Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

“Que país é este”: a dupla historicidade de uma canção engajada do rock brasileiro

Romulo Costa Mattos

Quando escrevi ao lado de Felipe Demier e do próprio guitarrista da Legião Urbana o livro Dado Villa-Lobos: Memórias de um legionário, ficou claro para os autores o quanto o ofício do historiador contribuiu para a pesquisa sistemática, a contextualização dos materiais artísticos, a checagem (e a conexão) das informações recebidas da memória do músico, o diálogo com a literatura disponível sobre o assunto e a confecção de uma narrativa que evitasse a “ilusão biográfica”.[1] Ao mesmo tempo, todos esses cuidados não podiam redundar em um trabalho de caráter acadêmico, e assim comprometer a lógica de um texto voltado para o grande público – afinal, trata-se de um artista que conheceu o sucesso de massas (até dezembro de 2013, a Legião Urbana vendera 15 milhões e 110 mil discos!). Por essa razão, tive de controlar o impulso de desenvolver em demasia a análise de certos processos históricos iluminados pela trajetória do instrumentista, arranjador e compositor. Decerto, o mesmo ocorreu ao Felipe. Neste artigo, pretendo aprofundar ao menos uma das muitas possibilidades de reflexão contidas na autobiografia de Dado: aquela relacionada com o protesto político realizado pelas bandas dos anos 1980, do qual “Que país é este” (Renato Russo), de 1987, é o exemplo mais contundente.

Jornalistas, historiadores e memorialistas da música popular brasileira construíram uma memória social que associa a canção engajada à cultura do nacional-popular, forte entre os artistas dos anos 1960 (o que é justo), enquanto menospreza a experiência dos roqueiros da década de 1980, que produziram composições de protesto. Por trás dessa realidade está o respeito quase religioso daqueles agentes sociais à MPB, uma “instituição cultural”[2], e o desinteresse dos mesmos pelo rock, considerado uma flor exótica em um país de tão belas tradições musicais. Não se trata aqui de negar a importância política, ou mesmo a permanência no tempo, alcançada por músicas como “Pra não dizer que não falei com as flores” (Geraldo Vandré), de 1968 – a “nossa Marselhesa” [3], na opinião de Millôr Fernandes –, e “Apesar de você” (Chico Buarque), de 1969 – que “se tornou um sinal de reconhecimento entre os que se opunham à ditadura”.[4] Porém, não se pode diminuir o impacto também duradouro de “Brasil” (Cazuza e George Israel), de 1988, e, principalmente, de “Que país é este” (Renato Russo), de 1987 – que contém um dos refrãos mais cantados do rock brasileiro, ao longo das décadas.

Embora tenha sido gravada – conforme indicada acima – nos anos 1980, no disco homônimo da Legião Urbana, “Que país é este” foi composta em 1978, quando Renato Russo liderava a banda punk brasiliense Aborto Elétrico – portanto, na fase final da ditadura militar, que correspondeu à política de “distensão”. Esse é um fato relevante, pois a música é originalmente uma crítica ao Brasil comandado pelos militares. Os seus primeiros versos são significativos nesse sentido: “Nas favelas, no Senado/ Sujeira pra todo lado”. Em que pese a representação negativa desse assentamento habitacional, herdeira inconsciente do discurso higienista de fins do século XIX, é importante perceber que a questão social (exemplificada pelas favelas) teria uma ligação estrutural com o mundo da política (materializado no Senado). Logo, temos a sugestão de um Brasil iníquo quanto a sua realidade social – marcada pela pobreza e falta de infraestrutura nas moradias dos trabalhadores – e ao seu sistema político, descompromissado com a promoção da igualdade e conhecidamente restritivo (no ano anterior, o “pacote de abril” fora responsável por um revés formal no processo de “abertura”).[5]

A primeira estrofe é completada com os seguintes versos: “Ninguém respeita a Constituição/ Mas todos acreditam no futuro da nação”. Aqui Renato Russo se refere à então Carta de 1969, que coroou a hipertrofia do Executivo – já presente na Constituição de 1967, a qual formalizou as mudanças realizadas na estrutura do poder desde o Golpe de 1964. Convém lembrar que, não obstante encerrar um caráter abertamente ditatorial, as constituições do regime repressivo continham passagens indicativas do objetivo da restauração democrática[6] (contradição básica do regime, na medida em que este buscava se legitimar por meio de um discurso de compromisso com a redemocratização). Mesmo assim, como lembra o cantor, ainda se podia encontrar quem acreditasse na prosperidade nacional, como sugeriam os muitos slogans ufanistas do período, como “Até 1964 o Brasil era o país do futuro: agora o futuro chegou”.

A segunda estrofe é iniciada com a menção a um mapa intencionalmente parcial do território brasileiro, que deve ser analisado em consonância com as políticas públicas dos militares. “No Amazonas, no Araguaia, na Baixada Fluminense/ Mato Grosso, nas Geraes, e no Nordeste tudo em paz”. Os primeiros Estados de cada verso foram integrados ao país por meio de rodovias resultantes de obras faraônicas, sendo elas, respectivamente, a BR-230 (conhecida como Transamazônica, e relacionada com desvio de verbas) e a BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA). Para além do Amazonas, o verso inaugural dessa estrofe cita o Araguaia, palco da mais violenta guerrilha da ditadura, e a Baixada Fluminense, onde se desenvolvia outro tipo de ação armada: aquela protagonizada pelos grupos de extermínio. Foi justamente a partir do recrudescimento da política de segurança do regime ditatorial, em 1967, que ocorreu ali um vertiginoso aumento de homicídios dolosos com características de execuções sumárias pela polícia.[7] O verso seguinte menciona ainda Minas Gerais, o Estado de onde partiu a ação militar golpista, no dia 31 de março, e o Nordeste, região onde a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido de sustentação da ditadura, obtinha os seus melhores resultados.

Os últimos versos dessa segunda estrofe tratam da causa operária. “Na morte eu descanso, mas o sangue anda solto/ Manchando os papéis, documentos fiéis/ Ao descanso do patrão”. A ideia de descanso após a morte supõe uma vida de luta (no caso, por motivos políticos e trabalhistas), enquanto o sangue derramado, imagem comum na ditadura, é a garantia de continuidade da insubordinação da classe. Nesse sentido, o tecido líquido esparramado alcança uma documentação, ao que parece, guardada a sete chaves (os “documentos fiéis”) pelos detentores dos meios de produção – talvez os contratos milionários que beneficiaram os empresários que apoiaram com ainda mais afinco o Estado de exceção[8], ou mesmo os falsos títulos de propriedade utilizados pelos grileiros como meio de expropriação dos trabalhadores rurais. A palavra “patrão”, por sua vez, parece indicar um momento de revitalização da luta de classes em 1978, com a eclosão no Novo Sindicalismo, que procurava recuperar a autonomia sindical e trazia consigo a tentativa de modificação estrutural da organização dos trabalhadores.

A terceira e última estrofe de “Que país é este” aborda o genocídio indígena: “Terceiro mundo se for/ Piada no exterior/ Mas o Brasil vai ficar rico/ Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas/ Dos nossos índios num leilão”. Apesar de tal matança remontar ao período colonial, nos “anos de chumbo”, só a construção da já mencionada Transamazônica foi responsável pela morte de cerca de 8 mil índios, segundo os dados levantados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) – que também divulgou a acachapante informação de que houve o treinamento de mão de obra indígena para a prática da tortura contra os seus pares.[9]

Mais amplamente, o questionamento de Renato Russo era potencializado pela crise do “milagre brasileiro”, que propiciava a escalada da dívida externa e da inflação[10], se não bastasse o próprio arrocho salarial que financiara internamente tal política econômica e, consequentemente, depauperara as condições de vida da classe trabalhadora.[11] Quando finalmente chegou ao grande público, em 1987, “Que país é este” foi revalorizada segundo tal contexto histórico.

No encarte do LP homônimo, Renato Russo explicou: “Nunca foi gravada antes porque sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país, tornando-se a música então totalmente obsoleta. Isto não aconteceu e ainda é possível se fazer a pergunta do título, sem erros”. E, no ano seguinte, afirmou: “Em outra época, talvez não estivesse falando Que país é este. Para mim, vai ser muito fácil fazer uma música para alguém que perdeu o emprego, porque estou vendo isso, tenho muitos amigos nessa situação. São coisas que me tocam emocionalmente”.[12] No governo Sarney, o país vivia os efeitos do Plano Cruzado II, que descongelara abruptamente os preços e assim favorecera o reajuste (ilegal) na faixa dos 100%. A superinflação e a nova conjuntura de corrosão do salário mínimo – oriunda das manobras no índice inflacionário e do golpe dado na regra da escala móvel dos salários – explicam a retomada do ritmo ascendente de greves, já em 1986.[13] Embora “Que pais é este” não aborde a corrupção, é plausível que os casos dessa natureza ocorridos no governo Sarney tenham amplificado a repercussão da composição.[14]

Não é possível entender os significados subjacentes à letra de “Que país é este” sem mencionar a sua dupla historicidade, que requer o estudo da ditadura e do primeiro governo da chamada Nova República. É interessante que Renato Russo tenha composto tal canção quando Geisel governava o Brasil, e gravado a mesma durante o mandato de Sarney, ex-presidente do Partido Democrático Social (PDS), que substituíra a ARENA, em 1980. O cantor odiava os militares. Com os amigos da faculdade nos bares de Brasília, ele xingava a ditadura ao microfone – certamente, uma atitude perigosa. E, além de ter sofrido fisicamente com a repressão do período, certas músicas de sua autoria foram vetadas pela burocracia do regime, em 1981 e 1984.[15] O apetite crítico de Renato Russo em relação à ditadura foi manifestado também nas letras de “Veraneio Vascaína” (gravada pelo Capital Inicial, em 1986) e “1965 (Duas Tribos)”, de 1989. E ainda há um contundente depoimento seu ao programa MTV no Ar, de 1994: “E tem gente aqui no Brasil que está com esses papos de ‘ah, não, os militares têm de voltar’. (…) Será que esse povo esqueceu? (…) Será que nós esquecemos de como é ruim não ter liberdade?”.

“Que país é este” é uma canção de três acordes – copiados de I don’t Care, (Ramones), de 1977 –, melodia simples e poesia crua (compatível com a aspereza musical), sustentada pela guitarra (distorcida) de Dado Villa-Lobos, pelo baixo de Renato Rocha e pela bateria de Marcelo Bonfá; há também linhas econômicas de violão nas partes instrumentais, tocadas por Renato Russo. A dramaticidade de sua interpretação vocal cresce nos versos que antecedem o refrão e explode nesse último, com o questionamento político sendo realizado de forma gutural. A gravação chegou ao primeiro lugar do programa Globo de Ouro – que reproduzia semanalmente na televisão as paradas de sucesso das rádios nacionais –, ganhou o prêmio de melhor música de 1987 na votação dos leitores da Bizz (a revista de música mais importante do país), e contribuiu para que o LP do qual faz parte atingisse o topo da lista dos mais vendidos, em março de 1988.

É interessante notar que o repertório da Legião Urbana vem sendo apropriado por agentes de protestos populares desde os anos 1980. No Fora Collor, em 1992, estudantes cantaram os versos de “Tempo perdido” (Renato Russo) – canção de caráter político, sem ser panfletária, segundo o autor[16] –, de 1986, e assim renovaram a trilha sonora das passeatas políticas. Já nas Jornadas de Junho de 2013, cartazes levantados por jovens estampavam uma mensagem inteligentemente ressignificada segundo aquele contexto histórico: “Somos os filhos da revolução”, primeiro verso do refrão de “Geração Coca-Cola” (Renato Russo), de 1985. Mais recentemente, em 2014, moradores removidos da favela da Telerj, na zona norte do Rio de Janeiro, entoaram a letra de “Que país é este” em uma manifestação em frente à Prefeitura.

Os movimentos sociais de esquerda e a Legião Urbana têm uma história de quase 30 anos em comum. Os primeiros observaram os “protocolos de leitura” [17] presentes na obra da banda, que demarcou mais fortemente em “Fábrica” (Renato Russo), de 1986, o seu lado na luta de classes: “Nosso dia vai chegar,/ Teremos nossa vez./Não é pedir demais:/ Quero justiça,/ Quero trabalhar em paz./ Não é muito o que lhe peço –/ Eu quero trabalho honesto/ Em vez de escravidão./ Deve haver algum lugar/ Onde o mais forte/ Não consegue escravizar/ Quem não tem chance/ De onde vem a indiferença/ Temperada a ferro e fogo?/ Quem guarda os portões fábrica? (…)”.

Não custa lembrar que essa gravação foi incluída no disco Dois, que abre com trechos da “Internacional Comunista”, misturada subliminarmente a “Será” (Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá), de 1985. Portanto, embora “Que país é este” seja a composição da Legião Urbana mais relacionada com o ativismo político, ela é apenas a porta de entrada para uma obra que muito acrescentou à tradição da canção engajada no país.

[1] Essa expressão se refere à abordagem de uma história de vida como se ela fosse uma trajetória retilínea em direção a um fim determinado, manifestado desde a infância da personagem enfocada. BOURDIEU, Pierre. “A ilusão biográfica”. In FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1996. p. 183.

[2] NAPOLITANO, Marcos. Seguindo a canção. Engajamento político e indústria cultural na MPB (1959-1969). p. 7. Versão digital revista pelo autor.

[3] VENTURA, Zuenir. 1968 – O ano que não terminou. São Paulo: Planeta do Brasil, 2008. p. 26.

[4] FONTES, Virgínia Maria. Reflexões im-pertinentes: História e capitalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Bom Texto, 2005. p. 261.

[5] Por conta desse pacote de medidas que alterava o regime político, embora o MDB tenha garantido a maioria dos votos nas eleições parlamentares gerais de 1978, o partido governista permaneceu com a maioria através da “nomeação” dos senadores biônicos (2/3 deles eram eleitos pelo voto indireto, de acordo com as novas regras).

[6] MENDONÇA, Sonia Regina, FONTES, Virgínia. História do Brasil recente 1964-1992. São Paulo: Editora Ática, 2004. p. 45.

[7] ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio. Uma história da violência na baixada fluminense. Duque de Caxias, RJ:APPH, CLIO, 2003. p. 126.

[8] AZENHA, Luiz Carlos. Empresários que apoiaram golpe de 64 ficaram milionários com dinheiro público. Portal Metrópole, 21 de fev. 2015.

[9] MOURA, Athos. Como a ditadura matou 8 mil índios na Amazônia. O Dia, 31 de março de 2015; CAMPOS, André. Treinados pela PM, índios-soldados reprimiam seus pares. Última Instância, 25 de jun. 2013.

[10] A relação entre o volume da dívida externa e o Produto Interno Bruto (PIB) foi 18,9%, em 1980, e 46,3%, em 1984. Por sua vez, a inflação chegou a 40,8%, em 1978, e a 211%, em 1983. SILVA, Francisco Carlos T. da. “A modernização autoritária: do golpe militar à redemocratização 1964/1984”. In: LINHARES, Maria Yedda. História Geral do Brasil. São Paulo: Campus, 1990. Respectivamente, p. 299 e 287.

[11] No ano de 1974, o salário mínimo chegou a seu nível mais baixo, representando em termos reais pouco mais da metade (54%) do valor estabelecido em 1940. MENDONÇA, Sonia Regina de, FONTES, Virginia Maria. História do Brasil Recente – 1964-1992. São Paulo: Editora Ática, 1994. p. 67.

[12] ASSAD, Simone. Renato Russo de A a Z. As Ideias do Líder da Legião Urbana. Campo Grande: Letra Livre, 1997. p. 195.

[13] MACIEL, David. De Sarney a Collor. Reformas políticas, democratização e crise (1985-1990). São Paulo: Alameda/ Goiânia, Funape, 2012. p. 202-4. Em 1987, inflação atingiu a incrível marca de 415,83%.

[14] Sobre esse aspecto, podemos citar: a CPI da Corrupção, o Escândalo do Ministério das Comunicações, o Caso Chiarelli, o Caso Ibraim Abi-Ackel e o Escândalo da Administração de Orestes Quécia.

[15] MARCELO, Carlos. Renato Russo: o filho da revolução. Rio de Janeiro: Agir, 2012. p. 143, 184-5, 284-5.

[16] ASSAD, Simone. Renato Russo de A a Z. As Ideias do Líder da Legião Urbana. Campo Grande: Letra Livre, 1997. p. 195.

[17] Os “protocolos de leitura” são as senhas, explícitas ou implícitas, que um autor inscreve em sua obra a fim de produzir uma leitura correta dela, aquela que estará de acordo com sua intenção. CHARTIER, Roger. CHARTIER, Roger. Práticas de leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. pp. 95, 96.