Fotografia de Erick Dau
Fotografia de Erick Dau

Precisamos conversar sobre a crise da esquerda

Alvaro Bianchi

No imaginário das esquerdas brasileiras a crise sempre foi o tempo escatológico, a possibilidade de redenção dos explorados e oprimidos. Mas o presente parece frustrar as expectativas. Na conjuntura atual a iniciativa pertence às forças políticas conservadoras. As esquerdas assistem a tudo bestificadas, sem conseguir entender o que está ocorrendo. O fim do ciclo político do Partido dos Trabalhadores (PT) atinge a todos. O turbilhão que o arrasta engole também a oposição de esquerda.

O Partido dos Trabalhadores foi tragado por esta crise, mas o que não se esperava aconteceu: a oposição de esquerda, que durante os anos de hegemonia lulista havia procurado manter sua independência e integridade, foi consumida neste processo. O fim do ciclo político do Partido dos Trabalhadores tornou-se, também, o fim da oposição de esquerda como a conhecemos. Paralisada, ela assistiu quase sem reação às manifestações dos golpistas. Boquiaberta, não consegue entender os atos governistas. Incapaz de afirmar-se como uma alternativa concreta, assumiu o papel de oposição verbal. Sua característica mais forte é a fraqueza.

As nuvens no horizonte estão carregadas. Não é o momento de abandonar a resistência, mas já está na hora de começar a perguntar: por que as esquerdas estão em crise? Uma parte da explicação está no próprio PT. Sua história e sua trajetória identificaram esse partido com a esquerda no imaginário popular. Durante décadas, ser de esquerda foi igual a ser petista. E, apesar do esforço que a oposição da esquerda fez para afirmar uma identidade própria, fora das sedes dos sindicatos, das entidades estudantis e dos gabinetes parlamentares poucos eram capazes de distingui-la.

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O fim do ciclo político do PT é o fim de uma forma de imaginação da esquerda. Em seus tempos heroicos, o Partido dos Trabalhadores consolidou uma política bifronte que articulava sindicatos e eleições. O febril ativismo dos anos 1980 era organizado em torno das campanhas salariais e das campanhas eleitorais, dos aparelhos sindicais e das máquinas eleitorais. Não havia espaço, nem tempo, para muita coisa além dos confrontos econômico-corporativos e das escaramuças parlamentares. A moderação do PT, a partir do final de sua primeira década, ocorreu sem que ele precisasse abandonar aquela forma política bifronte. Bastou adaptá-la.

Junho de 2013 foi um aviso de incêndio. Aquela forma de imaginação política chegou ao seu limite e passou a se decompor. A explosão da inquietação do precariado nas ruas das grandes capitais revelou o quão distante a esquerda estava dos grupos sociais politicamente ativos. Jovens trabalhadores sem vínculos com os sindicatos, sem experiência de organização prévia e sem o treinamento político do movimento estudantil tomaram as ruas. Desconfiados dos partidos tradicionais recebiam a esquerda partidária com hostilidade. E eram centenas de milhares.

A única coisa que a esquerda tinha a oferecer a esta juventude era politics as usual: campanhas salariais e eleições. Justamente por isso foi empurrada para a margem dos protestos, perdendo espaço para o senso comum conservador e seus demagogos de plantão. Isto explica porque parte da esquerda passou a reagir de maneira francamente hostil às manifestações e seus protagonistas. A falta de compreensão se converteu, em muitos casos, em aberta reação ao novo movimento que nascia nas ruas.

A agitação política que tomou as ruas em 2013 não terminou. Tornou-se subterrânea. Como a velha toupeira a inquietação reemergiu episodicamente nas explosões de fúria nos canteiros de obra; nas manifestações dos sem-teto; nas mobilizações contra os gastos com a Copa do Mundo; na revolta em escolas de Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro; na primavera feminista; nas greves de professores. Mas essas irrupções de inquietação e de energia criadora ocorreram sempre à margem da esquerda partidária, a qual reagia ao inusitado procurando controlar e desviar a correnteza para o interior de seus aparelhos sindicais e eleitorais.

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Refletir criticamente sobre os dilemas da esquerda realmente existente é o primeiro passo para imaginar uma esquerda pós-petista. É enfrentar o fim do ciclo político no qual as esquerdas encontraram no sindicalismo e no eleitoralismo seus limites. Estes não foram apenas os limites do PT, são também aqueles que a esquerda da esquerda nunca conseguiu transgredir. Tais limites impuseram a cisão entre tática e estratégia e o primado da primeira. Circunscrita nesse pequeno espaço a política perdeu sua dimensão artística, ela se resumiu à técnica de escolha de palavras-de-ordem e seleção de candidatos. A dimensão estratégica da política, aquela que partindo do pessimismo do intelecto aposta na potencialidade do otimismo da vontade criar o novo, esta dimensão foi sufocada.

O primado tática é, também, o primado do presente e do imediato sobre o passado e futuro, sobre a memória e a utopia. A crise das esquerdas é, também, a da justificação da própria existência. Para tornar-se necessária, a esquerda radical precisará encontrar novos lugares; romper os limites geográficos autoimpostos; descobrir novos continentes políticos e sociais; reconhecer a inquietação do jovem precariado nos locais em que ela se manifesta; fundir essa inquietação às lutas políticas e sociais do conjunto das classes subalternas. Precisará, também, ir além do possibilismo sindical e parlamentar, interromper o tempo homogêneo que a empurra inevitavelmente em direção ao precipício.

Não será possível restituir dignidade ao futuro sem recriar a relação entre a imaginação e a ação política. O primado da tática e do presente anulou o pensamento crítico. O antiintelectualismo predominante impede pensar o futuro e afirmar uma imaginação estratégica. Ele impõe o primado da prática sobre a teoria. Submetida, a teoria se confunde com uma hermenêutica de textos sagrados e instrumento de legitimação dos grupos dirigentes. Livre da imaginação utópica a política reproduz indefinidamente o tempo presente, o tempo da sujeição. Uma nova relação entre o ativismo social e atividade intelectual se torna necessária.

A crise fez explodir o continuum do tempo da sujeição. Reinventar a esquerda é uma necessidade, mas agora é, também, uma possibilidade. Uma nova imaginação política pode ter lugar, uma que seja capaz de abandonar o velho modelo que restringia a política das classes subalternas aos sindicatos e aos comitês eleitorais. O primado da tática, do presente e da prática podem dar lugar a novas formas nas quais a estratégia, o futuro e a teoria reencontrem sua dignidade. Reinventar a esquerda é preciso. E para isso será necessário um doloroso processo de autoanalise. O tempo urge. Melhor começar já.