Ilustração de Antonio Máximo
Ilustração de Antonio Máximo

Reflexões sobre a ascensão da direita

Gilberto Calil

É inegável o intenso avanço da direita no Brasil nos últimos anos, expresso em formas muito diversas como manifestações públicas, disseminação de visões conservadoras nos terrenos social, político, econômico, cultural e moral e avanço de articulações políticas envolvendo grupos religiosos fundamentalistas, lideranças ruralistas e tradicionais grupos políticos antipopulares.[1] O recente lançamento do imprescindível livro A onda conservadora colocou em destaque alguns dos inúmeros aspectos e formas de manifestação desta ascensão da direita: atuação de meios de comunicação e aparelhos privados de hegemonia voltados à disseminação de visões de mundo reacionárias, privatizações e ajuste social, repressão policial, machismo, instrumentalização do discurso “anti-corrupção”, reordenamento urbano excludente, mercantilização da vida, avanço do “politicamente incorreto” agressivo e desqualificador… São muitas as expressões e evidências deste processo.

Desde março de 2015, com a realização de grandes manifestações de massa de inequívoco caráter conservador, articuladas em torno da defesa do afastamento da presidenta Dilma Rousseff e de um seletivo “combate à corrupção”, tornaram-se recorrentes no interior da esquerda e sobretudo da autodesignada “esquerda governista” interpretações que estabelecem uma relação direta entre as manifestações de Junho de 2013 e as manifestações conservadoras de 2015 e 2016, a partir do pressuposto nem sempre claramente enunciado de que se não tivessem ocorrido as manifestações populares de 2013 também não teriam ocorrido as recentes manifestações conservadoras. Nesta abordagem, imagina-se que se não tivessem existido as Jornadas de Junho, não existiriam as manifestações conservadoras e tudo seguiria correndo bem com a estratégia de conciliação de classes que orienta o governo petista.

Entendemos, ao contrário que não há relação de causa e efeito entre ambos os processos. Ainda que já em 2013 grupos reacionários tenha buscado disputar os rumos das mobilizações e também levassem às ruas suas demandas e perspectivas ideológicas, era claro que se impunha como posição majoritária a afirmação de reivindicações por mais direitos sociais e contra a repressão policial. Naquele contexto, grupos claramente identificados com posições à direita fracassaram continuamente em suas tentativas de organizar manifestações com pautas nitidamente reacionárias – é a caso da chamada “greve geral sem sindicatos” convocada para o início de julho de 2013 e que malogrou rotundamente; da “Marcha da Família contra o Comunismo”, convocada por Maycon Freitas (pateticamente designado como “O líder que surgiu das ruas” pela revista Veja) e sua obscura União Contra a Corrupção (UCC), que reuniu menos de 100 manifestantes e da “Operação 7 de Setembro” que pretendia explicitar a força do nacionalismo de direita nos desfiles do “Dia da Pátria”, com resultados igualmente inexpressivos.

Dois anos passados, é imperativo reconhecer que há um elemento novo na conjuntura política brasileira: organizações e agrupamentos claramente reacionários lograram êxito em realizar manifestações massivas, convocadas em defesa do afastamento pretensamente constitucional da presidenta da República, nas quais se destacavam faixas e cartazes pedindo “intervenção militar constitucional”, uma reivindicação explicitamente inconstitucional e golpista. As manifestações realizadas em 15 de março de 2015 teriam reunido mais de dois milhões de pessoas de acordo com as sempre suspeitas contagens realizadas pela Polícia Militar. Nos termos nada isentos da revista Época, osprotestos de 15 de março levaram às ruas a maior multidão em um único dia na história das manifestações políticas no Brasil”.[2] Superdimensionamento midiático à parte, é inegável que foram manifestações massivas e que explicitaram uma capacidade de mobilização que contrasta claramente com os fracassos de dois anos antes, constituindo-se nas maiores manifestações de perfil conservador/reacionário desde as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, realizadas em 1964.

Temos desta forma uma primeira e fundamental contraposição entre “2013” e “2015/2016”. De um lado, enormes mobilizações populares que colocaram em pauta demandas por ampliação da democracia, denúncia da repressão policial e reivindicação por direitos sociais e melhores serviços públicos. Em síntese, demandas de qualificação da democracia e em defesa do Estado social. De outro, um avanço da direita, com destaque para posições fascistizantes, de regeneração da ditadura, hostilização pública da esquerda e mobilizações golpistas sob distintas formas – da defesa do impeachment à reivindicação por “invervenção militar”. A contraposição entre um “2013” contestatório e um “2015/2016” conservador precisa ser matizada em alguns aspectos. Em primeiro lugar, é imprescindível observar que as manifestações populares que se geralizaram em junho de 2013 (nomeadamente as manifestações pela redução dos valores das tarifas de ônibus), não deixaram de ocorrer, subsistiram enfrentarando uma duríssima repressão policial, criminalização judicial e total invisibilidade midiática. Em condições adversas, mantém vivo o legado de Junho de 2013. De outro lado, o fracasso das organizações e lideranças de direita na promoção de atos públicos massivos em 2013 não significa que já naquele momento não houvesse uma base social ideologicamente adestrada para sustentar posições conservadoras, reacionárias, anticomunistas e antipopulares.

Um elemento fundamental que se encontra ausente em muitas análises é a contribuição dos próprios governos petistas ao avanço da direita. , mas se dá também e sobretudo como resultado dos atos concretos do governo de Dilma Rousseff. O início de seu segundo mandato foi marcado pelo projeto de Lei Antiterrorismo e pelo anúncio da chamada “Agenda Brasil”, que juntos implicariam no maior retrocesso social e político desde a promulgação da Constituição de 1988 – um retrocesso simultaneamente às liberdades democráticas e aos direitos sociais.

A Lei Antiterrorismo, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidenta, implica em um nítido salto de qualidade na escalada repressiva, criando base legal para o enquadramento dos movimentos sociais como organizações terroristas. Como esclarecem os professores Marta Machado e Guilherme Gonçalves, seu objetivo é garantir segurança jurídica para capitais investidos no país (especialmente nos mega-eventos), uma segurança jurídica que “não é aquela que garante as liberdades fundamentais de associação e manifestação, mas a que impede qualquer fonte de riscos para os novos negócios”.[3] Machado e Gonçalves lembram que a proposição do PL 2.016/2015 é de autoria conjunta dos ministros da Justiça (José Eduardo Cardoso) e da Fazenda de então (Joaquim Levy), demonstrando que sua preocupação central é com o interesse dos investidores, especificamente nos termos impostos pelo Grupo de Ação Financeira (GAFI), e que os movimentos sociais são seu principal alvo:

 “Se o fim social último do GAFI é proteger a integridade do sistema financeiro, quando tal integridade está associada à promoção de um megaevento esportivo, seu foco de oposição – os movimentos políticos e sociais – tornam-se fatores de insegurança para os negócios. Neste contexto, não é difícil justificar o temor por parte dos movimentos sociais de serem considerados os “terroristas”, alvo dessa lei. A Análise dos aspectos técnicos e jurídico-penais do PL n. 2.016/2015 mostra que este risco não é apenas uma elocubração conspiratória”.[4]

Em termos práticos, a indefinição dos termos e ações que podem ser objeto de punição aumenta os riscos, pois a Lei “é composta de expressões indeterminadas e maleáveis capazes de comportar, a gosto ou conforme ideologia do intérprete, condutas e contextos dos mais diversos possíveis”.[5] Para dimensionar os riscos, é bom ter em vista também o caráter classista da Justiça brasileira e sua histórica e sistemática má vontade contra os movimentos populares.

A Agenda Brasil foi apresentada em agosto de 2015, como uma proposta articulada para enfrentar a crise econômica, estruturada em torno de três eixos: “melhoria do ambiente de negócios e infraestrutura”; “equilíbrio fiscal” e “proteção social”. Foi produzida em reuniões que envolveram os ministros da Fazenda, Planejamento, Comunicação e Minas e Energia, e os senadores peemedebistas Renan Calheiros, Romero Jucá e Eunício Oliveira, com o aval da presidenta da República. Objetivamente, implicam em um sistemático ataque aos direitos trabalhistas e favorecimento ao grande capital.[6] O conjunto das 28 propostas, com a eventual exceção de uma menção à revisão do tributo sobre herança (que ainda assim não propõe progressividade) tinha o sentido claro de favorecimento do capital em detrimento do trabalho, incluindo aumento da idade mínima para aposentadoria; imposição de condicionantes aos reajustes salariais do funcionalismo público; possibilidade de cobrança pelo oferecimento da saúde pública; garantia aos “contratos” em detrimento de condicionantes ambientais e trabalhistas; estímulo à mineração e aceleração da avaliação de impactos ambientais; ampliação das terceirizações; e imposição de limites à demarcação de terras indígenas. Em síntese, redução de direitos, desregulamentações e estímulo aos grandes capitais (em particular as mineradoras e o agronegócio). Antes da apresentação da Agenda Brasil, o governo Dilma já tinha encaminhado ao Congresso e obtido a aprovação de outras medidas de retrocesso social, como a mudança das regras do Seguro Desemprego, dificultando sua obtenção; e a imposição de restrições ao recebimento de pensões, diminuindo na maior parte dos casos o valor a ser recebido. Não pode haver dúvidas quanto ao caráter conservador e antipopular deste conjunto de propostas. Uma comparação entre a “Agenda Brasil” e o projeto negociado entre Michel Temer e os grupos empresariais que sustentam o Golpe em curso, denominado “Ponte para o Futuro” evidencia um sentido geral bastante semelhante, ainda que a intensidade e radicalidade dos ataques ao patrimônio público e aos direitos dos trabalhadores seja maior no projeto apresentado pelos golpistas.

Ter clareza de que não há no Brasil um governo “de esquerda” ou mesmo de “centro-esquerda” é condição necessária para compreender o sentido geral do processo em curso, ainda que isto crie uma dificuldade evidente: como explicar a constituição de um conjunto de mobilizações estritamente conservadoras e golpistas e que identifica seu adversário como um governo de esquerda (muitas vezes inclusive tratado como “comunista”), se este governo objetivamente coloca em prática medidas conservadoras? A questão é espinhosa e carece de uma reflexão cuidadosa.

A ascensão da direita

Da injustificável hipótese que explica a ascensão da direita como reação ao caráter “progressista” dos governos petistas, deriva-se usualmente a suposição de que as manifestações de junho de 2013 estão na origem da atual “onda conservadora”. Tal posição pode ser exemplificada nos textos do jornalista ultragovernista Paulo Henrique Amorim, que caracterizou o Movimento do Passe Livre como “de classe média”, afirmando que ele “foi abduzido pelo PiG [Partido da Imprensa Golpista] e sobretudo pela Globo”, “que não há passeatas ingênuas” e que seus integrantes foram convertidos na “bucha de canhão do Golpe contra Dilma”. Sua argumentação torna-se patética quando ignora a violenta repressão comandada pelo governo de Geraldo Alckimin,[7] acusando absurdamente o governo PSDB de não ter reprimido e controlado com suficiente veemência as manifestações: “Onde já se viu uma Secretaria de Segurança não saber com a devida antecedência onde vão 50 mil manifestantes? E os direitos constitucionais dos não manifestantes?”[8]

Os resultados da eleição de 2014 – a vitória apertada de Dilma Rousseff no segundo turno e a eleição do usualmente chamado “Congresso mais conservador da história” levaram a uma nova onda de condenações das Jornadas de Junho, identificadas como marco de uma virada ou ascensão conservadora, como bem exemplifica um texto publicado no sítio Carta Maior, de perfil claramente governista:

“Há dois pontos de partida para entender a decisão deste primeiro turno nacional, encerrado ontem. O primeiro é junho de 2013 e o segundo, o Congresso Nacional eleito. Toda captura de flutuações e acidentes eleitorais não pode deixar de ser sobrepujada pelo fato de que a decisão de domingo (5) contém o moralismo reacionário e uma reação conservadora sem precedentes, pela via eleitoral, em décadas. (…)

A resposta veio com um Congresso mais à direita: mais conservador e mais evangélico. Não há novidade histórica nisso. A todos os movimentos desestabilizadores mobilizados com ajuda de redes sociais, dos últimos anos, no mundo, seguiram-se reações autoritárias, conservadoras e regressivas socialmente. O que se passa é que a resposta à demanda moral é e sempre foi esta: o abrigo seguro da zona de conforto perceptiva representado pela estabilidade prometida da direita. Esse truque moralista da direita tornou-se possível, agora, com a legitimação que as grandes manifestações de junho lhe propiciaram. Poderia ser apenas uma piada ter Aécio Neves reivindicando o “legado” de junho. O problema é a legitimidade com que ele faz isso: trata-se de tomar para si a reclamação contra “essa sujeira toda” (grifos meus)”.[9]

Desta forma, as Jornadas de Junho são reduzidas a um movimento desestabilizador que teria sido organizado em torno de demandas morais, o que teria conferido legitimidade a Aécio Neves para reivindicar seu legado. Esta é certamente uma interpretação extremamente cômoda ao governo e ao partido da presidenta, permitindo-lhe explicar seu recuo eleitoral como resultado de uma espécie de conspiração e não como produto do repúdio popular a suas próprias opções. A disseminação desta interpretação fantasiosa, além disto, omite um elemento fundamental: o avanço conservador é muito anterior às Jornadas de Junho.

Interpretações e visões de mundo conservadoras de diferentes matizem vêm sendo crescentemente disseminadas há anos através de inúmeros aparelhos privados de hegemonia.[10] Estes setores buscaram intervir em junho de 2013, tentaram disputar os rumos do movimento e promoveram agressões contra militantes de esquerda em vários lugares. Sem dúvidas, sua intervenção foi amplificada pela grande mídia, que buscou produzir lideranças conservadoras e construir uma interpretação para os protestos com sentido inteiramente antagônico às demandas sociais que deram origem às manifestações.[11] No entanto, estes setores não lograram alterar o eixo central das Jornadas, efetivamente constituído em torno da defesa de direitos sociais e denúncia da repressão, ainda que em parte das manifestações este eixo tenha dividido espaço com a pauta anticorrupção sugerida e estimulada pela grande mídia.

Então, se as Jornadas de Junho não são a origem da tal “onda conservadora”, porque não impediram e eleição de um Parlamento efetivamente muito conservador, no qual se destacam com grandes votações pastores fundamentalistas, integrantes da bancada da bala e representantes do “agronegócio”? Para além dos limites gerais e das distorções particulares que caracterizam a democracia brasileira e que não podem ser desconsiderados na avaliação de um resultado eleitoral, há que se considerar que ainda que as Jornadas de Junho tenham propiciado um momento de ampla disseminação de demandas populares, elas não tiveram a dimensão e solidez necessárias para fazer impulsionar a inversão da tendência mais ampla de propagação de visões antipopulares, socialmente conservadoras, economicamente liberais e em muitos casos marcadas pelo fundamentalismo religioso e/ou pela negação dos direitos humanos e defesa incondicional da repressão policial. Na televisão, no rádio, nas redes sociais, na imprensa escrita e em inúmeras organizações constitutivas da sociedade civil é notória a presença e agressividade de intelectuais e políticos que sistematicamente disseminam tais posições. Portanto não parece realista imaginar que um momento de grande mobilização – intensa, mas efêmera -, por mais impacto que tenha tido, fosse capaz de desconstituir um processo de avanço conservador que conta com inúmeras e sólidas bases materiais – ou aparelhos privados de hegemonia.

Diversas outras mobilizações, movimentos, greves e ocupações desde então se colocaram na contramão da “onda conservadora”: as mobilizações de denúncia dos gastos da Copa do Mundo em 2014 que se realizaram enfrentando intensa repressão; as greves do funcionalismo público do Paraná em 2015, cuja repressão teve seu ápice no “Massacre de 29 de abril”;[12] as ocupações estudantis que impediram o fechamento de escolas públicas em São Paulo no final de 2015 e retornam em 2016 para denunciar a frande da merenda; e as ocupações estudantis em Goiás em protesto contra a gestão das escolas públicas por Organizações Sociais (OS). São inúmeras lutas que assim como as Jornadas têm o mérito de evidenciar o esgotamento da capacidade do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores de cooptar e paralisar os movimentos sociais, e que ao mesmo tempo constituem enfrentamento concreto de medidas de retrocesso social e ataque aos direitos sociais e trabalhistas impostos pelo governo federal e por governos estaduais e municipais dos diferentes partidos políticos, com ampla cumplicidade dos poderes legislativo e judiciário.

Ainda assim, o movimento geral segue sendo de avanço conservador, e isto tem razão muito concreta: não se trata de um movimento espontâneo, mas uma ofensiva ideológica alicerçada em vasta rede de aparelhos privados de hegemonia, que inclui desde páginas do Facebook até organizações inter-empresariais, envolvendo vultuosos recursos e que conta com sólida estrutura organizativa. São as trincheiras da guerra de posição de que fala Gramsci, sistemática e meticulosamente constituídas pelos grupos dominantes, cujo avanço é facilitado pela inexistência no campo das classes trabalhadoras de estruturas organizativas de semelhante dimensão – especialmente porque muitas das trincheiras construídas pelas classes trabalhadoras na década de 1980 (como a Central Única dos Trabalhadores) fragilizaram-se e deixaram de ser instrumentos de luta em virtude do processo transformista que atravessou o Partido dos Trabalhadores e incidiu nas estruturas por ele comandadas.[13]

Do nosso ponto de vista é inegável que há um avanço ideológico de posições socialmente conservadoras, culturalmente obscurantistas e economicamente liberais e antipopulares, aliada a uma expressiva popularização de intelectuais e lideranças políticas que podem ser caracterizadas como de extrema-direita, defendendo posições fascistizantes e um discurso violentamente antipopular. É igualmente inegável que a virulenta oposição aos governos petistas e em especial de Dilma Rousseff é combustível decisivo para este avanço. O PT e o governo Rousseff aparecem como objeto principal contra o qual se dirige este discurso. Recoloca-se então um grande paradoxo: como é possível que seja apresentado como “ameaça comunista” um governo que impõe contra-reformas, mantém uma política econômica estritamente neoliberal, ainda que temperada por políticas assistencialistas focalizadas, e ainda consegue manter parte dos movimentos sociais submissa? Nossa hipótese é que se trata da construção de uma tropa de choque fascista, cujo crescimento é fomentado pelas misérias do governo petista, mas que visa sobretudo os movimentos populares autônomos e as eventuais alternativas reais em processo de formação e que têm como perspectiva a construção de uma hegemonia do mundo dos trabalhadores.

A relação da grande burguesia brasileira com tais movimentos de extrema-direita é bastante elucidativa do processo em curso. Não é difícil observar que os aparelhos privados de hegemonia que propagam posições de extrema-direita contam com fartos recursos.[14] Ainda assim, até quase o final de 2015, as entidades representativas da grande burguesia resistiram a aderir abertamente à defesa do afastamento de Dilma Rousseff, possivelmente preocupadas com a instabilidade econômica e social que seria provocada se o processo seguisse os rumos da ruptura institucional propagada pelos adeptos de uma “intervenção militar constitucional” [sic]. A grande burguesia brasileira passou a endossar explicitamente a perspectiva golpista, a partir da adesão da FIESP na manifestação anti-Dilma de 13 de dezembro de 2015 (com a “participação” do pato de borracha que pretende simbolizar seu repúdio aos “altos impostos”). Ainda assim, naquele momento manifestavam-se explicitamente contra o afastamento de Rousseff outras importantes entidades representativas do grande capital, como a FIRJAN,[15] e também lideranças empresariais como o presidente do Banco Itaú-Unibanco, Roberto Setúbal.[16] De forma análoga, também os grandes meios de comunicação – em particular a Rede Globo e a Folha de São Paulo – que durante o ano de 2015 buscavam manter um elevado desgaste do governo Rousseff, com permanentes denúncias e uma cobertura que hiperdimensiona as manifestações da oposição de direita, sem a defesa explícita do afastamento da presidenta, deslizaram sua posição em sentido semelhante ao seguido pela FIESP, conformando claramente um bloco que articulava no sentido de conseguir o afastamento de Dilma Rousseff, com o mínimo possível de sobressaltos institucionais, de forma a desbloquear a agenda de contrarreformas, especialmente os ataques aos direitos trabalhistas e privilégios aos grandes capitais, nos termos propostos no documento “Ponte para o Futuro”, verdadeira plataforma informal pela “candidatura” de Michel Temer, publicado em 29 de outubro de 2015.[17]

Por que os governos petistas ensejam o avanço ideológico e o crescimento organizativo da direita e da extrema-direita? A despeito dos incontáveis atos em prol do grande capital e em detrimento dos direitos dos trabalhadores, Lula da Silva, Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores são ainda percebidos pela maior parte da população como expressão da “esquerda”. Assim o crescimento da direita é impulsionado pelas inconsistências e contradições do governo Rousseff, pela desmoralização da ideia do que é “ser de esquerda” em consequência das barganhas e ataques perpetuados por estes governos e também em virtude de sua opção pela afirmação da ordem através da imposição de uma escalada repressiva, particularmente intensa depois de junho de 2013.

A vigência de um governo que se apresenta como sendo de esquerda, juntamente com sua opção sistemática pelo não enfrentamento ideológico contra a direita – e na maior parte dos casos operando mesmo a explícita reificação das premissas ideológicas do capitalismo -, oferece condições ótimas para o avanço da direita. Embora tenha falecido em 2013, o sociólogo e militante Edmundo Fernandes Dias produziu a interpretação que a nosso ver melhor permite compreender a relação entre os governos petistas, sua rendição ideológica e a ascensão da direita:

 “Luís Inácio e o conúbio sindical / movimentos sociais e as direções das frações da classe dominante constituíram uma alternativa política com características relativamente novas na política brasileira. (…) [Luís Inácio] aprofundou a destruição de importantes setores da economia brasileira e da política nacionais. Aprofundou a ópera tucana que já vinha, pelo menos, do (des)governo Collor. Um dos elementos fundamentais foi a ampliação da burocracia controladora das finanças, deixando terreno livre à sanha das frações financeiras. (…) Esta ação se deu nos mais diversos planos. Citemos, de passagem, o processo de destruição do serviço público: educação, saúde, seguridade. Nestes campos, a entrega ao privatismo foi ampla, geral e irrestrita. (…) Caracterizam-se aqui formas de revolução passiva com a incorporação de figuras consideradas (certo ou errado) representantes das classes subalternas. Partidos e movimentos radicalizados antes da sua chegada ao governo, chefiados por personagens de grande legitimidade política e social ao tomar posse, praticaram um programa absolutamente contrário ao que falavam antes. Decapitaram as direções dos subalternos, transformando-nas em administradores ditos modernizantes do Estado capitalista e os antigos compagnons de route e movimentos sociais antes partícipes do mesmo movimento são agora tratados como sabotadores, fracassomaníacos, etc. Particaram um giro de 180º, sem sequer ocultar o fato, embora negassem no plano dos discursos para as massas”.[18]

Tal decapitação da direção dos subalternos produziu efeitos organizativos e ideológicos dramáticos, percebidos pelo arguto analista já em um momento em que os governos petistas possuiam alta popularidade (a publicação do livro é de 2012), retirando das classes trabalhadoras as condições para afirmação de um discurso hegemônico próprio: “A hegemonia sem hegemonia, caso típico de revolução passiva, necessita e requer um discurso que neutralize a voz, o projeto dos antagonistas. Nada de estranho que os dominados reproduzam como seus a voz e o projeto dos antagonistas”.[19] A desqualificação dos movimentos sociais autônomos e das perspectivas de organização social que sejam expressão de outro projeto hegemônico, atitudes que são usualmente identificadas com a direita e a grande imprensa, passaram a ser propagadas, com muito maior eficácia, pelos novos convertidos à lógica capitalista. É este o sentido, por exemplo, da manifestação do prefeito de São Paulo Fernando Haddad ironizando a reivindicação de defesa do “passe livre”: “Tem tanta coisa que podia vir na frente, podia ser almoço grátis, jantar grátis, ida pra Disney grátis. Começa a ficar uma conversa que você não sabe aonde vai dar”.[20] A afirmação – proferida por um intelectual que é notório conhecedor da teoria marxista – não pode ser considerada um engano ou algo irrelevante. A referência explícita ao slogan neoliberal de que “não existe almoço grátis” e a absurda analogia entre a reivindicação pelo direito ao passe livre com uma “ida a Disney grátis” incidem intencionalmente para a desqualificaçao do projeto alternativo de organização da cidade proposto pelo Movimento pelo Passe Livre, e portanto para a naturalização da estruturação urbana subordinada aos princípios mercantis. Como indicava Dias, “Trata-se da captura da subjetividade dos antagonistas. A burguesia tratou, com grande êxito, de transformar-se em horizonte ideológico, político e econômico da história. Tudo e todos estavam (e estão) submetidos a este processo de naturalização, de deshistoricização. A vida é vida burguesa, como burguesas são a família, a escola e o trabalho, lugares privilegiados de socialização, onde os subalternos são moldados”.[21]

Também não pode surpreender, portanto, a explícita adesão de Lula da Silva ao liberalismo: “Eu sou um liberal… Veja, eu, na verdade, o que eu acho, eu sou um cidadão muito pragmático e muito realista entre aquilo que eu sonho e aquilo que é a política real”.[22] A oposição entre aquilo que expressa a perspectiva de outra hegemonia – desqualificada como “sonho” – e a “política real”, valorizada como “pragmática” e “realista” tem evidentes efeitos ideológico na reificação da ordem vigente. Uma vez mais, a crítica de Dias mostra-se pertinente e atual: “Partidos que se dizem e se pensem como de esquerda reproduzem e praticam a velha e surrada cantilena capitalista: fora da ordem do Capital não há saída, sequer vida inteligente”.[23]

É justamente o “pragmatismo” e o “realismo político” que justificam a estratégia de construção da chamada “governabilidade” através da realização das alianças dos mais diversos tipos, fortalecendo lideranças conservadoras, fisiológicas, integrantes das bancadas religioso-fundamentalistas, da bala e do agronegócio, quando não guindou diretamente para posições chaves do próprio governo destacadas lideranças reacionárias (caso de Kátia Abreu no Ministério da Agricultura. Gilberto Kassab no Ministério das Cidades, Afif Domingos no Ministério da Micro e Pequena Empresa ou George Hilton no Ministério dos Esportes, dentre muitos outros). Não é difícil imaginar o conteúdo das políticas implementadas por lideranças como estas, além do fato evidente de que ao saírem do governo estarão fortalecidos pelas posições de poder de que usufruíram – o que se evidenciou no recente “desembarque” de grande parte dos ministros às vésperas da votação do impeachment, muitos dos quais são já cotados para integrar o governo de Michel Temer quando o Golpe se concretizar.

A rendição ideológica desta “ex-querda” é portanto elemento fundamental do quandro em que se dá o avanço ideológico da direita, sobretudo porque desqualifica e deslegitima perspectivas e projetos que proponham pensar a organização da sociedade em outras bases, ao mesmo tempo em que tornam possível que a direita atribua à “esquerda” os perversos efeitos sociais da crise capitalista, mesmo permanecendo a economia gerida sob a perspectiva de total subordinação aos interesses e imposições do capital financeiro transnacionalizado. Assim, “a esquerda foi colocada no canto do ringue. Perdeu a iniciativa. Foi (e é) pautada pela direita. (…) A política reduzida a um jogo de emoções favorece sempre o status quo ante”.[24] Brilhante conclusão, sobretudo se considerarmos que foi proferida em um momento em que o desgaste do governo petista era muito menos visível, embora as opções fundamentais já estivessem consolidadas, determinando a impotência e subordinação do governo petista, condenado a negociar sua sobrevivência com os representantes da grande burguesia e com os setores mais tradicionais e fisiológicos da política brasileira, em condições cada vez mais desfavoráveis – até que mesmo isto tenha se tornado inviável.

Notas

[1] Este texto é um recorte parcial e modificado do capítulo “Estado, Capitalismo e Democracia no Brasil recente”, que será publicado em CALIL, Gilberto, SILVA, Carla Luciana & SILVA, Márcio Both. Ditadura, Transição e Democracia: estudos sobre a dominação burguesa no Brasil contemporâneo. Porto Alegre: FCM, 2016 (no prelo).

[2] Manifestação Anti-Dilma entra para a história. Protestos de 15 de março levaram às ruas a maior multidão em um único dia na história das manifestações políticas no Brasil”, Revista Época, 15/03.2015. http://glo.bo/1XLveaS, consultado em 03/05/2016.

[3] MACHADO, Marta Rodrigues de Assis & GONÇALVES, Guilherme Leite. “Por uma lei antiterrorismo de Estado. Ou não sobrará ninguém”. Le Monde Diplomatique Brasil, Dezembro 2015, n. 101, p. 21-23.

[4] Idem, p. 22.

[5] Idem, ibidem.

[6] AGENDA Brasil (2015). http://bit.ly/1Jcow44, consultado em 18/08/2015)

[7] Discutimos a repressão policial em junho de 2013 em CALIL, Gilberto. “Embates e Disputas em torno das Jornadas de Junho”. Projeto História, São Paulo, n. 47, Ago. 2013, p. 377-403; e em CALIL (2014), op. cit.

[8] AMORIM, Paulo Henrique. “PiG enfiou o Passe Livre no Bolso”. http://bit.ly/1Tv1ACE , consultado em 19/08/2015.

[9] PEIXOTO, Catarina. Aécio, Bolsonaro, Feliciano: é este o legado de Junho? Carta Maior, 6.10.2014. http://bit.ly/1q9lqEq. Consultado em20/08/2015.

[10] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Volume 3: Maquiavel. Notas sobre o Estado e a Política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

[11] CALIL, Gilberto. Decifra-me ou te devoro: a grande mídia e as manifestações. Blog Convergência, 20/06/2013, http://blogconvergencia.org/?p=1546, consultado em 21/08/2015.

[12] Ver a respeito o vídeo Registros de um Massacre: http://bit.ly/1WcurlI

[13] Ver a respeito COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital: O transformismo dos grupos dirigentes do PT (1978-1998). São Paulo / Feira de Santana: Xamã / UEFS, 2012.

[14] Um exemplo bastante expressivo é o sítio eletrônico Mídia Sem Máscaras, comandado por Olavo de Carvalho, cujas conexões políticas e empresariais são elucidadas em PATSCHIKI, Lucas. Os litores da nossa burguesia: o Mídia Sem Máscara em atuação partidária (2002-2011). Dissertação de Mestrado. Marechal Cândido Rondon: UNIOESTE, 2012.

[15] BATISTA, Renata. Para Firjan, impeachment gera tumulto e prejudica a economia. Valor Econômico, 3 dez. 2015. Disponível em http://bit.ly/1PN5Z7q. Consultado em 04/01/2015.

[16] FRIEDLANDER, David. Não há motivos para tirar Dilma do cargo, diz presidente do Itaú-Unibanco. Folha de S. Paulo, 23 ago. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1hBgtYY, Consultado em 04/01/2015.

[17] http://bit.ly/1jKTsD9, consultado em 04/01/2015.

[18] DIAS, Edmundo Fernandes. Revolução passiva e modo de vida: Ensaios sobre as classes subalternas, o capitalismo e a hegemonia. São Paulo: José Luís e Rosa Sundermann, 2012. p. 154.

[19] Idem, p. 117.

[20] “Para conseguir passe livre em SP ‘é melhor eleger um mágico’, diz Haddad”. G1, 21/01/2016. http://glo.bo/1SHhrSR, acessado em 27/01/2016.

[21] DIAS, op. cit., p. 129.

[22] “Lula: ‘não é hora de discutir crise, mas saídas para a crise’”. Instituto Lula, 21.01.2016. http://bit.ly/1QToIZJ, consultado em 24/01/2016.

[23] DIAS, op. cit., p. 153.

[24] Idem, p. 326.