Ilustração de Mácia Teixeira
Ilustração de Mácia Teixeira

Rede Sustentabilidade: contradições na centro-esquerda?

Eric Gil

Há três anos escrevi um artigo sobre a Rede Sustentabilidade e Marina Silva, publicado no site Pragmatismo Político[1]. O cerne da questão era se a tão propagada “nova política” da Marina Silva e seu então pretendido novo partido estava mais para uma hipocrisia velada ou traços de uma direita oportunista.

Muita coisa passou desde então: Marina Silva se candidatou à Presidência por outro partido, o PSB, e depois de dois anos a Rede Sustentabilidade foi de fato registrada no TSE e hoje é um partido legalizado.

Com um discurso de “nova política” – ainda que muito contraditório – e se autodeclarando próxima à partidos como o Podemos, a Rede tem abalado partidos da centro-esquerda e mesmo da esquerda brasileira, como o PCdoB, PT e PSOL. O próprio PSOL está votando alianças eleitorais municipais com a Rede para este ano (além da candidatura com a Raiz, da Luiza Erundina, em São Paulo), o que anda incomodando a parte socialista do partido.

Para se ter uma ideia de como tem incidido sobre a base parlamentar destes partidos, vejamos qual é a origem partidária dos atuais cinco parlamentares da Rede no Congresso Nacional.

Origem partidária de senadores e deputados federais da Rede Sustentabilidade

Parlamentar

Partido de origem

Cargo

Randolfe Rodrigues

PSOL

Senador

Alessandro Molon

PT

Deputado Federal

Aliel Machado

PCdoB

Deputado Federal

João Derly

PCdoB

Deputado Federal

Miro Teixeira

PROS

Deputado Federal

Fonte: Câmara dos Deputados; Senado Federal

Nesta tabela expomos apenas parlamentares do Congresso Nacional, o que acaba não abarcando, por exemplo, duas das principais figuras da Rede: Marina Silva e Heloísa Helena, a primeira vinda do PV com passagem pelo PSB e a segunda do PSOL.

O que dizer do deputado federal Miro Teixeira? Primeiro desses parlamentares a se filiar à Rede, teve origem no PROS, partido reconhecidamente conservador. É verdade que a carreira de Miro Teixeira é longa, e nela há diversos partidos de vários espectros ideológicos, como (P) MDB, PP (o extinto em 1980, anexado ao PMDB) e PDT, mas seus dois anos como deputado federal por um dos partidos mais à direita do país o denuncia.

A Rede está apostando em uma tática de convencimento de que ela é a alternativa “moderna” aos partidos políticos tradicionais brasileiros, com um foco em igualdades e alcance da juventude. Com propostas mais progressistas do que normalmente ocorre com partidos de centro, a Rede fala sobre o combate ao racismo, homofobia e machismo (inclusive denunciando o Congresso como machista) em seus materiais de propaganda e documentos.

Além da origem, seus próprios dirigentes não ajudam. Marina Silva, no início deste mês, lamentou a morte de Jarbas Passarinho, homenageando-o em sua página de Facebook. Jarbas, um dos principais colaboradores da ditadura civil-militar brasileira nasceu no mesmo estado de Marina, argumento o qual a ex-senadora justificou sua homenagem.

E nas eleições? Será que a Rede se mostrará diferente? Isto é o que quer apostar parte do PSOL. Contradizendo suas próprias críticas pela aliança Rede-PSB, o PSOL aposta em partidos de fora de suas frentes políticas tradicionais (PSTU e PCB), aguardando um maior retorno eleitoral (já que a REDE deve conseguir mais votos do que os referidos partidos). Ao menos na eleição para a Presidência da República em 2014, a REDE mostrou-se mais do mesmo. Além de entrar no PSB e ser vice de um típico político tradicional de Pernambuco, como Eduardo Campos, Marina contou com ideólogos reconhecidamente de direita, como Maria Alice Setúbal (herdeira de Olavo Setúbal, industrial, banqueiro dono do Itaú e ex-prefeito da cidade de São Paulo pela ARENA, falecido em 2008) e o economista Eduardo Gianetti.

O que esperar de um partido tão vacilante nós não temos certeza, mas a experiência até agora não anima ninguém. Se a esquerda socialista passar a flertar de fato com tal partido, optando pelo “bem de todos, independentemente da classe” (com sua financiadora sendo uma das grandes acionistas da Itaúsa – holding controladora de Itaú-Unibanco e outras diversas empresas – isto realmente faz sentido para a Rede), como dizem em seu programa televisivo de meses atrás, os socialistas só terão a perder.

Nota

[1] Eric Gil. Rede Sustentabilidade: uma nova política, ou uma nova direita?. Pragmatismo Político, 1 set. 2013. Disponível emhttp://bit.ly/1PptGhE