Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

“Pra não dizer que não falei das flores”: usos e desusos de uma canção da revolução (1968-2016)

 

Romulo Mattos

I

Ao tratar da apropriação do rock brasileiro pelos DJs das passeatas em prol do impeachment – os quais procurei representar por meio da fictícia figura do “DJ Coxinha” –, observei que a direita selecionava naquela produção musical o tema do nacionalismo e da indignação contra os abusos dos governantes brasileiros. No entanto, descartava a ambiência de esquerda em que tais registros sonoros estavam inseridos quando se tornaram conhecidos, assim como a postura política de seus autores. Levando-se também em consideração a dificuldade dos setores conservadores no sentido de criar canções que ganhassem a imortalidade na memória política brasileira, afirmei que aquela operação constituía uma apropriação indébita. Na conclusão, deixei um mote para a escrita de outro texto, ao afirmar que a utilização de clássicos da MPB engajada nas manifestações da direita podia ser ainda mais contraditória (MATTOS, 2016).

Eis que o atabalhoado DJ Coxinha colocou para tocar nas tais manifestações o arquivo MP3 do hino político “Pra não dizer que não falei das flores”, do paraibano Geraldo Vandré. Para evidenciar a confusão mental de tal personagem, é necessário recuperar o contexto em que essa canção foi composta e se tornou nacionalmente famosa. Antes de propor um retorno ao ano de 1968, quando aquela música foi defendida num festival da canção, vale falar sobre a inserção de Vandré no campo musical brasileiro.

II

No final dos anos 1950 e início de 1960, certos fatores propiciaram a politização da bossa nova: a aproximação de seus agentes com a “célula comunista” do Teatro de Arena e com o movimento estudantil, a aceitação da bossa nova pelo público universitário, a reação à comercialização do gênero voltado para abastecer a demanda do mercado fonográfico norte-americano, a participação de seus artistas no Centro Popular de Cultura (CPC da UNE), a parceria de Carlos Lyra com Nelson Lins e Barros e o contato desse grupo com músicos populares. O primeiro nome foi fundamental dentro do surgimento da vertente nacionalista da bossa nova, tendo sua atuação aproximado Vinicius de Moraes e o próprio Vandré do CPC. Esse último, na opinião de Lyra, foi um parceiro seu que se politizou durante o processo, uma vez que se tratava de um advogado, cantor de boleros, que não tinha nada a ver com política. A parceria de Vandré com Lyra produziu as canções “Aruanda” e “Quem quiser encontrar o amor”, de 1963 (GARCIA, 2007, p. 64-5).

Interpretada por Vandré, a segunda música é um marco da tentativa de criação de uma bossa nova participante, “portadora de uma mensagem mais politizada que trabalhasse com materiais musicais do samba tradicional” (NAPOLITANO, 2007, p. 72). Ela se tornou uma variante do “paradigma bossa-novista”, por ter lançado as bases para uma canção nacionalista e engajada, na qual havia a preocupação com a tradição e ao mesmo tempo a incorporação das conquistas estéticas da bossa nova (Ibid, p. 73).

Antes de competir com “Pra não dizer que não falei das flores”, Vandré era bem conhecido pelo público dos festivais. No I Festival da TV Excelsior, em 1965, defendera como intérprete a canção “Sonho de um carnaval”, de Chico Buarque, que chegou à final. Mas a sua composição, “Hora de lutar”, fora desclassificada. No ano seguinte, na segunda edição daquele evento, ele fizera os shows do intervalo, e fora coautor da música vencedora, “Porta-Estandarte”, cantada por Airto Moreira e Tuca. Além disso, no II Festival da TV Record, fora um dos compositores de “Disparada”, campeã ao lado de “A banda”, de Chico Buarque. Se essa última encantara o público e se tornara um sucesso de massas, a primeira impactara os expectadores com a vigorosa interpretação dada por Jair Rodrigues a sua letra – que aborda a luta de classes de forma velada – e com a queixada de burro tocada por Airto Moreira. No mesmo evento, a sua composição “Levante”, cantada por Maria Odete, fora desclassificada. Ainda em 1966, conseguiu o segundo lugar do Festival Internacional da Canção (FIC) com “O Cavaleiro”, da qual é um dos autores. No ano de 1967, Vandré não fora tão bem sucedido nos certames musicais. “Ventania” não ficara entre as primeiras colocadas, no III Festival da TV Record, ao passo que “De Serra, de Terra e de Mar” não tivera melhor sorte no III FIC.

Apesar dos insucessos nos festivais de 1967, pelo seu histórico recente, ele encarnava aquilo que Zuza Homem de Mello (2003, p. 87) classificou como: “compositor dos festivais, aquele que dizia o que as torcidas queriam ouvir”. Vandré podia ser aplaudido mesmo quando a canção por ele apresentada não estivesse entre as melhores de sua produção. O artista identificado com as esquerdas havia sido uma das principais atrações do “Ensaio Geral”, da TV Excelsior, e da “Frente Única – Noite da Música Popular Brasileira”, na TV Record, onde também apresentara o programa “Disparada”. Dentro do campo da MPB, no qual é possível observar variáveis (que apontavam para diferentes formas de apropriação da tradição musical), Vandré se situava ao lado de Chico no modelo de composição ancorada nos “gêneros convencionais de raiz”, na avaliação de Marcos Napolitano (2007, p. 110). Esse historiador se referiu ainda à imagem midiática do artista como a do “cantador-agressivo-e-indignado” (Ibid, p. 120), quase oposta à sensível figura de Chico.

“Aliado à sua personalidade forte, disposta a ocupar um espaço comercial destacado dentro da MPB, Vandré acabou entrando em conflito com empresários e diretores, o que dificultou sua carreira, tanto nas gravadoras como nas emissora de TV. De qualquer forma, sua imagem permaneceu ligada aos festivais, eventos que ajudou a consagrar, se destacando pelo clima de comício que imprimia às suas performances” (Idem).

Vandré mantinha uma relação conflituosa também com os colegas de profissão mais interessados na composição como paródia modernista da tradição, no caso, os tropicalistas. Segundo Caetano Veloso, Vandré ficou enfurecido com a pretendida homenagem a Roberto Carlos na edição do Frente Única – Noite da Música Popular Brasileira comandada por Gil. O artista paraibano teria ameaçado interromper as gravações, o que levou Caetano a abrir mão de parte de suas ideias. Vandré também deu um soco na mesa e gritou “Isso é uma merda!” ao ouvir Gal Costa cantar “Baby” (uma profissão de fé tropicalista), na mesa de um bar, a pedido do próprio (que estava curioso com o entusiasmo de Caetano e amigos com a gravação). Por fim, Vandré chegou a propor ao empresário Guilherme Araújo que jogasse todas as cartas nele, em detrimento dos tropicalistas, tendo em vista a importância do que vinha fazendo (canções “conscientizadoras das massas”) e a suposta incapacidade do mercado comportar mais de um nome forte de cada vez. Em resumo: “Nós sabíamos que grande parte da MPB reagira mal ao que estávamos fazendo: Edu Lobo, Francis Hime, Wanda Sá, Dori, Sérgio Ricardo e, mais que todos, Gerado Vandré, mostravam-se meio irritados, meio decepcionados conosco”, avaliou Caetano Veloso (2007, p. 160).

As histórias expostas por Caetano evidenciam a adesão quase física de Vandré ao nacional-popular, uma cultura política de esquerda que buscava a expressão simbólica da nacionalidade, e que naquele momento não era mais vista como o cimento para uma estratégia reformista, mas como um núcleo ético e político para a construção da resistência à ditadura militar. Em 1968, ele apresentava o musical Canto Geral, depois chamado de Canto Permitido, na TV Bandeirantes. Exigida por Vandré, essa mudança de nome se deveu à censura ao primeiro episódio do programa, que pretendia exibir um vídeo de 15 minutos sobre a crise no mundo (MELLO, 2003, p. 276). Quando defendeu “Pra não dizer que não falei das flores”, no III FIC, o artista paraibano aliava talento artístico e posição política definida – sendo por esse motivo bastante estimado pelo público dos festivais.

III

Nas diferentes etapas daquela competição, Vandré dispensou o acompanhamento da orquestra e se apresentou ao violão, numa possível estratégia de aproximação do seu público, ao mesmo tempo que realçava a importância da mensagem contida na letra. A reação da plateia era tão positiva e delirante que o cantor chegava a passar mal no camarim, após as apresentações. “Caminhando”, apelido pelo qual a famosa música de Vandré passou a ser conhecida, era uma óbvia candidata ao primeiro lugar. No entanto, os militares decidiram que tal não aconteceria. Torcedora símbolo dos festivais dos anos 1960, Telé Cardim tomou conhecimento dessa realidade por acaso. Ela estava no escritório do empresário Marcos Lázaro, esperando por um ingresso para a final do III FIC, quando ouviu o próprio dizer ao irmão, pelo telefone: “Os militares não querem que a música de Vandré ganhe o Festival. Temos que falar com a organização do FIC porque, se ele ganhar, vão tomar uma atitude de sérias consequências” (MELLO, 2003, p. 277).

Mais tarde, no escritório do FIC, no Rio, o então diretor-geral da Globo, Walter Clark, recebeu uma ligação do general Sinzeno Sarmento, que lhe avisou: nem “Caminhando” nem “América, América”, de César Roldão Vieira (ambas com certificado da Polícia Federal) poderiam ganhar o Festival. Vandré soube dessa história pela sua amiga Telé, no Maracanãzinho, pela manhã. Ele ficou irritado, mas não aceitou a imprudente sugestão de contar ao público o veto militar a sua canção. Depois do almoço, já em um hotel de Copacabana, pediu a repórteres da revista Manchete para ser levado de volta ao ginásio no carro dessa empresa, porque tinha medo de ser preso pelos militares. Ensaiou normalmente na parte da tarde, e de noite foi consagrado no Maracanãzinho lotado (Ibid, p. 277-84).

O pesquisador Homem Zuza de Mello garante que Clark resolveu assumir o risco de não influenciar a decisão dos jurados, que deram a vitória a “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim, defendida por Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy. Embora Mello seja o autor não acadêmico mais credenciado no que diz respeito ao tema dos festivais, é difícil acreditar em tal história, tendo em vista a relação de parceria entre a Globo e os militares. Ele se baseou no testemunho do próprio diretor-geral da emissora – e confiar plenamente nos livros de memória, sem levar em conta os interesses ou os comprometimentos éticos e políticos dos seus autores, é uma atitude temerária do ponto de vista analítico. “Pra não dizer que não falei das flores” ficou em segundo lugar, tendo alcançado 106 pontos, contra os 109 obtidos pela canção vencedora. (Ibid, p. 279).

Quando o público foi informado de que a sua música preferida fora a vice-campeã, ficou de pé para vaiar a decisão dos jurados. Tentando aplacar a fúria dos expectadores, Vandré afirmou que Tom e Chico mereciam respeito, no que foi razoavelmente aplaudido (embora houvesse vaias em meio a essa manifestação). Mas, em seguida, fez uma afirmação que provocou a maior vaia de sua carreira: “A nossa função é fazer canções. A função de julgar, nesse instante, é do júri que ali está”. Ao tirar da plateia o seu direito simbólico ao julgamento, por meio do apupo, o cantor involuntariamente negou a condição dos festivais como “um simulacro de participação popular e liberdade de expressão num momento em que o país mergulhava cada vez mais no autoritarismo político” (NAPOLITANO, 2007, 93). Quando deu a entender que não se sentia apoiado pelos que vaiavam o resultado, o grito de “É marmelada” tomou conta do Maracanãzinho. Até que Vandré soltou uma frase que ficou marcada na MPB (e que teve uma recepção melhor do que a anterior): “Olha, tem uma coisa só, a vida não se resume em festivais”. A multidão só pareceu se acalmar quando ele tocou seu violou e cantarolou a introdução de “Pra não dizer que não falei das flores”.

Nesse registro sonoro, é interessante notar que o refrão é cantado com entusiasmo pelo autor e a plateia (“Vem, vamos embora, que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”), enquanto os versos que provocam os militares são vigorosamente entoados e aplaudidos pelo público (“Ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ E acreditam nas flores vencendo o canhão”; “Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição/ De morrer pela pátria e viver sem razão”). A interpretação emocionada, às vezes imprecisa, porque oriunda de uma voz tensa e possivelmente insegura diante do caos deflagrado no ginásio, é bem diferente da versão registrada em estúdio. Nessa a performance vocal de Vandré é serena, como quem transmite ensinamentos com a convicção de que a marcha revolucionária é inevitável (“A certeza na frente, a história na mão”; “Caminhando e cantando e seguindo a canção / Aprendendo e ensinando uma nova lição”, diz a canção). Há também um segundo violão que improvisa melodias ao longo da música. Vandré caracterizou a sua composição mais famosa como uma canção do campo ou um rasqueado.

IV

Muitos opinaram sobre “Pra não dizer que não falei da flores”. O historiador Paulo César de Araújo (2002, p. 98) a definiu como: “a mais contundente crítica jamais feita ao Exército brasileiro numa letra de música popular e num momento em que as Forças Armadas controlavam os poderes da República”. Napolitano (2007, p. 125) argumentou que essa canção: “unificava (…) o sucesso comercial e a expressividade ideológica adequada às demandas de importantes segmentos da esquerda brasileira”. Marcelo Ridenti (2003, p. 117) afirmou que o seu refrão: “é afinado com a proposta guerrilheira”. Francisco Carlos Teixeira a incluiu entre as composições que reproduziriam “as utopias de reforma social” (p. 141). A sua definição mais famosa foi dada na época, por Millor Fernandes, para quem ela seria: “o hino nacional perfeito; nasceu no meio da luta, foi crescendo de baixo para cima, cantado, cada vez mais espontânea e emocionalmente, por maior número de pessoas. É a nossa Marselhesa” (Apud: VENTURA, 1988, p. 206-7).

A recepção de “Caminhando” não pode ser pensada fora de um contexto em que o tempo das transformações sociais e políticas foi acelerado. No plano externo, havia a Guerra do Vietnam, os movimentos sociais e políticos nos EUA (dos estudantes e dos negros), o movimento estudantil europeu (principalmente, Alemanha, Itália e França), o rock americano e inglês, todo o panorama de revolução cultural etc. Já no plano interno, a ditadura sofria a oposição do movimento estudantil, dos trabalhadores e da Frente Ampla. Ao mesmo tempo, setores da “linha-dura” militar organizavam ações terroristas visando a supressão dos resquícios liberais remanescentes. O resultado da conjugação dessas forças seria a edição do Ato Institucional n. 5, em fins de 1968, que consagrou a hipertrofia do Executivo e de seus poderes de exceção.

Esse decreto foi um duro golpe na carreira de Vandré, cuja cabeça já havia sido pedida pelos militares. A canção fora proibida pela Censura Federal sob o argumento de veicular uma mensagem “subversiva e atentatória ao regime democrático” (ARAÚJO, 2002, p. 98). Além disso, o general Aspirante Basto enviara uma “Carta a Geraldo Vandré”, publicada no Última Hora:

“O que entende você de pátria, para dizer que nos quartéis se vive sem razão? Que mais você fez nesta vida, sem ser em troca de lucro? [Será] uma vida sem razão a dos homens que neste momento, como eu, em terras longínquas ensinam a cor da bandeira brasileira?” (…) “Cante o que quiser, mas não coloque nada de pátria no meio. Você não sabe o que é isso. A sua pátria deve ser um copo de cerveja.” (…) “Você passará, Vandré. O povo esquece depressa. Sua música causou sensação, mas logo será esquecida” (Idem).

A última frase da carta do milico pode ser hoje motivo de boas risadas. O cantor Geraldo Azevedo estava com Vandré no dia em que o AI-5 foi anunciado, e contou que esse: “ficou louco; não sabia o que fazer e o medo de ele ser preso nos fez cancelar o espetáculo programado para o Iate Clube, em Brasília; tomamos o caminho do Rio. Vandré, com pose de Che Guevara, parecia alucinado (…)” (Ibid, 2002, p. 35). O compositor engajado foi procurado pelos militares em um hotel em Anápolis, Goiás, onde se hospedara em meio a uma turnê. Mas ele já estava a caminho do Rio, de onde seguiu para a fazenda de Dona Aracy Carvalho, viúva do escritor Guimarães Rosa, no sertão mineiro. Em seguida, escondeu-se na casa da atriz e modelo carioca Marisa Urban, sua namorada, no Palácio Bandeirantes (com o auxílio do então governador de São Paulo, Abreu Sodré) e no Rio Grande do Sul. Desse estado partiu para o exílio, passando pelo Uruguai, por Santiago do Chile (onde deu uma entrevista para o jornal O Globo, em 1969), pela Alemanha, pela Áustria, pela Itália, pela Grécia, pela Bulgária, pela Iugoslávia (nesses três últimos cantou para povoados do interior em troca de comida), pela França (país no qual gravou o disco Das Terras do Benvirá, em 1970) e novamente por Santiago, que estava à beira do golpe militar. Em processo de desintegração psicológica, foi submetido a um tratamento psiquiátrico por 45 dias, enquanto a sua família negociava com os militares o seu retorno ao Brasil (Idem).

Em julho de 1973, Vandré voltou ao Rio de Janeiro. Primeiramente, houve o desembarque real, noticiado pelo Jornal do Brasil de 18 de julho de 1973. Depois, o fictício, na noite de 21 de agosto de 1973, no aeroporto de Brasília, filmado pela equipe do Jornal Nacional. Nesse caso, é interessante notar o acerto entre a Rede Globo e a ditadura quanto à encenação da farsa. Diante das câmeras, o cantor afirmou que pretendia integrar suas composições: “à realidade nova do Brasil, que espero encontrar em um clima de paz e tranquilidade” (Ibid, p. 101). E se queixou de que: “a arte às vezes é usada por um grupo determinado com interesses políticos e isso transcende a vontade do próprio autor. Eu, o que tenho a dizer é que, na verdade, nunca estive vinculado ou comprometido em toda a minha vida com qualquer grupo político” (Idem). Por fim, declarou que desejava: “só fazer canções de amor e paz” (Idem).

Ninguém entendeu o que o levara a abrandar o seu discurso sobre a arte e a política. Araújo resumiu: “Para uns Vandré foi um idealista que não transigia com sua arte e foi torturado até sofrer um processo de lavagem cerebral; para outros, Vandré sucumbiu à pressão (quando ainda poderia ter resistido) e o seu comportamento excêntrico e esquivo visa apenas alimentar o mito criado em torno de si” (Ibid, p. 97). O homem que no exílio escreveu uma canção chamada “Che”, mais tarde, compôs “Fabiana”, em homenagem à Força Aérea Brasileira (FAB). Ele passou a virada do século no Clube da Aeronáutica e hoje viaja nos aviões dessa instituição sem pagar. Vale lembrar que, quando voltou ao Brasil, Vandré morou bastante tempo no quartel, onde tinha um quarto, um carro e podia sair quando quisesse (LEMOS, 2010).

V

Sabe-se que “Pra não dizer que não falei das flores” foi cantada em protestos de massa relacionados com causas progressistas. No dia 24 de abril de 1984, a manifestação pelas Diretas Já no Rio de Janeiro – a maior concentração política da história da cidade, com um milhão de pessoas – foi encerrada com o hino nacional e a canção de Vandré (RODRIGUES, 2003, p. 76). Estudantes a cantaram no “Fora Collor”, ao lado de músicas de bandas dos anos 1980, como “Tempo Perdido”, da Legião Urbana. Além desses grandes movimentos sociais, houve incontáveis episódios de greves, assembleias e protestos específicos da esquerda em que a composição de Vandré foi entoada pelos partícipes como um hino que simbolizava a justeza das lutas então desenvolvidas, além de lhes dar sentido e coesão.

Isso tudo porque se trata de uma música que nasceu dentro da luta da esquerda contra a ditadura militar, e se tornou o mais imediato sinal de reconhecimento entre os que se identificavam tal bandeira. Não obstante, foi o material sonoro que mais irritou os militares, e contribuiu diretamente para a ruína artística e pessoal de seu autor (um dos nomes mais politizados do campo artístico brasileiro) após o AI-5. Até mesmo Carlos Marighella citou “Pra não dizer que não falei das flores” em um documento de 1968. Para o lider da luta armada brasileira, a morte de Che na Bolívia: “não significou o fim da guerrilha. Ao contrário, inspirados no desprendido exemplo do Guerrilheiro Heroico, prosseguimos no Brasil sua luta patriótica, trabalhando junto ao nosso povo com a certeza na mente e a história a nosso favor” (RIDENTI, 2003, p. 117). Embora Vandré tenha hoje um discurso mais simpático ao militares, não é simples negar tudo o que foi contado neste texto, devido ao risco de se mistificar a História.

Para surpresa de muitos, “Pra não dizer que não falei das flores” foi executada em 2016, nas passeatas pelo impeachment de Dilma Rousseff, organizadas por entidades da direita e financiadas por partidos políticos da oposição conservadora. A obra musical de outros artistas relacionados com a esquerda dos anos 1960 e 1970 também foi apropriada pelo confuso “DJ Coxinha”, sendo elas a de Chico Buarque, a do finado Gonzaguinha e a de Beth Carvalho. Nesse processo, o primeiro anunciou que não autorizaria a utilização de suas músicas em novas peças encenadas por um ator que atacava Lula e Dilma durante o seu espetáculo (e que curiosamente dizia ser fã do cantor carioca). Já a sambista repudiou o uso de “Vou Festejar” nos protestos da direita; deixou claro que sua voz e o seu samba não representavam tais manifestantes.

Vale ressalvar que o uso de “Pra não dizer que não falei das flores” pelo “DJ Coxinha” tem lá seus aspectos cômicos. Afinal, não é todo dia que vemos grupos simpáticos à Ação Integralista Brasileira (minoritários nas passeatas) reivindicar a intervenção dos militares e, ao mesmo tempo, entoar a plenos pulmões versos antimilitaristas. Menos engraçada foi a paródia do seu refrão cantada por Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, no plenário da Câmara, no dia da votação do impeachment: “Dilma vai embora que o Brasil não quer você. E leve o Lula junto e os vagabundos do PT”. Decerto, esse foi um ponto alto do show de horrores transmitido ao vivo pela TV.

Em tais manifestações de rua, houve momentos mais coerentes com a visão de mundo de uma classe média que se enfiou em panos amarelos com o símbolo da CBF para vociferar contra a corrupção – a qual também esgotou o estoque de bandeiras do Brasil dos vendedores ambulantes, em uma rara interação com as classes pobres nos protestos. Refiro-me à utilização pelo “DJ Coxinha” da ufanista canção “Eu te amo meu Brasil”, da dupla Dom & Ravel. Essa era identificada com a ditadura a ponto de comparecer a eventos públicos ao lado de militares e ter composições transformadas em hinos cívicos. “País Tropical”, escrita por Jorge Ben e gravada pelo colaborador Wilson Simonal, seria outra adequada às passeatas pró-impeachment. Mas a dramática dificuldade dos agentes da direita no sentido de produzir um número mínimo de canções imortalizadas na memória política brasileira leva a apropriações indébitas como a que tratamos neste texto. Seja como for, esse episódio não deve passar despercebido pelo debate da esquerda, uma vez que se trata da tentativa de transformação de sua canção mais emblemática – certa vez chamada de “a nossa Marselhesa” – em uma mera canção da reação. O sentido pretendido por Vandré no contexto em que a defendeu no III FIC repousa mais confortavelmente nos documentos de Marighella do que na boca de um Paulinho da Força.

Referências bibliográficas

ARAÚJO, Paulo Cesar de. Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de janeiro: Record, 2010. [Versão digital].

GARCIA, Miliandre. Do Teatro Militante à Música Engajada. A Experiência do CPC da UNE (1958-1964). São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2007.

LEMOS, Nina. Não é o Vandré. Trip, 10 de ago. 2010. http://revistatrip.uol.com.br/trip/nao-e-o-vandre

MATTOS, Romulo. “DJ Coxinha”: a apropriação do rock pelo movimento pró- impeachment. Blog Junho, 28 de mar. 2016. http://bit.ly/1U9tMiF

MELO, Homem Zuza de. A era dos festivais – uma parábola. São Paulo: Editora 34, 2003. [Versão digital].

NAPOLITANO, Marcos. A síncope das ideias: a questão da tradição na música popular brasileira. São Paulo: Editora Fundação Perseu. Abramo, 2007.

RIDENTI, Marcelo. “Revolução brasileira na canção popular”. In: DUARTE, Paulo Sérgio; NAVES, Santuza Cambraia (orgs.). Do samba-canção à tropicália. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ FAPERJ, 2003.

RODRIGUES, Alberto Tosi. Diretas já: o grito preso na garganta. Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo, Cia. das Letras, 1997. [Versão digital].