eram, em geral, aparatos conduzidos por homens brancos, hetero, cis, de origem na classe média alta, autoritários e friamente adeptos de uma razão calculadora – estética e sensualmente indigente. A crítica imanente da esquerda, entretanto, deve dar um passo adiante, indo além de objetar as formas partidárias já dispensadas pela juventude que aderiu à Onda Global de Protestos. Como bradou Caetano Veloso nos anos 60 do Século XX, não deve a esquerda “ser sempre quem vai matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”. A crítica deve voltar-se à “novidade” que tanto encanta o pensamento gauche, mas que insiste em colher derrotas sucessivas, de Nova Iorque ao Cairo, de São Paulo a Istambul. Uma pista para se avançar sobre os escombros dos reveses experimentados nos últimos anos reside precisamente em rediscutir-se as “novidades” do século. É provável que essa reflexão nos indique que, de fato, não é de se esperar uma vitória sobre a sociedade cristã, individualista e espetacular por meio de um protesto social orientado por ética cristã, ação movida por ímpeto individual e tática reduzida em adrenalina espetaculosa.

Notas

[1] HORKHEIMER, Max. Teoria Tradicional e Teoria Crítica. In: Benjamin, Habermas, Horkheimer, Adorno . Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

[2] O conceito de “Onda Global de Protestos” aponta para as lutas sociais que, concentrada sobre temas locais, articularam repertórios, redes e causas de alcance global. Trata-se de um ciclo de confronto político (ou um conjunto de ciclos) posterior e distinto do “Movimento de Justiça Global”. Eventos como a “Revolução das Penas” na Islândia, o 15-M espanhol, as jornadas da Praça Tahir no Egito conta a ditadura de Mubarak, os protestos da Praça Taksim, na Turquia, contra o Governo de Erdogan, a ocupação do Parque Zucotti em Nova Iorque e os protestos brasileiros entre maio e julho de 2013 se enquadram nessa “onda”. Para um estudo mais detalhado, confira FOMINAYA, Cristina Flesher. Social Movements and Globalization: how protests, occupations and uprisings are changing the world . Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2014.

[3] LORDE, Audre. The Master Tools Will Never Dismantle the Master ́s House. Disponível em http://www.historyisaweapon.com/defcon1/lordedismantle.html. Acesso em: 20 de julho de 2015.

[4]  Tradução livre do autor. Confira em DEAN, Jodi. Democracy and Other Neoliberal Fantasies: Communicative Capitalism and Left Politics. Durham: Duke University Press, 2009.

[5] Confira-se: URBINATI, Nadia. A Revolt Against Intermediary Bodies. Constellations, v. 22, n. 4, 2015.