Colagem de Singh Bean
Colagem de Singh Bean

“Relações livres”

Rafael do Nascimento Cesar

A busca por relações afetivas e sexuais “livres” é uma inquietação contemporânea e, acima de tudo, excitante. À primeira vista, ela lembra um pouco uma versão repaginada das demandas por “amor livre”, que levaram a geração da contracultura, nas décadas de 1960 e 70, a criticar moralidades estabelecidas e noções que julgava ultrapassadas, como família, casamento, sexo e mesmo o amor. Mas o interesse por “relações livres” tal como ele se configura atualmente, unindo e, inevitavelmente, desunindo pessoas, parece ir além de um comportamento reativo a uma ordem repressora encarnada nos pais, nos padres e nos políticos – ainda que essas figuras perseverem, até hoje, em seus poderes e em seus pudores. Ele nos faz indagar sobre a própria ideia de liberdade imaginada por nós e posta em jogo nessa dinâmica, devolvendo-nos outra inquietação bastante potente: do que são feitas nossas relações?

Na última década, o Brasil assistiu à ascensão maciça de diversos movimentos sociais, bem como à pervasividade de seus discursos, sobretudo nas camadas médias e escolarizadas da sociedade. O trabalho cotidiano de coletivos feministas e da comunidade LGBT foi responsável pelo surgimento de novos sujeitos políticos e, com eles, de novas perguntas sobre a natureza, os usos e as potencialidades da sexualidade humana. E, principalmente, a indignação acerca do fato de que certos tipos de vínculo interpessoal despertam comportamentos violentos enquanto outros são calorosamente celebrados estimulou em diversas pessoas uma disposição crítica militante frente à aparente “naturalidade” tanto da violência quanto da celebração que cercavam tais vínculos. No contínuo deslocamento das normas e dos valores que informam a perspectiva social hegemônica, ou “normal”, a monogamia vem sendo lugar de grande controvérsia acerca de seus limites e perigos, sendo o pior deles a restrição a uma pretensa liberdade.

A Rede Relações Livres, ou RLi, emerge nesse debate como o porta-voz típico de um jeito de ser assumidamente antimonogâmico. Criada em 2006 na cidade de Porto Alegre (RS), a RLi é uma rede social – “e prática”, segundo afirmam seus membros – que vê no relacionamento exclusivo entre duas pessoas um “padrão moral que desincentiva ou restringe nossas possibilidades de parceiro sexual/afetivo”[1]. Na visão da RLi, por estar localizada no âmbito da moral e não do instinto, a monogamia seria resultado de práticas culturais específicas, afastando-se, assim, de alguma espécie de natureza humana. Ela seria antes um valor, e não um fato. Portanto, saber por que as relações monogâmicas se tornaram “corretas”, enquanto outras foram consideradas “imorais”, “libertinas” e mesmo “pecaminosas”, é uma questão a ser feita à história e não à biologia.

História, como sabemos, é terreno de mudança. Acreditando que, por ser histórica, a monogamia carrega um quê de arbitrariedade, a RLi entende que é preciso enfrentar esse “padrão moral” inadequado para que se possa, enfim, “viver em completa liberdade”. De um ponto de vista pragmático, essa proposta traria a vantagem de dissolver a repressão imposta pela monogamia e lançar homens e mulheres na busca pelo prazer sexual e afetivo. De fato, imaginar as barreiras que nos obrigam a uma vida sexual unidirecional sendo transpostas por um simples ato de vontade pode ser tão estimulante quanto o próprio sexo. Além disso, posicionar-se contra a ideia da sexualidade do outro enquanto posse de alguém, pode ser tomado como um gesto a favor de um mundo povoado por sujeitos igualmente desejantes. Em suma, um mundo de “sexualidades para si” e não “para o outro”.

No entanto, de um ponto de vista ideológico, a noção de “relações livres” aproxima-se de um tipo de humanismo cada vez mais retórico e menos eloquente. Ao compreender “a liberdade afetiva e a liberdade sexual como direitos básicos do ser humano”, a RLi promove um universalismo um tanto desmazelado. Operando com base numa pequena tautologia (“relações livres são aquelas que respeitam a liberdade”), ela age como se quisesse fazer uma emenda à Declaração Universal dos Direitos do Homem sob a ótica do sexo e do prazer.

O desmazelo estaria, sobretudo, na assunção não problemática do que significa a “humanidade”, em termos históricos, e do que significa ser humano em termos políticos. O chão comum de igualdade entre pessoas possuidoras de direitos, generalizante o suficiente para ser considerado anterior à própria existência concreta delas, corresponde a um lugar e a um momento bem precisos na história moderna. A capacidade de homens brancos europeus e burgueses do século XVIII emitirem juízos universais sobre a humanidade não advinha de seu altruísmo e benevolência frente às outras formas de manifestação humanas (outras línguas, outras cores, outras filosofias); tinha a ver, ao contrário, com relações de dominação e exploração, intra e internacionais, que faziam da Europa o polo irradiador de suas próprias ideias. “Universal” e “Humanidade” eram duas delas.

O direito à sexualidade e à afetividade apareceria, então, como uma derivação de um outro direito, mais elementar, desse sujeito universal dissimuladamente marcado: a liberdade. Desimpedido de travar relações de qualquer tipo com quem quer que seja, o homem livre observaria apenas sua condição de indivíduo, respeitando seus próprios limites e os dos outros. Tanto o Estado quanto a sociedade civil se organizariam respeitando esse princípio. O problema por trás disso é que a humanidade, essa abstração europeia pautada na igualdade e na liberdade universais, sempre teve seus descontentes – pessoas que, por motivos históricos e políticos, viram-se distantes dos privilégios de ser humano. Na verdade, ela precisou desses descontentes para funcionar de acordo com a dominação e a exploração dos mais humanos sobre os menos humanos.

Sub-repticiamente, o conceito liberal de liberdade infiltra-se nas “relações livres” que homens e mulheres perseguem hoje em dia. Notadamente, eles e elas entendem-se como indivíduos que travam relações de um tipo muito específico com outros indivíduos de forma desimpedida. Essas relações podem ser vistas como “autônomas” – termo utilizado pela RLi – porque se baseiam não na interação entre “partes” complementares, mas “todos” estáveis e plenamente cientes de seus limites. São, ainda, relações autônomas porque seus termos são negociados com base em critérios pré-definidos em que não há uma divisão clara nem desejável entre quem “dá” e quem “recebe” sexo e afeto. Seria, idealmente, uma situação de “ganha-ganha”.

Infelizmente, o mesmo equívoco que acomete a ideia de liberdade no seu sentido liberal-burguês (pessoas abstratamente iguais, mas concretamente diferentes), também está presente naquilo que entendemos por sexo e afeto. De saída, devemos atribuir a essas noções o mesmo caráter cultural e histórico que a RLi atribui à monogamia. Fazer sexo e dar afeto, por mais que pareçam “universais”, são ações passíveis de assumir significados distintos em contextos distintos. Mas a ponderação mais importante a ser feita é que fazer sexo e dar afeto são ações realizadas por pessoas diferentes (e não penso aqui somente num arranjo heterossexual). Ao crermos na busca de homens e mulheres por sexo e afeto em “relações livres” enquanto o cumprimento de um direito básico do ser humano, passamos batido por diferenças significativas quanto às possibilidades dessas pessoas compartilharem as mesmas realidades e condições de “ser” e desejar. Evidentemente, há diferenças que se tornaram mais visíveis que outras graças à atuação de movimentos sociais organizados; outras diferenças permanecem invisíveis ou mesmo menosprezadas. Nesse sentido, duvidar que homens e mulheres pratiquem a “liberdade” em suas relações da mesma maneira não é apenas saudável, mas fundamental na construção de um mundo com “condições de ser e desejar” mais equânimes (o que não quer dizer, em absoluto, pessoais mais iguais).

Contudo, as diferenças “invisíveis”, aquelas percebidas no dia-a-dia, aos poucos e intimamente, não devem ser subsumidas às visíveis. Um pensamento politizado e “empoderado”, para usar um termo em voga, não deve hierarquizá-las nem presumir que as primeiras, quando fogem do seu lugar de invisibilidade, “despolitizam” as segundas. Ao contrário, devemos atentar para a interconexão presente nelas e que as constitui. Se eu sou diferente de você, posso sê-lo de muitas formas. Não apenas em termos de classe social, gênero, raça, orientação sexual ou religião, mas também pela maneira como nossa experiência neste mundo arranjou essas diferenças em nossas trajetórias particulares. O resultado disso é que tomamos algumas diferenças como mais “definidoras” de nosso “ser” que outras, ou ainda, aprendemos a dar maior relevância para algumas diferenças em detrimento de outras. E tudo bem.

Se diferenças “visíveis” e “invisíveis” não se opõem mas se constituem, então por que acreditamos que a monogamia restringe, de um modo geral, nossa liberdade? Otimistamente falando, se qualquer relação, monogâmica ou não, é baseada em afeto, sexo e intimidade – coisas que não existem de maneira abstrata, mas que são praticadas por pessoas concretas – o que nos impossibilitaria de travar relações monogâmicas e livres?

Curiosamente, a liberdade a que se aspira com a não monogamia parece sempre estar fora da relação. E o sexo é tanto mais prazeroso e “leve” quanto menos estiver restrito a um parceiro ou parceira. Na caricatura elaborada pela RLi, esse arranjo relacional comporta-se como algo totalmente fixo e negativo. Definido como “interdição” sexual, ele não contemplaria nenhuma maneira de praticá-lo que não da “pior” possível. Por que, então, as “relações livres” parecem tão mais “flexíveis” aos nossos olhos? Talvez porque justamente o que se procura só possa ser encontrado no espaço entre uma relação e outra: a reafirmação daquele “todo” estável chamado indivíduo, que parece se fragmentar a cada novo relacionamento íntimo em que diferenças “visíveis” e “invisíveis” atritam-se umas com as outras.

Como uma pessoa repleta de diferenças, eu – homem, brasileiro, de classe média e branco – admitia que a busca por “relações livres” era uma empreitada plausível por compartilhar dos princípios explicitados pela RLi, mesmo sem conhecê-los. A ideia de minha sexualidade pertencer a outra pessoa, ou a dela pertencer a mim, recolocava um sentimento de propriedade o qual eu recusava com veemência. Sexo e afeto eram para mim práticas interpessoais não definidoras do meu “ser”, e a monogamia – mais um modo de praticar intimidade – era vista por mim como um desperdício de possibilidades de prazer. Contudo, minha atenção estava voltada exclusivamente para os tipos de arranjo relacionais, e não para o seu caráter particular e processual. Eu acreditava, em suma, que era possível aceder à liberdade nas relações apenas aumentando o seu número.

Buscar a liberdade independentemente do outro e fora do cotidiano da relação faz todo sentido quando os termos “liberdade” e “indivíduo” permanecem intocados. Nesse caso, a monogamia é vista como opressora porque nos lembra de um tipo de vínculo que, por ser exclusivo, é pernicioso. Porém, a crítica aos relacionamentos monogâmicos recai menos sobre seu caráter exclusivo do que ao próprio vínculo. E isso ocorre à medida que nos percebemos “parte” de uma relação e, consequentemente, nos sentimos roubados de nosso “todo”.

Creio que o primeiro passo para construirmos relações afetivo-sexuais menos opressoras seja deixar de lado termos antagônicos e arranjos abstratos. Não existe nada a nos garantir, de antemão, o sucesso ou o fracasso de um relacionamento apenas analisando a forma de sua “política externa”. Por serem, acima de tudo, praticados, eles implicam em negociações contínuas entre pessoas que se consideram, a um só tempo, partes e todos de algo decidido coletivamente. Isto é, em minha opinião, autonomia. Olhar as coisas sob esse ponto de vista permite-nos perceber um relacionamento como uma correlação de forças nunca perfeitamente equilibradas (o que pode parecer desencantador). Tal desiquilíbrio surge de nossas diferenças e não é, necessariamente, um sinal de que as coisas vão mal. Essa perspectiva não pretende associar o amor à guerra, muito menos fazê-lo prisioneiro da razão. Apenas nos mostra que não precisamos procurar a “liberdade” fora das relações nem preservar nossa “individualidade” a qualquer custo. Devemos, ao contrário, buscar autonomia na relação e através dela. Dessa forma, a fixidez e a abstração de um arranjo relacional, seja ele “aberto” ou “fechado”, diluem-se, literalmente, na prática.

Obviamente não há saída fácil para os impasses colocados diante de nós diariamente pelas relações. Em um mundo que nos convida a sermos autossuficientes e “livres” em todas as dimensões da vida, reconhecer-se vinculado a alguém chega a parecer um entrave ao nosso desenvolvimento. Talvez por recusar esse projeto da “autossuficiência” individual eu suspeite que possamos resolver nossas inseguranças adotando um modelo de “relações livres” – como proposto pela RLi –, da mesma forma que suspeito que a monogamia ofereça o acolhimento necessário às diferenças e desigualdades as quais damos vida. Generalizações como essas são perigosas e nos desviam da busca por autonomia. Algo só alcançado relacionalmente, seja como for.

Nota

[1] Acesso: http://relacoeslivres.com.br/site/que-somos/