Ilustração de Amalyn Malix
Ilustração de Amalyn Malix

Reinventar a esquerda é reorganizá-la

Alvaro Bianchi

Não são tempos fáceis para a esquerda brasileira. Uma ampla reorganização está no horizonte. Grandes partidos estão à beira do precipício; outros decompõem-se a olhos vistos; os punhos se fecham nos debates internos, os dentes rangem; correntes fraturam-se, reagrupam-se, reorganizam-se; movimentos surgem à margem das organizações políticas; a angústia dos velhos ativistas encontra a esperança dos novos; ideias surgem e certezas lutam desesperadamente para não desaparecer; a imaginação combate a repetição; a inovação desafia a conservação.

A imagem que pode ser vista dessa reorganização é poliédrica. Dependendo do ponto de vista a figura que se mostra é diferente. Mas não adianta fixar-se muito num ponto porque a imagem se move, revelando sempre algo diferente sem que possamos ainda imaginar o todo. Essa reorganização complexa e multifacetada tem, entretanto, uma unidade; expressa um mesmo processo histórico. Desigual e combinado, é claro. A totalidade está ai, esperando para ser apreendida e exigindo dos interpretes aquele misto de paciência e ousadia que caracteriza a análise política.

Se o momento é de reorganização ele é, também, de desafios, os quais precisam ser enfrentados de maneira corajosa e criativa. Um ciclo da política de esquerda se encerra. Nesse ciclo predominaram o sindicalismo corporativo e o possibilismo parlamentar, os quais se expressaram de maneira ímpar no Partido dos Trabalhadores. Hoje, essas formas revelam seu esgotamento. A esquerda encontra-se subalternizada, prisioneira da pequena política, na qual tudo se resume às sedes dos sindicatos e aos gabinetes palacianos. Romper com esse limites significa desenvolver uma política de emancipação, a qual só terá lugar se a esquerda encontrar sua vocação estratégica.

Para reencontrar a estratégia a esquerda precisa abandonar a pequena política, livrar-se dos dogmas e dos messias, das práticas usuais, de sua novilíngua, e, principalmente, de sua autocondescendência. Uma autorreforma intelectual e moral está na ordem do dia. A grande política, aquela que tem por objetivo a fundação de nuovi ordini, exige iniciativa. A Fortuna ajuda, mas sem a virtù ela nada cria de duradouro. A grande política não é para espíritos acomodados. Já alertava Niccolò Machiavelli que fundar novos estados é tão perigoso como navegar mares desconhecidos. Pois é hora, então, de lançar as embarcações da esquerda ao mar.

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Contornando a costa conhecida, antes de enfrentar o mar aberto, é de se esperar que a reorganização da esquerda detenha-se primeiramente para acertar as contas com as formas organizativas precedentes. A reinvenção da esquerda não pode fugir de um doloroso balanço das configurações partidárias anteriores. É um tanto óbvio que elas fracassaram. Apenas pessoas agarradas aos aparelhos políticos e sindicais recusam-se a admitir isso. Elas têm suas razões, as quais são mais prosaicas do que gostariam de admitir. Mas quem não nega a crise tem razão em se questionar: Qual é a melhor forma de organizar os ativistas no interior de um partido? Como impedir o funcionamento da “lei de ferro da oligarquia” e o poder absoluto dos chefes das máquinas?

As formas precedentes precisam ser revistas. Concebido burocraticamente, o centralismo é o meio pelo qual os chefes controlam os correligionários. No altar da ordem partidária a iniciativa militante é sacrificada, a imaginação domesticada, os núcleos esvaziados de poder efetivo, as discussões ritualizadas. “Tudo se discute, tudo se vota”, bradam os chefes. Tudo se discute, mas só eles escrevem as resoluções; tudo se vota, mas apenas eles decidem. A iniciativa se resume, como na velha anedota soviética, “à busca da melhor maneira de cumprir uma ordem”.

O autonomismo, quando enquadrado na forma partido, não parece ser uma solução para esses problemas. Ele garante a plena liberdade dos chefes, daqueles que têm em mãos os recursos materiais necessários para executar suas vontades. Em contrapartida, oferece à militância de base aquilo que não pode usufruir, subordinando-a inapelavelmente à ambição de chefes. Quando o poder político e econômico distribui-se de maneira desigual, a autonomia dos mais fortes implica na heteronomia dos mais fracos. Se chefes tudo podem, a vontade da maioria, princípio fundamental da democracia, deixa de existir.

A solução parece estar em assumir a tensão essencial entre centralização e autonomia; convergir em direção a uma forma partido que seja capaz de organizar a imaginação dos militantes, controlar os chefes e garantir a expressão da vontade da maioria. Para isso pode ser importante conciliar a autonomia das organizações de base com a centralização dos órgãos dirigentes; estabelecer mecanismos democráticos de participação da militância nas deliberações cotidianas; diminuir drasticamente o número de profissionais partidários e sindicais; estabelecer a rotação dos cargos de direção e das liberações.

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Mas para continuar sua viagem, as naus da esquerda deverão atirar-se ao desconhecido. Um novo movimento social está emergindo e nele desconfia-se fortemente da forma partido. Nos últimos anos as manifestações mais criativas e as lutas mais intensas foram promovidas por movimentos que se projetaram à margem dos partidos de esquerda ou nos quais esses partidos tiveram apenas uma pequena participação. O recado é claro: os jovens desconfiam dos velhos chefes partidários e de seus emissários. E eles tem boas razões para isso.

A relação que os partidos estabeleceram com os movimentos nas últimas décadas é análoga àquela que os chefes estabeleceram com suas bases no interior dos partidos. Em vez de vivificar-se com as energias espontâneas dos movimentos sociais, as direções partidárias procuraram enquadrá-los, controlá-los, subordiná-los. Transformados em correias de transmissão de decisões que eram tomadas externamente, os movimentos perderam muito de seu potencial emancipador. As experiências efetivas de organização da resistência em escala local, as vivências reais das situações de exploração e opressão, as vitórias obtidas pelas pessoas comuns, as derrotas sofridas por aquelas que lutaram, nada disso importa se a linha é justa. Os fins passaram a justificar os meios. Quaisquer meios.

Dirigir um movimento social não é dominá-lo. Movimentos só existem quando são plurais, quando congregam diferentes visões de mundo, quando a diversidade encontra neles seu lugar. Eles se organizam a partir de mínimos denominadores comuns, daquilo que une as forças vivas que se encontram neles. Imprimir democraticamente um sentido comum a essas forças é o que caracteriza o ato de dirigir. Impor-lhes autoritariamente um rumo é o que marca a dominação. Quando a lógica amigo-inimigo que orienta a luta partidária entre forças sociais antagônicas é deslocada para o interior dos movimentos sociais, só a dominação pode ter lugar.

Também aqui a solução parece estar em assumir e tornar consciente a tensa relação entre direção e espontaneidade; convergir em direção a uma forma movimento que seja capaz de organizar a diversidade dos militantes, preservar a energia da espontaneidade e permitir que as diferenças se expressem democraticamente nas decisões finais. Conciliar a direção consciente com a espontaneidade dos movimentos; substituir as máquinas profissionais pelo ativismo voluntário; criar formas democráticas de participação e representação; estas podem ser algumas das medidas para estabelecer uma nova prática politica e recolocar em novas bases a relação partido-movimento.

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São tempos difíceis, é verdade. E para os espíritos inquietos os desafios são enormes. Mais confortável é a modorra burocrática, o patriotismo partidário, a repetição dos manuais, a submissão aos chefes e o autoelogio. A pequena política é muito aconchegante. Mas isso se sabe que não dá certo e é por essa razão que a reorganização desponta no horizonte. Embora ainda seja cedo para imaginar seus contornos precisos, já é possível saber que é inevitável. E sua inevitabilidade é uma derrota dos chefes partidários, a primeira vitória do futuro.